“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Os pensamentos são obstinados, irredutíveis

As nuvens que vagueiam pelo céu não têm raízes nem lar... E o mesmo é verdadeiro em relação a seus pensamentos, e o mesmo é verdadeiro em relação a seu céu interior: seus pensamentos não têm raízes, não têm lar; tal como as nuvens, eles vagueiam. Assim você não precisa combatê-los, nem sequer precisa tentar detê-los. 

Isso deve tornar-se um profundo conhecimento em você, porque sempre que uma pessoa se torna interessada em meditação, começa por tentar deter o pensamento. E, se você tentar deter o pensamento, ele jamais se deterá, porque o próprio esforço para detê-lo é um pensamento, o próprio esforço para meditar é um pensamento, o próprio esforço para atingir o estado de Buda é um pensamento. E como você pode um pensamento com outro pensamento? Como pode deter a mente criando outra mente? Você estará se agarrando à outra. E isso continuará e continuará, até à náusea, e não terá fim. 

Não lute, porque quem lutará? Quem é você? Apenas um pensamento; portanto, não se faça campo de batalha de uma luta de pensamentos. Seja, antes, uma testemunha, observe apenas a flutuação dos pensamentos. Eles cessarão, mas não porque você os tenha detido. Cessarão porque você se tornou mais receptivo, e não por qualquer esforço de sua parte; não, dessa forma eles jamais cessam, eles resistem. Tente, e descobrirá: tente deter um pensamento e o pensamento persistirá. Os pensamentos são obstinados, irredutíveis. São hatha yogis, persistem. Você os repele e eles retornam um milhão de vezes. Você se cansará, eles não. 

(...) Se você tenta deter um pensamento, não o pode deter. Ao contrário, o próprio esforço para detê-lo dá-lhe energia, o próprio esforço para evitá-lo torna-se atenção. Assim, sempre que você quer evitar algo dá demasiada atenção a esse algo. Se você não quiser pensar um pensamento, já estará pensando nele. 

(...) Não há necessidade de deter a mente. os pensamentos não têm raízes, são vagabundos sem lar; você não precisa se preocupar com eles. Observe, simplesmente observe, sem olhar para eles; simplesmente observe. 

Se os pensamentos vêm, não se sinta mal por isso; se você tiver a mais leve impressão de que eles não são bons, já começará a combater. É certo e natural: assim como as folhas chegam para as árvores, os pensamentos chegam para a mente. Isso está certo, é exatamente o que deveria ser. Se eles não surgem, é belo. Conserve-se , simplesmente, dentro de si mesmo, e olhe, olhe sem olhar. 

E, quanto mais você olhar, menos encontrará; quanto mais profundamente você olhar, maior número de pensamentos desaparecerão, dispersar-se-ão. Desde que você saiba disso, tem a chave em sua mão. E essa chave revela o mistério mais secreto: o mistério do estado de Buda. 
As nuvens que vagueiam pelo espaço
Não têm raízes nem lar;
também assim são os pensamentos distintivos
vagando através da mente.
Desde que a mente-eu é vista,
cessa a discriminação.
 E, desde que você possa ver que os pensamentos são flutuantes, que você não é os pensamentos, mas o espaço nos quais eles flutuam, você terá atingido sua mente-eu, terá compreendido o fenômeno da sua percepção. Então, a discriminação cessará: então, nada será bom, nada será mau, nada a ser desejado, nada a ser evitado. 

Você aceita e se torna desprendido e natural. Você, simplesmente, começa a flutuar com a existência, sem ir a parte alguma, porque não há meta; você não se move em direção de alvo algum, porque não há alvo. Você começa a gozar cada momento, seja o que for que ele traga — seja o que for, lembre-se. E você pode gozá-lo, porque agora não tem desejos nem expectativas. Você nada pede; portanto é grato ao que quer que receba. Só o estar sentado e respirar é tão belo, só estar em algum lugar é tão maravilhoso, que cada momento da vida torna-se uma coisa mágica, um milagre em si mesmo.

O S H O — Tantra: a Suprema Compreensão

O que entendemos por iluminação?

Há uma qualidade totalmente diferente de ser, que vem com o não-pensamento: nem bom, nem mau, simplesmente um estado de não-pensamento. Você simplesmente observa, você simplesmente permanece consciente, mas não pensa. E, se algum pensamento surgir... SURGIRÁ, porque os pensamentos NÃO SÃO SEUS, estão flutuando no ar. Em derredor, há uma esfera-de-percepção, uma esfera-de-pensamento. Como existe o ar, existe o pensamento em torno de você, e ele vai penetrando por sua própria vontade. Só deixará de fazer isso, assim que você se tornar mais receptivo. Se você se tornar mais e mais receptivo, o pensamento simplesmente desaparece, desfaz-se, porque a percepção é uma energia maior que o pensamento. 

A percepção é como fogo para o pensamento. É algo como quando uma lâmpada é acesa, em sua casa, e a escuridão não pode entrar. Você apaga a luz e, num momento, a escuridão penetra — vem de toda parte, sem a menor demora. Se há uma luz acesa na casa, a escuridão não pode entrar. Os pensamentos são como a escuridão: só entram, se não houver luz lá dentro. A percepção é o fogo: você se torna mais receptivo e os pensamentos entrarão cada vez menos. 

Se você se tornar REALMENTE INTEGRADO com a sua percepção, os pensamentos não penetrarão absolutamente em você: você se tornará uma fortaleza inexpugnável, nada é capaz de penetrá-la. NÃO porque você a tenha fechado, lembre-se, você está inteiramente aberto. Apenas a própria energia da percepção é que tornou-se sua fortaleza. E, se os pensamentos não podem entrar, virão e passarão ao seu lado. Você verá que eles surgem, mas, simplesmente, no momento em que se aproximarem de você, se desviarão. Então você pode ir a qualquer lugar, então você pode ir para o próprio inferno — nada poderá lhe afetar. Isso é o que entendemos por iluminação. 

O S H O — Tantra: a Suprema Compreensão

Qual é a questão central da nossa vida



A mente é a raiz de todos os problemas - parte 2

Observe as nuvens: as nuvens movem-se e podem ser tão densas que você não consegue ver o céu através delas. A vasta extensão azul do céu está perdida e você está coberto pelas nuvens. Então, você continua a observar: uma nuvem se move e outra ainda não chegou ao seu campo de visão — subitamente, há um ponto na vastidão do céu. 

O mesmo acontece interiormente: você é a vastidão azulada do céu, e os pensamentos são nuvens pairando em torno de você, entrando em você. Mas os intervalos existem, o céu existe. Ter um vislumbre do céu é satori; tornar-se o céu é samadhi. De satori a samadhi, todo o processo é uma profunda visão interior para a mente; nada mais. 

Em primeiro lugar: a mente não existe como uma entidade; apenas os pensamentos existem. 

Em segundo lugar: os pensamentos existem separados de você; não são ligados à sua natureza. Eles vêm e vão — você permanece, você persiste. Você é como o céu: nunca vem, nunca vai, está sempre ali. As nuvens podem ir e vir, são fenômenos momentâneos, não são eternas. Mesmo que você tentasse se agarrar a um pensamento, não poderia retê-lo por muito tempo. Ele tem de ir, tem seu próprio nascimento e morte. Os pensamentos não são seus, não lhe pertencem. Chegam como visitantes, hóspedes, mas não são o hospedeiro. 

Observe profundamente e se tornará o hospedeiro e terá os pensamentos como hóspedes. Como hóspedes, eles são belos; mas se você esquece completamente de que é o hospedeiro, eles se tornam os hospedeiros e você fica em confusão. Isso é o inferno. Você é o dono da casa, a casa lhe pertence, mas os hóspedes se tornam donos. Receba-os, cuide deles, mas não se identifique com eles; de outra maneira, eles se farão senhores. 

A mente torna-se problema porque você tomou os pensamentos tão profundamente, dentro de você, que se esqueceu por completo a distância, o fato deles serem visitantes, de irem e virem. Lembre-se, sempre, do que é duradouro: o que é a sua natureza, seu Tao. Fique sempre atento ao que nunca vem e nunca se vai, tal como o céu. Muda o gestalt: não faça dos visitantes o seu foco; permanece enraizado no hospedeiro. Os visitantes vêm e vão. 

Há, naturalmente, bons e maus visitantes, mas você não precisa se preocupar com eles. Um bom hospedeiro trata todos os hóspedes da mesma maneira, sem fazer distinções. Um bom hospedeiro é apenas um bom hospedeiro: quando um mau pensamento surge, ele trata o mau pensamento da mesma forma como trataria um bom pensamento. Não é de sua competência julgar o pensamento bom o mau. 

O que você está fazendo quando distingue este pensamento como bom e aquele como mau? Você está trazendo o bom pensamento para para mais junto de você, e empurrando para longe o mau pensamento. Mais cedo ou mais tarde, você estará identificado com o bom pensamento, que passará a ser o hospedeiro. E qualquer pensamento, quando se torna o hospedeiro, cria sofrimento — porque não é a verdade. O pensamento é um simulador, e você se identifica com ele. A identificação é a doença. 

Gurdjieff costumava dizer que só uma coisa é necessária: não se identificar com o que vem e vai. A manhã vem, depois dela o meio-dia, vem a tarde, e todos eles se vão. Chega a noite e, novamente, a manhã. Você permanece — não como você, porque isso também é um pensamento, mas como pura percepção. Não o seu nome, porque isso também é um pensamento; não sua forma, porque isso também é um pensamento; não o seu corpo, porque um dia você compreenderá que também ele é um pensamento. Apenas pura percepção sem nome, sem forma: somente a pureza, somente o que não tem forma nem nome, somente o próprio fenômeno de estar consciente — só isso é duradouro. 

Se você se torna identificado, torna-se mente. Se você se torna identificado, torna-se corpo. Se você se torna identificado, torna-se um nome e uma forma e, então, o hospedeiro está perdido. Você esquece o eterno e o momentâneo torna-se importante. O momentâneo é o mundo, o eterno é Divino. 

Esta é a segunda visão interior a ser obtida; a de que você é o hospedeiro e os pensamentos são os hóspedes.

O S H O - Tantra — A Suprema Compreensão

A mente é a raiz de todos os problemas - parte 1

O problema-raiz de todos os problemas é a própria mente.

Assim, a primeira coisa a ser compreendida é o que vem a ser a mente, de que matéria é feita, se é uma entidade ou apenas um processo, se é substancial ou apenas ideal. A não ser que você conheça a natureza da mente, não poderá resolver nenhum dos problemas da sua vida. 

Você pode tentar duramente, mas, se você tentar resolver problemas isolados, individuais, estará voltado ao fracasso —  isso é absolutamente certo. Porque, na realidade, não existe problema individual: a mente é o problema. Resolver este ou aquele problema de nada adiantará porque a raiz deles permanece intocada. 

É tal como cortar os galhos de uma árvore, podando as folhas, sem desenraizá-la. Novas folhas virão, novos galhos brotarão — até mais do que antes. A poda ajuda a árvore a se tornar mais espessa. A menos que você saiba como arrancá-la pela raiz, sua luta será injustificada, tola. Destruirá a si mesmo, não a árvore. 

Lutando, você desperdiçará sua energia, seu tempo, sua vida, e a árvore continuará tornando-se cada vez mais forte, mais espessa, mais densa. E você fica surpreendido com o que vai acontecendo. Você trabalha tão duramente, tentando resolver este e aquele problema, e eles continuam crescendo, aumentando. E mesmo quando você consegue que um problema seja resolvido, dez outros, subitamente, ocupam seu lugar.

Não tente resolver problemas individuais, isolados — eles não existem: a própria mente é o problema. A mente, porém, está oculta subterraneamente; por isso eu a chamo raiz, ela não é aparente.  Em qualquer ocasião em que se depare com um problema, ele está acima do solo; você pode vê-lo, por isso é iludido por ele. 

Lembre-se sempre: o visível jamais é a raiz. A raiz sempre permanece invisível, a raiz sempre está oculta. Nunca lute contra o visível, pois você estará lutando contra sombras. Será em vão, não poderá haver nenhuma transformação em sua vida. Os mesmos problemas aflorarão novamente, novamente e novamente. Observe sua própria vida e você verá o que eu quero dizer. Não estou falando de teoria alguma sobre a mente, mas sobre a "artificialidade" da mente. 

As pessoas vêm a mim e perguntam: "Como obter uma mente pacífica?" E eu lhes respondo: "Não existe tal coisa, mente pacífica. Jamais ouvi falar disso."

A mente nunca é pacífica. A "não-mente" é paz. A mente, em si mesma, nunca pode ser pacífica, silente. A própria natureza da mente é estar tensa, confusa. A mente nunca pode ser clara, nem ter clareza , porque a mente é, por natureza, confusão, nevoeiro. A clareza é possível sem a mente, a paz é possível sem a mente, o silêncio é possível sem a mente — portanto, nunca tente obter uma mente silenciosa. Se você o fizer, desde início você estará se movendo num plano impossível. 

Assim, a primeira coisa a compreender é a natureza da mente; e, só então, algo poderá ser feito. 

Se você observar, jamais encontrará uma outra entidade parecida com a mente. Ela não é uma coisa, é apenas um processo; não é uma coisa, é como uma multidão. Pensamentos individuais existem, mas seu movimento é tão rápido que você não pode ver as brechas entre eles. Os intervalos não podem ser vistos porque você não está consciente e alerta; você precisa de uma visão interior mais profunda. Quando seus olhos puderem ver profundamente, você verá, subitamente, um pensamento, outro pensamento e ainda outro pensamento — mas não verá a mente

Pensamentos reunidos, milhões de pensamentos, dão-lhe a ilusão de que a mente existe: como uma multidão, milhões de pessoas em pé, em multidão; há tal coisa, multidão? Você pode encontrar a multidão separada dos indivíduos que estão ali? Mas estão reunidos e a reunião faz com que você sinta que existe algo que é multidão — mas só indivíduos existem. 

Este é o primeiro olhar interior para a mente. Observe e você encontrará pensamentos, mas nunca se deparará com a mente. E, se isso se tornar uma experiência sua... se isso se tornar a sua própria experiência, se isso se tornar um fato de seu próprio conhecimento, então, subitamente, muitas coisas começarão a se modificar. Porque você terá compreendido algo tão profundo sobre a sua mente, que muitas coisas podem seguir-se a isso. 

Observe a mente e veja onde ela está, o que é. Você sentirá pensamentos flutuando e intervalos. E, se você observar por bastante tempo, verá que os intervalos existem em maior número do que os pensamentos, porque cada pensamento precisa estar separado de outro pensamento. De fato, cada palavra precisa estar separada de outra palavra. Quanto mais profundamente você for, mais e maiores brechas encontrará. Um pensamento flutua e, então, surge uma brecha onde não existe pensamento. Então surge outro pensamento e outra brecha se segue. 

Se você estiver inconsciente, não poderá ver os intervalos, as brechas. Você saltará de um pensamento a outro e nunca verá a brecha. Se você se tornar consciente, então, milhares de intervalos lhe serão revelados. 

E nesses intervalos, acontece o satori
Nesses intervalos, a Verdade bate à sua porta. 
Nesses intervalos, Deus é compreendido, 
ou outra forma, seja lá o que for, em que você expresse tal coisa. 
Então, a percepção é absoluta, 
então, haverá apenas um vago intervalo de inanidade. 


O S H O - Tantra — A Suprema Compreensão

Onde estão os divergentes que buscam o teorema zero?


Evite conhecimentos emprestados

Para um homem que sabe demais, a comunicação torna-se quase impossível, porque ele sabe sem saber. Reuniu muitos conceitos, teorias, doutrinas, escrituras. Apenas sobrecarregou sua percepção, não a fez florescer. Nada do que sabe aconteceu a ele, tudo é emprestado; e tudo que é emprestado não passa de entulho, podridão. Jogue isso fora, assim que o puder fazer. 

Só o que com você acontece é verdadeiro.
Só o que em você floresce é verdadeiro.
Só o que em você cresce é verdeiro e vivo. 

Lembre-se sempre disso: evite conhecimentos emprestados. 

O conhecimento emprestado torna-se um artifício da mente: esconde a ignorância, jamais a destrói. E, quanto mais você estiver rodeado de conhecimentos, bem profundamente, no centro, na própria raiz do seu ser, haverá mais ignorância e obscuridade. E um homem de conhecimento, de conhecimento emprestado, está quase que completamente fechado dentro de seu próprio conhecimento. E é difícil penetrá-lo, é difícil encontrar-lhe o coração, pois ele próprio perdeu o contato com o seu coração. 

(...) Lembre-se disso, porque é muito fácil alguém tornar-se fortemente apegado ao conhecimento: é uma paixão, uma droga. O LSD não é tão perigoso, a maconha não é tão perigosa. De certa forma, são similares, porque a maconha lhe dá um vislumbre de algo que ali não existe, dá-lhe um sonho de algo que é inteiramente subjetivo, dá-lhe uma alucinação. O conhecimento também: dá-lhe a alucinação de conhecer. Você começa por sentir que sabe, porque pode declamar os Vedas; sabe, porque pode argumentar; sabe porque você tem a mente muito lógica e aguda. Não seja tolo! A lógica nunca levou ninguém à Verdade. E uma mente racional é apenas um jogo. Todos os seus argumentos são infantis. 

A vida existe sem argumento algum e a Verdade não necessita de provas — necessita apenas de seu coração. Não de argumentos, mas do seu amor, da sua confiança, da sua possibilidade para receber. 

O S H O 

A mente da maioria das pessoas é vulgar

Se minha mente é incapaz de resolver um problema, e eu atuo, o problema se multiplica, não é verdade? Este é um fato óbvio. E, ao ver que tudo quanto faça em relação ao problema só tem o efeito de multiplicá-lo, o que deve a mente fazer? Você compreende a questão? O problema — seja o problema de Deus, seja o da fome, o problema da tirania coletiva em nome do governo, etc. — existe em diferentes níveis de nosso ser, e a ele nos aplicamos esperando resolvê-lo; mas eu acho que esta é uma maneira de proceder completamente errônea, porquanto estamos assim atribuindo a principal importância ao problema. Parece-me que o problema real é a própria mente, e não o problema que ela mesma criou e estou tentando resolver. Se a mente é mesquinha, pequena, estreita, limitada, ela se aplica ao problema — por maior e mais complexo que seja — com suas próprias e pequeninas medidas. Se tenho uma mente pequenina e penso em Deus, o Deus de meu pensar será um Deus pequenino, ainda que eu o revista de grandeza, beleza, sabedoria, etc. 

O mesmo acontece com o problema da existência, do sustento, do amor, do sexo, das relações, o problema da morte. Todos estes problemas são enormes, e a eles nos aplicamos com uma mente pequena, tentamos resolvê-lo com uma mente muito limitada. Ainda que tenha capacidades extraordinárias e seja capaz de invenção, de pensamentos sutis e sagazes, a mente continua pequena; e uma mente pequena, ao enfrentar um problema complexo, só poderá traduzi-lo em seus próprios termos e, por conseguinte, o problema cresce e crescem os novo conflitos. A questão, por conseguinte, é esta: Pode a mente pequena, vulgar, ser transformada em algo não restrito pelas suas próprias limitações? 

(...) Considere, por exemplo, o complexo problema do amor. Ainda que eu seja casado e tenha filhos, a menos que exista aquele senso de beleza, a profundeza e a claridade do amor, a vida é superficial, sem significação; e eu me aproximo da questão do amor com uma mente bem limitada. Desejo saber o que ele é, mas tenho suposições de toda espécie a seu respeito, já lhe vesti as roupagens de minha mente pequenina. O problema, pois, não é de como compreender o amor, porém de libertar de sua própria vulgaridade a mente que se aproxima do problema; e a mente da maioria das pessoas é vulgar. 

Por "mente vulgar" entendo a mente que está sempre ocupada. Você compreende? A mente ocupada com Deus, com planos, com a virtude, ou sobre como colocar em prática o que certas autoridades dizem a respeito de finanças ou de religião; uma mente que se ocupa consigo, com seu próprio desenvolvimento, com a cultura, com o seguir um certo modo de existência; a mente que está ocupada com uma identidade, uma nação, crença ou ideologia — essa é a mente vulgar.(...) A pessoa que tenta aprimorar-se pela aquisição de conhecimento, que procura tornar-se mais inteligente, mais poderosa, obter um emprego melhor — tal pessoa é vulgar. Ela pode ocupar-se com Deus, com a Verdade, com o Atman, ou com o desejo de sentar-se entre os poderosos — mas é sempre uma pessoa vulgar.

Assim, o que acontece? Sua mente vulgar e ocupada começa com certas conclusões, suposições, emite certas ideias — e é com essa mente ocupada que você tenta resolver o problema. Quando uma mente vulgar se encontra com um problema descomunal, ela age, evidentemente, e esta ação produz um resultado: o crescimento do problema. Se você observar, poderá ver que é isso exatamente o que está acontecendo no mundo. Os que estão nos altos postos ocupam-se consigo, em nome da nação; como eu e você, querem posição, poder, prestígio. Estamos todos navegando no mesmo barco e, com nossas mentes pequeninas, tentamos resolver os extraordinários problemas do viver, problemas que exigem uma mente não ocupada. A vida é algo fundamental e sempre em movimento, não é? Por conseguinte, temos de chegar-nos a ela com vigor, com uma mente que não esteja inteiramente ocupada, que contenha um certo espaço, um certo vazio. 

Ora, qual é o estado da mente que sabe que está ocupada e percebe que essa ocupação é vulgar? Isto é, ao perceber que minha mente está ocupada e que mente ocupada é mente vulgar, o que acontece?

Parece que não percebemos com suficiente clareza que uma mente ocupada é vulgar. Quer a mente esteja ocupada com o melhoramento de si própria, quer com Deus, com bebidas, com a paixão sexual ou o desejo de poder, tudo isso é essencialmente a mesma coisa, embora sociologicamente essas ocupações possam ter uma diferença. Ocupação é ocupação, e a mente ocupada é vulgar porque se acha interessada em si mesma. Se você vê, se realmente experimenta a verdade desse fato, então, certamente, sua mente já não se preocupa consigo mesma, com seu próprio melhoramento; existe, pois, para a mente que está aprisionada, a possibilidade de eliminar sua clausura. 

Como simples experiência, observe por si mesmo como sua vida está baseada em alguma suposição: que há Deus ou que não há Deus, que um certo padrão de vida é melhor do que outro padrão, etc. A mente ocupada começa sempre com uma suposição, abeira-se da vida com uma ideia, uma conclusão. Pode a mente acercar-se de um problema de maneira total, afastando as suas conclusões, suas prévias experiências que são também formas de conclusão? Afinal de contas, um desafio é sempre novo, não é verdade? Se a mente é incapaz de compreender adequadamente ao desafio, , há deterioração, retrocesso; e a mente não pode corresponder adequadamente se, consciente ou inconscientemente, está ocupada — sendo que toda ocupação se baseia em alguma ideologia ou conclusão. Se você perceber a verdade a este respeito, descobrirá que a mente já não será vulgar, porque se achará num estado de investigação, num estado de sadio ceticismo — que não significa ter dúvidas a respeito de alguma coisa, porque isso também se torna uma ocupação. A mente que investiga de verdade não acumula. Vulgar é a mente que acumula, quer esteja acumulando conhecimentos, quer dinheiro, poder, posição. Com o total percebimento desta verdade, verifica-se a real transformação da mente, e essa é que é a mente capaz de atender aos nossos numerosos problemas.

Krishnamurti — Nova Deli, 31 de outubro de 1956

Filme: O Teorema Zero


Quem conhece a carreira do diretor Terry Gilliam sabe que o diretor tem uma queda por tramas complexas e cheias de simbolismos. Seu filme "Brazil" é o ápice deste interesse pessoal, ao retratar um Estado totalitário e burocrata, mas é possível também notá-lo em filmes como Os 12 Macacos e Medo e Delírio. O Teorema Zero, seu novo trabalho, talvez seja o filme mais parecido com Brazil, seja pela apresentação de uma realidade distorcida ou pela profundidade do tema abordado. Desta vez, Gilliam quer encontrar nada mais nada menos do que o sentido da vida.

Qohen Leth (Christoph Waltz) , um habilidoso hacker de computador vive em uma constante crise existencial. Ele é instruído por uma empresa fantasma chamada “Management”, para resolver o enigma do “Teorema Zero”, uma fórmula matemática que determinará a razão da existência dos homens e se a vida possui algum sentido. Obcecado por essa missão, ele encontra obstáculos que interrompem seu trabalho. Qohen espera por um telefonema que contém todas as respostas que ele procura.

Esta semana, a comunidade de Amigos do AdoroCinema avaliou a ficção científica O Teorema Zero, dirigida por Terry Gilliam (Os 12 Macacos, Brazil, o Filme). Os blogueiros aprovaram a atuação de Christoph Waltz no papel de um gênio da matemática, tentando desvendar um importante teorema sobre o sentido da vida, e afirmaram que a história faz uma crítica mordaz à religião e à sociedade contemporânea.


É possível a mente livrar-se de toda influência?

A sociedade, com suas complexas influências e seu condicionamento, molda o pensamento; e para que possa "emergir" o indivíduo — pois só o indivíduo tem a possibilidade de descobrir o Imenso — afigura-se-nos necessário compreender essa influência social, sua moralidade, seus perniciosos sistemas de ideias. Pode a mente, que de tal maneira foi condicionada — cada pensamento formado, moldado por influências de toda ordem — emergir, integral, pura, imaculada, completamente livre? Porque só a mente incorrupta — a mente não moldada pelas circunstâncias, pelas influências — pode ir muito longe na pesquisa da verdade, só ela pode descobrir se existe uma realidade transcendente às medidas mentais. 

(...) Nós não compreendemos porque nossa consciência resulta de influências. Não podemos ver o fato por causa da influência que nos molda o pensamento, a influência que está moldando tanto a mente consciente como a inconsciente. Compreendeis? Os jornais, os discursos, os livros, o cinema, a alimentação, as roupas, o ambiente, os edifícios, o ar — tudo vos influencia, influencia vossa mente, consciente ou inconscientemente. Toda forma de propaganda, política ou religiosa, os chamados deuses tradicionais — tudo influencia e molda o pensamento. 

(...) É possível a mente livrar-se de toda influência? Compreendeis, senhor, o que é influência? — a palavra, a família, vossa esposa, vosso marido, os livros que ledes, as coisas que, inconscientemente, vos assaltam a mente. Podeis estar cônscio de cada influência que vos acerca? É possível isso? Porque, se fordes livre, se puderdes observar a influência, isso vos aguçará a mente, tornado-a capaz de libertar-se dela. Esta é uma matéria complexa, que exige atenção, que exige toda a vossa capacidade de pensar e descobrir, porque sois o resultado de influências. Ao crerdes ser o "Eu Superior", etc., ao dizerdes que em vós habita Deus, a Divindade, o Atman — tudo isso representa influência. Quando o comunista diz não crer em Deus, está também influenciado. 

Portanto, a vida de todos está sujeita a influências. E é possível libertarmo-nos totalmente delas? Do contrário, não importa o que penseis, o que negueis, o que façais — tudo resultará do passado, do vosso condicionamento; por conseguinte, em tais condições, não pode a mente, de modo nenhum, descobrir se existe a Realidade. Assim sendo,m é possível ficar-se livre da influência? O que, com efeito, significa: É possível ficar-se livre da experiência?... Por certo, não é possível ficarmos livres de todas as influências. Só podeis ficar livre daquelas de que estais cônscio. Mas só podeis estar cônscio de um pequeno número de influências — pois o inconsciente está de contínuo a ser influenciado. 

(...) É possível estar-se livre de todas as influências? De outro modo, não se pode passar a investigar a questão da liberdade, e ser livre. Como disse, nunca poderemos estar livres de influências; mas poderemos manter-nos sempre vigilantes para observar cada influência que vem ao nosso encontro. Isso significa estarmos atentos, a cada minuto, ao que estamos fazendo, ao que estamos pensando, ao que estamos sentindo — não permitindo, com essa vigilância, nenhuma desfiguração, nenhuma opinião sobre nós mesmos, nem avaliações — resultado, tudo isso, de influências. Qualquer influência é má, assim como o é toda autoridade. Não há distinção de "influência boa" e "influência má", porquanto todas as influências moldam a mente, corrompem a mente. 

Assim, se compreendermos o fato de que qualquer forma de influência — não importa se "boa" ou "má" — perverte, mutila, corrompe a mente; se pudermos compreender esse fato, vê-lo, tornar-nos-emos totalmente cônscios de cada influência que nos assalta a mente. Isto é: no negar, na negação, surge o fato, a verdade. Quando negais, quando dizeis "não", vós o fazeis ou com motivo ou sem motivo. Provavelmente, nunca dissestes "não". Porque em geral costumamos dizer "sim"; habituamo-nos a aceitar; nunca dizemos "não" a coisa alguma, sem termos algum motivo; e isto significa que, quando dizemos "não" sem motivo, estamos libertados da influência. 

(...) Assim, a negação — e não a mente positiva — é o fim da influência. Por "mente positiva" entendo a mente que se ajusta, a mente que imita, a mente que obedece, a mente que se tornou respeitável aos olhos da sociedade — ou seja, aquela que aceitou e está observando um certo padrão de viver ditado pela sociedade, pelo ambiente, pelo meio cultural. Essa mente se chama "mente positiva"; mas de modo nenhum é positiva: é uma mente morta. Por "mente negativa" entendo a que nega sem ter nenhum motivo. Ao negardes a atitude do político que se julga capaz de alterar a ordem das coisas, de alterar o homem; ao negardes essa atitude, estais totalmente livre desse tipo de influência. O político está interessado no "imediato", projetado no futuro — que ele considera como o "prazo longo", a "perspectiva longa"; mas essa "longa perspectiva" é, em verdade, uma "perspectiva curta". Isto é, o político, como todo técnico, não está interessado no homem integral; só lhe interessa o exterior. E, se negais o exterior — a perspectiva curta — sem teres nenhum motivo, estais então completamente fora dessa esfera; o que então vos interessa é o ser total  do homem. 

Importa, pois compreender a mente que encara os fatos negativamente, e permanece "só com o fato". (...) Quando negais as influências, podeis mover-vos de fato para fato. Assim, da negação nasce a energia necessária para olhar o fato; e necessitais de extraordinária energia e de completa ausência de atrito. Havendo conflito, há sempre dissipação de energia. (...) Assim, só quando todo esse processo tiver sido compreendido, examinado, observado, poderá a mente "emergir" da estrutura social, ambiente e verbal, como uma mente incorrupta, clara, sã. Então ela já não está sujeita a nenhuma influência; está completamente vazia. Só essa mente pode transcender o Tempo e o Espaço. Só então desponta o Imensurável, o Incognoscível.

Krishnamurti — 28 de fevereiro de 1962 

Em total silêncio a mente se depara com o eterno


Creio que esta é a última palestra.A partir de quinta-feira teremos alguns diálogos durante cinco dias. Por que todos vocês estão sentados tão quietamente? Pergunto-me se já notaram, nossas mentes raramente ficam muito quietas, silenciosas, sem ter problemas, ou tendo problemas, os deixando de lado por um tempo, e tendo uma mente livre, uma mente que não está cheia, uma mente que não está tensa, não está buscando nada; mas absolutamente quieta, silenciosa, e talvez observando não só o que está acontecendo no mundo mas também o que está acontecendo no mundo interior, no mundo da própria existência da pessoa, das atitudes, lutas - apenas observar.

Pergunto-me se alguém já fez este tipo de coisa.

Ou, estamos sempre procurando, perguntando, analisando, demandando, tentando preencher, tentando seguir alguém, algum ideal e por aí vai ou tentando estabelecer uma boa relação com o outro?

Pergunto-me por que há este constante esforço e disputa e busca.

A pessoa vai à Índia, não sei por que, buscando uma coisa extraordinária que vai acontecer quando você vai a esse país, segue alguém que lhe diz para dançar, cantar, fazer o que quiser. (Riso) E há aqueles que tentam forçar você a meditar de um certo modo, aceitar a autoridade, seguir certos rituais, gritar se quiser e por aí vai.

Por que todos nós fazemos isto?

Qual é nossa sede eterna?

O que estamos buscando?

Se pudermos entrar nisso um pouco mais, tentar encontrar por nós mesmos o que todos nós ansiamos, procuramos, buscamos, tentamos realizar, tentamos nos tornar algo. Tirando as crenças religiosas e dogmas e rituais que pessoas suficientemente inteligentes deixam de lado e não indo ao Tibete ou ao Japão, ou tentando o Zen budismo, você sabe, esse negócio todo, mas permanecendo calmamente na própria casa, ou fazendo um passeio solitário, pode a pessoa perguntar por que existe esta sede eterna?

Podemos entrar nisso um pouco?

Porque falamos sobre muitas coisas durante as últimas seis palestras. Falamos sobre medo, pensar juntos; falamos sobre sofrimento,
prazer; e também falamos sobre inteligência e amor e compaixão.
Como mostramos, sem inteligência,que examinamos cuidadosamente, não pode haver amor ou compaixão.
Eles andam juntos.
Não a inteligência dos livros e a habilidade sagaz do pensamento
nem a inteligência de uma mente muito astuta, sutil
mas a inteligência que percebe diretamente o que não é verdadeiro
e o que é falso, o que é perigosoe imediatamente deixa isto, tal qualidade de mente é inteligente.
E se pudermos entrar nisso esta manhã
não só no que é aquilo que todos estamos buscando, querendo.
E talvez enquanto seguimos, descobrir por nós mesmos qual é a qualidade
de uma mente - mente sendo todos os nossos sentidos, todas as reações,
todas as nossas emoções e a capacidade de pensar muito claramente,tudo isso é a mente, a essência da qual é pensamento.
E talvez possamos falar juntos sobre qual é a natureza da meditação
e se existe alguma coisa na vida, em nossa existência diária
não só atividades materiais e posses materiais, dinheiro, sexo,
sensações, mas também além disso tudo, se existe alguma coisa
realmente sagrada, não acumulada pelo pensamento, não as imagensque o pensamento criou sob várias formas, em várias catedrais,
templos e assim por diante, mas de fato, por nós mesmos, descobrir
talvez através de meditação, estando livre de toda ilusão
e engano e pensando muito honestamente, se existe alguma coisa
que é realmente sagrada, que é o movimento da meditação.Então primeiro vamos investigar, se pudermos
pensar juntos, do que temos fome?
A maioria das pessoas teve vários tipos e variedades de experiências
não só experiências sensuais mas incidentes que provocaram
vários movimentos emocionais, sensoriais e românticos
mas também essas experiências que a pessoa teve são bem triviaise talvez todas as experiências sejam bem triviais.
E quando começamos a examinar o que é isso que todos buscamos, queremos,
desejamos, é algo meramente superficial, sensorial...ou alguma coisa que
o desejo busca, que deve obviamente ser bem superficial?
E podemos nós, ao pensar juntos,
sair da superficialidade para um exame mais profundo, mais amplo?Certo?
Ou seja, nós estamos, você e o orador, estamos pensando juntos
se todos os nossos anseios são só demandas superficiais, sensoriais, ou é
o anseio, a busca, a sede de alguma coisa muito além disso?
Você entende minha pergunta?
Como você examina isso?Quando você fez esta pergunta, se seu exame,
seu anseio é meramente superficial, tal como querer mais dinheiro,
melhor relação, tentar se realizar, tentar ser feliz,
você sabe, superficialmente, na superfície,
como você examina isso?Através da análise?
Análise é ainda o mesmo movimento de pensamento, retroceder.
E o pensamento examinar analiticamente a si mesmo, seus incidentes,
suas experiências, seu exame será ainda limitado
porque o pensamento é limitado. Isso é claro.Mas esse é o único instrumento que temos, e assim vamos repetindo
usando o mesmo instrumento, sabendo que é limitado
e sabendo que ele não pode resolver o problema, ou ter a capacidade
para examinar muito profundamente, e contudo continuamos fazendo isto.
Certo?
Nunca percebemos, acho, que este instrumento embora desafiado,embora gasto, não pode resolver o problema e portanto deixá-lo de lado.
Nós não parecemos capazes de fazer isso - por quê?
Por favor, examine comigo.
Você entende minha pergunta?
O pensamento criou o mundo tecnológico.
Certo?O pensamento criou todas as divisões no mundo.
O pensamento criou não só as divisões nacionais, mas divisões religiosas,
divisões ideológicas, toda forma de divisão entre duas pessoas
não importa quanto elas possam pensar que se amam, existe ainda
esta divisão, e o pensamento é responsável por isso, o que é óbvio.
Aceitaríamos isso? - que o pensamento em sua atividade inevitavelmentesendo limitado, sendo resultado do passado,
deve inevitavelmente provocar divisão e, portanto, é limitado.
O pensamento nunca pode ver o todo.
Certo?
Agora podemos perguntar: tal atividade é superficial
ou pode o pensamento com sua limitação examinar mais profundamente?Você acompanha o que estou dizendo?
Nós nos entendemos? Podemos continuar?
Por favor, isto não é uma exposição verbal,
não é que verbalmente sejamos claros, mas que juntos
descobrimos por nós mesmos qual é a origem desta fome, grande desejo
de buscar, descobrir, você sabe, este constante movimento de vai e vem.Isto é óbvio, certo?
É a observação - observar - o instrumento do pensamento?
Entende?
Por favor, entre nisso um pouco comigo.
Observar: isso envolve o movimento do pensamento?Você pode observar, e concluir, conceber, criar através dessa observação.
A criação,
a atividade através dessa observação é o movimento do pensamento.
É isso que, em geral, fazemos.
Eu vejo essa cor, o outro vê essa cor, existe a observação delae gostar e desgostar, preconceitos, tudo é movimento de pensamento.
Certo?
Pode-se observar sem nenhum dos movimentos do pensamento?
Isso requer um tipo de disciplina?
Compreende?Disciplina, a raiz dela é aprender.
Aprender, não se adaptar, não imitar,
não tornar a mente embotada, rotina - tudo isso, mas aprender.
Agora pode a pessoa aprender que a atividade da observação
sem o pensamento criando a imagem a partir dessa observação
e agindo de acordo com essa imagem.Certo? Pode-se apenas observar?
Que é aprender, observar e aprender ou estar ciente
do movimento do pensamento interferindo nessa observação?
Aprender disto.
O que é verdadeira disciplina - aprender.Fico pensando se você entendeu.
Estamos nos entendendo?
Estamos fazendo isso enquanto falamos, ou você vai pensar a respeito?
Por favor, estamos fazendo isto todos juntos, refletindo nisto juntos.
Então estamos dizendo: quando há observação, digamos, em nossa ânsia,
nossa sede de alguma coisa, podemos observar sem nenhum motivo,motivo sendo o passado, que pode ser o desejo, a conclusão
do pensamento - sem o passado interferir com a observação real?
Você consegue fazer isso?
Isso é aprender.
Este movimento total: a observação, a interferência do pensamento,qual é o resultado e o efeito de todo este movimento, apenas observar.
A pessoa quer aprender.
Aprender, em geral, é acumulação de conhecimento.
Certo?
Escola, faculdade, universidade
ou aprender sobre relacionamento e assim por diante, aprender.Ter acumulado conhecimento e então agir.
Certo?
O objetivo de aprender é acumular conhecimento
e a partir daí agir habilmente, ou não habilmente, depende.
Ou você age e então aprende, que é acumular conhecimento pela ação.
Compreendeu?Você está acompanhando tudo isto?
Então nossa ação sempre se baseia na acumulação de conhecimento.
Certo?
Agir e aprender da ação, e acumular.
Acumular conhecimento e agir.
Certo?Então nossas ações são sempre baseadas no passado
ou o passado projetando o futuro, e agindo de acordo com o futuro.
É o mesmo movimento, modificado mas é ainda o mesmo movimento.
Certo?
Fico pensando se você está acompanhando tudo isto.Estão fazendo isto, senhores?
Calor!
Estamos apontando uma coisa inteiramente diferente.
Compreende?
Acumular conhecimento e então agir.
Acumular conhecimento e projetardesse conhecimento o futuro e agir a partir do futuro.
Então nossas ações são invariavelmente resultado do passado ou do futuro
isto é, ação baseada no tempo - ontem, hoje e amanhã.
Ontem encontrando o presente
que é hoje, modificando-se e continuando.Certo?
Nossa ação se baseia nisso.
Então nossas ações são sempre incompletas, obviamente.
Porque nelas há remorsos,
uma sensação de frustração, elas nunca são completas, obviamente.Certo?
Agora estamos apontando outra coisa, uma coisa inteiramente diferente
que é, uma observação na qual o passado e o futuro não existem.
Apenas observar.
Como a pessoa observa, se é um bom cientista, através do microscópio
observa o que está de fato acontecendo.Certo?
Quando ele observa o que está de fato acontecendo,
a coisa que ele observa passa por uma mudança, passa por um movimento.
Certo? Por favor, ouçam isto!
É possível observar o anseio, a busca, a urgência, a intensa energiaque está demandando, apenas observar isso sem o movimento do passado?
Você percebeu?
Está acompanhando tudo isto?
Isto não é terrivelmente intelectual, por favor.
É meramente lógico, meramente razoável e, portanto, bastante sensato.Sensato, que significa saudável.
Então a pessoa pode fazer isso?
Observar nosso anseio, o que queremos da vida, o que estamos
buscando, caçando - a maioria está, caso contrário, não estariam aqui.
Isto é - por favor, examine um pouco mais - você lê livros, filosofia,
psicologia, doutorado nisto e naquilo, ou os chamados livros religiosos.Nesses, estão sempre apontando que existe algo além,
parapsicologia - entende?
...mais, algo mais e mais, mais profundo e profundo e profundo.
E tendo lido, a pessoa diz, "Talvez exista, vou atrás disso".
E aí a pessoa fica prisioneira dos sacerdotes, dos gurus,do último modismo e assim por diante, até você pensar que encontrou
algo que é satisfatório - certo? - que lhe dê...
Você diz "Sou perfeitamente feliz, não tenho que buscar nada mais".
O que pode talvez ser uma ilusão.
E muitas pessoas gostam de viver em ilusões.E toda sua busca e suas demandas, sua fome não resolveu
ou gerou uma boa sociedade - entende? - uma boa sociedade,
uma sociedade que se baseia na paz, não há violência, não há
cada um tentando realizar suas ambições, todo o resto da violência.
O objetivo de nossa investigação em tudo isto é gerar uma boa sociedadena qual nós, seres humanos, possamos viver felizmente sem medo,
sem conflito, sem toda esta disputa, luta,
toda brutalidade e todo o resto, porque essa é a intenção
de investigar, pois a sociedade é formada a partir da relação das pessoas.
Se nossa relação não é correta, precisa, real, então nós criamos umasociedade que é a atual, que é o que está acontecendo no mundo.
Certo?
Daí nossa investigação: ou seja, por que os seres humanos separadamente
você busca uma coisa, o outro busca outra coisa
totalmente diferente, cada um está pedindo uma coisa diferente.Certo?
E assim há sempre este movimento egocêntrico.
E a sociedade que criamos se baseia nestes problemas
egocêntricos, ambições egocêntricas, realizações e disciplina
egocêntrica que diz, "Eu devo", o que gera violência.Estamos investigando tudo isso, que devemos, e também estamos investigando
uma mente - sua mente - mente - compreende?
Quando usamos a palavra "mente", não é sua mente ou minha mente - mente.
Porque sua mente é como a mente de milhares e milhões de pessoas.
Certo?Disputando, lutando, exigindo, seguindo, aceitando,
obedecendo, idealizando, pertencendo a alguma religião, sofrimento,
dor, angústia, sua mente é isso e as outras mentes são assim.
Certo?
Então sua mente não é sua.É a mente.
Não sei se você vê isso.
Você pode não ver porque sua vaidade, seu sentido de importância
individual pode impedir esta observação, que é real.
Certo?Fico pensando se você vê isto.
É por isso que, até realmente entendermos isto,
que nós, seres humanos, somos muito semelhantes psicologicamente,
nós, seres humanos mundo afora, somos muito infelizes.Todos eles oram, mas a oração não responde a este problema.
Eles ainda são infelizes, ainda disputam, ainda se desesperam.
Esta é a mente comum.
E assim, quando estamos investigando,
estamos investigando o ser humano, não eu ou você.Nós somos seres humanos. Fico pensando se você vê tudo isto.
E investigando isso, pode a pessoa observar o mundo exterior,
as divisões e todo o resto, o terror,
o perigo, os políticos com seus crimes,
podemos observar tudo isso, apenas observar, não tirar uma conclusão?Se observarmos o que acontece lá fora, e igualmente observarmos o que
acontece interiormente, então nossas ações não são sua ação e minha ação.
Não sei se você está acompanhando tudo isto.
Porque estamos então agindo juntos - entende? -
porque observamos a mesma coisa juntos.Agora perguntamos, o que estamos buscando?
Compreende?
Se você se pergunta o que está buscando, é dinheiro,
é segurança, é se libertar do medo de modo que você tenha
eterno prazer, você está buscando se livrar dofardo do sofrimento? - não só seu fardo, mas o fardo de sofrimento do mundo.
Ou você está buscando - tirando toda a tolice religiosa -
ou você está buscando alguma coisa infinita,
alguma coisa que o pensamento absolutamente não tocou?
Compreende?Uma coisa essencialmente original, uma coisa absolutamente incorruptível?
Então descubra por si mesmo,
como ser humano, como todos os outros seres humanos do mundo,
o que a pessoa anseia, busca, de que tem fome.
Se a pessoa quer experiência porque teve experiências sensoriais,experiências sexuais, as experiências de vários tipos, e disse,
"Já chega, tive tudo isso mas quero alguma de outro tipo"
- entende? Algo mais.
É isso que você está buscando?
Alguma experiência que lhe dará grande deleite,grande compreensão, uma iluminação, uma transformação.
Como você descobrirá?
Primeiro, para descobrir a pessoa deve estar livre de toda ilusão.
Certo?
O que significa tremenda honestidade, de modo que sua mente não se iluda.Certo?
Para não se iludir a pessoa deve compreender toda a natureza do desejo.
Certo?
Porque é o desejo que cria ilusão,
pelo desejo a pessoa quer realização, espera por alguma coisa mais.Assim, a menos que você compreenda toda a natureza
e a estrutura do desejo, ele inevitavelmente criará ilusão.
E examinamos a questão do desejo.
Então pode sua mente, tendo compreendido a atividade do desejo,
saber seu valor relativo e, assim, estar livre para observar?O que significa que você observa sem nenhum tipo de ilusão.
O nacionalismo é uma ilusão.
Certo?
Obviamente.
Isso é muito fácil.As ilusões que o pensamento criou - certo? -
a pessoa está cônscia das ilusões?
Oh, vamos, senhores.
E quando a mente está livre das ilusões,
e assim, ficando absolutamente sem nenhuma hipocrisia, clara, honestaentão podemos começar a investigar: investigar uma coisa, perguntar se
existe uma existência infinita - entende? - uma verdade infinita.
Ou seja, é aí onde surge a meditação.
Certo?
Você está acompanhando tudo isto?Algum de vocês fez meditação?
Provavelmente não, ou provavelmente fizeram
meditação transcedental, meditação tibetana,
meditação hindu, meditação budista, meditação zen.
Provavelmente você brincou com todas elas - seriamente ou levianamente.Todas elas, tanto quanto se pode entender,
e o orador discutiu esta questão com todos os estudiosos
de todos os vários circos, e todo o conceito deles é
que o pensamento deve ser controlado, que a pessoa deve ter disciplina,
deve subjugar o próprio sentimento a alguma coisa diferente de "o que é"pela atenção, pelo controle,
pela constante vigilância - você conhece tudo isto, não é?
E repetir certos mantras, lemas: você pode repetir "amém" ou "coca-cola"
ou o que quiser (riso) - não, não ria, eles são todos semelhantes.
Então o que estamos dizendo é: aceitamos que meditação é tudo isto.Agora, se você quer descobrir o que é meditação,
não simplesmente aceitar o que alguém disse,
se você quer descobrir, certas coisas óbvias são necessárias.
Não deve haver autoridade, porque aí você depende disso.
Certo? Obviamente.Portanto você está lutando, imitando, se adaptando.
E a pessoa deve entender a natureza do controle.
Quem é o controlador? Compreende?
Compreende isto?
Fico pensando se você compreende tudo isto.Não?
Você está interessado nisto tudo?
Porque é sua vida, não minha vida.
É da sua vida diária que estamos falando - o que está envolvido nela,
se a pessoa pode ficar livre de todo este caos, confusão e miséria.E esta é a investigação, você está investigando, não eu investigar e você
aceitar; estamos juntos investigando, estamos fazendo a viagem juntos.
Então primeiro, como dissemos, sem autoridade
o que significa deixar de ser de segunda mão.
Compreende?Somos todos pessoas de segunda mão, porque segunda mão é tradição.
Nunca dizemos, "Veja, eu pus tudo isso de lado, deixe-me olhar."
A próxima pergunta é, controle: desde a infância somos treinados,
educados para controlar, suprimir, ou o outro extremo
que é o que acontece agora - fazer o que quer, fazer sua coisa!
Que é o oposto do outro.Então a pessoa deve entender todo o movimento do controle.
Existe um modo de viver - por favor, ouça isto -
existe um modo de viver sem nenhuma forma de controle?
O que não significa fazer o que você quertanto permissividade como o outro, indulgência.
Existe um modo de viver - por favor investigue isto, talvez seja
uma coisa nova para você - na qual não há uma sombra de controle?
Para descobrir isso a pessoa tem que perguntar: quem é o controlador?
Certo?Estamos investigando o que é meditação
porque talvez, se a pessoa puder compreender a natureza da meditação
não o significado da palavra, o significado da palavra é muito simples
ponderar, refletir, investigar e assim por diante,
mas tirando a palavra, descobrir o que é meditação.Isto pode, nesta investigação, resolver, produzir uma vida
que é extraordinariamente sadia, extraordinariamente racional,
e pode ser capaz de descobrir alguma coisa que é inominável, infinita.
Estamos chegando a isso.
Então quem é o controlador que diz, "Tenho que controlar meus sentimentos,"ou "Devo deixar meus sentimentos fluirem" e assim por diante,
quem é essa entidade que diz, "Eu devo controlar"?
Compreende? Controle e o controlador.
O controlador e a coisa a ser controlada.
Então existe uma divisão.Quem é o controlador?
Não é ainda o movimento do pensamento?
O pensamento disse - por favor, acompanhe isto - o pensamento disse
"Eu experienciei isto, eu aprendi isto"
todo o resto, que é o passado, então o passado é o controlador.Certo?
E isso que está acontecendo agora tem que ser controlado pelo controlador.
Certo? Entende?
Você está acompanhando?
Ou vai simplesmente dormir? (Riso)Interrogante: Acompanhando. Krishnamurti: De fato fazê-lo, senhor.
Não estou falando em meu benefício. Certo?
Eu falei durante 52 anos - "basta" por mim.
Não estou interessado em falar.
Mas estou interessado em descobrir sevocê pode também descobrir a mesma coisa
de modo que sua própria vida seja totalmente diferente, transformada
de modo que você não tenha problemas,
nem complexidades, nem brigas, anseios, todo o resto.
Essa é a razão do orador falar, não para sua própria gratificação,não para sua alegria, para sua realização - tudo isso é tolice.
Então o controlador é resultado do pensamento,
pensamento baseado no conhecimento, que é o passado.
E esse pensamento diz, "Devo controlar o que está ocorrendo agora" - certo?
O real.O real sendo, por exemplo, inveja ou ciúme, que todos vocês conhecem.
E o pensamento diz, "Eu devo controlar."
"Devo analisar. Devo suprimir, ou realizá-lo".
Então há uma divisão - certo? - a divisão criada pelo pensamento.
Está acompanhando? E nisto há engano.Certo?
O engano está na ideia que o controlador
é diferente daquilo que é para ser controlado.
Os dois são criados pelo pensamento.
Certo?Então o controlador é o controlado.
Pergunto-me se você vê isto.
Certo?
Então se você realmente compreende isto,entra nisso muito seriamente por si mesmo, verá que
o controlador é desnecessário, só a observação é necessária.
Compreende?
Quando você observa, não há controlador ou controlado, apenas observar.
Observar sua inveja, por exemplo, inveja,observá-la, sem dar nome, sem negá-la ou aceitá-la
apenas ver, a sensação, esta reação, que surge
que foi chamada inveja, e olhar para ela sem a palavra.
Você está acompanhando?
Então quando não existe a palavraporque a palavra representa o passado - está acompanhando?
e quando você usa a palavra "inveja", isso reforça o passado.
Certo?
Então existe a possibilidade de viver sem nenhum sentido de controle.Estou dizendo isso não como uma teoria mas de fato.
O orador diz o que ele fez,
não o que ele inventou, que existe uma vida sem nenhum sentido de
controle e, portanto, sem sentido de conflito, sem sentido de divisão.
Isso só pode acontecer quando existe apenas pura observação.Percebeu? Faça e você verá.
Faça! Teste.
Quando não há qualquer conflito, o que acontece na mente?
Compreende?Conflito implica movimento.
Certo?
Movimento é tempo.
Certo?
Tempo sendo daqui para lá, tanto física como psicologicamente.Ou seja, o movimento do centro para outro centro,
ou o movimento da periferia para outra - entende?
Existe este constante movimento em todos nós.
Agora, se você observa este movimento com muito cuidado,e enquanto você observa o que acontece na mente?
Você está acompanhando?
Primeiro, você compreendeu, nenhuma autoridade, a natureza do pensamento,
o pensamento é limitado, e o conhecimento guardado no cérebro
como memória, e essa memória agindo como pensamento em ação.Então o conhecimento é sempre parte da ignorância.
Certo? Nós vimos isso.
Então o que acontece na mente?
Compreende?A mente, como examinamos, não é apenas a capacidade
de pensar claramente, objetivamente, impessoalmente, e as coisas que
o pensamento criou, tecnologicamente, todo o resto no mundo,
e o pensamento também criou todos os problemas internos.
Certo?Quando a pessoa observa tudo isto, a mente tem a capacidade
de agir não pelo pensamento mas por pura observação.
Você percebe isto?
Fico pensando se você entende tudo isto!Por favor, senhores, tudo isto é lógico, não é sectário,
nada, filosofia oriental - nada disso.
Embora o orador tenha nascido naquele país chamado Índia,
ele não é um indiano.
Ele tem um passaporte, isso é tudo.Então ele não está envolvido em exóticas
bobagens românticas ou em alguma estranha filosofia.
Estamos apenas examinando o que está de fato acontecendo.
E para observar o que de fato está acontecendo a pessoa deve olharsem a resposta do passado moldando isto.
A partir dessa pura observação vem a ação.
Isso é inteligência.
E essa é também a coisa extraordinária chamada amor e compaixão.
Então a mente tem esta qualidade de inteligência e naturalmentecom essa inteligência vem compaixão, amor.
Amor não é simplesmente sexo, por deus, tire tudo isso.
Amor é outra coisa além de simples sensação, totalmente sem relação
com nossas demandas e realizações e todo o resto.Então a mente agora tem esta qualidade, esta estabilidade.
É como uma rocha no meio de uma correnteza,
no meio de um rio, imóvel.
Tudo... Entende?
Então tal mente, porque compreendeu a relação com o outro,nós entramos nisso - relação não se baseia na imagem -
compreende? - você tem uma imagem de mim e eu tenho uma imagem
dela, e nossa relação é essa, de imagem para imagem.
Você sabe disso tudo, não sabe?E portanto, não existe relação real.
Pode haver a relação de toque, dos sentidos
mas isso não é a relação profunda, real com um outro.
Se não existe essa profunda relação há conflitoe a partir desse conflito nós criamos esta sociedade
que é totalmente imoral, violenta, homicida.
Então a mente agora tem esta qualidade de grande estabilidade.
E aquilo que é estável é silencioso.
Certo?Você está acompanhando tudo isto?
Você entrou nisto? Compreendeu?
Ser absolutamente claro, ter a clareza que pode examinar qualquer problema.
Essa clareza é estabilidade.Compreende? Só a mente que está confusa, contraditória, partida é instável, neurótica, buscando, lutando, brigando. Então chegamos ao ponto em que a mente está totalmente clara e, portanto, completamente imóvel. Compreende? Imóvel não no sentido de uma montanha, mas imóvel no sentido de que é tão completamente... não tem problemas, nem - entende? - tudo isso, assim é extraordinariamente estável e, portanto, flexível. Certo? Agora: tal mente está quieta. E você precisa ter uma mente que está absolutamente silenciosa, absolutamente, não relativamente - há silêncio quando você vai numa tarde aos bosques, há grande silêncio, todos os pássaros foram para a cama, o vento, o sussuro das folhas acabou, há grande quietude, há a quietude exterior. E a pessoa observa essa quietude e diz, "Devo ter essa quietude", e assim depende da quietude de estar só - compreende? - estar em solidão. Isso não é quietude. E existe a quietude criada pelo pensamento. Ou seja, o pensamento diz, "Eu devo ficar quieto, devo ficar parado, não devo tagarelar," e gradualmente isto produz uma quietude. Mas não é isto, porque é o resultado do pensamento operando no ruído. Certo? Então estamos falando de uma quietude que não depende de nada. E só essa qualidade de quietude, esse absoluto silêncio da mente que pode ver aquilo que é eterno, infinito, inominável. Isto é meditação. Certo? Certo, senhores. Acabou.

A energia que supera a força do medo e do conformismo

A maioria das pessoas questiona apenas o superficial. Outros vão longe em sua revolta e há os que negam tudo. Contestar certos fragmentos da existência é relativamente fácil: as igrejas com seus deuses, a autoridade e o poder que dela emana, o político, com suas atividades egocêntricas. Podemos ir longe na contestação de valores que, aparentemente, têm importância, como as relações, os absurdos praticados pela sociedade, o conceito do belo, firmado pelos críticos ou por aqueles que julgam saber. É possível abandonar tudo isso e ficarmos sozinhos, não no sentido do isolamento e frustração, mas por termos compreendido o seu significado, sem esforço ou sentimento de superioridade, na certeza de termos investigado alguma coisa até o fim, de termos esgotado uma questão.

Entretanto, contestar o todo é diferente; a essência da negação está na liberdade inerente à solidão. Poucos se aventuram a ir tão longe, dispostos a destruir os refúgios, as fórmulas, os símbolos, para descobrirem a sanidade e a lucidez.

Mas, como é importante negar; negar sem desejar recompensa, negar sem alimentar a amargura e a esperança, nascidas da experiência e do saber. Negar e ficar só, sem ocupar-se com o amanhã. Da destruidora revolta surge a inocência do ser. É fundamental ficarmos sós, livres de qualquer padrão, de qualquer método, de qualquer experiência, único meio capaz de libertar a consciência do jugo do tempo. Nesse estado, se eliminam, pela compreensão, todas as formas de influência, fazendo-se cessar o movimento temporal do pensamento. A negação do tempo é a essência da eternidade.

Rejeitar a experiência e o conhecido é penetrar no desconhecido. É de efeito imediato, explosivo, o negar; não se trata de mero exercício intelectual, ou de simples entretenimento do cérebro. No próprio ato de negar há energia, a energia da compreensão, que jamais cede diante do medo e do conformismo. É devastadora a negação; ela não mede consequências, nem exprime uma reação, não sendo, assim, o oposto da afirmação. Asseverar, no sentido positivo ou negativo, ainda é reação, que não significa negar. na contestação não há escolha e, portanto, ela não surge do conflito. Escolha é conflito e conflito vem da imaturidade. Negar é ver a verdade como verdade, o falso como falso e a verdade no falso. Trata-se de uma ação, não de uma ideia. A libertação do conhecido decorre da completa negação do pensamento, da ideia e da palavra. Nasce o amor da total recusa à sentimentalidade e à emoção. O amor transcende o pensamento e o sentimento.

Krishnamurti - 29 de agosto de 1961

Observando o tédio e o vazio inicial do paradigma

Para fazer cessar o pensamento

Para fazer cessar o pensamento é indispensável entender inicialmente o mecanismo do pensar. Preciso, até o mais profundo do meu ser, compreender o pensamento como um todo. Preciso examinar cada pensamento; eu não posso deixar que alguns deles escape sem ser plenamente compreendido; desse modo, o cérebro, a mente, todo o ser ficarão bastante atentos. E quando então eu perseguir todo e qualquer pensamento até o fim, até a extremidade de sua raiz, desse momento em diante, verei que o pensamento cessa por si mesmo. Não preciso fazer nada a respeito porque o pensamento é memória. A memória é a marca deixada pela experiência e, enquanto a memória não for compreendida de forma plena e total, continuará a deixar marcas. A partir do momento em que eu tiver vivenciado completamente a experiência, esta não deixará marcas. Desse modo, se examinarmos cada pensamento e descobrirmos onde se situa a marca, e se permanecermos com essa marca, aceitando-a como um fato, esse fato irá desnudar-se e fará cessar esse processo particular de pensar, de maneira que cada pensamento, cada sentimento será compreendido. Então o cérebro e a mente se libertarão de um acúmulo enorme de recordações. Isso requer tremenda atenção, atenção não apenas para as árvores e os pássaros, mas atenção interior, para cuidar que cada pensamento seja compreendido.

Krishnamurti

O valor está no que você aprende, e não no que memoriza.

O comportamento humano, com todas as suas contradições, com suas fragmentações, é o resultado do pensamento. E se pretendemos uma mudança radical no comportamento humano — não na superfície, nos limites externos da nossa existência, mas no verdadeiro âmago do nosso ser — precisamo então examinar a questão do pensamento. VOCÊ precisa ver isso, não eu. Você precisa ver a verdade disto: o pensamento precisa ser compreendido; é preciso saber tudo a respeito dele. Isso precisa ser de enorme importância para você, e não apenas porque o orador o afirma. O orador não tem valor nenhum. O valor está no que você aprende, e não no que memoriza. Limitando-se a repetir o que o orador diz, seja aceitando ou negando, você não está penetrando a fundo no problema. Porém, se você quer mesmo resolver o problema humano de como viver em paz, com amor, sem medo, sem violência, precisa compreender isto profundamente.

Mas como se pode aprender o que é libertação? Não a libertação da opressão, a libertação do medo, a libertação de todas as pequeninas coisas que nos preocupam, mas a libertação da verdadeira causa do medo, da verdadeira causa do antagonismo, da verdadeira raiz do nosso ser, na qual existe uma aterradora contradição, uma assustadora busca do prazer, e todos os deuses que criamos, com todas as igrejas e sacerdotes — você conhece toda a história. Assim, acredito, é preciso que cada um pergunte a si mesmo se quer se libertar na superfície ou no verdadeiro âmago do seu ser. E se você quer aprender o que é libertação na verdadeira fonte de toda a existência, você então precisa estudar o pensamento. Se a questão ficou esclarecida — não em termos de explicação verbal, não a ideia que você forma a partir da explicação — mas se você sente a verdadeira necessidade, então poderemos caminhar juntos. Porque, se pudermos compreender isso, teremos respondido a todas as nossas perguntas.

É preciso, portanto, descobrir o que vem a ser aprender. Em primeiro lugar, quero aprender se é possível me libertar do pensamento — e não como utilizar o pensamento. Essa é a próxima pergunta. Mas poderá a mente chegar a ser livre do pensamento? E o que significa essa liberdade? Só conhecemos a liberdade de alguma coisa — estar livre do medo, disto ou daquilo, da ansiedade, de uma dúzia de coisas. E existirá uma liberdade que não seja de alguma coisa, mas a liberdade de PER SE, em si mesma? Mas, ao fazer esta pergunta, não dependerá a resposta do pensamento? Ou será a liberdade a não-existência do pensamento? E aprender significa percepção instantânea e, portanto, não requer tempo. Não sei se vocês percebem isso. Por favor, isso é de uma importância fascinante!

Krishnamurti 1 Brockwood Park, 9 de setembro de 1972

A compreensão não surge através do isolamento

É muito importante compreender todo o processo do nosso pensamento, e essa compreensão não surge através do isolamento. Não existe uma vida isolada. A compreensão do processo do nosso pensamento surge quando nos observamos nos nossos relacionamentos diários, nas nossas atitudes, nas nossas crenças, a maneira como falamos, a maneira como olhamos as pessoas, a maneira como tratamos nossos maridos ou nossas esposas e nossos filhos. O relacionamento é o espelho no qual se refletem os processos do nosso pensamento. Nos fatos do relacionamento se encontra a verdade, não fora do relacionamento. Não existe, é claro, a vida isolada. Podemos, cuidadosamente, eliminar diversas formas de relacionamento físico, mas, ainda assim, a mente permanecerá relacionada. A própria existência da mente implica relacionamento, e o autoconhecimento advém de se enxergarem os fatos do relacionamento tais como eles são, sem inventar, condenar ou justificar. No relacionamento, a mente faz certas avaliações, julgamentos e comparações; ela reage ao desafio de acordo com as várias formas de recordação, e essa reação é chamada de pensamento. Você descobrirá que, se a mente puder ao menos estar ciente de todo o processo, o pensamento se imobiliza. A mente então fica bastante quieta, bastante silenciosa, sem incentivo, sem movimento em qualquer direção, e, nessa quietude, a realidade adquire existência.

Krishnamurti, Rajghat, 6 de fevereiro de 1955

Pense


Liberte-se das influências

Estamos cercados de influências por todos os lados, e estamos sendo influenciados. Quando abris um jornal, ledes um livro, escutais o rádio ou olhais a televisão, consciente ou inconscientemente estais sendo influenciado. Vossa educação é toda ela uma série de influências e diretrizes; e, com esse condicionamento, como podeis ver um fato como fato? Naturalmente, não podeis. Assim, deveis começar por compreender a influência.

Ora, é possível ficar-se livre de influência? Só podeis fazer esta pergunta, quando percebeis que estais sendo influenciado, e não antes disso. Provavelmente estais sendo influenciado por este orador. Se estais, neste caso não estais olhando o fato. Se, porque o orador tem uma certa reputação, aceitais o que ele diz, estais obviamente sendo influenciado. Esta é a natureza da propaganda — mas aqui não estamos fazendo propaganda. Ou vedes por vós mesmo o que é verdadeiro, ou não o vedes. Depende de vós. Não é minha intenção influenciar-vos; mas tudo na vida constitui influência. Vossa mulher e vossos filhos vos influenciam, assim como vós os influenciais. A influência pode ser consciente ou inconsciente. Se consciente, tendes alguma possibilidade de vos livrardes dela; isso é relativamente fácil. Se vossa mulher vos importuna, podeis conformar-vos com isso, ou fazer alguma coisa — sair para a rua, por exemplo. Mas, se estais sendo influenciado inconscientemente, se a influência é profunda e não tendes conhecimento dela, é muito mais difícil vos libertardes — e nosso problema é este. A influência assume mil formas. Há a influência da tradição, a influência de palavras, como “comunista”, “católico”, “protestante”, a influência do partido a que pertenceis, etc, etc.

Ora, é possível estarmos cônscios da torrente de influências que sobre nós se despeja continuamente? Tende a bondade, não digais imediatamente “sim” ou “não”, porque não sabeis. É possível isso? Por certo, para estardes livre de influências, deveis possuir um corpo altamente sensível, e também uma mente, um cérebro não embotado pela tradição, pela sociedade, pela Igreja, com suas crenças e dogmas. Todas estas influências, e muitas outras mais, estão embotando o cérebro. Para nos tornarmos cônscios dessas inúmeras influências, e compreendê-las, temos de libertar-nos do embotamento, da letargia que se apoderou da mente — e a maioria de nós não deseja tal coisa. Muitos de nós estamos confortavelmente instalados na vida. Somos católicos, protestantes comunistas — oh! Sabeis a quantas coisas estamos apegados: nossas nacionalidades, nossas divisões de classes, etc. etc. Instalamo-nos com agrado e conforto numa mente em estagnação. Só sabemos dizer “sim”; tudo aceitamos e nunca contestamos nada.

Assim, precisamos estar cônscios das numerosas influências, cônscios, simplesmente, nunca dizendo: “Sou a favor disto e contra aquilo”. Para estarmos cônscios, temos de observar. Uma pessoa pode tornar-se cônscia das influências que lhe são “despejadas” no inconsciente — completamente cônscia delas. Como outro dia verificamos, só quando o cérebro está quieto (não resistindo, não embotado, porém altamente sensível, muito alertado e vigilante) pode perceber todas as influências inconscientes e, assim, livrar-se delas. Pode-se então ver cada fato como fato — e isso não é muito difícil. Isto é, o indivíduo pode tornar-se cônscio de si próprio, com todas as tortuosidades da ambição. Qualquer pessoa pode observar em si mesma tudo isso, e observar todas as influências inconscientes. Vê-se, então, o fato como fato, a verdade no falso, e a verdade como verdade. Não há divisão, é um processo total.

Krishnamurti - 14 de julho de 1963 – SAANEN, Suíça
Do livro: Experimente um novo caminho - ICK
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)