“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A Educação Proibida | Legendado HD Brasil | Completo

Capacidade de apreciar: uma promessa do paradigma holotrópico

As pessoas desenvolvem uma sensação geral de que a vida é digna de confiança, e não algo a ser combinado ou repelido. Podem se sentir mais tranquilas, relaxadas e satisfeitas com o que têm e em geral apreciam a vida. Depois de terem encontrado numerosas áreas difíceis dentro de si mesmas, essas pessoas emergem frequentemente com uma apreciação profunda da vida. Se viram a morte de perto, a vida torna-se mais valiosa, por contraste, e são capazes de reconhecer e observar aspectos do viver que antes tinham negligenciado. 

Depois de uma crise de transformação, muitas pessoas passam a se voltar mais para o momento presente. Antes podem ter gasto muito tempo vivendo no passado ou preocupadas com o futuro. Devem ter se sentido conduzidas, competitivas ou com um objetivo determinado. Elas têm-se levado muito a sério, preocupadas em demonstrar seu valor constantemente ou seguindo em frente. Tendo alcançado o sucesso, estavam com certeza insatisfeitas, sentindo que havia sempre algo mais a fazer. 

Agora podem sentir menos impulso para provar algo para o mundo já que suas necessidades interiores foram, em geral, atendidas. Por se tornarem livres para aproveitar o momento presente e o que ele oferece, sua orientação obsessiva para um objetivo está menos acentuada. Purificando as energias frenéticas e emoções perturbadoras, muitas pessoas se sentem mais felizes com o que está ao seu alcance e são atraídas pelos aspectos simples e descomplicados da vida. 

Pode-se desenvolver novos interesses no cultivo da tranquilidade e de atividades pacíficas. No passado a pessoa pode ter sido bem-sucedida na agitação ou no drama. Agora ela descobre o que é a verdadeira paz de espírito e se interessa por alimentá-la e desenvolvê-la. Essa pessoa é, em geral, mais capaz de desfrutar da solicitude e de sentir mais apreço pelos seres humanos. O tempo que passa sozinha é qualitativamente diferente do isolamento doloroso e da solidão que ela pode ter sentido anteriormente. Pessoas assim agora podem aproveitar tempos tranquilos de reflexão, de meditação e criatividade. Esse tempo solitário pode se tornar essencial e um elemento importante, um tempo em que podem se religar consigo mesmas e com seus atributos positivos. 

Sentindo-se mais aceitas e satisfeitas consigo mesmas, muitas pessoas também desfrutam mais completamente do contato com os outros. estão menos preocupadas com a questão de como as pessoas irão aceitá-las, de como devem se apresentar ou se serão bem-sucedidas. Ao contrário, em geral elas costumam agir fora de um senso básico de contentamento e de auto-imagem afirmativa e são mais capazes de aceitar os outros e de se relacionar com suas qualidades positivas. 

Podem também sentir que sua percepção foi purificada e que têm uma grande apreciação sensorial do mundo que as cerca. Podem achar que são capazes de vivenciar seu ambiente com mais lucidez, como se seus sentidos tivessem sido aguçados, com uma apreciação maior por detalhes. O mundo parece estar vivo e cheio de riquezas. A música parece ter, de repente, dimensões maiores, e o sabor da comida parece especialmente bom. Antes, se alguém visitava o deserto, podia ser e sentir apenas morte e aridez; agora, a mesma pessoa pode lá estar seletivamente consciente do grande número de formas de vida, do extraordinário espectro de sons, do aspecto exterior das rochas e da vastidão do espaço. 

Algumas pessoas descobrem que podem pensar mais claramente e que de repente têm acesso a fontes de criatividade intactas em seu interior. Podem encontrar novos e imaginativos modos de conceituar a transmitir ideias ou de sentir uma nova corrente de inspiração artística interior. Podem se dedicar a atividades como escrever, pintar, dançar ou cantar, ou podem encontrar novas saídas em seus trabalhos.

(...) Durante uma emergência espiritual muita coisa, ou talvez tudo, muda. O curso é muitas vezes tempestuoso e difícil de navegar, mas isso leva finalmente à paz e à liberdade interior. Voltando para casa, você pode cortar sua madeira e carregar sua água, mas de um modo totalmente novo. E ainda que você possa estar bem consciente de que a iluminação ainda está à sua espera, o caminho que você tem de percorrer estará cada vez mais iluminado.

Stanislav Grof em, A Tempestuosa Busca do Ser

Pode a verdade ser organizada?

Pergunta: Você foi anunciado pela Sociedade Teosófica como sendo o Messias e o Instrutor do Mundo. Por que você saiu da Sociedade Teosófica e renunciou ao papel de Messias?

Krishnamurti: "Vamos examinar a questão das Organizações. Existe uma história bem engraçada que conta que o diabo e um amigo estavam passeando quando viram, a sua frente, um homem abaixar-se e pegar algo brilhante do chão. Ele olhou para aquilo com deleite, colocou-o no bolso e continuou caminhando. O amigo perguntou: “O que aquele homem achou que o transformou tanto?” O diabo respondeu: “Eu sei, ele encontrou a verdade.” “Por Deus!”- exclamou seu amigo: “Isto deve ser um mau negócio para você!”. “De jeito nenhum”- o diabo respondeu com um sorriso malicioso: “Vou ajudá-lo a organizá-la, você vai ver só!”

Pode a verdade ser organizada? Você pode encontrar a verdade através de uma organização? Para encontrar a verdade, você não deve ir além e acima de todas as organizações? Afinal de contas, por que todas as organizações espirituais existem? Elas estão baseadas em diferentes crenças, não? Você acredita em uma coisa e o outro acredita nisso também e em volta dessa crença vocês formam uma organização, e qual é o resultado? Crenças e organizações estão sempre separando as pessoas, excluindo umas das outras; você é um hindu e eu sou um mulçumano, você é um cristão e eu sou um budista. Crenças, ao longo de toda História, atuaram como uma barreira entre os seres humanos, e qualquer organização, baseada em crença, deve inevitavelmente produzir guerra entre os seres humanos; e isso tem acontecido vezes sem conta. Nós falamos de fraternidade, mas se você tem uma crença diferente da minha, estou pronto para cortar sua cabeça; nós temos visto isso acontecer inúmeras vezes.

As organizações são necessárias? Você entende que não estou falando das organizações formadas para conveniência mútua dos seres humanos na sua existência cotidiana, como Correios, etc. Estou falando das organizações psicológicas e das chamadas organizações espirituais. Elas são necessárias? Elas existem na suposição que irão ajudar o ser humano a encontrar a verdade, ou Deus, ou seja lá o que você queira. Elas são um meio de propaganda, para converter o outro, para aumentar o número de adeptos, etc; você quer falar para os outros o que você pensa, ou o que você aprendeu, o que parece ser verdadeiro para você. E a verdade pode ser propagada? O que é verdade para alguém, quando propagado, certamente deixa de ser verdade para o outro. Não? Certamente, a realidade, Deus ou seja lá o nome que você der a isso, não é para ser propagado. Cada um deve experimentar por si mesmo e essa experiência não pode ser organizada; no momento que é organizada, propagada, ela cessa de ser verdade, ela se torna uma mentira, portanto, um impedimento à realidade, porque, afinal de contas, o real, o imensurável, não pode ser formulado, não pode ser colocado em palavras, o desconhecido não pode ser medido pelo conhecido, pela palavra, e quando você o mede, ele cessa de ser verdade, deixa de ser real e, portanto, é uma mentira – e somente uma mentira é que pode ser propagada. E organizações, que supostamente estão baseadas na busca da verdade, fundadas para a busca do real, tornam-se instrumentos dos propagandistas, e assim elas deixam de ter qualquer significado; não apenas a organização que está em questão, mas todas as organizações espirituais, elas se tornam meios de exploração. Elas adquirem propriedades e a propriedade se torna tremendamente importante; passam a procurar mais membros e começa todo aquele negócio; as pessoas não vão encontrar a verdade porque a organização se torna mais importante que a busca da realidade. E nenhuma verdade pode ser encontrada através de qualquer organização porque a verdade vem quando existe liberdade, e liberdade não pode existir quando existe crença, pois crença é apenas o desejo de segurança, e a pessoa que está presa na sua necessidade de segurança nunca pode descobrir a verdade.

Agora, a respeito do papel de messias, é muito simples. Eu nunca neguei isso e não penso que tenha grande importância se eu neguei ou não. O que é importante para você é se o que eu digo é verdade. Assim, não se prenda ao rótulo, não dê importância ao nome. Se eu sou o instrutor do mundo ou messias, ou qualquer outro, é certamente sem importância. Se o nome se tornou importante, então você vai deixar escapar a verdade do que estou dizendo, porque você irá julgar pelo rótulo, e o rótulo é inconsistente. Alguém vai dizer que eu sou o messias, e outro vai dizer que não sou, e onde você fica? Fica na mesma confusão e na mesma miséria, no mesmo conflito. Assim, certamente a questão tem muito pouco significado. Sinto muito desperdiçar seu tempo com essa questão. Se eu sou ou não o messias é de muito pouca importância. Mas o que é importante, se você é realmente sério, é descobrir se o que digo é verdade, e você só pode descobrir se o que eu digo é verdade, examinando-o, e estando agora atento ao que estou dizendo e descobrindo se o que estou dizendo pode ter efeito na sua vida diária. O que estou dizendo não é tão difícil de entender. O intelectual irá achar muito difícil porque sua mente está distorcida, e o devoto também irá achar extremamente difícil, mas a pessoa que está realmente procurando irá entender por causa da sua simplicidade. E o que estou dizendo não pode ser posto em poucas palavras e não vou tentar dizê-lo em poucas palavras. As várias palestras que eu tenho dado e minhas respostas às perguntas irão revelar isso, se você está interessado no que estou dizendo".

Krishnamurti

Os quatro lados da pirâmide do Paradigma Holotrópico

Decifra-me ou te devoro!

 Fase do desenvolvimento da pensamentose



 Fase do choque psíquico


 Fase do restabelecimento

Manifestação da verdadeira liberdade do espírito humano

Uma luz no buraco negro da euforia dos padrões obsessivos compulsivos

Agregarmo-nos a uma comunidade espiritual ou terapêutica não significa necessariamente que teremos de dedicar nossa vida a isso. Porém, se você encontra um mestre espiritual ou um terapeuta eficiente e descobre que ele está comprometido com determinado grupo, considere a hipótese de passar algum tempo com esse grupo.(...) É essencial que o grupo esteja informado sobre as experiências que você está tendo e que queira apoiá-lo e trabalhar com você, se necessário. Nesse ambiente há, mais provavelmente, aqueles que tiveram as mesmas experiências que você está tendo e podem ajudar a dar-lhe uma orientação. Esses também são lugares para se aprender os meios... que ajudarão a facilitar e a completar suas experiências.

(...) Um grupo de pessoas que passou por emergências espirituais poderia oferecer uma ajuda tremendamente significativa a alguém que estivesse no meio de um período crítico... Esses grupos são formados por pessoas leigas em diferentes fases da jornada interior e que compartilham de experiências e interpretações comuns. Para uma pessoa em crise, esses grupos fazem uma reunião para discutir problemas e sentimentos e promovem a empatia e a compreensão. Também podem ajudar você a desenvolver um senso de como e com quem falar sobre suas experiências. Há uma boa chance de que se sinta imensamente aliviado por estar na companhia de outras pessoas que o entendam a fundo e o ouçam sem censuras. Com elas, você poderá alcançar o sentido de comunidade e perder algumas das sensações de solidão e isolamento que poderiam levá-lo a acreditar que você seria a única pessoa que poderia ter esse tipo de experiências.

(...) Em geral, as pessoas saem da crise de transformação com a sensação de que o próximo passo é ajudar os que podem estar desnorteados, oprimidos, com medo, excitados e confusos, exatamente como eram antes. Se passaram pelos altos e baixos do seu próprio processo de emergência, adquiriram o ÚNICO TREINAMENTO EXPERIENCIAL que pode ser EXTREMAMENTE VÁLIDO na assistência a outra pessoas. Isso não significa expor suas revelações, introspecções ou ideologias de um modo messiânico, mas simplesmente ouvir e falar sobre a sua própria jornada sem exigir que outras pessoas reajam de maneira específica.

Uma experiência anterior também lhes possibilita apoiar facilmente o PROCESSO de uma ou outra pessoa em todo o seu drama e complexidade, já que conhecem esses territórios de " trás pra frente". Por terem estado lá, não fazem julgamentos nem se sentem superiores. Tendo vivenciado sua própria cura, têm confiança no POTENCIAL POSITIVO da situação. Esse conhecimento é muito diferente daquele obtido através das leituras a respeito dessas experiências; trata-se de uma sabedoria adquirida pela vivência. Assim como os viciados em drogas e alcoólatras recuperados que continuam a participar do seu próprio crescimento são alguns dos auxiliares mais eficientes no tratamento de outras pessoas com esses problemas, os que passaram por emergências espirituais e têm se integrado às experiências com sucesso são muito eficientes quando trabalham com os que estão na mesma jornada.

Stanislav Grof em, A tempestuosa busca do ser

Você conhece isto?

1 - Falar sobre todos os tipos de coisas que nunca lhe interessaram antes e que eram desconhecidas para você. 
(    )Sim  (   )Não
2 - Mudança no gosto literário, bem como aumento do interesse pela leitura.
(    )Sim  (   )Não
3 - Mudança no palavreado; as conversas são temperadas com palavras como carma, energia, unificação, Deus e consciência, entre outras. 
(    )Sim  (   )Não
4 - Impaciência quando sua nova linguagem não é compreendida ou aceita
(    )Sim  (   )Não
5 - Oscilações emocionais entre melancolia e euforia
(    )Sim  (   )Não
6 - Necessidade de sair falando para todos conhecidos sobre o que está lendo, frequentando ou praticando.
(    )Sim  (   )Não
7 - Interesse pela prática da meditação
(    )Sim  (   )Não
8 - Alteração no estilo estético, como corte de cabelo e de vestuário.
(    )Sim  (   )Não
9 - Dedicação de mais tempo a novos grupos de conhecidos.
(    )Sim  (   )Não
10 - Passa a se mostrar mais distante física e emocionalmente dos familiares e antigos amigos.
(    )Sim  (   )Não
11 - Insatisfação com relacionamento íntimo.
(    )Sim  (   )Não
12 - Falta de energia e dedicação às antigas atividades
(    )Sim  (   )Não
13 - Percepção de que os outros estão achando que está enlouquecendo
(    )Sim  (   )Não
14 - Irritação quando familiares e amigos lhe sugerem a busca por ajuda médica, psiquiátrica ou de um grupo religioso
(    )Sim  (   )Não
15 - Perda das expectativas habituais
(    )Sim  (   )Não
16 - Alteração da expressão do desejo sexual
(    )Sim  (   )Não
17 - Alteração no padrão do sono
(    )Sim  (   )Não
18 - Início de uma manifestação de consciência ecológica
(    )Sim  (   )Não
19 - Mudança no estilo alimentar
(    )Sim  (   )Não
20 - Tornar-se mais introspectivo
(    )Sim  (   )Não
21 - Flutuação em extremos emocionais
(    )Sim  (   )Não
22 - Rejeição aos padrões sociais e necessidade de afastamento
(    )Sim  (   )Não
23 - Tendência a impor aos outros discussões de temas que apontam para suas novas necessidades
(    )Sim  (   )Não
24 - Tendência a psicoanalisar as pessoas e a lhes indicar materiais literários que acredita serem benéficos para suas mudanças.
(    )Sim  (   )Não
25 - Postura messiânica na qual força volumes de livros e filmes para as pessoas de seu contato.
(    )Sim  (   )Não
26 - Tendência de direcionar o tema das conversações para longe dos temas dos familiares.
(    )Sim  (   )Não
27 - Recusa a se informar quanto as notícias do dia-a-dia
(    )Sim  (   )Não
28 - Diante da rejeição por parte dos conhecidos, torna-se profundamente crítica para com eles.
(    )Sim  (   )Não
29 - Postura interna de quem se encontra no caminho da verdade e que os outros ainda estão nas trevas
(    )Sim  (   )Não
30 - Intercalados acessos de culpa, raiva e paranóia (as vezes conjuntamente)
(    )Sim  (   )Não
31 - Confusão entre o processo psicológico interior e a realidade exterior
(    )Sim  (   )Não
32 - Confundir o libertar a si mesmo das limitações internas com o verdadeiro afastamento da família. 
(    )Sim  (   )Não
33 - Sente que seu modo de ser não é mais compatível com o da família
(    )Sim  (   )Não
34 - Profunda necessidade de isolamento que por vezes faz com que abandone relacionamento, pais, filhos, amigos, emprego e lar.
(    )Sim  (   )Não
35 - Preocupação com a morte
(    )Sim  (   )Não
36 - Por causa de desconhecidos novos sintomas físicos, passa a alimentar preocupação com doenças
(    )Sim  (   )Não
37 - Sentimento de que seu verdadeiro objetivo é a união com Deus, e não com um mortal como a esposa, e a necessidade de manter celibato
(    )Sim  (   )Não
38 - Busca do sexo tântrico como forma de alcançar a Deus
(    )Sim  (   )Não
39 - Aumenta da capacidade intuitiva e da sensibilidade energética à pessoas e ambientes
(    )Sim  (   )Não
40 - Sentimento de estar sendo guiado por coincidências significativas
(    )Sim  (   )Não

Baseado no livro:
A tempestuosa busca do ser

O Paradigma Holotrópico e o resgate da integridade


O prazer como escapismo do vazio


Da cooperação, entusiasmo e respeito com a emergência espiritual

É importante que você saiba que muitos dos problemas que surgem durante o curso da sua emergência espiritual, como aqueles que envolvem seus relacionamentos, sua casa, sua vida profissional e sua saúde, serão revividos como parte de um processo de transformação — e não somente através do vigor de seus esforços. É impossível para nós dar-lhe informações ou soluções para essas dificuldades em si. No entanto, podemos lhe reassegurar que se você permitir que o processo de emergência vá avante, se o mundo interior que lhe está causando incômodo for totalmente expresso, você entrará novamente em contato com a vida diária; além disso, terá provavelmente uma capacidade cada vez maior para um desempenho efetivo e descobrirá por que os problemas aparentes foram necessários para o seu desenvolvimento. 

Você pode sentir como se a sua emergência espiritual tivesse consciência de si mesma, chegando à sua vida sem ser convidada e seguindo o seu próprio curso sem ligar para o tempo ou para a conveniência. Apesar do fato de que a vida durante esse período pode ser um desafio maior que consome muito tempo e energia, você pode viver mais comodamente na vida diária cooperando e trabalhando ativamente nesse processo de cura. Sua atitude para com esse evento é muito importante: já que você está limitado pelo medo, pela resistência, pela descrença ou pela rejeição, uma oportunidade de mudança de vida em potencial pode ser tolhida ou até mesmo interrompida. 

De acordo com a nossa experiência, uma vez que um processo de emersão é acionado, não parará até que tenha terminado o seu curso. O período intenso do despertar pode levar algum tempo, variando de alguns meses a vários anos. Pode ser que, por vezes, o processo de transformação seja mais penoso ou óbvio do que outros, mas geralmente é contínuo até que termine. Abordá-lo com medo ou interrompê-lo prematuramente é contraproducente. Você irá descobrir, muito provavelmente, que uma atitude de resistência torna esse processo mais difícil; como resultado, ele durará muito mais tempo. 

Se você for capaz de manter um senso geral de cooperação e até mesmo de entusiasmo a respeito da sua emergência espiritual, o processo todo será mais fácil e, certamente, mais curto. E você terá uma boa chance de emergir da sua jornada com uma sensação de realização e de vitória, e não de vergonha e desconforto. Então, como aprender a lidar com esse processo importante? 

Em geral, as pessoas em emergência espiritual saberão intuitivamente o que é certo para elas, mas terão problemas para traduzir em ações essas descobertas.

Pensamos que é útil lançar mão de duas estratégias gerais: a primeira (e preferível) é criar uma situação na qual você possa se confrontar totalmente com as experiências ocultas que estão tentando emergir, passando por elas e aprendendo com o seu conteúdo; a segunda, é adotar medidas que inibirão o processo de emersão e diminuirão temporariamente seu impacto na vida diária quando as circunstâncias o exigirem. 

Stanislav Grof 

Fenômenos transpessoais além da experiência diária

Cenas do filme LUCY (2014)
A natureza extraordinária de fenômenos "transpessoais" torna-se ÓBVIA quando os comparamos com a nossa percepção diária do mundo e das limitações que consideramos obrigatórias e inevitáveis. No estado comum ou normal da consciência, percebemos a nós mesmos como corpos materiais sólidos e a nossa pele como a fronteira e interface com o mundo exterior. Nas palavras do famoso escritor e filósofo Allan Watts, um intérprete e divulgador dos ensinamentos orientais no Ocidente, isto leva-nos a acreditar em "egos envolvidos pela pele". 

Estamos comumente limitados em nossa percepção do mundo pelos limites das nossas impressões e pela configuração do meio. Não podemos ver barcos além do horizonte ou objetos dos quais estejamos separados por uma parede sólida. É impossível para nós observar e ouvir a interação de pessoas em localidades distantes. Não podemos sentir o gosto da comida que não esteja em nossa boca, sentir o cheiro de uma flor se o vento o estiver soprando para longe de nós ou sentir a textura de objetos sem tocá-los. Com nossos sentidos COMUNS, podemos vivenciar o que está acontecendo aqui e agora — na nossa localização geográfica momentânea e no momento presente. 

Nos estados transpessoais da mente (que transpassam os condicionamentos), todas essas limitações parecer ser transcendidas. Podemos nos sentir como uma atividade energética ou um campo de consciência que não está confinado a um recipiente físico. Isso pode se desenvolver mais para a identificação com a consciência de outras pessoas, com grupos de indivíduos ou até mesmo com toda a humanidade. O processo pode se estender além dos limites humanos e incluir vários animais, plantas e até materiais inorgânicos e acontecimentos. Parece que tudo o que possa ser vivenciado no dia-a-dia como um objeto tem, nos estados incomuns de consciência, um comportamento correspondente numa experiência subjetiva. O que comumente percebemos como elementos separados de nós — como pessoas, animais, árvores e pedras preciosas — podemos, na verdade, transformar e identificar num estado transpessoal. 

O tempo e o espaço param de ser limites; a pessoa pode vivenciar vários eventos histórica e geograficamente remotos tão nitidamente como se eles estivessem acontecendo aqui e agora. É possível participar de sequências que envolvam os ancestrais de alguém, animais antepassados e pessoas de várias culturas e períodos anteriores a nós, que não estão de modo algum geneticamente relacionados conosco. Em alguns casos, isso pode ser associado a uma impressão de lembranças pessoais

O mundo dos fenômenos transpessoais já oferece um outro desafio intelectual e filosófico. Ele envolve freqüentemente entidades e áreas que na visão do mundo ocidental não são consideradas como partes da realidade objetiva, como as divindades, os demônios e outras personagens mitológicas de várias culturas, ou céus, purgatórios e infernos. Essas experiências são tão convincentes e reais quanto as que incluem  elementos que são familiares àqueles da nossa vida diária. Os estados transpessoais, então, não diferenciam entre o mundo da realidade  consensual e o mundo mitológico das formas arquetípicas.

Christina Grof
Confira o vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=68Kaa1y2gFQ

Por que não apoiamos o processo da crise e emergência espiritual?


Por que parentes amigos e, inclusive nós mesmos, 
não apoiamos o processo da crise e emergência espiritual?


(...) Considerando a natureza e o potencial positivos das experiências de pico, pode parecer confuso que elas se tornem uma fonte de crise espiritual. A principal razão para essas complicações é a falta de conhecimento sobre os estados incomuns de consciência na cultura ocidental. Como resultado, somos incapazes de reconhecer o valor desses experiências, de as aceitar e de as apoiar. A opinião que prevalece na psiquiatria tradicional e entre o público geral é a de que quaisquer desvios da percepção e do conhecimento da realidade comum são patológicos, Nessas circunstâncias, um ocidental comum, ao passar por um estado místico, tenderá a questionar sua sanidade mental e a resistir à experiência. Os parentes e os amigos apoiarão, muito provavelmente, essa atitude e irão sugerir ajuda psiquiátrica. Muitas pessoas, durante uma experiência de pico, foram mandadas a psiquiatras que lhes deram rótulos patológicos, interrompendo suas experiências com medicação tranquilizante e atribuindo-lhes o pale de pacientes psiquiátricos por toda a vida.

(...) Para um observador desinformado, as experiências do indivíduo envolvido em um processo de "renovação" são vistas como algo estranho e extraordinário, que pode parecer lógico atribuí-las a algum processo estranho ou a uma doença séria que esteja afetando o funcionamento do cérebro.

Christina Grof — A tempestuosa busca do ser

Os problemas da Emergência espiritual no meio ambiente

Algumas pessoas ficam deprimidas depois de entrar em contato com as áreas transcendentais, porque sua vida diária parece árida e desinteressante, em comparação com a radiação e a liberação que experimentaram. Um terapeuta escreveu sobre às limitações do corpo físico depois de uma experiência mística: 

"Naquele estado iluminado eu me senti completamente sem limites e livre, rodeado e repleto de uma luz brilhante, banhado por uma enorme sensação de paz. Quando comecei a voltar ao mundo cotidiano, senti que meu novo 'Eu' abrangente estava se afunilando, voltando a ser uma unidade retraída: o meu 'Eu' físico cotidiano. Meu corpo se sentia como uma armadilha de aço que prendia e dominava todas as minhas possibilidades. Senti a dor e o drama da vida diária começando a me pressionar, e chorei quando ansiei por voltar para a liberdade que havia descoberto."

Algumas pessoas nessa situação podem realmente querer permanecer num estado prazeroso, excluindo suas responsabilidades diárias. Ou podem preferir repetir a experiência pela qual estão passando, em vez de aproveitar a possibilidade de vivenciar outros estágios de sua jornada espiritual que, mesmo não sendo tão belos e extraordinários, são igualmente importantes. Como resultado, podem abster-se de colaborar para seu maior desenvolvimento pessoal, resistindo e até mesmo censurando tudo o que seja inferior ao estado místico positivo. 

Em geral, as pessoas se beneficiam de seus encontros com o Divino, mas têm problemas com o seu meio ambiente. Em alguns casos, falam a quem estiver próximo a elas sobre um estado místico poderoso. Se a família, seus amigos ou seus terapeutas não entenderem o potencial de cura dessas dimensões, talvez não as considerem válidas ou ficarão automaticamente preocupados com a sanidade mental da pessoa querida ou do cliente. Se a pessoa que passa pela experiência estiver totalmente hesitante a respeito de sua validade ou inquieta quanto ao seu estado mental, a preocupação dos outros pode ampliar essas dúvidas, comprometendo, encobrindo ou obscurecendo a riqueza dos sentimentos e das sensações originais. 

As dificuldades também surgem quando os encontros transcendentais ocorrem em situações em que possam ser mal-interpretados. As pessoas geralmente acham menos problemático serem dominadas por um estado místico de ruptura dentro dos limites de uma sala de meditação ou de seu quarto do que no meio de um corredor de shopping ou num terminal de aeroporto. Se uma pessoa não estiver numa situação estável durante a dissolução das fronteiras pessoais, é provável que tenha dificuldade para atuar no mundo externo. Por exemplo, quem se sentir inseguro de seu movimento ou da sua coordenação física pode parecer desajeitado e desorientado. Se, ao mesmo tempo, tiver que se comunicar com um garçom de restaurante ou com um guarda de segurança do aeroporto, esse comportamento poderá ser facilmente mal-interpretado. 

Outros chegarão a ter medo de que, se permitirem que essas experiências entrem em suas vidas, sua nova consciência trará consigo obrigações adicionais e indesejáveis para as pessoas à sua volta ou para o mundo em geral. Pode-se perguntar: "Essa revelação significa que eu tenho que realizar algo a respeito? Presumir-se-ia que eu ajudaria as outras pessoas a compreenderem o que descobri? Isso me daria uma função especial no mundo?"

Ou talvez tenham uma reação contrária: podem sentir que são abençoados pela Providência Divina e que por isso merecem um reconhecimento especial e um STATUS elevado que os colocarão acima das relações comuns. Podem ter descoberto, inesperadamente, que sua vida faz parte de uma ordem cósmica complexa e interligada; como resultado, podem sentir que Deus tomará conta de tudo e que estão, portanto, isentos de muitas responsabilidades na vida. 

Estreitamente relacionado com isso está o modo como as pessoas demonstram essas descobertas. Se t~em ligação com o que sentem ser Deus ou um Poder Superior, ou com um ser celestial como Jesus ou Buda, podem permitir que esse estado distorça o seu ego ou seu senso de identidade pessoal. Em vez de compreenderem que se aproximaram de uma realidade que é potencialmente acessível a qualquer um, sentem que essa realidade é exclusivamente delas mesmas. Em vez de emergir da experiência com o conhecimento da própria divindade e da divindade de tudo e de todos, sentem-se como Deus e têm uma mensagem para o mundo. Essas pessoas podem desenvolver tendências messiânicas que, quando expressas, chegam a afastá-las dos demais.

(...) Considerando a natureza e o potencial positivos das experiências de pico, pode parecer confuso que elas se tornem uma fonte de crise espiritual. A principal razão para essas complicações é a falta de conhecimento sobre os estados incomuns de consciência na cultura ocidental. Como resultado, somos incapazes de reconhecer o valor desses experiências, de as aceitar e de as apoiar. A opinião que prevalece na psiquiatria tradicional e entre o público geral é a de que quaisquer desvios da percepção e do conhecimento da realidade comum são patológicos, Nessas circunstâncias, um ocidental comum, ao passar por um estado místico, tenderá a questionar sua sanidade mental e a resistir à experiência. Os parentes e os amigos apoiarão, muito provavelmente, essa atitude e irão sugerir ajuda psiquiátrica. Muitas pessoas, durante uma experiência de pico, foram mandadas a psiquiatras que lhes deram rótulos patológicos, interrompendo suas experiências com medicação tranquilizante e atribuindo-lhes o pale de pacientes psiquiátricos por toda a vida.

Christina Grof - A tempestuosa busca do ser
Foto: Filme Lucy

Filme Lucy e o desejo de abandonar o processo

Muita gente se sente despreparada para as diretrizes das esferas sagradas. Estes são fatos e estados mentais desconhecidos, que permitem às pessoas penetrar na PRÓPRIA CONSCIÊNCIA, o que geralmente significa abandonar os conceitos já conhecidos sobre a realidade. Elas também podem sentir que não são suficientes fortes para suportar o profundo impacto das manifestações físicas e sensórias de experiências místicas, ou que não estão suficientes abertas para manipular o seu poder. O professor espiritualista americano Ram Dass compara essas pessoas a uma "torradeira", e sua reação a "ligar o seu plugue em 220 volts em vez de 110, enquanto tudo torra". Recebendo esse enorme insumo físico, mental, emocional e espiritual, elas podem se sentir dominadas e uma sensação natural talvez seja a de RECUAR.
Uma resposta semelhante ao desejo de recuar pode ocorrer durante uma forte experiência de luminosidade. Às vezes as pessoas sentem que sua visão está bastante fraca ou demasiado obscurecida para lidar com a intensidade de luz ofuscante com medo de ficar literalmente cegas se permitir em que a experiência prossiga. Quando isso acontece, podem sentir muita dor física ao redor dos olhos.

Um praticante de meditação relembra o horror que sentiu durante um estado transpessoal "positivo": "Foi muito estranho... Eu havia lido sobre a experiência da luz em livros sobre espiritualidade e só tinha ouvido falar disso como sendo algo ligado à alegria. Eu ansiava por esse tipo de experiência há muito tempo, e tentava de várias formas de trabalho interior para chegar a isso. Mas, quando realmente aconteceu, fiquei horrorizado. Foi impressionante: era doloroso, terrível e MARAVILHOSO ao mesmo tempo. Senti como se tudo aquilo fosse demais e que EU NÃO PODIA SUPORTAR. Pensei em Moisés e na sarça ardente, que era tão brilhante que ele teve que se afastar. Reconheci, desamparado, que eu não seria capaz de compreender o que acontecia".

Embora o sofrimento que acontece durante um encontro místico possa ser sentido como destrutivo e violento no início, com o tempo as pessoas em geral o reconhecem como a dor da abertura do crescimento espiritual. Elas chegam até a receber isso como um sinal da sua ligação com o Divino, como descreve Santa Tereza de Ávila:

"A dor era tão aguda que eu gemia, mas o encanto dessa tremenda dor era tão poderoso que não se poderia querer abandoná-la, nem a alma se satisfaria com nada a não ser com Deus. Era uma dor espiritual, não física, embora o corpo tivesse alguma parte nisso, até que considerável. Era uma troca de cortesias entre a alma e Deus."


A experiência da desintegração positiva do ego, também pode apresentar problemas. Enquanto algumas pessoas aceitam de bom grado a oportunidade de se liberar e de se expandir, outras estão muito ligadas às suas IDENTIDADES INDIVIDUAIS, e se esse momento crítico for muito assustador, elas podem resistir ou brigar devido a isso. Embora esse estado de perda do ego seja transitório, as pessoas que estão passando por ele sentem que esse processo é permanente. Aprisionadas entre o que conhecem de si próprias como são e em quem estão se transformando, podem se perguntar: "Quem sou eu? Onde isto está me levando? Como posso ter confiança no que está acontecendo?"

Algumas pessoas podem não confiar na realidade de suas novas possibilidades, ou podem ter medo de que os estados que estão sendo vivenciados sejam sinais de doença mental. Elas sentem que estão se desviando muito do COMUM. Chegam até a temer que depois de entrar em contato com o Divino tenham mudado tanto que as pessoas do seu convívio compreenderão imediatamente que elas estão "diferentes", e pensarão que são especiais ou loucas.

Outras podem lutar com áreas transcendentais, não importando quão belas e serenas elas sejam, porque não sentem o valor da experiência. Conhecemos várias pessoas com problemas permanentes de auto-imagem que se sentem desmerecedoras de qualquer experiência que seja muito agradável ou muito próspera. Em geral, quanto mais benevolente for o seu estado espiritual, mais ativamente tentarão resistir a ele.

Christina Grof — A tempestuosa busca do ser

Da dificuldade de encontros nutritivos


Neste cena do filme Lucy, temos o arquétipo que aponta para uma das grandes dificuldades encontradas por todo aquele que se vê inserido dentro de um processo de emergência espiritual, que procede de uma crise iniciática: a extrema dificuldade de ver nutrição nas antigas formas de relação sempre sustentadas pela alimentação da imagem pessoal; relações destituídas de um genuíno compartilhar. Essa dificuldade se dá porque, de certo modo, passamos a prever o discurso do script alheio, através de uma espécie de leitura do que ocorre no interior daqueles com quem nos relacionamos e que nem sequer imaginam da realidade dessa nova percepção de visão restaurada pelo processo de prontificação.

O filme Lucy e o processo da morte positiva do ego

As emoções ou sensações associadas às áreas divinas internas são comumente o oposto daquelas que uma pessoa pode encontrar nas regiões escuras. Em vez de dor ou alienação, pode-se descobrir uma sensação abrangente de unidade e interconexão com toda a criação. Em vez de medo, a pessoa pode ser possuída por êxtase, paz e profunda sensação de apoio pelo processo cósmico. Em vez de vivenciar a "loucura" e a "confusão", encontra um sentimento de lucidez mental e de serenidade. E, em vez de uma preocupação permanente com a morte, pode entrar em contato com um estado em que se sinta eterna, compreendendo que alguém é, de repente, o corpo e tudo o mais que existe. Devido, em parte, à sua natureza inefável e ilimitada, os domínios divinos são mais difíceis de descrever do que as regiões escuras, embora poetas e místicos de todas as épocas tenham criado metáforas para torná-los próximos. Durante alguns estados espirituais, pode-se entender o meio ambiente comum como uma criação gloriosa da energia divina, cheia de mistério; tudo dentro disso parece fazer parte de uma bela trama interligada.
(..)
Muitas pessoas que vivenciaram essas dimensões interiores, reconhecem-nas como partes da essência ilimitada e efusiva de cada ser humano, que é comumente obscurecida pelos problemas e preocupações da vida diária. Por causa da sua lucidez e vivacidade, os estados transcendentais em geral dão a sensação de que são mais reais do que a realidade "comum"; as pessoas sempre comparam a descoberta desses campos ao despertar de um sonho, ao remover os véus obscuros ou à abertura das portas da percepção. Algumas vezes fazem novas descobertas e adquirem conhecimentos complexos sobre o processo da vida de fontes dentro de si e que geralmente não lhe são acessíveis.
Assim como alguém pode penetrar no domínio desolador da morte do ego durante a noite escura da alma, também pode encontrar um tipo de morte positiva do ego nos domínios transcendentais. Ali, as fronteiras pessoais se dissolvem temporariamente e a pessoa pode se sentir incorporada ao mundo externo ou ao cosmos. Um dos tipos mais comuns de desagregação é aquele em que as pessoas se sentem como se estivessem se perdendo no divino imanente, que é encontrado no seu ambiente. É comum sentirem que suas identidades individuais podem se debilitar quando se fundem ao mundo conhecido dos humanos, das árvores, dos animais ou da natureza inorgânica. Durante uma outra forma de dessa experiência, frequentemente se sentem incorporadas aos domínios divinos que transcendem a realidade diária.

Alfred Lord Tennyson escreve sobre esse estado:

Mais de uma vez quando
Me sentei sozinho, refletindo sobre mim mesmo
A palavra que é o símbolo de mim mesmo,
O limite mortal do Eu foi liberado,
E transferido ao anonimato, como uma nuvem
Que se dissolve no céu.

Esta experiência, em geral, toma a forma de uma perda benigna do ego, uma dissolução das suas estruturas, que é necessária para se alcançar uma ampla definição do eu. O santo e filósofo indiano Sri Ramana Maharishi comparou esse processo àquele da boneca de açúcar que vai em busca de um banho de mar e se dissolve no oceano da consciência. Uma forma mais impressionante de morte positiva do ego é um confronto repentino com a luz, comparado pelos místicos à mariposa que voa para a chama sagrada e é consumida instantaneamente.

Os encontros com as regiões divinas durante o processo de emergência espiritual são extremamente terapêuticos. Atingindo-as, a pessoa sente, em geral, emoções positivas, tais como êxtase, alegria, gratidão, amor e satisfação, que podem aliviar ou dissipar rapidamente os estados negativos, tais como a depressão e a raiva. Sentir-se parte de uma rede cósmica abrangente em geral garante à pessoa que tem problemas com o amor-próprio o desenvolvimento de uma nova auto-imagem.

As pessoas envolvidas no processo e que passam logo por essas experiências se sentem afortunadas; desenvolvem uma compreensão filosófica que as acompanhará através das futuras mudanças. Sentem mesmo que, emboras as coisas possam se tornar duras, ao menos têm uma ideia de para onde estão indo. É como dar uma olhada no topo da montanha, e então, mesmo que precisem voltar à base para escalá-la, têm a perspectiva de que há uma recompensa à sua espera no final da jornada. Isso é bem preferível à situação em que a pessoa gasta meses cavando um túnel através das sensações e emoções difíceis, sem nenhuma ideia de qual seja o propósito.


Christina Grof - A Tempestuosa Busca do Ser
Fotos do filme Lucy (2014)

Da preocupação consigo mesmo


Da necessidade de afastamento do que é familiar

Uma pessoa em emergência espiritual pode parecer "diferente" por uns tempos. Numa cultura de padrões estabelecidos e frequentes expectativas rigorosas, alguém que comece a mudar internamente pode não parecer ajustado. Talvez um dia suba na mesa do trabalho ou na mesa de jantar e queira falar sobre novas ideias ou descobertas como, por exemplo, sentimentos sobre a morte, questões a respeito do nascimento, lembranças da velha e obscura história da família, perspectivas incomuns para os problemas mundiais ou sobre a natureza básica do universo.

A estranha qualidade desses conceitos e a intensidade com que uma pessoa os apresenta pode induzir colegas, amigos e membros da família e se afastarem, e a sensação de solidão, já presente, aumenta. Seus interesses e valores podem mudar, e a pessoa talvez não queira participar de certas atividades. Beber com os amigos ao entardecer não é mais tão interessante quanto costumava ser; pode parecer até repugnante.

As pessoas nessa situação podem sentir-se muito diferentes por causa da natureza das experiências que estão vivendo. Elas percebem que estão crescendo e mudando — enquanto o resto do mundo continua parado — e que ninguém pode segui-las. Podem ser induzidas a atividades que as pessoas do seu convívio não entendem ou não apoiem. Seu súbito interesse por orar, cantar, meditar ou por qualquer sistema esotérico, tais como a Astrologia ou a Alquimia, parecerá estranho para a família e para os amigos, podendo aumentar sua necessidade de afastamento.

Se uma pessoa nesse estágio é classificada como um paciente psiquiátrico, os rótulos e tratamentos que lhe são dados combinarão com sua sensação de isolamento. Os sentimentos de separação são reforçados cada vez que lhe é passada a mensagem verbal ou não verbal: "Você está doente. Você é diferente".

As pessoas em processo de transformação podem mudar também sua aparência. Elas cortam ou deixam crescer os cabelos ou são atraídas por roupas que refletem um desvio do padrão. Os exemplos são encontrados na cultura psicodélica dos anos 60 e 70, quando muitas pessoas tiveram revelações espirituais e, em vez de expressá-las de modo aceitáveis pela sociedade, sentiram-se impulsionadas a transferi-las, formando uma cultura à parte ou "do contra", caracterizada pelas roupas expressivas, jóias, corte de cabelo e até mesmo carros pintados com cores brilhantes.

Outros exemplos são encontrados em vários grupos espirituais. Pode-se esperar que os iniciados no zen-budismo raspem suas cabeças e tenham uma vida de simplicidade exterior. Os seguidores do guru Osho não só se vestiam com roupas de uma certa cor como também usavam um MALA, ou rosário, contendo uma imagem do mestre, e mudavam seus nomes para nomes indianos. Como parte do judaísmo ortodoxo, os homens apresentam frequentemente yarmulkes e barbas, seguindo um severo estilo de vida religioso. Uma comunidade que acolhe pessoas que são praticantes espirituais tolerará ou até encorajará esse tipo de comportamento. No entanto, alguém que decida de repente adotar esses comportamentos que saltam aos olhos enquanto estiver vivendo fora de uma situação de apoio pode passar por um isolamento ainda maior.

Para muitas pessoas em emergência espiritual a transformação acontece sem esses tipos de manifestações de alienação exterior. Em outras palavras, porém, mais mudanças aparentes ocorrem na conduta. Para alguns, esses novos modos de comportamento são fases passageiras do desenvolvimento espiritual, enquanto que, para outros, podem tornar-se parte permanente de um novo estilo de vida.

Christina Grof — A tempestuosa busca do ser

A solidão de visão mareja os olhos do coração

A solidão é outro componente intrínseco da emergência espiritual. Pode variar desde uma vaga percepção de separação das outras pessoas e do mundo até um mergulho profundo e abrangente na alienação existencial. Alguns sentimentos de alienação interior têm relação com o fato de que as pessoas em emergência espiritual têm de encarar os estados incomuns de consciência que nunca ouviram ninguém descrever e que são diferentes das experiências diárias de seus amigos e de sua família. Porém, a solidão existencial parece ter muito pouco a ver com as influências pessoais ou exteriores. 

Muitas pessoas em processo de transformação se sentem isoladas pela natureza das experiências que estão tendo. Como o mundo interior se torna mais ativo, pode-se experimentar a necessidade de afastar-se temporariamente das atividades diárias e preocupar-se com pensamentos profundos, com sentimentos e processos internos. O relacionamento com os outros pode ir perdendo a importância e a pessoa chega a se sentir desligada do que realmente é. Quando isso está acontecendo, a pessoa pode ter uma grande sensação de separação de si mesma, dos outros e do mundo que a cerca. Para as pessoas nesse estado, até o calor humano e a segurança familiar são inacessíveis. 

Um jovem professor fala sobre a solidão que viveu durante a emergência espiritual: "Eu costumava me deitar na cama, ao lado de minha esposa, à noite, e me sentia completa e inegavelmente sozinho. Ela foi uma grande ajuda e um grande conforto para mim durante a minha crise. Mas, durante esse período, nada que ela fizesse poderia me ajudar — nenhum carinho, nenhum grau de encorajamento". 

Sempre ouvimos pessoas em emergência espiritual dizerem: "Ninguém nunca passou por isso antes. Sou o único que já se sentiu desse jeito!" Essas pessoas não só sentem que o processo é único para elas, mas também estão convencidas de que ninguém na história jamais passou pelo que estão passando. Talvez porque se sintam tão especiais, acreditem também que determinado terapeuta ou professor confiável seja o único que possa conseguir compartilhar de seus sentimentos e ajudá-las. Suas fortes emoções e percepções estranhas as estão levando para tão longe de suas vivências anteriores que facilmente assumem o fato de serem anormais. Sentem que há algo de muito errado com elas e que ninguém seria capaz de compreendê-las. Se têm terapeutas que também sofrem de mistificação, suas sensações de total isolamento aumentam. 

Mesmo que as pessoas nesse estado estejam conscientes da variedade de planos teóricos e sistemas espirituais que descrevem estados semelhantes, encontrarão diferença entre estudá-los e estar no meio deles. 

(...) Durante a crise existencial, a pessoa se sente separada do seu eu mais profundo, do mais alto poder ou de Deus — o que quer que seja de que ele dependa além de recursos pessoais para ter força se inspiração. O resultado é o mais devastador tipo de solidão, uma total e completa alienação existencial que penetra todo o ser.

(...) Essa profunda sensação de isolamento parece ser acessível a muitos seres humanos, independentemente de sua história e é, quase sempre, um ingrediente fundamental na transformação espiritual. Irina Tweedy, uma mulher russa que estudou com um mestre sufi na Índia, escreveu: 
A grande separação está aqui... uma sensação especial e estranha de solidão absoluta... não pode ser comparada a nenhum sentimento de solidão pelo qual todos tenhamos passado alguma vez na vida. Tudo parece escuro e inanimado. Não há nenhum propósito em lugar algum ou em coisa alguma. Nenhum Deus para quem rezar, nenhuma esperança. Nada, de modo algum.

Essa sensação de extremo isolamento é refletida na desolada prece de Jesus na cruz: "Meu Deus, meu Deus. Por que me abandonaste?" As pessoas que estão assim perdidas frequentemente citam o exemplo do momento mais sombrio de não encontrar nenhuma ligação com o Divino; ao contrário, têm uma sensação permanente e angustiosa de que foram abandonadas por Deus. Mesmo quando a pessoa é cercada de amor e apoio, pode imbuir-se de uma solidão profunda e dolorosa. Quando desce ao abismo da alienação existencial, nenhum calor humano pode mudar isso. 

As pessoas às voltas com uma crise existencial não se sentem apenas isoladas, mas também insignificantes, como pontinhos inúteis na vastidão do cosmos. O universo parece ser absurdo e sem sentido, e nenhuma atividade humana aparenta ter importância. Essas pessoas podem ver a humanidade como que sendo envolvida por estilo de vida em que "um quer engolir o outro", sem um objetivo que valha a pena. Por esse ângulo, não podem entender nenhum tipo de ordem cósmica e não têm contato com a força espiritual. Chegam a tornar-se extremamente depressivas, desesperadas e até suicidas. Frequentemente, percebem que mesmo o suicídio não é a solução; parece que não há nenhuma saída para seu sofrimento.

Christina Grof — A Tempestuosa Busca do Ser

Filme: Um sonho de Liberdade

Ontem assistimos novamente este maravilhoso filme, pelas lentes do paradigma. Sem dúvida, um filme que nos apresenta muitos arquétipos do processo de libertação da rede condicionada pelo medo, pressão, tempo e memória. A observação é fundamental em todas as atividades. A libertação vem de dentro, depois do processo de muitos anos de deserto, através do uso do martelo da verdade, que arrebenta as grossas paredes psicológicas não vistoriadas que nos mantém longe do mergulho nos dutos das nossas merdas e dos antepassados. Sem esse corajoso mergulho não há como se deparar com a árvore da vida e, muito menos, preparar um barco seguro, para junto com outros, se aventurar nas águas claras do mar da transcendência do prisioneiro que pensávamos ser.

Outsider

Das dificuldades iniciais com família e sociedade

Filmes sobre a influência familiar no processo do autoconhecimento

O medo é uma parte natural do mosaico de mudanças

O medo é uma parte natural do mosaico de mudanças. De alguma forma, ele normalmente acompanha uma emergência espiritual, quer seja uma leve sensação de interesse na participação dos eventos diários, quer um grande terror pairando livremente, que não parece estar vinculado a nenhum aspecto familiar da vida da pessoa. Um pouco de ansiedade é algo típico dessas situações: não apenas muitos de seus sistemas de crença familiares estão sucumbindo, mas a própria pessoa está se tornando extremamente emotiva. O corpo se sente como se estivesse caindo aos pedaços, com novas tensões físicas e dores inoportunas. Porém, o medo parece completamente ilógico, como se não tivesse nenhuma relação com a pessoa envolvida. às vezes, a pessoa em crise pode lidar com vários medos relativamente fáceis enquanto em outras ocasiões o medo parece se desdobrar num pânico totalmente incontrolável. 

Os homens têm vários tipos de medo, desde as formas mais óbvias, como o horror a danos físicos ou à morte, até os mais sutis, como ansiedade ao perguntar um endereço a um estranho. Apesar de seus vários medos, muitas pessoas são capazes de atuar muito bem na vida diária, sem se deixarem dominar por eles. Durante muitas emergências espirituais, no entanto, os medos diários se intensificam e se concentram, tornando-se, frequentemente, incontroláveis. Eles podem assumir a forma de uma ansiedade oscilante ou cristalizar-se em diversos tipos de medo. 

Medo do desconhecido — Em certo grau, isto é comum a muitos seres humanos. Quando nossas vidas tomam um rumo desconhecido, quase sempre reagimos automaticamente tornando-nos apreensivos e resistentes. Algumas pessoas podem atirar-se ao desconhecido quase sem hesitar, com o que parece ser uma coragem invejável. Porém, se algumas pessoas penetrarem em territórios totalmente ignorados, o farão contra a sua vontade ou com a maior cautela possível. 

Para as pessoas em emergência espiritual, o medo do desconhecido pode tornar-se espantosamente exagerado. Seus estados interiores costumam mudar de forma tão rápida que causam receio a respeito do que está por vir. Estão sempre inseridos em domínios insondáveis, em novos conhecimentos e possibilidades não discernidas. Uma mulher materialista pode ter uma manifestação espontânea fora do corpo e aprender que ela é mais do que a sua identidade física. Um homem pode passar, de repente, por uma complexa sequência visual e emocional que parece vir de outra época e de outro lugar. Sua experiência o impele a pensamentos sobre reencarnação, um conceito totalmente estanho a ele. 

Esses tipos de acontecimentos repentinos podem ser muito assustadores para os que estão despreparados. Essas pessoas se sentem inseguras sobre aonde estão indo ou como vão se sentir, e as mudanças muito rápidas levam-nas ao medo de que estejam perdendo o controle de suas vidas. Podem ansiar pela familiaridade da segurança, pelo velho modo de ser e pela vida mais tranquila e menos exigente da qual vieram, ainda que fossem infelizes. 

Medo de perder o controle — Um homem que passou muitos anos trabalhando para ter uma vida familiar próspera pode ter seu futuro bem planejado e se sentir responsável pela sua vida. Quando a mulher desenvolve uma doença terminal, sua vida muda para um rumo diferente do que tinha planejado. Seu sonho é destruído e o desgaste emocional que se segue pode iniciar um processo de transformação nele. Muito dolorosamente, ele percebe que não tem poder sobre as forças da vida e da morte e que está sujeito a forças acima do seu comando. 

Muitas pessoas passam anos sentindo que seu mundo é disciplinado e que têm total autoridade sobre suas vidas. Quando descobrem que não estão inteiramente no controle de suas trajetórias de vida, ficam às vezes muito aliviadas. Outras vezes, tornam-se bastante assustadas, especialmente quando se sentem profundamente responsáveis. Com certeza, perguntarão a si mesmas: "Se não estou no comando, quem está? E ele, ela ou isto é de confiança? Posso me entregar a uma força desconhecida e ter a certeza de que ela tomará conta de mim?"

Comparados aos medos de perder o controle, a mente e o ego tornam-se muito criativos em seus esforços para persistir; as pessoas nessas situação podem criar um sistema complexo de negação, falando para si próprias que estão bem do jeito que são e que não precisam se submeter a mudanças ou que as modificações que sentem são apenas ilusórias. Podem intelectualizar os estados mentais pelos quais estão passando, criando teorias elaboradas para invalidá-los. Ou podem tentar simplesmente anulá-los, passando por eles juntos. Às vezes, a própria ansiedade torna-se uma defesa; apoiando-se nos sentimentos de medo, podem impedi-los de se desenvolverem muito rapidamente. 

Há uma outra forma de perder o controle que é muito menos gradual e mais dramática. Às vezes, durante uma emergência espiritual, a pessoa pode ser dominada por fortes episódios durante os quais perde completamente o controle do seu comportamento. A pessoa pode "explodir" com raiva e em lágrimas, tremer violentamente e gritar como nunca havia feito antes. Essa liberação incomum de emoção talvez aconteça, mas antes disso, a pessoa pode ser tomada por um grande medo e se deixar envolver e resistir a esse sentimento. Depois desse tipo de "explosão", a pessoa também pode se sentir assustada e envergonhada quando se der conta da intensidade da sua atitude.

Christina Grof — A tempestuosa busca do ser

Por que minha vida é insignificante?

"Minha vida é insignificante — suponhamos — e trato, pois de dar-lhe significação. Pergunto: “Qual é a finalidade da vida?” — porque, se a vida tem alguma finalidade, poderei então viver em harmonia com essa finalidade. E, assim, invento ou imagino uma finalidade, ou, pela leitura, pela investigação, pela busca, encontro uma finalidade; estou, por conseguinte, dando significação à vida. Como o intelectual, à sua maneira, dá significação à vida, negando ou afirmando que ela tem finalidade e um significado, nós também atribuímos significação à vida por meio de nossos ideais, da busca de um alvo, de Deus, de Amor, da Verdade. E isso, com efeito, significa que, se não damos significação à vida, nossa existência não terá para nós importância alguma. O viver não nos parece tão bom como desejaríamos que fosse, e por isso desejamos dar significação à vida. Não sei se estais percebendo isto.”

“Qual é a significação de nossa vida, da vossa e da minha, independentemente dos filósofos? Ela tem alguma significação, ou lhe estamos dando significação pela crença, tal como faz o intelectual que se torna católico, isto ou aquilo, encontrando assim um abrigo? Como seu intelecto reduziu tudo a cacos, ele se vê agora sozinho, desamparado, etc., e não podendo suportar tal estado, necessita de uma crença, no catolicismo, no comunismo, em qualquer coisa que lhe dê alento e dê significação à sua vida.”

“Agora, pergunto a mim, mesmo: Por que razão queremos uma finalidade? E que significa viver sem finalidade alguma? Compreendeis? Sendo a nossa vida vazia, atribulada, triste, precisamos dar-lhe uma significação. E há possibilidade de ficarmos cônscios de nosso vazio, nossa solidão, nossos sofrimentos, todas as tribulações e conflitos de nossa existência, sem darmos, artificialmente, um significado à vida? Podemos estar cônscios dessa coisa extraordinária que chamamos a vida — que significa ganhar o próprio sustento, que significa inveja, ambições e desenganos — estar cônscios, simplesmente, de tudo isso, sem condenação ou justificação, e passar além? A mim me parece que, enquanto estivermos procurando ou dando uma significação à vida, estaremos perdendo algo de extraordinariamente vital. O mesmo acontece com o homem que quer achar a significação da morte e está constantemente empenhado em racionalizá-la, explicá-la, e impedido, assim, de “experimentar” o que é a morte.”

Krishnamurti – 13 de agosto de 1955 – Ojai (Califórnia) U.S.A.

Sobre o desejo de suicidar-se

PERGUNTA: Tenho desejo de suicidar-me; a vida não tem finalidade nem significação alguma. Para qualquer lado que olhe, não vejo senão desespero, sofrimento e ódio. Por que devo continuar a viver neste mundo monstruoso?

KRISHNAMURTI: Por que uma pessoa se suicida? Não há diferentes maneiras de nos suicidarmos? Não vos suicidais, quando vos identificais com vossa pátria? Não vos suicidais, ao vos tornardes membro de um partido, ao ingressardes numa seita? Não vos suicidais quando credes em alguma coisa? Isto é, entregai-vos de corpo e alma a algo que é “maior”; essa coisa “maior” é vossa “projeção” daquilo que pensais deveríeis ser; a identificação de vós mesmo com uma coisa maior (e essa coisa maior é o vosso desejo de algo mais digno) é uma maneira de nos suicidarmos. Escutai isso; não o rejeiteis, Senhores.

Muitos de vós estais identificados com este país; estivestes na prisão, tendes lutado. Não vos suicidastes por uma causa muito insignificante? Outro se suicida por não mais ter crença; tornou-se cínico, toda a sua vida intelectual levou-o, apenas ao desespero e ao sofrimento, e por isso ele se suicida. O homem que crê e o homem que não crê, tanto um como outro se suicidaram, cada um à sua maneira, visto que todos dois querem fugir de si mesmos. Querem fugir, servindo-lhes de fuga a pátria, a idéia do nacionalismo, a idéia de Deus; e quando Deus e o nacionalismo falham, ou quando falha a pátria ou o ideal que ela representa, esses homens se vêem na escuridão. E, também, quando qualquer de nós depende de um amigo ou depende da pessoa amada, se nos tiram esse arrimo, vemo-nos de novo à beira do precipício e dispostos a dar o salto na treva. Dessarte, todos nós — pela identificação com algo que é “maior”, pela crença, e por várias outras maneiras de fuga, procuramos evitar a nós mesmos; e quando tornamos a cair em nós mesmos, vemo-nos perdidos, sós, desesperados. E estamos prontos a suicidar-nos. Tal é a nossa condição, não achais? Uma pessoa que amais vos abandona, e sentis ciúmes; revela-se-vos a vacuidade da vossa mente e do vosso coração e ficais aterrado; e, conseqüentemente, estais disposto a abrigar-vos num novo refúgio; e assim por diante.

Assim, pois, enquanto não compreendermos a nós mesmos, achar-nos-emos sempre na orla da escuridão. Dizemos que o mundo é horrível, que o mundo é miserável. O mundo, porém, é uma coisa que nós criamos, o mundo são as nossas relações com outro. Se nessas relações há dependência, então tem de haver temor, frustração, desilusão; e daí, o desejo de suicídio Todavia se tendes uma crença muito forte, ela vos contém; e essa crença mesma condiciona-vos a mente, conscientemente, de modo que não vedes a necessidade de exame interior; essa crença atua ela própria como meio de fuga. Quanto mais religiosa uma pessoa, tanto menor a inclinação para o suicídio.

Quanto mais indagais, quanto mais investigais, tanto maior se vos torna o medo de conhecer intimamente a vacuidade de vossa solidão. Mas, não deveis olhar de frente esse vazio, sem estardes amparado em alguma coisa? Não deveis pôr-vos no estado em que vos vedes completamente só, e compreender esse estado? Não deveis vêr-vos só, para achardes aquilo que “é só”, aquilo que não está contaminado, que nunca foi pensado? Não podeis, porém, alcançar esse “estado de só”, se tendes medo da solidão. Quase todos temos medo de olhar-nos a nós mesmos, e temos por esta razão muitas vias de fuga; e quando se mostram improfícuas essas vias, tornamos a cair em nós mesmos. É este o momento oportuno para nos examinarmos interiormente; temos de compreender esse vazio, e não fugir-lhe da presença, por meio de ritos, de distrações de qualquer espécie, do saber ou da crença.

Só podeis examinar esse vazio quando a vossa mente nele se absorve por inteiro, quando tomais conhecimento dele sem nenhuma tendência a traduzi-lo e sem desejardes que ele se modifique – e isso é coisa muito difícil. Visto sermos em geral, muito preguiçosos, preferimos refugiar-nos numa crença qualquer ou suicidar-nos. Assim, pois, é só quando uma pessoa compreende o que significa a solidão e a ela se sujeita, aí, somente, essa pessoa se purifica para “ser só”; e apenas essa solidão pode achar aquilo que é o ser, onde não existe o “eu”, com todas as suas lutas, contradições e confusões.

Krishnamurti – AUTOCONHECIMENTO – BASE DA SABEDORIA – 18 de fevereiro de 1953
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill