“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

O novo homem vai ser o sal da terra

O novo homem contém toda a minha filosofia a respeito da vida e de como ela deveria ser vivida completamente, intensamente, totalmente, de tal modo que nós não apenas nos arrastemos do berço ao túmulo, mas possamos fazer de cada momento uma tremenda alegria — uma canção, uma dança, uma celebração.

O antigo homem, que existiu até agora, está em seu leito de morte. Ele tem sofrido muito: ele precisa de toda a nossa compaixão. Ele tem sido condicionado para viver em miséria, em sofrimento, em auto-tortura. A ele foram dadas promessas: notas promissórias de grandes recompensas para depois da morte — quanto mais ele sofre, tortura a si mesmo, é masoquista, destrói sua dignidade, mais ele será recompensado.

Esse era um conceito muito conveniente para o sistema, porque o homem que está pronto para sofrer pode ser facilmente escravizado. O homem que está pronto para sacrificar o hoje por um amanhã desconhecido, já declarou sua inclinação para ser escravizado. O futuro se torna sua escravidão. E por milhares de anos, o homem tem vivido somente em esperanças, em imaginações, em sonhos, em utopias, mas não em realidade. E não existe outra vida do que a vida real, do que a vida que existe neste momento.

O novo homem é uma rebelião, uma revolta, uma revolução contra todos os condicionamentos que podem escravizá-lo, oprimi-lo, explorá-lo — apenas dando a ele esperanças de um céu fictício, assustando-o, chantageando-o com outro fenômeno fictício: o inferno. Todos velhos meios de vida estavam estranhamente em concordância em um ponto: que o homem é um animal de sacrifício aos pés de um Deus fictício.

Houve um tempo em que os homens eram realmente sacrificados vivos, abatidos diante de estátuas de pedra. Embora ninguém ouse fazer tal coisa hoje em dia, psicologicamente a situação não mudou. O homem ainda é sacrificado seja em nome do comunismo, em nome do capitalismo, ou em nome da raça ariana, em nome do islamismo, em nome do cristianismo, ou em nome do hinduísmo. Em lugar de deuses de pedra, agora existem apenas palavras falsas, sem sentido; mas o homem tem aceito viver assim pela simples razão de que toda criança descobre-se nascida numa multidão que já está condicionada. Os professores estão condicionados, os pais estão condicionados, os vizinhos estão condicionados; e as crianças são desamparadas — elas não podem conceber nenhuma outra alternativa a não ser fazer parte da multidão.

O velho homem era uma multidão, um dente da engrenagem; o velho homem não tinha individualidade. O sistema tomou todo o cuidado de destruir o auto-respeito, a dignidade, a alegria e a sua gratidão por ser um ser humano, por você ser a mais elevada criação no longo, longo caminho da evolução — de que você é a glória coroada.

Essas ideias eram perigosas. Se um homem tem algum respeito por si mesmo, você não pode  reduzi-lo à escravidão; você não pode destruir a sua alma e fazê-lo um robô. Até agora, o homem somente tem fingido viver — a sua vida tem sido somente hipotética.

O novo homem é uma revolta contra todo o passado e uma declaração de que iremos criar uma nova forma de vida, novos valores de vida, que estamos destinados a novos objetivos... longínquas estrelas são os nossos alvos. E não iremos permitir que ninguém nos sacrifique por nenhum nome bonito. Nós iremos viver as nossas vidas, não de acordo com ideais, mas de acordo com os nossos próprios desejos, nossas próprias apaixonadas intuições. E vamos viver momento a momento; não seremos mais enganados pelo amanhã e pelas promessas do amanhã.

O novo homem contém todo o futuro da humanidade. O velho homem é obrigado a morrer. Ele tem preparado sua própria sepultura — ele a está escavando a cada momento — mais e mais funda.[...] Armas nucleares e todas as medidas de destruição são uma preparação para o suicídio global. O velho homem decidiu morrer. Depende das pessoas inteligentes do mundo desconectar-se do velho homem, antes que ele destrua também a vocês — desconectar-se das velhas tradições, das velhas religiões, das velhas nações, das velhas ideologias.

Pela primeira vez, o velho não é mais valioso. O velho é o cadáver apodrecido de um passado repugnante. É uma grande responsabilidade para a nova geração, para os jovens, renunciar ao passado. No passado, as religiões costumavam ensinar as pessoas a renunciar ao mundo. Eu ensino vocês a amar o mundo, de tal modo que ele possa ser salvo. Renunciar ao passado totalmente e irrevogavelmente é interrompê-lo.

O novo homem não é um aperfeiçoamento do velho; ele não é um fenômeno contínuo, um refinamento. O novo homem é a declaração da morte do velho e o nascimento de um homem absolutamente novo — sem condicionamentos, sem nenhuma nação, sem nenhuma religião, sem nenhum discriminação entre homens e mulheres, pretos e brancos, Este ou Oeste, Norte ou Sul.

O novo homem é um manifesto de uma só humanidade; é a maior revolução que o mundo já viu.

Você já ouviu a respeito do milagre de Moisés separando o mar em duas partes. Aquele milagre não é nada. Eu quero separar a humanidade, todo o oceano da humanidade, dividindo-a em duas partes: a velha e a nova.

O novo amará esta vida, este mundo. O novo aprenderá a arte de viver, de amar e morrer. O novo homem não se importará com o céu e o inferno, o pecado e a virtude. O novo homem se importará em aumentar as alegrias da vida, os prazeres da vida — mais flores, mais beleza, mais humanidade, mais compaixão. E nós temos a capacidade e o potencial de fazer deste planeta um paraíso, e fazer deste momento o maior êxtase de nossas vidas.

Deixe o velho morrer. Deixe o velho ser liderado por pessoas como Ronald Reagan. Deixe os cegos seguirem o cego. Mas todos aqueles que tiverem um espírito mais jovem, e quando eu digo "um espírito mais jovem", isso inclui mesmo aquelas pessoas velhas de idade mas que não são velhas em espírito; e isto não inclui mesmos os jovens de idade mas que são velhos em espírito. A espiritualidade jovem vai constituir o novo homem.

O novo homem não é apenas uma esperança. Você já está grávido dele.

Meu trabalho é exatamente fazer você consciente de que o novo homem já chegou. Meu trabalho é ajudar você a reconhecê-lo e a respeitá-lo...

O novo homem não é alguém vindo de outro planeta. O novo homem é você em seu frescor, nos silêncios do seu coração, nas profundezas da sua meditação, nos seus lindos espaços amorosos, nas suas canções de alegria, nas suas danças de êxtase, no seu amor por esta terra. Nenhuma religião ensina você a amar esta Terra — e esta Terra é a sua mãe, e essas árvores são seus irmãos, e essas estrelas são seus amigos.

A medida em que você vê o homem antido movendo-se mais e mais em direção ao cemitério, tornar-se-á mais fácil para você renunciar a ele e a seu modo de vida, às suas igrejas, às suas sinagogas, aos seus templos, aos seus deuses, às suas sagradas escrituras. A sua sagrada escritura é toda a sua vida e ninguém mais pode escrevê-la. — você mesmo tem que escreve-la. Você vem como um livro vazio e depende de você o que faz dele. Só nascimento não é vida; é apenas uma oportunidade dada a você de criar a vida — para criar uma vida tão linda, tão gloriosa, tão amorosa quanto você possa imaginar, quanto você possa sonhar.

Os sonhos do novo homem e sua realidade serão uma só, porque seus sonhos estão enraizados aqui na Terra. Eles trarão flores e frutos. Eles não serão somente sonhos — eles farão do mundo uma terra de sonho.

Veja a realidade: o homem nunca se defrontou com uma responsabilidade maior antes; a responsabilidade de renunciar a todo o passado, de apagá-lo do seu ser.

Seja Adão e Eva novamente e deixe que esta Terra seja o Jardim do Éden; e então veremos quem é Deus, quem tem coragem de expulsar o homem para fora do Jardim do Éden! Esse será o nosso jardim e, se Deus quiser estar em nosso jardim, Ele terá que bater em nossas portas.

Esta Terra pode ser um esplendor, uma mágica, um milagre. Nossas mãos têm este toque — só que nunca tentamos isto. O homem nunca deu chance a seu próprio potencial de crescer, de florescer, de lhe trazer preenchimento, contentamento, para inundar a Terra de flores, de encher toda a Terra com fragrância. Para mim, essa fragrância é devoção.

O novo homem não adorará a Deus como o criador do mundo; o novo homem criará Deus como uma fragrância, como beleza, como amor, como verdade. Até agora, Deus tem sido o criador; para o novo homem, o homem será o criador e Deus vai ser aquele que é criado. Nós podemos criar divindade — isto está em nossas mãos.

É por isso que eu digo que o novo homem é a maior revolução que já aconteceu no mundo. E não há jeito de evitar isso, porque o velho homem está determinado a morrer, determinado a cometer suicídio. Deixe que ele morra. Todos aqueles que têm um espírito rebelde deveriam apenas se desconectar, e eles serão os salvadores, eles criarão uma nova Arca de Noé, eles serão o início de um novo mundo. E por termos conhecido o velho mundo e as suas misérias, poderemos evitar todas essas misérias; poderemos evitar todos esses ciúmes, todas essas raivas, todas essas guerras, todas essas tendências destrutivas.

Nós poderemos passar através de uma total transformação: nós poderemos criar pessoas inocentes, pessoas amorosas, pessoas que respiram em liberdade, pessoas que ajudam umas às outras a serem livres.

Nós poderemos dar condições para todos de serem dignificados, serem respeitados — não de acordo com alguns ideais ou valores, mas de acordo com o que eles são.

O novo homem vai ser o sal da terra.

Osho, 27 de maio de 1987 - O novo homem: a única esperança para o futuro

Existe tédio após o contato com Krishnamurti


Deixando de alimentar o personagem social


Aprofundando na questão do Deserto do Real



Existirá algo jamais tocado pelo pensamento humano?

Krishnamurti: Bem, a pergunta então é: Existirá algo situado além deste caos, algo que não tenha sido jamais tocado pelo pensamento humano, pela mente?
David Bhm: Sim, é um ponto difícil; não tocado pela mente humana, mas a mente poderia ir além do pensamento.
K: Isso é o que eu quero descobrir.
DB: Então o que o senhor quer dizer - por mente o senhor entende apenas o pensamento, o sentimento, o desejo, a vontade, ou muito mais?

K: Não, para nós, até agora, a mente humana, é isto.
DB: A mente agora é considerada como algo limitado.
K: Enquanto a mente humana permanecer presa a isso, continuará limitada.
DB: Sim, mas a mente humana tem potencial.
K: Um grande potencial.
DB: O que no momento ela não percebe, mantendo-se presa ao pensamento, ao sentimento, ao desejo, à vontade, etc.
K: Concordo.
DB: Podemos então afirmar que tudo o que se encontra além disso não é tocado por essa espécie limitada de mente. Agora, o que queremos dizer quando falamos na mente que está além desse limite?
K: Antes de mais nada, senhor, existe essa mente?
DB: Sim, esta é a primeira questão.
K: Existirá uma mente que, de uma forma real, não de uma forma teórica ou romântica, e todas as tolices semelhantes, tenha mesmo dito: "Eu passei por tudo isto?" 
DB: O senhor quer dizer, por todo este material limitado.
K: Sim. E ter passado por isso quer dizer ter posto um fim a isso. Existe uma mente assim? Ou será que, por que ela pensa que acabou com isso, ela cria a ilusão de que há algo mais? Não vou aceitar isso. Como um ser humano, uma pessoa, ou " X ", afirma: "Compreendi isso, enxerguei a limitação que há nisso, vivi isso, e cheguei ao fim de tudo isso. " E essa mente, tendo chegado ao fim disso, não é mais a mente limitada. E haverá uma mente que seja totalmente ilimitada?
DB: Sim, e isso levanta outra questão: como pode o cérebro ser capaz de entrar em contato com uma mente assim? Qual a relação entre essa mente ilimitada e o cérebro? 
K: Vou chegar lá. Em primeiro lugar, quero deixar claro este ponto - será bastante interessante, se o examinarmos. Essa mente, o seu todo, toda a natureza e estrutura da mente, inclusive as emoções, o cérebro, as reações, as resposta físicas, têm vivido em um turbilhão, no caos, na solidão, e compreendeu, fez uma grande descoberta acerca de tudo isso. E o fato de ter feito essa grande descoberta iluminou o campo. Essa mente não é mais aquela mente.
DB: Sim: não é mais a mente original e limitada com que começou.
K: Sim, não é mais a mente limitada, a mente danificada. Vamos usar a palavra danificada DB: Mente danificada, e também cérebro danificado - o trabalho da mente danificou o cérebro.
K: Sim, perfeito. Mente danificada significa emoções danificadas, cérebro danificado.
DB: As próprias células não estão em perfeita ordem.
K: Correto. Mas quando ocorre a descoberta e, portanto, a ordem, esse dano se desfaz. Não sei se concorda.
DB: Sim, pode-se ver, pelo raciocínio, que isto é bastante possível, porque se pode afirmar que o dano é causado por pensamentos e sentimentos desordenados que sobreexcitam as células e as desintegram. E agora, com a descoberta, isso cessa e tem início um novo processo.
K: Sim, é como uma pessoa que caminha durante cinquenta anos numa direção e que, de repente, descobre que aquela não é a direção certa, e todo o cérebro muda.
DB: Ele muda na essência e, então, a estrutura errada é desmanchada e curada. Como o senhor disse, isso pode levar tempo.
K: É verdade.
DB: Mas a descoberta...
K:... é o fator que irá mudá-lo.
DB: Sim, e a descoberta não leva tempo, mas indica que houve uma mudança na origem de todo o processo.
K: É verdade. Aquela mente, a mente limitada, com toda a sua consciência e conteúdo, afirma que esse papel terminou. Mas, se tiver mesmo ocorrido que aquela mente limitada, pelo fato de ter feito uma descoberta acerca da limitação, ultrapassou esses limites, não será, na verdade, este acontecimento algo de incrível poder revolucionário? Concorda? Logo, não é mais a mente humana. Desculpe-me por essa palavra.
DB: Bem, acho que temos de esclarecer isso: o que entendemos por mente humana.
K: A mente humana com a sua consciência limitada.
DB: Sim, consciência limitada que é condicionada, e não livre.
K: Isso terminou.
DB: Sim, de modo que tudo isso se passou com a consciência geral, isto é, não se restringe a indivíduos, mas ocorreu por toda parte.
K: Sim, é claro, não falo de um indivíduo; isso seria uma grande tolice.
DB: Sim, mas acredito que discutimos isso, que o indivíduo é o resultado da consciência geral, é mais um resultado em particular do que algo independente. O senhor sabe, essa é uma das dificuldades.
K: Sim, é uma das confusões.
DB: A confusão é que tomamos a mente individual como sendo a realidade concreta. Já discutimos antes a necessidade de considerar a mente geral como sendo a realidade da qual se forma a mente individual.
K: Sim, isso é muito claro.
DB: Mas agora o senhor declara que ultrapassamos até mesmo a mente geral; e o que significa isso?
K: Sim, ultrapassamos a mente geral e a particular.
DB: E a mente particular.
K: Bem, mas se alguém na verdade a tiver ultrapassado então, o que é a mente?
DB: Sim, e o que é a pessoa, o que é o ser humano? Certo?
K: O que é um ser humano? E qual é a relação entre essa mente, que não é feita pelo homem, e a mente feita pelo homem? Não sei se fui claro.
DB: Bem, já concordamos em chamar isso de mente universal, ou o senhor prefere não fazê-lo?
K: Não gosto da expressão mente universal; inúmeras pessoas já a utilizaram. Vamos usar palavras mais simples.
DB: Bem, é a mente que não foi feita pelo homem.
K: Acho que isso é mais simples; vamos manter assim, uma mente que não foi feita pelo homem.
DB: Nem individualmente nem em geral.
K: Geral ou individualmente, ela não é feita pelo homem. Mas, senhor, eu lhe pergunto, pode alguém na verdade observar, em profundidade, sem nenhum tipo de preconceito, ou algo parecido? Será que existe uma mente assim? Compreende o que estou tentando dizer?
DB: Sim, vejamos o que significa observar. Acho que temos aqui alguns problemas de linguagem, porque, veja, dizemos que é preciso observar, e coisas desse tipo, ao passo que...
K: Eu observo isto, eu observo.
DB: Quem observa? O senhor vê, este é um dos problemas que surgem.
K: Já abordamos isso. Não existe divisão na observação. Não existe o eu que observa; existe apenas a observação.
DB: A observação acontece.
K: Sim.
DB: O senhor diria que ela ocorre num cérebro particular, por exemplo, ou que um cérebro particular toma parte na observação?
K: Percebo a armadilha que há nisso. Não, senhor, ela não ocorre em um cérebro particular 
DB: Sim, mas parece que um cérebro particular pode responder.
K: É claro, mas não é o cérebro de Krishnamurti.
DBNão, não quero dizer isso. O que quero dizer com as palavras cérebro particular é que, devido às particularidades da localização de determinado ser humano no espaço e no tempo, ou qualquer que seja a sua forma, mesmo sem lhe dar um nome, podemos afirmar que ele se distingue de qualquer outro que pudesse estar ali.
K: Veja, senhor, vamos deixar bem claro este ponto. Vivemos em um mundo feito pelo homem; a mente foi feita pelo homem; nós somos o resultado de mentes feitas pelo homem, bem como nossos cérebros, com todas as suas respostas e tudo o mais.
DB: Bem, o cérebro, propriamente dito, não é feito pelo homem, mas foi condicionado, pelo condicionamento feito pelo homem.
K: Condicionado pelo homem; certo, é isto que quero dizer. Agora, pode esta mente descondicionar-se de forma tão completa que chega ao ponto de não ser mais feita pelo homem? Eis a questão - vamos mantê-la neste nível simples. Pode esta mente, mente feita pelo homem - tal como é agora - pode ela ir até este ponto, libertar-se por si mesma de si mesma, e de forma tão completa?
DB: Sim, é claro, trata-se de uma afirmação um tanto paradoxal.
K: Exato. Paradoxal, mas é real, é assim. Vamos começar de novo. É possível observar que a consciência da humanidade é o seu conteúdo. E seu conteúdo é todo ele de coisas feitas pelo homem - ansiedade, medo, e tudo o mais. E isto não é apenas particular; isso ocorre em geral. E, tendo feito uma descoberta acerca disso, ela se livrou desse conteúdo.
DB: Isso significa que, potencialmente, a consciência da humanidade sempre foi maior do que isso e que a descoberta permitiu que ela se liberasse disso. Foi esta a sua afirmação? 
K: Esta descoberta - eu não diria que é potencial.
DB: Bem, há uma certa dificuldade de linguagem. Se o senhor diz que o cérebro, ou a mente, fez uma descoberta acerca do seu próprio condicionamento, então o senhor praticamente afirma que ela se transformou, que não é mais a mesma.
K: Sim, eu afirmo isso; afirmo. A descoberta transforma a mente feita pelo homem.
DB: Certo. E então ela deixa de ser a mente feita pelo homem.
K: Não é mais a mente feita pelo homem. Fazer essa descoberta significa varrer todo o conteúdo da consciência. Correto? Não um pedaço de cada vez, mas a totalidade dele. E a descoberta não é resultado do esforço do homem.
DB: Sim; mas então surge outra questão: de onde vem essa descoberta?
K: Perfeito. De onde ela vem? Sim, do próprio cérebro, da própria mente.
DB: De qual: do cérebro ou da mente?
K: Da mente; refiro-me à totalidade dela. Espere um minuto, senhor. Vamos devagar - isto é muito interessante, mas vamos devagar. A consciência, geral e particular, é feita pelo homem. E, através da lógica e da razão, podemos ver as limitações. A mente, então, terá avançado muito. E, então, ela chega a um ponto em que diz " Tudo isto pode ser varrido de uma só vez, de um só golpe, com um movimento? " E esse movimento é a descoberta, o movimento da descoberta. Está ainda na mente. Mas não é mais fruto daquela consciência. Não sei se me faço entender.
DB: Sim. Então o senhor afirma que a mente tem a possibilidade, o potencial de ir além da consciência.
K: Sim.
DB: Mas nós, na verdade, não achamos isso importante.
K: É claro. Este tem de ser um papel do cérebro, um papel da mente.
DB: O cérebro, a mente pode fazer isso, mas em geral não o tem feito.
K: Sim. Mas agora, tendo feito isso, existirá uma mente que não seja feita pelo homem, que o homem não pode conceber, não pode criar, e que não é uma ilusão? Existe uma mente assim? Não sei se fui claro.
DB: Bem, acho que o que o senhor está dizendo é que, tendo-se libertado, a mente...
K: Do geral e do particular...
DB:... se libertou da estrutura geral e particular da consciência da humanidade, de seus limites, e a mente agora está muito maior. Agora o senhor diz que a mente levanta uma questão.
K: Sim, a mente levanta uma questão.
DB: Qual é?
K: Em primeiro lugar, estará essa mente livre da mente feita pelo homem? 
Eis a primeira questão.
DB: Isso pode ser uma ilusão.
K: Ilusão - é a isso que quero chegar; precisamos ser muito claros. Não, não se trata de uma ilusão, porque ela enxerga a mensuração como ilusão; ela conhece a natureza das ilusões e sabe que onde há desejo deve haver ilusões. E que as ilusões devem criar limitação, e assim por diante. Ela não só compreendeu; ela já ultrapassou isso.
DB: Ela se libertou do desejo.
K: Está livre do desejo. Essa é a natureza. Eu não quero afirmar isso de forma tão brutal. Livre do desejo.
DB: Mas está repleta de energia.
K: Sim, e então essa mente, que não é mais geral ou particular e, portanto, não é mais limitada - a limitação foi quebrada com a descoberta - não é mais a mente condicionada. Então, o que é esta mente? Estando consciente de que ela não continua mais presa a uma ilusão.
DB: Sim, mas, segundo o senhor, ela perguntava se existe ou não algo muito maior.
K: Sim, e é por isso que eu faço essa pergunta.
DB: O que quer que aquilo possa ser.
K: Sim. Existirá uma mente que não seja feita pelo homem? E, se existir, qual a sua relação com a mente feita pelo homem? Isso é muito difícil.
O senhor vê, todo tipo de afirmação, todo tipo de declaração verbal não pode ser a mente não feita pelo homem certo? Daí perguntamos se existe uma mente que não seja feita pelo homem. E acredito que só há sentido em se fazer esta pergunta quando a outra mente, quando as limitações estiverem varridas; caso contrário, seria apenas uma pergunta tola.
DB: Dá no mesmo...
K: Seria uma perda de tempo. Quero dizer: isso se tornaria teórico, sem sentido.
DB: Seria parte da estrutura feita pelo homem.
K: Claro, claro. Então precisamos estar absolutamente, a pessoa deve estar... 

DB: Eu acho que a palavra absoluto só pode ser usada nesse contexto se tivermos bastante cuidado.
K: Muito cuidado, sim. Absolutamente livre de tudo isso. Só então o senhor pode fazer essa pergunta: existirá uma mente não feita pelo homem e, se existir, qual a sua relação com a mente feita pelo homem?
Bem, mas, em primeiro lugar, existe uma mente assim? É claro que existe. É claro, senhor. Sem ser dogmático ou pessoal, afirmo que existe.
Mas não é Deus.
DB: Certo, bom.
K: Porque Deus - já falamos a respeito.
DB: É parte da estrutura feita pelo homem.
K: Que produziu o caos no mundo. Então, ela existe. A próxima pergunta, portanto, é: se existe essa mente, e alguém afirma que existe, qual a relação dela com a mente feita pelo homem?
DB: Sim, a geral.
K: A particular e a geral. Haverá alguma conexão aí?
DB: Bem, trata-se de uma questão difícil; poderíamos dizer que a mente feita pelo homem vive permeada de ilusão; a maior parte do seu conteúdo não é real.
K: Não, e isso é real.
DB: Verdadeira, ou o que quer que seja.
K: Usaremos a palavra real no sentido de verdadeira, isto é, mensurável, confusa - terá esta alguma relação com aquela? É evidente que não.
DB: Bem, eu diria que tem uma relação superficial, no sentido de que a mente feita pelo homem tem algum conteúdo verdadeiro num certo nível, num nível técnico, digamos, o sistema da televisão, e assim por diante.
K: Bem... 

DB: Nesse sentido poderia haver uma relação nesta área; mas, como o senhor dizia, esta é uma área bastante pequena. Porém, fundamentalmente... 

K: A mente feita pelo homem não tem relação com a mente não feita pelo homem; mas aquela [ a mente não feita pelo homem ] tem uma relação com esta [ a mente feita pelo homem ].
DB: Sim, mas não com as ilusões da mente feita pelo homem.
K: Espere um pouco, vamos ser claros: minha mente é a mente feita pelo homem. Ela tem ilusões, desejos e tudo o mais. E existe aquela outra mente que não tem, que está além de todas as limitações. Essa mente ilusória, a mente feita pelo homem, está sempre buscando a mente não feita pelo homem.
DB: Sim, este é o seu principal problema.
K: Este é o seu principal problema. É medir, é avançar, chegar mais perto, mais, e todo o resto. E essa mente, a mente feita pelo homem, está sempre em busca da mente não feita pelo homem, e, portanto, cria mais e mais logros, confusão. Esta mente feita pelo homem não tem relação com a mente não feita pelo homem.
DB: Sim, porque qualquer tentativa de alcançar a mente não feita pelo homem é uma fonte de ilusão.
K: Claro, claro, evidente. Bem, mas terá a mente não feita pelo homem alguma relação com a mente feita pelo homem?
DB: Bem, o que eu estava sugerindo é que deve haver uma relação pois, se tomarmos todas as ilusões que se encontram na mente feita pelo homem, tais como os desejos, o medo, e assim por diante, a mente feita pelo homem não tem nenhuma relação com a mente não feita pelo homem porque, de qualquer forma, essas ilusões são invenções.
K: Sim, está entendido.
DB: Mas a mente não foi feita pelo pode ter uma relação com a mente feita pelo homem na compreensão de sua verdadeira estrutura.
K: Está dizendo, senhor, que a mente não foi feita pelo homem tem uma relação com a mente humana no momento em que supera suas limitações?
DB: Sim, ao compreender essas limitações, ela as supera.
K: Sim, ela as supera. Então, existe uma relação.
DB: Então ela tem uma relação genuína com aquilo que a mente limitada é de fato, não com as ilusões do que ela pensa que é.
K: Vamos ser mais claros.
DB: Bem, precisamos usar as palavras com exatidão - a mente que não é limitada, certo, a mente que não é feita pelo homem, não pode ter relação com as ilusões que se encontram na mente feita pelo homem.
K: Perfeito. Concordo.
DB: Mas ela tem que ter uma relação com a fonte, por assim dizer, com a verdadeira natureza da mente feita pelo homem, que está por trás da ilusão.
K: Ou seja, em que se baseia a mente feita pelo homem?
DB: Bem, em tudo isso sobre o que falamos.
K: Sim, que é a sua natureza. Portanto, como pode a mente não feita pelo homem ter um relacionamento com a mente feita pelo homem, mesmo em termos básicos?
DB: A única relação consiste em compreendê-la, de maneira que alguma comunicação se torne possível, o que poderia terminar em... poderia comunicar-se para a outra pessoa...
K: Não, eu estou questionando isso.
DB: Mas o senhor disse que a mente que não é feita pelo homem pode se relacionar com a mente limitada, e não o inverso.
K: Eu questiono até mesmo isso.
DB: Isso pode ou não ser assim, isso é o que o senhor está dizendo ao questioná-lo.
K: Sim, eu questiono isso.
DB: Muito bem.
K: Qual é então a relação entre o amor e o ciúme? Existe alguma?
DB: Não com o ciúme, propriamente, que é uma ilusão, mas pode haver com o ser humano ciumento.
K: Não, estou considerando o amor e o ódio - duas palavras; amor e ódio; ódio e amor não têm relação alguma um com o outro.
DB: Não, na verdade não.
K: Nenhuma, nenhuma mesmo.
DB: Eu acho que o amor é capaz de compreender a origem do ódio.
K: Ah, poderia - sem dúvida, poderia.
DB: Nesse sentido, eu acho que pode haver alguma relação.
K: Percebo, compreendo. O senhor afirma que o amor pode compreender a origem do ódio, como surge o ódio, e tudo o mais. Será que o amor compreende isso?
DB: Bem, eu acho que, num certo sentido, ele compreende a sua origem na mente feita pelo homem, que tendo enxergado a mente feita pelo homem e toda a sua estrutura, e tendo se afastado dela... 

K: Estamos dizendo, senhor, que o amor - usaremos esta palavra por enquanto - que o amor tem uma relação com o não-amor?
DB: Apenas no sentido de dissolvê-lo.
K: Não tenho certeza, não tenho certeza; precisamos ter muito cuidado aqui. Ou será ele o fim do próprio ódio...?
DB: Não entendi.
K: O fim do ódio; o outro existe; o outro não tem relação com a compreensão do ódio.
DB: Sim, bem, precisamos então perguntar como ele começa.
K: Isso é muito simples.
DB: Não, mas eu quero dizer: suponhamos que tenhamos ódio.
K: Eu tenho ódio. Suponha que eu tenho ódio. Posso ver a sua origem.
Porque você me ofendeu.
DB: Bem, esta é uma noção superficial da origem; refiro-me à origem mais profunda, ou seja, o que leva alguém a se comportar de modo tão irracional.
Veja, não há nada real - se você apenas diz " você me ofendeu ", pergunto: por que o senhor responderia ao insulto?
K: Porque todo o meu condicionamento é nesse sentido.
DB: Sim, é isso o que entendo por compreensão da origem... 

K: Compreendo isso, mas será que o amor me ajuda a compreender a origem do ódio?
DB: Não, mas eu acho que alguém tomado de ódio, ao compreender sua origem e ultrapassá-la...
K:... aí, então, o outro existe. O outro não pode ajudar este movimento de afastamento.
DB: Não, mas a pergunta é: suponha que uma pessoa, se o senhor prefere assim, tem esse amor e o outro não o tem, pode o primeiro comunicar algo que irá dar início ao movimento do segundo?
K: Isso significa: A pode influenciar B?
DB: Influenciar não, mas talvez pudesse provocar uma pergunta do tipo, por exemplo: por que falar disso?
K: Isso é outra coisa - o problema é outro. Não, senhor; a questão é: poderá o ódio ser dispersado pelo amor?
DB: Não, não é isso, não.
K: Ou será que, havendo a compreensão do ódio e o fim dele, o outro existe?
DB: Certo, mas, se dissermos que em A o amor agora está presente - certo? A alcançou aquela mente.
K: Sim.
DB: A ama, e ele vê B...
K: B atingiu o outro.
DB: Bem, mas dizíamos, o que ele irá fazer, percebe? Essa é a questão.
K: Qual a relação entre os dois?
DB: É a mesma pergunta.
K: Sim, a mesma pergunta.
DB: O que ele irá fazer é uma outra forma de fazer a pergunta.
K: Eu acho que - espere um momento, senhor. Eu tenho ódio, o outro tem amor. Minha mulher ama e eu odeio. Ela pode falar comigo, pode me mostrar isso, a irracionalidade disso, e assim por diante, mas o amor dela não irá modificar a fonte do meu ódio.
DB: Está muito claro, sim, mas o amor dela é a energia que está por trás do diálogo.
K: Por trás do diálogo, sim.
DB: Não é como se o próprio amor aparecesse por ali e dissolvesse o ódio.
K: É claro que não - esta é uma afirmação romântica. Então o homem que odeia e tem uma idéia clara acerca da origem desse ódio, acerca da causa disso, do seu movimento, e acaba com ele, tem o outro.
DB: Sim, eu acho que podemos dizer que A é o homem que enxergou tudo isso e que agora tem energia para passar isso para B - mas depende só de B o que venha a acontecer.
K: É claro. Eu acho que deveríamos explorar mais este assunto.

Diálogo com o prof. David Bohm em Brockwood Park , em 14 de Setembro de 1980

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)