“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A família é a causa raiz de milhares de doenças da humanidade

A menos que a família desapareça do mundo essas religiões, essas nações, essas guerras não vão desaparecer, porque elas são todas baseados na família. A família ensina que você é um Hindu e a religião hindu é a melhor religião de todas; que as outras religiões são assim-assim.

O Cristianismo continua programando as crianças: Você só pode ser salvo através de Jesus Cristo. Ninguém mais pode te salvar. Todas as outras religiões são apenas moralidades, muito superficiais, elas não estão aí para ajudá-lo.

E uma criança, junto a seu peito de alimentação é, também, alimentada continuamente com todos os tipos de superstições – Deus, Espírito Santo e o filho unigênito de Deus, Jesus, o céu e o inferno...

As crianças são muito vulneráveis, porque eles nascem como uma tabula rasa, uma página em branco - nada está escrito sobre elas, suas mentes são puras. Você pode escrever o que quiser sobre a criança e cada família comete o crime: elas destroem o indivíduo e criam um escravo. A obediência é a virtude, a desobediência é o pecado original.

Quando uma criança começa a ser programada desde o nascimento, quando ela é muito vulnerável e muito suave, você pode escrever qualquer coisa. Isso vai continuar em seu inconsciente. Pode dizer a ela que ‘’Nossa nação é a maior nação do mundo’; cada nação está dizendo isso. ‘Nossa religião é a maior religião, nossa escritura é escrita pelo próprio Deus’ – Os Hindus estão dizendo isso, os Cristãos estão dizendo isso, os Judeus estão dizendo isso. Todo mundo está cometendo o mesmo crime.

O Cristianismo é claro faz isso de forma mais eficiente, mais astuciosamente, porque é a maior religião no mundo. Ele usa técnicas ultra-modernas de programação. Ele envia os seus missionários para aprender a psicanálise, para aprender como programar as pessoas, como desprogramar pessoas.

Se um Hindu tem que ser convertido para o cristianismo, primeiro ele tem que ser desprogramado do hinduísmo. Novamente a tabula rasa aparece; o que foi escrito é apagado. Agora você pode escrever de novo: 'O cristianismo é a maior religião do mundo e não houve nenhum homem como Jesus Cristo, e nunca haverá novamente, porque ele é o único filho de Deus.’

Todas as guerras dependem da família. Tem sido uma tradição em muitas nações no passado que você deve contribuir com pelo menos um filho para o exército, para proteger a nação, para proteger a dignidade e o orgulho da nação.

No Tibete, cada família tem de contribuir com o filho mais velho para os mosteiros. Isso tem sido feito há milhares de anos, como se as crianças fossem apenas mercadorias que você pode contribuir, como se as crianças fossem dinheiro que você pode dar em caridade.

Isto dividiu o mundo em diferentes campos por causa das assim chamadas religiões, por causa da política, por causa de nacionalidades, por causa de raças. Todos eles dependem da família. A família é a causa raiz de milhares de doenças da humanidade.

Osho, em Cristianismo, O Mais Mortal dos Venenos e o Zen, O Antídoto para Todos os Venenos

No autoconhecimento, não há espaço para a autopiedade

A dor tem raízes na autopiedade, e para compreender a dor é preciso que se processe inicialmente uma rude operação na autopiedade como um todo. Não sei se vocês já observaram como vocês têm pena de si mesmos quando dizem, por exemplo, "estou solitário". No momento em que surge a autopiedade, surge também o solo preparado para receber as raízes da dor. Não importa quanto você possa racionalizar a sua autopiedade, justificá-la, poli-la, encobri-la com ideias — ela ainda está presente, fazendo suas chagas lá nas suas profundezas. Assim, o homem que deseja compreender a dor deve começar por se tornar livre trivialidade brutal, autocentrada e egoística que é a autopiedade. Você pode sentir autopiedade por estar doente, ou porque perdeu alguém por morte, ou porque não se satisfez e portanto está frustrado, embrutecido; mas qualquer que seja a causa, a autopiedade é a raiz da dor. E quando por fim você estiver livre da autopiedade, poderá olhar para a dor sem adorá-la ou fugir dela, ou dar a ela um significado sublime ou espiritual, tal como dizer que você precisa sofrer para encontrar Deus — o que é uma enorme besteira. Apenas as mentes estúpidas e obtusas se conformam com a dor. Assim, não deve haver qualquer tipo de aceitação da dor, bem como não deve haver negação dela. Quando você estiver livre da autopiedade, terá despido a dor de todo sentimentalismo, de toda emotividade produzida pela autopiedade. Então você estará apto a encarar a dor com plena atenção.

[...] Percebam a própria aceitação tola da dor, sua racionalização, suas desculpas, sua autopiedade, seu sentimentalismo, sua atitude emocional em relação á dor, porque tudo isso é dissipação de energia. Para compreender a dor, vocês precisam de toda a sua atenção a ela, e nesta atenção não há lugar para desculpas, para sentimentos, para racionalização, não há lugar para qualquer tipo de autopiedade.

Espero estar sendo claro quando falo em dar atenção total à dor. Nessa atenção não há qualquer tentativa de resolver ou compreender a dor. Apenas olhar, observar. Qualquer tentativa de compreender, de racionalizar ou de escapar da dor, naquele estado de completa atenção no qual o que chamamos de dor pode ser compreendido.

Não estamos analisando, não estamos investigando analiticamente a dor de forma a nos livrarmos dela, pois este é outro truque da mente. A mente analisa a dor e, a seguir, imagina que a compreendeu e que está livre dela — o que é asneira. Você pode se ver livre de determinado tipo de dor, mas a dor surgirá novamente, de outra forma. Estamos falando da dor como uma coisa global — da dor encarada dessa maneira —, seja ela sua, ou minha, ou de qualquer outro ser humano.

Para compreender a dor é preciso que haja compreensão do tempo e do pensamento. É preciso que haja uma percepção involuntária de todas as fugas, de toda autopiedade, de todas as verbalizações, de forma que a mente se torne completamente silenciosa frente a algo que precisa ser compreendido. Não há então distinção entre o observador e aquilo que está sendo observado. Não se trata do fato de que VOCÊ, o observador, o pensador, tem uma dor e a está percebendo, mas há apenas o ESTADO de dor. Esse estado de dor indistinta é necessário, pois quando se olha para a dor como observador cria-se um conflito que embrutece a mente e dissipa energia, e portanto não há atenção.

Quando a mente compreende a natureza do tempo e do pensamento, quando arrancou todas as raízes da autopiedade, do sentimento, da emotividade e de todo o resto, então o pensamento — que criou toda essa complexidade — chega ao fim e não existe mais o tempo; logo você está direta e intimamente em contato com aquilo a que chamou de dor. A dor é mantida apenas quando existe uma fuga, um desejo de fugir dela, de resolvê-la ou de adorá-la. Mas quando não existe nada disso porque a mente está em contato direto com a dor, e está portanto completamente silenciosa em relação a ela, então você descobrirá por si mesmo que a mente não está com dor, em absoluto. No momento em que a mente de alguém está completamente em contato com o fato gerador da dor, esse fato por si mesmo resolve todas as qualidades produtoras de dor, do tempo e do pensamento. E, por conseguinte, há o fim da dor.

Krishnamurti em, Saanen, 28 de julho de 1964

O "outro estado" não vem por palavras e conjecturas

A Verdade, a Realidade, ou "o outro estado", não se acha num ponto fixo, não se pode alcançar por um certo caminho, e temos de descobri-la de momento a momento. Se está num ponto fixo, nesse caso esse ponto se acha dentro dos limites do tempo. Para um ponto fixo pode haver um caminho, como há um caminho para suas casas; mas para uma coisa viva que não tem pouso fixo, que não tem começo nem fim, não pode haver caminho algum. 

[...] o que é reconhecível, não pode ser aquele outro estado. O outro estado não é reconhecível, pois nunca foi conhecido; não é uma coisa que já experimentaram e que são capazes de reconhecer. O "outro estado" é uma coisa que tem de ser descoberta de momento a momento; e para descobri-la, a mente tem de ser livre. Senhor, a mente tem de estar livre para descobrir qualquer coisa; e a mente agrilhoada pela tradição, antiga ou moderna, a mente que leva a carga da crença, dos dogmas, dos ritos, não é livre, evidentemente. 

[...] Aspiramos àquele outro estado, e uma vez que não sabemos como alcançá-lo, passamos invariavelmente a depender de alguém, a quem chamamos de instrutor, guru, ou a depender de um livro, ou de nossa experiência. E está criada a dependência, e onde há dependência há também autoridade. A mente se torna, por conseguinte, escrava da autoridade, escrava da tradição, e essa mente, evidentemente, não é livre. Só a mente que é livre, pode descobrir; e contar com a ajuda de outrem para o despertar da mente, é o mesmo que recorrer a uma droga que os fará ver as coisas com muita nitidez, muita clareza. Há drogas que podem fazer a vida parecer momentaneamente, muito mais "vital", de modo que todas as coisas assumem um relevo, um brilho extraordinário — as cores que veem todos os dias, sem lhes dar atenção, se tornam extraordinariamente belas, etc. Tal poderá ser o "despertar" da mente de vocês, mas estarão então na dependência da droga, como dependem agora do seu guru ou de um certo livro sagrado. E quando se torna dependente, a mente se embota. Da dependência provém o medo — o medo de não se realizar o que se quer, o medo de não ganhar. Quando dependemos do outro, seja o Salvador, seja outro qualquer, isso significa que a mente está em busca de um resultado feliz, um fim satisfatório. Podem chamá-lo Deus, a Verdade, ou como quiserem  mas é sempre uma coisa que se quer ganhar. E assim, a mente fica aprisionada, se torna escrava e, não importa o que faça — se sacrificar, se disciplinar, se torturar — essa mente nunca descobrirá o outro estado. 

O problema, pois, não é quem seja o instrutor correto, mas sim descobrir se a mente pode se manter desperta. E isso só se pode descobrir quando todas as relações se tornam um espelho, em que ela SE VÊ EXATAMENTE COMO É. Mas a mente não pode se ver como é, QUANDO HÁ CONDENAÇÃO OU JUSTIFICAÇÃO daquilo que vê, OU SE HÁ QUALQUER TIPO DE IDENTIFICAÇÃO. Todas essas coisas tornam a mente embotada e, embotados que estamos, desejamos ser despertados. Por essa razão nos amparamos em outro, para que nos desperte. Mas, em virtude do próprio desejo de ser despertada, a mente embotada se torna mais embotada ainda, porquanto não percebe a causa de seu embotamento. É só quando a mente percebe e compreende todo esse processo, e não depende de explicações de ninguém, é só então que ela é capaz de se libertar. 

Mas, COMO É FÁCIL NOS SATISFAZERMOS COM PALAVRAS, COM EXPLICAÇÕES! São POUQUÍSSIMOS  os que rompem a barreira das explicações, ultrapassando as palavras e descobrindo POR SI MESMOS o que é verdadeiro. A capacidade é produto da aplicação, não é? Mas nós não nos aplicamos, PORQUE NOS SATISFAZEMOS COM PALAVRAS, com especulações, com as tradicionais respostas e explicações com que fomos criados. 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana

A urgente busca de um "outro estado" de ser

Penso que a maioria de nós acha a vida muito sem sentido. Para ganharmos nosso sustento, precisamos exercer uma certa profissão, e esta se torna muito monótona; tem início uma rotina, que temos de seguir, ano por ano, até morrer. Ricos ou pobres, e ainda que sejamos muito eruditos ou dotados de espírito filosófico, nossas vidas são em geral superficiais, vazias. Há evidentemente uma insuficiência em nós mesmos, e ao nos tornarmos conscientes desse vazio, procuramos preenchê-lo com conhecimentos, com alguma espécie de atividade social, ou nos refugiamos com todo ordem de divertimentos, ou nos apegamos a alguma crença religiosa. Ainda que tenhamos uma certa capacidade e sejamos muito eficientes, nossas vidas são, ainda assim, sem sentido e, para nos livrarmos dessa falta de sentido, dessa cansativa monotonia da vida, buscamos uma certa forma de enriquecimento religioso, tentamos alcançar aquele "estado de ser" extra-humano que não é uma rotina e que, por enquanto, pode ser chamado "o outro estado". Em nossa busca desse outro estado, encontramos muitos sistemas diferentes, diferentes caminhos que se supõe conduzirem a ele; e, assim, pelo disciplinamento de nós mesmos, pela prática de determinado sistema de meditação, pela observância de um certo ritual ou a repetição de certas frases, esperamos alcançar aquele estado. Sendo a nossa vida um ciclo interminável de dores e prazeres, de variadas experiências sem muita significação ou mera repetição, sem sentido algum, de uma mesma experiência — o viver constitui para a maioria de nós uma monótona rotina. Por esta razão, o problema de nosso enriquecimento interior, da conquista do "outro estado" — chamem-no Deus, a Verdade, bem-aventurança ou como quiserem — se torna muito urgente, não é verdade? Vocês podem estar bem de vida, bem casado, ter filhos, podem pensar de maneira inteligente e equilibradamente, entretanto, sem aquele estado, a vida se torna horrivelmente vazia

Que se deve, pois, fazer?Como conquistar aquele estado? Ou é completamente impossível conquistá-lo? A nossa mente, como hoje está constituída, é sem dúvida muito insignificante, limitada, condicionada; e embora uma mente limitada possa especular a respeito do "outro estado", suas conjecturas serão sempre limitadas. Ela poderá formular um estado ideal, conceber e descrever aquele outro estado, mas suas concepções permanecem dentro de suas estreitas limitações, e penso que aí é que se encontra o fio da meada: no perceber que a mente não pode, em circunstância alguma, experimentar, viver aquele outro estado, se se limita a formulá-lo ou especular a seu respeito. Não há dúvida de que esta é uma descoberta extraordinária: o perceber que, sendo a mente limitada, pequena, estreita, superficial, todo movimento que faça para alcançar aquele estado extraordinário, constitui um empecilho. O descobrimento deste fato, não especulativamente porém realmente, é o começo de uma nova maneira de considerar o problema. 

Nossas mentes, na verdade, são produto do tempo, de muitos milhares de dias passados, resultado da experiência baseada no "conhecido"; e, em tais condições, a mente é uma continuação do conhecido.  A mente de cada um de nós é resultado da cultura, educação, e por mais extenso que seja o seu saber ou preparo técnico, ela é sempre produto do tempo; por conseguinte, é limitada, condicionada. Com esta mente, queremos descobrir o incognoscível; e compreender que essa mente nunca poderá descobrir o incognoscível, constitui uma experiência verdadeiramente extraordinária. Descobrir que a mente de um indivíduo, por mais sagaz, por mais sutil, por mais ilustrada que seja, não pode de modo nenhum compreender aquele outro estado — esse descobrimento traz consigo uma certa compreensão "fatual" e acho que este é o começo de uma perspectiva da vida que poderá abrir  porta que conduz àquele outro estado. 

Expressando o problema de maneira diferente: a mente está sempre e sempre ativa, "tagarelando", planeando, e é capaz de extraordinária sutilezas e invenções. E de que maneira pode esta mente se tornar quieta? Vê-se que toda atividade da mente, todo movimento que faça, em qualquer direção, é reação do passado. Como aquietar esta mente? Se a aquietarmos por meio da disciplina, sua quietude é um estado em que não há investigação, busca, não é exato? Em tais condições, ela não está aberta para o "desconhecido", "o outro estado". 

[...] Disciplina implica, invariavelmente, repressão e conflito da dualidade — e isso está na esfera da mente — e por esse caminho prosseguimos, esperando captar o outro estado. Mas nunca indagamos inteligente e sadiamente se nossa mente é capaz de captá-lo. Foi nos sugerido de que a mente deve estar tranquila, mas a tranquilidade foi sempre cultivada por meio da disciplina. Isto é, temos o ideal de uma mente tranquila, e buscamos realizar este ideal por meio de controle, luta, esforço. 

Ora bem, se consideram atentamente esse processo, em sua inteireza, verão que está todo no terreno do conhecido. Consciente da monotonia de sua existência, cansada de suas repetidas experiências, a mente se empenha em conquistar aquele "outro estado". Mas, quando se percebe que a mente é o "conhecido" e que todo movimento que faz não a leva ao outro estado, que é o "desconhecido", o nosso problema se resume então, não em como conquistar o desconhecido, mas em descobrir se a mente pode libertar-se do "conhecido". Penso que este problema deve ser considerado por todo aquele que deseje descobrir se existe alguma possibilidade de "realizar o outro estado", o desconhecido. Assim sendo, como pode a mente, que é resultado do passado, do conhecido, libertar-se do conhecido? Espero que esteja me fazendo claro. 

Como disse, a mente atual — tanto consciente como inconsciente — é produto do passado, resultado acumulado de influências raciais, climáticas, dietéticas, e outras. A mente, portanto, está condicionada, condicionada como cristã, hinduísta, budista ou comunista, e é bem óbvio que ela projeta aquilo que considera ser o real. Mas, que a sua "projeção" seja a do comunista, que julga prever o futuro e quer forçar toda a humanidade a se adaptar ao padrão de sua Utopia, quer seja a "projeção" do chamado homem religioso,  que também julga conhecer o futuro e educa a criança, a pessoa de acordo com seu ponto de vista particular — nem uma nem outra dessas projeções é o Real. Sem o Real, a vida se torna muito sem sentido, como é atualmente para a maioria das pessoas. E sendo sem sentido as nossas vidas, começamos a nos tornar românticos e sentimentais, a respeito do outro estado, do Real. 

Ora, vendo-se que este é o padrão de nossa existência, e sem entrarmos em muitos pormenores, pergunto se é possível a mente se libertar do conhecido, constituído das acumulações psicológicas do passado. Há também o conhecido representado pelas nossas atividades diárias, mas deste, como ´bem óbvio, a mente não pode se livrar; porque se qualquer um de nós se esquecesse o caminho de sua casa, ou esquecesse os conhecimentos que o habilitam a ganhar o sustento, estaria à beira da demência. Mas pode a mente se libertar dos fatores psicológicos do conhecido, que lhe oferecem a segurança pela associação e a identificação?

Para investigar esta matéria, teremos de descobrir se há realmente diferença entre o pensador e o pensamento, entre o observador e a coisa observada. Atualmente, há uma divisão entre os dois, não é verdade? Pensamos que o "eu", a entidade que experimenta, é diferente da experiência, do pensamento. Há um intervalo, uma divisão entre o pensador e o pensamento e por essa razão dizemos: "Tenho de controlar o pensamento". Mas o "eu", o pensador, é diferente do pensamento? O pensador está sempre procurando controlar o pensamento, moldá-lo de acordo com um padrão que considera ser bom; mas existe pensador, se não existe pensamento? Só há pensar, e este cria o pensador. Podemos colocar o pensador em qualquer nível, chamá-lo o Supremo, o Atman ou o que quer que seja; mas ele continua a ser resultado do pensar. O pensador não criou o pensamento; foi o pensamento que criou o pensador. Reconhecendo a sua própria impermanência, o pensamento cria o pensador, como entidade separada, a fim de dar permanência a si mesmo, pois é isso, afinal de contas, o que todos desejamos. Vocês podem dizer que a entidade que chamam Atman, alma, pensador, está separada do pensamento, da experiência; mas só podem estar conscientes da existência de uma entidade separada, por meio do pensamento e, também, por causa do condicionamento de vocês como hinduísta, cristão, ou o que quer que sejam. Enquanto existir esta dualidade de pensador e pensamento, existirá necessariamente conflito, esforço, ou seja, a ação da vontade. E uma mente que quer se libertar, que diz: "Tenho de me libertar do passado" – o que essa mente faz é só criar outro padrão.

Assim, a mente só pode se libertar — e só assim então se torna possível a existência do "outro estado" — depois de cessar o esforço do "eu" para alcançar um resultado, neste mundo ou no outro mundo. Tudo o que fazemos se baseia em luta, ambição, sucesso, consecução de objetivos; e por essa razão, pensamos que há "realização" de Deus, ou da Verdade, só se torna possível mediante esforço. Mas esforço denota atividade egocêntrica para alcançar um fim. Não significa abandono do "eu".


Agora, se estão conscientes de todo esse processo da mente — tanto consciente como inconsciente — se realmente o percebem e compreendem, verão a mente se tornar sobremaneira tranquila, sem esforço algum. A tranquilidade conseguida à força de disciplina, controle, repressão, é a tranquilidade da morte. A tranquilidade a que me refiro se manifesta sem esforço algum assim que compreendemos todo esse processo da mente. Só então existe a possibilidade de se manifestar aquele outro estado, que se pode chamar a Verdade, ou Deus. 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana


Sobre a ilusão de controle do tédio e do pensamento

Breve relato de uma experiência de pico

O encontro da real família

Embriagado com O Que É

Tudo É o presente instante

A revelação de uma dimensão sem linguagem

O Universo é Silêncio

O insight da segunda vinda do Cristo

Tornando se um inimigo do status quo

Quem está pronto para ver sua realidade?

A mente na evolução planetária

Toda a humanidade está seguindo o morto


Minha abordagem para seu crescimento é basicamente para lhe tornar independente de mim. Qualquer tipo de dependência é escravidão, e a dependência espiritual é a pior escravidão de todas. Eu tenho feito muito esforço para lhe tornar ciente de sua individualidade, de sua liberdade, de sua capacidade absoluta de crescer sem qualquer ajuda de ninguém. Seu crescimento é algo intrínseco ao seu ser. Isso não procede de fora; não é uma imposição, é uma revelação. 

Todas as técnicas de meditação que tenho dado a vocês não dependem de mim – minha presença ou ausência não irá fazer nenhuma diferença – elas dependem de vocês. Não é minha presença mas vossa presença que é necessária para que estas funcionem. Não é meu estar aqui, porém, vosso estar aqui, vosso estar no presente, vosso estar alerta e cônscios que irá ajudar.
 
Todo o passado do homem é, de maneiras diferentes, uma história de exploração. E mesmo as assim chamadas pessoas espirituais não puderam resistir a tentação de explorar. De centenas de mestres, noventa e nove por cento tentaram impor a ideia de que, “Sem mim você não pode crescer, nenhum progresso é possível. Passe para mim toda sua responsabilidade”. Mas no momento que você dá toda sua responsabilidade para alguém, desapercebidamente você também está dando toda sua liberdade.
 
E naturalmente, todos esses mestres tiveram que morrer um dia, mas eles deixaram longas filas de escravos: Cristãos, Judeus, Hindus, Maometanos. O que são essas pessoas? Porque alguém deve ser um Cristão? Se você pode ser alguém, seja um Cristo, nunca um Cristão. Está você completamente cego a humilhação de quando você chama a si mesmo de um Cristão, um seguidor de alguém que morreu a dois mil anos atrás?
 
Toda a humanidade está seguindo o morto. Não é esquisito que o vivo deva seguir o morto, que o vivo deva ser dominado pelo morto, que o vivo deva depender do morto e das promessas deles de que ‘Nós viremos para salvar vocês?’
 
Nenhum deles veio para salvar vocês. De fato, ninguém pode salvar ninguém mais; isso vai de encontro a verdade fundamental da liberdade e individualidade.
 
No que se refere a mim, estou simplesmente fazendo todo esforço para tornar vocês livres de todos – inclusive de mim – e apenas ficar sozinho na trilha da busca.

Osho

O tédio é a resposta da ausência de amor

A importância de uma mente tranquila

Não pode existir meditação sem autoconhecimento; e autoconhecimento é perceber como a mente busca incentivos, como se serve de sistemas e como disciplina a si mesma, a fim de alcançar o que ambiciona, o que espera ganhar. Estar consciente de tudo isso é meditação, pois a meditação não significa apenas se esforçar para tranquilizar a mente. A tranquilização da mente é muito fácil, bastando tomar uma droga ou repetir certas frases; mas, em tal estado, a mente não está tranquila. Só está tranquila, quando compreender o que é meditação. A mente tranquila não está dormindo mas, sim, sobremodo vigilante; mas a mente que foi COLOCADA tranquila, está estagnada, e a mente estagnada nunca compreenderá o que existe além dos seus próprios limites. A mente só pode descobrir o que existe além, quando compreende totalmente o seu processo; e essa compreensão requer completa atenção, plena vigilância, por parte da mente, para descobrir o significado de suas próprias atividades. Não é necessário praticar nenhum sistema de disciplina. Para não desfigurar o que vê, a mente deve estar livre e toda tendência para a comparação, o julgamento, a condenação — livre, não ao fim de certo tempo, porém, justamente no começo. E isso requer imensa atenção. Verão então que a mente se tornará totalmente tranquila — não apenas no nível superficial, porém muito profundamente — sem ser impelida a se tornar tranquila. Em certos momentos raros, pode nos ocorrer uma experiência de tranquilidade; mas essa mesma experiência se torna um empecilho, porque se torna memória, coisa morta. 

Assim, para termos a mente tranquila, temos de morrer para todas as experiências; e quando a mente se acha verdadeiramente tranquila, então, nesta mesma tranquilidade, algo se manifesta, que não se pode exprimir por palavras, porquanto, não há possibilidade de reconhecimento. Tudo o que é reconhecível, já é coisa sabida; e quando a mente se acha tranquila, está completamente livre do conhecimento. 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à Plenitude Humana

Existe descontentamento sem objetivo, sem "motivo"?

Por que estamos descontentes, e que há de maus no descontentamento? Evidentemente, estamos descontentes porque — para dize-lo com muita simplicidade — queremos ser alguma coisa. Se sou um bom pintor, pinto para tornar-me mais famoso; se escrevo um poema, sinto-me insatisfeito por não achá-lo bom e luto para melhorar a minha capacidade.  Se sou dessas pessoas ditas religiosas, também neste terreno quero ser alguma coisa. Sigo o exemplo dos vários santos e desejo alcançar nome igual ao deles. Desde meninos, sempre nos dizem que devemos ser bons ou melhores do que os outros. Fui criado na base da comparação, da competição, da ambição e, por isso, levo em toda a vida o peso do descontentamento. Propriamente falando, descontentamento é inveja; e nossa cultura religiosa e social está baseada na inveja. Somos estimulados para sermos alguma coisa, para maior glória de Deus. Por um lado, estimula-se o descontentamento, e, por outro lado, queremos achar meios e modos de dominar o descontentamento. Estando descontentes, econômica, socialmente, recorremos aos exemplos religiosos, a fim de encontrarmos satisfação; meditamos, praticamos disciplinas, a fim de nos livrarmos do descontentamento, ficarmos em paz. Isto está acontecendo com todos vocês e eu lhes digo que é uma coisa completamente fútil, sem nenhum significado. Seguir, imitar, obedecer uma autoridade em assuntos religiosos é uma coisa má, assim como é uma coisa má a tirania do governo, porque então está completamente perdida a individualidade. 

Atualmente, vocês não são indivíduos, e sim meras máquinas de imitar, produto de um certo meio cultural, um certo sistema educativo. Vocês são o corpo do coletivo, não são indivíduos, sendo isto muito óbvio. Todos são hinduístas ou cristãos, isto ou aquilo, com certos dogmas, crenças, o que significa que são produto da massa. Por conseguinte, não são indivíduos. Precisam estar totalmente descontentes, para poderem descobrir. Mas a sociedade não deseja lhes ver descontentes, porque teriam vitalidade, começariam a questionar, a investigar, a descobrir e, consequentemente, se tornariam perigosos para ela. 

Infelizmente, o descontentamento de quase todos vocês está baseado no desejo de satisfação, e no momento em que se veem satisfeitos, desaparece o descontentamento. E então definham e declinam. Já não observaram como pessoas descontentes quando jovens, perdem esse descontentamento logo que obtêm um bom emprego? Dai ao comunista um emprego rendoso, e lá se foi o seu descontentamento. O mesmo acontece com as pessoas religiosas. Não riam — isso também acontece com vocês. Desejam encontrar o mestre certo, o guru certo, a disciplina certa: e o que se encontra é uma gaiola que os asfixiará de destruirá; e esta destruição se chama "busca da verdade"... Isto é, querem se achar permanentemente satisfeitos, para não sofrerem perturbação, descontentamento, não terem o desejo de investigar. Foi isso o que realmente ocorreu; e quanto mais antiga a civilização, tanto mais destrutiva, porque a tradição sempre gera mediocridade.

Vemos, pois, que o descontentamento, tal como ora o conhecemos, é meramente desejo de encontrar satisfação permanente. E existe de fato satisfação permanente, um permanente estado de paz? Ou só existe um estado em que nada é permanente? Só a mente que, na sua totalidade, é impermanente, incerta, pode descobrir o que é verdadeiro; porque a Verdade não é estática. A Verdade é sempre nova e só pode ser compreendida pela mente que está morrendo para todas as acumulações, todas as experiências e é, por conseguinte, fresca, jovem, "inocente". 

Agora, existe descontentamento sem objetivo, sem "motivo"? Compreendem? A mente cujo descontentamento tem um "motivo" procurará uma conclusão que a satisfaça, destruindo o descontentamento; e, então, a mente definha, declina. Todo nosso descontentamento está baseado em algum "motivo", não? Mas agora estamos fazendo uma pergunta completamente diferente: existe descontentamento sem "motivo", que não seja produto de uma causa? Não devem investigar e averiguar isso? Ora, tal descontentamento é necessário. Ou empregamos uma palavra diferente — o que aliás é sem importância — digamos que é um movimento sem causa, sem "motivo". Penso que tal movimento existe, e isto não é mera especulação nem promessa. Quando a mente compreende o descontentamento que tem "motivo", o descontentamento nascido do desejo de satisfação, permanência; quando percebe, realmente, a verdade relativa a esse descontentamento, vem então à existência "outra coisa". Mas a "outra coisa" não pode ser compreendida nem experimentada, se há descontentamento com "motivo", e atualmente todo descontentamento nosso tem "motivo": não posso alcançar o que desejo, minha mulher não me ama, nada valho assim como sou e, portanto, tenho que ser diferente, e assim por diante. Há esta interminável multiplicidade de causas e efeitos, causadora dessa coisa que chamamos "descontentamento". 

Ora, se a mente está consciente de todo esse processo e o compreende integralmente, percebe a sua verdade, verão então se manifestar um movimento sem "motivo" algum — um movimento, uma ação, uma coisa não estática , que se pode chamar Deus, a Verdade, ou como quiserem. Nesse movimento há beleza infinita, e ele pode ser chamado de "amor"; porque, afinal, o amor é sem "motivo". Se eu os amo e desejo algo de vocês, isto não é amor — embora eu lhe dê esse nome — porque, aí, há "motivo". A atividade social ou religiosa baseada em "motivo", ainda que a denominemos "serviço", não é serviço, porém, sim, autopreenchimento. 

Pode-se descobrir o que é amar sem "motivo"? Isso é uma coisa que se precisa descobrir e que não pode ser praticada. Se disserem: "Como alcançarei esse amor?" — estarão fazendo uma pergunta sem significação, porque o desejo de alcançá-lo já é um "motivo". Se empregam um método, para alcançar esse amor, esse método se tornará mais o "motivo", que é "vocês". Vocês são importante, e não o amor. 

Se penetrarem profundamente esta questão — o que é muito difícil e é, em si, meditação — penso que descobrirão um movimento sem "motivo", um movimento sem causa alguma e é esse movimento que traz a paz ao mundo, e não o movimento do descontentamento de vocês, determinado por alguma causa. O homem em que se verifica esse movimento sem causa é um homem religioso, é um homem que ama e, portanto, pode fazer o que deseja. Mas o político, o reformador social, o homem que cultiva a virtude, a fim de ser feliz ou de conhecer Deus, o homem cujos esforços são o resultado de um "motivo", num nível qualquer —, as atividades desse homem só podem gerar ódios, antagonismos e sofrimentos. 

Eis porque muito importa que cada um de nós descubra por si mesmo, deixando de seguir Sankara, Ramana, Buda ou Cristo. Para nós mesmos descobrirmos, acharmos uma coisa, temos de ser livres; e não somos livres, se meramente citamos Sankara ou outra autoridade qualquer. Se seguimos, nunca achamos. Assim, pois, a liberdade está no começo, e não no fim. A liberdade precisa ser buscada agora, não no futuro. Liberdade significa estar livre de autoridade, da ambição, da avidez, da inveja, do descontentamento que tem um "motivo" e exige resultados, e que asfixia o verdadeiro descontentamento. 

Torna-se necessária uma revolução, não dentro do padrão da sociedade, porém dentro de cada um de nós, a fim de que nos tornemos indivíduos totais e não pequenos Sankaras, pequenos Budas, pequenos Cristos. temos de empreender a jornada sozinhos, completamente desacompanhados, sem ajuda de ninguém, de nenhuma influência, de nenhum estímulo ou desestímulo; porque, então, já não existe "motivo" algum. A própria jornada representa o "motivo", e só os que a empreendem produzirão algo novo, algo não corrompido, neste mundo — e não os reformadores sociais, os "beneméritos", os mestres e seus discípulos, os pregadores de fraternidade. estes nunca trarão paz ao mundo. São eles os verdadeiros mal-feitores. O "homem da paz" é aquele que repele toda autoridade, que compreende, em todos os seus aspectos, a ambição, a inveja, que se desprende totalmente da estrutura desta sociedade aquisitiva e de todas as coisas envolvidas de tradição. Só então a mente é nova. E é necessária uma mente nova, para encontrar deus, a Verdade — ou como quiserem chamá-lo — não uma mente fabricada pela sociedade, pela influência. 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana

Por que estamos sempre em busca de ocupação?

[...]Suas mentes estão sempre ocupadas, não é verdade? E o que aconteceria, se a mente não estivesse ocupada? O que aconteceria a uma dona de casa, se não estivesse ocupada com as coisas da cozinha, ou ao homem que não estivesse ocupado com os seus negócios? O que lhes aconteceria, se a mente de vocês não estivesse ocupada? A reação imediata é a de responder que estaríamos ocupados com isto ou aquilo, se não estivéssemos ocupados com o que ora estamos fazendo — o que indica a necessidade que temos, de ocupação. A mente que se vê desocupada, sente-se perdida e, por isso, está sempre em busca de ocupação. Sua ocupação é invariavelmente contraditória, gerando, portanto, malefícios. E depois de criarmos o malefício, nos preocupamos sobre como afastá-lo, e nunca damos atenção à ocupação da mente. Mas se pudermos compreender a ocupação da mente, em diferentes níveis, descobriremos a ação que surge quando a mente já não está ocupada, a ação que não gera malefícios. 

Vocês já procuraram averiguar porque a mente está ocupada? Tente-no agora, senhores, pelo menos para se distraírem. Mas, antes de tudo, precisam estar conscientes de que a mente de vocês está ocupada, como é bem óbvio. Vocês estão ocupados com os negócios, com o progresso ou fracasso, as brigas com a esposa, etc. E há a ocupação do sanyasi, do homem dito religioso, que está sempre lendo, murmurando palavras, cantando hinos, celebrando intermináveis rituais, disciplinando-se, adaptando-se ao padrão de um ideal. Tudo isso é ocupação. 

Todos vivemos ocupados, não é verdade? É o natural da mente, estar sempre ocupada? Se é esse o seu estado natural — estar ocupada, com coisas elevadas ou com coisas vulgares (o que é muito relativo) — a mente então nunca descobrirá a verdadeira ação. A mente não pode observar, prestar atenção, descobrir, quando está constantemente ocupada e, sim, apenas, quando é capaz de não estar ocupada. Enquanto a mente estiver ocupada, toda a ação nascida dessa ocupação há de ser restritiva, limitada, causadora de confusão. Experimente para ver como é sutil e difícil ter uma mente que não esteja sempre cheia; entretanto, se há um impulso ardoroso, para descobrir a ação correta, neste mundo louco, confuso e sofredor, vocês precisam chegar a esse ponto. 

Nosso problema, por conseguinte, é: De que fonte, de que centro deve emanar a ação, para que não seja contraditória e causadora de confusão? O reformador social nunca faz esta pergunta, porque ele quer agir, reformar; e no próprio processo de reformação está criando malefícios. Todos os políticos e guias religiosos estão procedendo desse modo. Nem as mais extensas leituras de Escrituras, nem os maiores esforços de adaptação, ajustamento à sociedade, jamais deram solução aos nossos problemas. Ao contrário, eles estão se multiplicando. Percebendo bem isso, cabe-nos compreender por que razão surgiu esse estado de confusão e aflições. Ele surgiu, porque todos queremos ação imediata; e a ação imediata só se pode achar nas camadas superficiais de nossa consciência, procede da ocupação, da chamada mente educada. 

Ora, existe ação que não seja resultado de esforço, que não seja da vontade? A ação da vontade é a ação do desejo; e o desejo, educado ou não, refreado ou livre, está circunscrito às camadas superficiais da consciência. Já não notaram, senhores, que quando desejam fazer alguma coisa, surge imediatamente uma contradição, sob a forma de temores coibitivos, exigências, exemplos, um senso de disciplina, que lhes diz: "Não faça isto"? E assim, vocês se veem, envolvidos em conflito. Em toda a duração de nossa vida, estamos presos nestas redes, da infância à morte, existe este perene estado de contradição e ajustamento. Em vista disso, pode a mente descobrir uma ação que não seja contraditória, que não seja mero ajustamento, que não seja produto de influências? Penso ser esta a questão fundamental, a questão certa. E aquela ação só pode ser achada quando estamos conscientes da total ocupação da mente, e a compreendemos. 

Sabem com o que está ocupada a mente de vocês? Percorram-na, camada por camada, e nela não encontrarão espaço algum não ocupado. E quando investigam o inconsciente, para descobrir a sua ocupação, mesmo assim a mente superficial, que está examinando o inconsciente, tem a sua ocupação própria. Que se deve então fazer? Queremos descobrir a total ocupação da mente, porque percebemos que, se dela nos tornamos conhecedores, toda ação criará necessariamente contradição e, portanto, maiores sofrimentos. 

Com o que está ocupada a mente, a mente de vocês? E, se não estivesse ocupada, o que aconteceria? Não se assustariam se descobrissem que a mente de vocês não estava ocupada com coisa alguma? Surgiria imediatamente o impulso para se ocuparem com alguma coisa. "Experimentem", e verão que não há um só momento de desocupação da mente. E se experimentarem um raro momento em que ela não esteja ocupada — e esse é um estado indescritível — então, o "como retornar a esse estado" ou como retê-lo, se tornará a ocupação de vocês. 

Estou, pois, alvitrando que só se tornará possível a verdadeira ação quando a mente compreender a totalidade de sua ocupação, tanto consciente como inconsciente, e conhecer o momento em que cessou a ocupação. Verão, então, que a ação resultante desses momentos de desocupação, é a única "ação integrada". Quando não está ocupada, a mente não está contaminada pela sociedade, não é produto de inumeráveis influências, não é hinduísta, nem cristã, nem comunista, nem capitalista. Por conseguinte, ela própria é uma totalidade de ação, com o que não terão que se ocupar e em que não precisarão pensar. 

Agora, se tiveram a bondade de escutar até aqui com atenção, se não estiveram dormindo, porém escutando com atenção completa, terão experimentado, diretamente, o estado de não ocupação. Quando falamos ou escutamos, estamos conscientes dos vários níveis de ocupação e de como eles são contraditórios. E conscientes da natureza totalmente contraditória, descobre a mente um estado em que não há ocupação. Isto traz um senso de ação completamente diferente. Vocês não tem então de fazer nada, porque a própria mente atuará.

Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana

Breve relato de uma experiência de pico


Acidez nossa de cada dia

Acidez: essa é a realidade de quem está sob os domínios da mente adquirida. Não tem mais nada para dar, pois a visão está centrada no ego livresco e não num coração integrado. Não é uma visão cujo único espírito é o de esclarecer e integrar, mas sim, de atacar e chocar. A mente adquirida nunca saberá o que é amor e compaixão, visto que ela só sabe causar, só quer polemizar. Esse é o seu modo de dizer: "Olhem pra mim, eu existo! Vejam como sou inteligente... Me aplaudam, me reverenciem... Tenham medo de mim!"

Nesse tipo de olhar, nunca teremos uma revolução, apenas o aumento de confusão e divisão. Isso é bem natural enquanto estamos na infância espiritual; é uma espécie de birra infantil; é uma forma de dizer: "não brinco mais... estou de mal". É pura vaidade intelectual.

Esse olhar ocorre porque, de fato, SOMOS TRISTES; em nossa arrogância tentamos esconder dos outros — e de nós mesmos — nossa triste realidade interna.

Quando rimos, nosso riso é de desespero; nosso riso é de solidão. É um riso que sabe que não dá mais para viver aquilo, mas que também desconhece AQUILO que está para além daquilo. Nesse confuso labirinto, somos o sujo falando dos maltrapilhos. São apenas dois lados da mesma moeda, cujo sistema econômico defendido é O EGO.

Quando sob o domínio da mente adquirida, mantemos um riso amarelo que não tem a clareza do AMOR. Nosso riso é um riso de medo; medo de que saibam o que fomos ontem, o que somos hoje e o medo do que seremos amanhã.

Quando na mente adquirida, desconhecemos o amor, só temos apego, dependência e interesse.

Outsider

Por que nossa mente deteriora e não é criativa?

[...]Quando jovens, somos muito zelosos, temos tantas ideias entusiásticas, revolucionárias, mas geralmente acabamos enredados numa dada atividade e, lentamente, nos esgotamos. Vemos isso acontecer ao nosso redor e dentro de nós mesmos; e é possível deter esse processo de deterioração, que constitui sem dúvida um dos nossos principais problemas? Se é ao capitalismo ou ao socialismo, à esquerda ou à direita, que cabe organizar o bem-estar mundial — agora, que a produção é imensa — não me parece ser esse o problema. Penso que o problema é muito mais profundo, e o problema é este: pode-se libertar a mente, de maneira que ela permaneça livre para sempre e, por conseguinte, não mais sujeita à deterioração? 

Não sei se já pensaram neste problema, ou se já observaram como pouco a pouco se esgota a vitalidade, o vigor, a vivacidade da nossa mente e ela se torna, gradualmente, um instrumento de hábitos e de crenças mecânicos, um complexo de rotina e repetição. Se realmente temos pensado a este respeito, devemos ver que isso é um problema, para a maioria de nós. Quando vamos envelhecendo, o peso do passado, a carga das coisas lembradas, das esperanças, das frustrações, dos temores, tudo parece cercar e fechar a mente e dela nunca nos vêm coisas novas, mas só repetições, um sentimento de ansiedade, uma perpétua fuga de si mesmo e, por fim, o desejo de encontrar alívio de alguma espécie, um pouco de paz, um Deus que nos satisfaça completamente. 

[...] Pode a mente ser libertada de todo esse processo de deterioração e ultrapassar a si mesma, não de maneira misteriosa ou miraculosa, não amanhã ou noutra data futura, mas imediatamente, instantaneamente? Esse descobrimento pode ser função da meditação. Por que é, pois, que nossa mente se deteriora? Por que é que nada existe de original em nós, que tudo o que sabemos é mera repetição, que nunca há constância de criação? estes são os fatos, não é verdade? Que é que causa essa deterioração, e pode a mente detê-la? 

[...] A mim é bem óbvio que existirá necessariamente deterioração, enquanto houver esforço. E pode-se observar que nossa vida está toda baseada no esforço — esforço para aprender, adquirir, reter, ser alguma coisa ou renunciar ao que somos e virmos a ser outra coisa. Haverá sempre esta luta de ser ou vir a ser, consciente ou inconscientemente, voluntariamente ou sob o impulso de desejos ocultos; e esta luta não é a causa principal da deterioração da mente? 

[...] Por que existe este processo de deterioração, esta incapacidade de descobrir o novo, não no terreno científico, mas dentro de nós mesmos, mas dentro de nós mesmos? Por que razão não somos criadores? 

Se observarem o que está acontecendo, seja aqui na Europa ou na América, devem perceber que quase todos estamos imitando, nos conformando, obedecendo ao passado, à tradição, e como indivíduos jamais descobrimos, profundamente, fundamentalmente, coisa alguma por nós mesmos. Vivemos como máquinas, de onde nos advém um certo sentimento de infortúnio, não é verdade? Não sei se realmente investigaram isto, mas parece-me que uma das causas principais desse conformismo é o desejo de nos sentirmos interiormente seguros. Para se estar em segurança, psicologicamente, tem de haver separação, e para se estar separado necessita-se de esforço, esforço para ser algo; e esse pode ser um dos fatores que está impedindo o descobrimento de qualquer coisa nova, por parte de cada um de nós. 

[...] Vê-se que a meditação é necessária, uma vez que, por meio da meditação, pode-se descobrir muitas coisas. A meditação abre-nos a porta à experiências extraordinárias, tanto fantasiosas como reais; e estamos sempre indagando como se medita, não é verdade? A maioria de nós lê livros que prescrevem um sistema de meditação, ou recorremos a um certo instrutor para que nos ensine a meditar. Mas nós, aqui, queremos saber, não como meditar mas o que é meditação; e a própria investigação para saber o que é meditação, é meditação. Entretanto, nossa mente deseja saber como meditar e, desse modo, facilita-se a deterioração. 

Se o pensamento é capaz de investigar com muita profundidade e de desnudar-se diante de si mesmo, sem procurar corrigir, mas sempre vigilante a fim de descobrir; sem condenar, mas sempre examinando as coisas muito atentamente, então, esse estado mental pode chamar-se meditação. E essa mente, sendo livre, é capaz de descobrimentos. Para ela não existe deterioração, porque nunca há acumulação. Mas a mente que diz: "Ensina-me como tornar-me tranquila, como chegar , e me esforçarei para seguir o método que me indicar" — essa mente, é bem óbvio, é imitativa, sem audácia e, por conseguinte, está provocando a própria deterioração. 

Para a maioria de nós só interessa o como, que é um meio de certeza, segurança. O como — por mais nobre, por mais exigente, por mais disciplinador que seja — só pode nos levar ao conformismo. A mente que quer ajustar-se pelos seus próprios esforços torna-se escrava de um método, perdendo, por conseguinte, a extraordinária capacidade de descobrimento. E se não houver o descobrimento, em si mesmos, de algo original, novo, não contaminado, ainda que tenham a mais perfeita organização para produzir e distribuir os meios de satisfazer as necessidades físicas, continuarão a ser igual a uma máquina. Por conseguinte, este problema lhes concerne, não? Pode a mente, tão mecanizada que está, tão dominada pelo hábito, pelo passado, libertar-se do passado e descobrir o novo, chamem-no de Deus ou como o quiserem? 

[...] Vocês são bem versados no Upanishads, no Gita, na Bíblia, estão familiarizados com a filosofia do hinduísmo, do cristianismo, do comunismo, etc. Estas filosofias, estas religiões, muito evidentemente não resolveram o problema humano.[...] seguir qualquer autoridade, por mais nobre ou tirânica que ela seja, torna a mente mecanizada, sem originalidade, tal qual um disco de gramofone, que só é capaz de repetir e repetir e repetir; e em tal estado não se pode ser feliz. 

Agora, conhecedores deste fato, de que maneira se lançarão ao descobrimento do Real, por si mesmos? Compreendem, senhores, Deus, a Verdade, ou o que quer que seja, tem de ser uma coisa totalmente nova, uma coisa fora do tempo, fora da memória, não acham? Não pode ser uma coisa lembrada, do passado, uma coisa que foi dita ou conjecturada, criada pela mente. E como irão descobrir essa coisa? Certamente, ela só pode ser descoberta quando a mente está livre do passado, quando a mente deixa de criar imagens, símbolos. Quando a mente formula imagens, símbolos, não é isso um autêntico fator de deterioração? É bem provável seja isso o que está acontecendo na Índia, bem como no resto do mundo.

Está claro o problema? Ou isso não é problema para vocês? 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

A maioria de nós não tem amor

[...] Se desejo participar numa corrida, tenho de me submeter ao necessário regime alimentar; se desejo executar qualquer coisa com toda eficiência, tenho de me alimentar convenientemente, não devo sobrecarregar o estomago, tenho de me exercitar adequadamente, etc. Minha mente e meu corpo têm de estar alertados no mais alto grau possível. 

[...] Uma pessoa pode assumira postura correta do corpo, respirar corretamente, e tudo o mais, mas isso tem relativamente pouca importância em relação ao percebimento direto da realidade.

Deixe-me expressá-lo de outra maneira. Se percebo que odeio, me é possível amar imediatamente, ou o ódio tem de ser removido pouco a pouco, a fim de que, eventualmente, eu seja capaz de amar? Este é o problema. Estão entendendo? É possível a mente se transformar imediatamente e ficar num "estado de amor"? 

[...] percebo que sou ambicioso e, se estou suficientemente alertado, se sou inteligente e me conservo vigilante, percebo também quanto é absurdo e destrutivo esse estado. A ambição, inclusive a ambição espiritual, implica um estado em que não existe amor. O desejo de ser alguém, espiritualmente, o desejo de ser não-violento, é sempre ambição. Percebendo-se bem isso, é possível apagar instantaneamente a ambição, abandonando essa luta perene, de inquirição, de análise, disciplina, "idealização", e tudo o mais? Pode a mente apagar prontamente a ambição e se ver no "outro estado"? É possível isso? Não concordem, senhores, pois não é questão de concordar ou discordar. Já pensaram nisso? 

[...] Sou ambicioso e desejo me ver num estado de amor; me cumpre, por conseguinte, afastar a ambição, e como fazer isso?[...] A questão, em si mesma, envolve tempo, não? No momento em que perguntam "como?", está criado o problema do tempo — tempo para lançar uma ponte sobre o intervalo, tempo para atingir o estado chamado "amor"; por essa razão, nunca podem atingi-lo. Compreendem , senhores? 

[...] "É possível para mim abandonar completamente a ambição e me achar naquele estado que se pode chamar "amor"? Não vou descrever o que é aquele estado. O problema é que sou violento e, tenho alguma possibilidade de abandonar completamente, imediatamente, a violência? 

[...] Eu sou agressivo, ambicioso, e vejo que toda a sociedade corrupta que me circunda é também ambiciosa e agressiva em diferentes graus. Tudo nela é de aparências, estúpido, vão e, no entanto, me vejo preso nas suas malhas; é possível para mim largar completamente a ambição, abandoná-la e nunca mais ter contato com ela?[...] Ou preferem dizer: "Sou ambicioso e me libertarei da ambição aos poucos, amanhã ou na próxima vida, à força de disciplina, pela prática de um mantra adequado, da adequada vigilância — enfim, toda lista de absurdos? 

[...] Veja, senhor, a maioria de nós não tem amor, o que quer que seja essa qualidade. Podemos ter um temporário sentimento que chamamos "amor", o qual, entretanto, é muito semelhante ao ódio, e não pode ser aquela coisa extraordinária. É possível que uns poucos possuam essa florescência, essa coisa alentadora, criadora, mas em geral nos achamos num estado de confusão e aflição. Ora, pode uma pessoa abandonar, simplesmente, tudo isso e se tornar "a outra coisa", sem passar pelas tremendas complicações inerentes ao "tentar vir a ser alguma coisa", sem discussões sobre se o sujeito que percebe está separado do objeto percebido, etc.?

[...] estamos em presença de um problema muito grave e que envolve uma completa revolução no pensar; dele decorre que temos de nos livrar de todos os guias, de todos os gurus, de todos os métodos, não é verdade? E que acontece, quando nos é proposto um problema desta natureza? 

Isto é, quando estamos conscientes de que odiamos, e desejamos ficar livres do ódio, que fazemos, em geral? procuramos um método de nos livrarmos ele, e esperamos achar esse método num livro, num guru, etc. Ora, percebemos que a prática de qualquer método é uma ilusão ou dizemos que o método é necessário? Esta é a primeira questão, evidentemente. O que vocês sentem, senhores? Não desejo lhes forçar a dizer que não há necessidade de método; isso seria uma nova ilusão, mera repetição de palavras, uma atitude artificial, inteiramente destituída de significação. Mas se percebem realmente que a prática de qualquer método para nos libertarmos do ódio é uma ilusão e portanto sem validade alguma, neste caso a maneira de considerarem o ódio terá sofrido uma transformação total, não? 

[...] Se sabemos considerar o ódio sem o "como", teremos então uma reação completamente diferente, diante daquilo que percebemos.[...] não perguntem como ficarem livres do ódio. Esta é uma questão muito trivial. O problema é este: estando conscientes de que odiamos, dizemos, agora: "Como me livrar do ódio?"[...] No momento em que nos surge esta reação — como ficar livre? — colocamos em ação vários fatores sem validade alguma. Um desses fatores é o processo de gradual desgaste do ódio, através de um certo período de tempo; outro é o fazer esforço para conseguir um resultado; e outro, ainda, é o de dependermos de alguém, para nos ensinar como proceder. Tudo isso são atividades egocêntricas, e também uma forma de ódio.

[...]o ódio pode ser dissolvido por meio do tempo? Os iogues, os swamis, o Gita, os Mahatmas — todos dizem que o ódio tem de ser dissolvido com o tempo; mas talvez eles não tenham razão, e provavelmente não a têm. E porque haveriam de tê-la? Mas eu desejo averiguar se há uma maneira diferente de considerar este problema, em vez de aceitar a maneira tradicional, a qual vejo que invariavelmente degenera em mediocridade. A simples aceitação da tradição é uma coisa estúpida. Ainda que dez mil pessoas afirmem que uma coisa é verdadeira, isso não significa que ela têm razão. Meu problema, pois, é este: é possível ficarmos livres do ódio agora, e não no futuro? 

Jiddu Krishnamurti em, Da solidão à plenitude humana

Contato imediato com a Realidade

[...] Vocês desejam encontrar a felicidade, a serenidade, a liberdade; é isto em geral o que estão buscando, tateando no escuro. Vendo-se descontentes, insatisfeitos com as coisas, as relações, as ideias, estão em busca de algo transcendental, e procuram um mestre, um guru, ou X, que julgam possuir as qualidades que estão buscando. Desejam aprender como alcançar essa extraordinária integração da totalidade da consciência humana e, assim, vieram até aqui com a mesma intenção com que se aproximam de qualquer instrutor religioso, ou seja a intenção de aprender.

[...] Ora, pode-se lhes ensinar a ter percebimento direto? Pode-se realizar essa totalidade de integração, essa claridade de percebimento, mediante o saber, a instrução, ou por meio de algum método? O aprender uma técnica ou a observância de um dado sistema pode levar a esse resultado? Para a maioria de nós, aprender é adquirir uma nova técnica, substituir o velho pelo novo. 

[...] Existem vários métodos, que vocês bem conhecem, e um ou outro dos quais estão praticando, na esperança de perceberem diretamente algo que se possa chamar a Realidade, o estado onde não existe "vir a ser", porém apenas Ser. Por essa mesma razão vieram até aqui: com o propósito de aprender, não é verdade? Desejam saber qual é o método que este orador lhes oferecerá para a revelação daquele estado extraordinário. Desejam saber como atingir esse estado, passo por passo, pela prática de certas formas de meditação, pelo cultivo da virtude, da autodisciplina, etc. Mas eu acho que nenhum método pode produzir o claro percebimento; ao contrário. 

Todo método implica tempo, não é exato? Quando praticam um método, precisam do tempo, como ponte sobre o intervalo entre o que é  e o que deveria ser. O tempo é necessário, para se percorrer a distância criada pela mente entre o fato e a dissolução do fato, ou seja, o fim que se quer alcançar. Toda ideologia se baseia nessa ideia de consecução de um fim, através do tempo; e, assim, começamos a adquirir, a aprender e, por conseguinte, nos amparamos no Mestre, no guru, no instrutor, porque ele vai nos ajudar a chegar

Pois bem. O percebimento ou experiência direta daquela realidade depende do tempo? Existe um intervalo que é necessário transpor, pelo processo do conhecimento? Se existe, neste caso o conhecimento assume extraordinária importância. Então, quanto mais a pessoa souber, quanto mais se exercitar, quanto mais se disciplinar, etc., tanto maior será a sua capacidade de construir a ponte para a realidade. Admitimos que o tempo é necessário. Isto é, se sou violento, digo que é necessário tempo para eu chegar a um estado de não-violência; preciso de tempo para praticar a "não-violência", para controlar, para disciplinar a mente. Aceitamos esta ideia; porém ela pode ser uma ilusão, pode ser totalmente falsa. O percebimento pode ser imediato, independente do tempo. Eu penso que, em absoluto, ele não depende do tempo — se posso empregar a expressão "penso", sem o intuito de transmitir uma opinião, mas de apresentar um fato real. Ou uma pessoa percebe, ou não percebe. Não há nenhum processo gradual de "aprender a perceber". É a ausência de experiência — baseada, esta, sempre no conhecimento — que dá o percebimento. 

[...] Nossas atividades, nossas buscas, são sempre egocêntricas. Para empregar uma fala de uso corrente, nossa ação, nosso pensamento é egoísta, interessado unicamente no eu"; e, como lemos ou ouvimos dizer que o "eu" é uma barreira, reconhecemos necessário que ele deixe de existir — não o "eu superior" ou o "eu inferior", mas o "eu", a mente que é ambiciosa, que tem medo, que é ardilosa, em suas atividades ditadas pela própria avidez, pela própria dependência, a mente resultante do tempo. Essa mente é egocêntrica; e pode esse egocentrismo ser removido imediatamente, ou tem de ser aparado aos poucos, camada por camada, mediante um processo gradual de instrução, experiência, e continuidade do tempo? 

[...] eu desejo diferenciar entre "aprender" e "experimentar". Pode-se "experimentar" o que se aprende, mas nesse caso a experiência é condicionada pelo que se aprendeu. Uma pessoa pode aprender uma coisa e depois "experimentá-la" — isto é bem óbvio. Posso ler a vida de Cristo e emocionar-me muito, sentir-me vibrar a respeito dela e, posteriormente, "experimentar" aquilo que li. Posso ler o Gita, evocar toda sorte de ideias, e "experimentá-las". Tanto a leitura consciente como a instrução inconsciente, produzem certas formas de experiência.[...] Mas, na realidade, se examinarem essas experiências, verão que são, unicamente, a reação de uma mente condicionada. 

[...] O percebimento não pode ser verdadeiro, quando baseado em algum método, porque, é bem evidente, o método produz a sua peculiar experiência. Se creio no Cristianismo ou noutra religião qualquer, e observo um método que me conduzirá à verdade, de acordo com o cristianismo, por certo a experiência que esse método produz não tem validade alguma. É uma experiência baseada em minha própria convicção, minha própria limitação, minha mente condicionada. O que se experimenta é puramente um produto daquele método particular, ao passo que isso de que estou falando é coisa totalmente diferente.

Se percebemos que todo método é falso, ilusório, produto do tempo, e que o tempo não pode levar à experiência direta, então, esse próprio percebimento nos liberta do tempo. Nossa relação é então toda diferente. Percebem, senhores? Não estamos aqui para aprender nenhum método ou técnica nova, nenhum "novo acesso à vida", e outras coisas tais. Aqui estamos para libertarmos a mente de todas as ilusões e percebermos diretamente — e isso exige extraordinária atenção ao que se está sendo dito, e não uma comunicação acidental entre nós, como se estivéssemos apenas assistindo a mais uma conferência. O importante é que se liberte a mente do conhecimento e do método, das práticas baseadas naquele conhecimento, que só podem nos levar à coisa que ansiosamente desejamos. Eis porque é de grande importância compreender o que estou dizendo, perceber a ilusão que a mente criou, ou seja, o tempo necessário para adquirir, aprender, chegar, alcançar. 

Não digam logo que aquela realidade, Deus, o Atman se acha em nosso interior, e outras coisas de igual natureza. Isso não é verdadeiro; é ideia de vocês, superstição, pensar condicionado. Vocês dizem que Deus se acha dentro de nós mesmos, e o comunista, criado diferentemente, desde pequenino, diz que não existe Deus nenhum, e que é absurdo o que dizem. Vocês estão condicionados para acreditar de uma certa maneira, e ele para acreditar de outra maneira; portanto, todos dois são iguais. Mas, tudo o que nos interessa aqui, nesta palestra, é descobrir se a mente pode, de pronto, despojar-se desta crenças, deste condicionamento, afim de que surja o percebimento direto. Podemos viver mil vidas, praticando a autodisciplina, sacrificando, subjugando, meditando, mas por este meio nunca seremos levados ao direto percebimento, o qual só é realizável em plena liberdade, e não por meio de controle, de subjugação, de disciplinas; e só pode aparecer a liberdade, quando a mente se torna consciente, de pronto, de seu condicionamento, pois então se verifica a cessação desse condicionamento. 

Jiddu Krishnamurti em, Da Solidão à Plenitude Humana

Um olhar sobre as ideias de suicídio

Por que uma pessoa se suicida?

PERGUNTA: Tenho desejo de me suicidar; a vida não tem finalidade nem significação alguma. Para qualquer lado que olhe, não vejo senão desespero, sofrimento e ódio. Por que devo continuar a viver neste mundo monstruoso?

KRISHNAMURTI: Por que uma pessoa se suicida? Não há diferentes maneiras de nos suicidarmos? Não se suicidam, quando se identificam com sua pátria? Não se suicidam, ao se tornarem membro de um partido, ao ingressarem numa seita? Não se suicidam quando acreditam em alguma coisa? Isto é, se entregam de corpo e alma a algo que é “maior”; essa coisa “maior” é a “projeção” daquilo que pensam que deveriam ser; a identificação de si mesmo com uma coisa maior (e essa coisa maior é o seu desejo de algo mais digno) é uma maneira de nos suicidarmos. Escutem isso; não o rejeitem, Senhores.

Muitos de vocês estão identificados com este país; estiveram na prisão, tem lutado. Não se suicidaram por uma causa muito insignificante? Outro se suicida por não mais ter crença; tornou-se cínico, toda a sua vida intelectual o levou, apenas ao desespero e ao sofrimento, e por isso ele se suicida. O homem que crê e o homem que não crê, tanto um como outro se suicidaram, cada um à sua maneira, visto que todos dois querem fugir de si mesmos. Querem fugir, lhes servindo de fuga a pátria, a ideia do nacionalismo, a ideia de Deus; e quando Deus e o nacionalismo falham, ou quando falha a pátria ou o ideal que ela representa, esses homens se vêem na escuridão. E, também, quando qualquer de nós depende de um amigo ou depende da pessoa amada, se nos tiram esse arrimo, nos vemos de novo à beira do precipício e dispostos a dar o salto na treva. Dessa forma, todos nós — pela identificação com algo que é “maior”, pela crença, e por várias outras maneiras de fuga, procuramos evitar a nós mesmos; e quando tornamos a cair em nós mesmos, nos vemos perdidos, sós, desesperados. E estamos prontos a nos suicidar. Tal é a nossa condição, não acham? Uma pessoa que amam os abandona, e sentem ciúmes; revela-se a vacuidade da mente e do coração de vocês e ficam aterrados; e, conseqüentemente, estão disposto a se abrigarem num novo refúgio; e assim por diante.

Assim, pois, enquanto não compreendermos a nós mesmos, nos acharemos sempre na orla da escuridão. Dizemos que o mundo é horrível, que o mundo é miserável. O mundo, porém, é uma coisa que nós criamos, o mundo são as nossas relações com outro. Se nessas relações há dependência, então tem de haver temor, frustração, desilusão; e daí, o desejo de suicídio Todavia se vocês têm uma crença muito forte, ela os contém; e essa crença mesma os condiciona a mente, conscientemente, de modo que não veem a necessidade de exame interior; essa crença atua ela própria como meio de fuga. Quanto mais religiosa uma pessoa, tanto menor a inclinação para o suicídio.

Quanto mais indagam, quanto mais investigam, tanto maior se torna o medo de conhecerem intimamente a vacuidade de própria solidão. Mas, não devem olhar de frente esse vazio, sem estarem amparado em alguma coisa? Não devem se colocar no estado em que se veem completamente só, e compreender esse estado? Não devem se ver sós, para acharem aquilo que “é só”, aquilo que não está contaminado, que nunca foi pensado? Não podem, porém, alcançar esse “estado de só”, se possuem medo da solidão. Quase todos temos medo de olhar a nós mesmos, e temos por esta razão muitas vias de fuga; e quando se mostram improfícuas essas vias, tornamos a cair em nós mesmos. É este o momento oportuno para nos examinarmos interiormente; temos de compreender esse vazio, e não fugir-lhe da presença, por meio de ritos, de distrações de qualquer espécie, do saber ou da crença.

Só podem examinar esse vazio quando a mente de vocês nele se absorve por inteiro, quando tomam conhecimento dele sem nenhuma tendência a traduzi-lo e sem desejarem que ele se modifique – e isso é coisa muito difícil. Visto sermos em geral, muito preguiçosos, preferimos nos refugiar numa crença qualquer ou nos suicidar. Assim, pois, é só quando uma pessoa compreende o que significa a solidão e a ela se sujeita, aí, somente, essa pessoa se purifica para “ser só”; e apenas essa solidão pode achar aquilo que é o ser, onde não existe o “eu”, com todas as suas lutas, contradições e confusões.

Krishnamurti – AUTOCONHECIMENTO – BASE DA SABEDORIA – 18 de fevereiro de 1953

Não há revolução no "vir a ser"

A dificuldade da maioria de nós resulta de querermos sempre uma norma precisa de ação. Desejamos saber o que fazer, como devemos nos comportar, principalmente quando estamos confusos e quando o próprio objeto de nossa escolha é produto de nossa confusão. Quando escolhemos no meio de nossa confusão, o líder, a ideia, ou o sistema, nossa escolha, pode, apenas, nos conduzir a mais confusão, maiores desgraças e sofrimentos. Porque, se da minha confusão escolha uma ação, esta ação forçosamente me levará a uma confusão maior. Este é um fato óbvio a que, infelizmente, em geral, não damos atenção. Uma vez que a maioria de nós está muito empenhada em achar um método, uma norma de ação, parece-me ser muito importante, não que saibamos o que devemos fazer, mas, sim, que saibamos pensar.

A maioria de nós estamos habitualmente interessados em saber o que devemos fazer. Temos modelos, temos heróis, temos preceitos e ideais para seguir. Mas o que é importante é a maneira do nosso pensar porque, se puder haver revolução aí, então talvez seja possível se produzir uma revolução em nossa ação. Não acham, portanto, que tem muita importância descobrirmos como devemos pensar, e não o que devemos fazer? Pois no momento em que estamos condicionados por uma atividade, por um sistema de pensamento, as nossas ações se tornam mais e mais complexas, mais e mais confusas, mais e mais dificultosas, condicionadas, disciplinadas, moldadas; daí resultando, por conseguinte, mais confusão. Parece-me, pois, que o importante é sabermos pensar; e então talvez haja a possibilidade de modificarmos esse pensamento, de produzirmos uma revolução no nosso pensar, criando assim uma nova conduta de vida, uma nova forma de ação. HÁ UM ESTADO DE SER, QUE É REVOLUÇÃO; E HÁ UM ESTADO DE "VIR A SER" QUE É CONFUSÃO. A norma habitual de quase todos nós é o "vir a ser" — o tornamos a coisa mais importante; alterar nosso método de ação, ajustando-o a determinado padrão de pensamento; seguir o líder; cultivar uma virtude; passamos da avidez à não avidez; cultivar ou praticar certas maneiras de pensar. E tudo isso implica — não é verdade? — tudo isso implica num "vir a ser", no qual nunca há transformação, jamais revolução. "Vir a ser" é meramente uma forma de continuidade; nele não há revolução nenhuma, nunca é possível a transformação. Apenas num "ESTADO DE SER" são possíveis a revolução e a transformação. Ora, "O QUE VEM A SER" nunca pode compreender O SER. Quando "O QUE VEM A SER" observa O SER, não há SER.

Tenha a bondade de seguir isto literalmente. Acho muito importante se compreender isto, visto nossas mentes estarem já muito habituadas a "vir a ser", a acumular experiências para base de nossa conduta futura. Nosso pensar está baseado no conhecimento, na experiência, nos exemplos, na memória — tudo isso compreendido no padrão da continuidade. Pode se operar uma "modificação" da continuidade; jamais, porém, uma revolução, uma transformação. 

"O QUE VEM A SER" está sempre empenhado em transcender, em ultrapassar a si mesmo. Sou resultado do tempo, da memória, da experiência, da escolha constante, da diferenciação; sou a continuação do passado, no tempo. Minha mente, pelo seguir, rejeitar, aceitar, está toda encerrada no padrão, no campo do "vir a ser" — não é verdade? Sou uma coisa hoje e quero ser outra coisa amanhã. A "projeção" — amanhã — é a continuidade de hoje. É a isso que a mente está habituada, a esse estado de acumulação, da memória, não é verdade? Isto não é complicado. Observem o próprio pensar de vocês; verão que é exatamente assim. Estamos sempre empenhados em nos tornarmos algo — o escriturário que se tornar gerente, o gerente, diretor, o político quer ser o líder mais excelente, etc., etc. Há continuamente esse 'VIR A SER" ALGUMA COISA; e com ele esperamos promover uma revolução, uma transformação. Mas isso é impossível, pois aquilo que continua não pode nunca operar uma transformação em si mesmo.

Ora, bem, com essa mentalidade, com essa mente, com o processo desse pensamento, observamos O SER — o deus verdadeiro, ou o que quiserem, o qual desconhecemos. O QUE VEM A SER está especulando a respeito do SER; O QUE VEM A SER está sempre observando o SER, procurando apreendê-lo, apoderar-se dele, ajustar-se a ele. Nessas condições, quando vocês — O QUE VEM A SER, O "EU" — quer apoderar-se do SER, não há esse SER. Visto que a minha mente se habituou a pensar em termos referentes do tempo, visto minha mente ser produto do tempo, não sou capaz de pensar senão em termos de "vir a ser" ou "não vir a ser". Assim, pois, no próprio processo de "vir a ser" há conflito, e esperamos, através do conflito, chegar a um resultado. Assim é nossa vida. Queremos alcançar um resultado, um fim, e procedemos por várias maneiras para alcançá-lo — sempre por meio de esforço, de luta, de complicações, escolha, desejando tal coisa, moldando e aceitando tal coisa, etc., etc. Tal é a nossa vida, não é exato? O "que vem a ser", pois, está sempre tentando seguir uma linha de ação — o culto do herói, o cultivo da virtude, etc. está sempre tentando aprender o estado que é O SER, o único estado em que é possível a revolução. É importante, assim me parece, compreendermos que, no "vir a ser" não pode haver alteração, transformação radical. Que devemos fazer então? Estão seguindo?

Desejo lhes comunicar uma coisa e tenho de empregar palavras. Traduzirão estas palavras de acordo com o condicionamento de vocês e, desse modo, se interrompe a comunicação entre nós. Desejo lhes comunicar uma coisa muito simples, que é: não há felicidade, não há transformação, não há revolução no "vir a ser"; só no ser existe a possibilidade de transformação, não há revolução no "vir a ser"; só no ser existe a possibilidade de transformação fundamental e radical. Mas o que vem a ser nunca pode compreender o ser. Quando aquele que "vem a ser" observa o ser, o ser se torna estático, imóvel. Vemos, pois, que o que a mente escolhe está sempre compreendido nesse vir a ser, no desejar alguma coisa. Percebem o problema? 

Como posso eu, que fui condicionado, (minha educação, minha criação, minha religião, todos os meus esforços, são para vir a ser) como posso sustar o vir a ser? Não sei se já refletiram sobre este problema; agora, porém, que estou falando, como o veem? O que sentem na presença dele? Todos os nossos compêndios, todas as nossas religiões, todos os nossos gurus, todo o processo do pensamento, tudo isso está em relação com o vir a ser alguma coisa — temos de ser primeiro regionalistas, depois nacionalistas, depois cosmopolitas; primeiro são crianças, depois homem maduro, e, por fim, morrem; precisam passar por esse processo evolutivo, para alcançarem a realidade suprema. Nossa mente está condicionada na maneira de pensar que o mundo pode ser transformado gradualmente, que não é possível criar-se instantaneamente um estado revolucionário; que isso tem de vir através de um "processo gradativo" de tempo; que todos devemos ser dedicados; que todos devemos ser educados de uma certa maneira; pensar numa certa maneira de ação, etc. Conhecemos muito bem esse processo de pensar. Devo lhes dizer que por esse caminho não há revolução, não há alteração, nenhuma possibilidade de transformação. E, no entanto, a transformação é essencial para que se possa produzir um mundo diferente. 

Encontram mendigos famintos na estrada, criancinhas ao relento. A criancinha precisa de carinhos, de alimento, de amor, e precisa da liberdade verdadeira e da educação que a faça sem medo. Ora, é possível se transformar o mundo imediatamente, e não daqui a alguns séculos? Este problema também não lhes interessa? Há crianças com fome, e nós inventamos uma teoria socialista, uma teoria comunista, a qual, no fim, dará alimento às criancinhas; e, enquanto isso, as crianças vão morrendo de fome. E durante a edificação do sistema surge um sem número de complicações, destruições, desgraças, extermínio, campos de concentração — e tudo isso representa o processo de "vir a ser", não é verdade? 

Deve, portanto, haver uma solução diferente para este problema. Pode a minha mente, que tão condicionada está no "vir a ser", imobilizar-se e tornar-se capaz de receber aquele ser que não pode ser observado, não pode ser compreendido por aquele que vem a ser? Como posso eu, produto do tempo, da memória, que estou sempre "vindo a ser" alguma coisa, sempre a aceitar ou a recusar algo, positiva ou negativamente, como posso produzir em mim mesmo uma fundamental revolução de valores, de pensamentos, de desejos, de todas as coisas, radicalmente, para que possa haver felicidade, não só em mim, mas também nas minhas relações com o mundo, com os meus semelhantes? Este problema não interessa também a vocês? E se ele é tanto seus como meu, de que maneira agimos? Agimos em relação com o vir a ser ou em relação com o ser? Não há ser, se há vir a ser

Como já disse anteriormente, tenham a bondade de escutar. É muito importante escutar, para se compreender uma coisa que é verdadeira, porque esse próprio escutar do que é verdadeiro tem um efeito extraordinário na mente. Se sei escutar, se sou capaz de ver a beleza, sem interpretação, essa beleza tem sobre mim um efeito extraordinário. Se sou suficientemente sensível, tanto para ver a beleza como para a fealdade da vida, as ver sem interpretar, as ver simplesmente, isso tem um efeito extraordinário. De modo idêntico, se sei escutar uma coisa que é verdadeira, justa, sem traduzi-la e sem compará-la com o que já foi dito por algum instrutor, pelo Bhagavad-Gita ou por algum livro; se sei escutar sem tradução, esse escutar, então, essa receptividade à Verdade, tem um efeito extraordinário. Uma revolução inconsciente se está processando, quando sabemos escutar. 

Escute pois isto: só pode haver revolução quando há ser, do qual pode resultar a ação verdadeira. Enquanto, porém, a mente se encontra aprisionada no perene processo do vir a ser, não pode haver revolução, nem transformação, e não pode haver amor; apenas infelicidade, mais ódios, e maiores guerras. Que deve, pois, a mente fazer? Ela não pode passar ao outro estado. A mente que é, em si, o processo de vir a ser, não pode passar para o outro estado e assimilá-lo; ela não pode tornar-se o ser. Não pode buscar o ser. No momento em que ela está consciente do ser, está morto o ser. já não é o ser uma coisa vital, já não exulta, já não vive, já não age construtivamente. Que deve então fazer a mente, reconhecendo a sua impossibilidade de promover uma revolução em si mesma? Só escutem, não respondam a esta pergunta. Escutem

É necessária ação; as guerras precisam acabar, e não deve haver mais miséria. Reconhecemos, é essencial que haja uma revolução, uma revolução fundamental, ampla, e não uma revolução parcial, limitada. Se faz necessária uma revolução total. Pela investigação, se percebe que a mente não pode operar uma tal revolução. O comunista, o socialista, ou a pessoa dita religiosa não pode realizar uma revolução que seja total; podem operar reformas parciais, mudanças parciais; tudo, porém, será apenas continuidade modificada. É necessária uma revolução total, para criarmos um mundo diferente, um mundo, não seus, não meu, mas que seja de todos nós, juntos; e só se pode verificar está revolução quando há ser e não vir a ser. Assim, pois, todo e qualquer esforço que fizerem para revolucionar o ser, constitui justamente uma negação da revolução. Isto é, se faço um esforço para compreender aquele "estado de ser", em que há revolução radical, o ser se torna um estado morto. Assim, quando minha mente compreende essa coisa, inteiramente, ela, a mente, se torna muito tranquila; não faz, então, mais esforço para ser ou não ser, sigam bem isso, por favor. A mente se torna tranquila, e se compreende então, na sua totalidade, o processo do vir a ser

A mente não pode chamar a si o ser. O ser apenas pode se manifestar quando a mente está de todo tranquila, quando não persegue alguma coisa, quando não busca um resultado, quando não quer tornar-se virtuosa. Porque, o "eu" é vir a ser, o "eu" é o que vem a ser; e enquanto existir o "eu" não pode haver o ser. O "eu" pode colocar vestes diferentes, de cores diversas, e pensar que está se modificando, que está produzindo revolução; mas, no centro, continua presente o "eu", e ele não pode se extinguir por meio de disciplina, de controle, de sacrifício, da observância de exemplos. O "eu" existe em virtude do próprio esforço que faz, para ser ou não ser. Continuem escutando. 

Toda vez que a mente faz um esforço, esse próprio esforço vai reforçar o "eu" — o "eu" que se identifica com o Estado, com o partido, com a religião, com qualquer coisa, enfim. Por conseguinte, não há, através desse processo, nenhuma revolução, não há transformação; há tão-somente mais desgraças, mais confusão, mais guerras, mais ódios. Quando reconheço isso, quando minha mente reconhece isso, há então tranquilidade; há aquele silencio tão essencial ao ser; e, então, há uma possibilidade de radical revolução. 

Jiddu Krishnamurti em, Autosabedoria - Base da Sabedoria
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)