“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Da impotência do eu à Potência do Ser que somos

A atenção é a alma do pensamento e a raiz da percepção

(...) Aparentemente, esse esforço no sentido de contemplar o pensamento do Eu é inexequível como tentar agarrar a própria sombra. O pensamento do Eu é o mínimo irredutível a que podem chegar as indagações de um homem — estando o ego em repouso. O caráter do pensamento do Eu só pode ser determinado observando a revelação por ele feita da sua natureza. Trata-se de uma tarefa que só poderá ser feita a partir da abstração de todos os demais pensamentos. Talvez a Natureza não permita que uma tal tentativa seja bem sucedida por mais de um instante, mas esse instante deve bastar para que se tenha uma rápida visão do eu real, o eu tal como ele é à sua própria luz.

Se examinarmos com cuidadosa concentração o curso da nossa vida Interior e observarmos o nascimento de um pensamento, o que de fato poderemos fazer nos momentos de quietude mental, se nos dissociarmos assim da inerência no intelecto propriamente dito, descobriremos que aquilo que dá realidade, vida e valor ao pensamento é uma consciência atenta. Sem o poder de emprestar atenção a alguma coisa o homem não teria existência consciente em nenhum mundo: físico, intelectual ou transcendental. A importância da atenção não pode ser subestimada. Na verdade, a atenção é a alma do pensamento e a raiz da percepção. Quando voltada para o exterior, permite-nos tomar consciência do mundo externo ao mesmo tempo em que ilumina os objetos. Por isso, sem enfocar no interior a faculdade da atenção, jamais poderemos esperar conhecer o reino oculto por detrás dos pensamentos — o reino do ser espiritual, o eu real.

Faz-se necessária uma mudança do campo de observação para que possamos efetuar essa descoberta. O hábito mantém nossas atenções inteiramente voltadas para o campo das coisas externas e para o mundo mental correspondente que delas decorre. As imagens que têm sua origem, direta ou não, neste campo nos assaltam de forma tão incessante a ponto de impedir que o eu tome consciência da sua própria natureza. A nossa mente se encontra perenemente viajando. Mas, se nos recusássemos a permitir que a nossa atenção corresse sempre para essas imagens mentais, libertando a mente para estudar-se a si mesma, automaticamente nos libertaríamos das limitações do intelecto e deparar-nos-íamos com horizontes mais nobres. O hábito que nos obriga a adotar um ponto de vista materialista a respeito do universo existe dentro de nós, observadores que somos, se tal hábito pudesse ser interrompido — e pode — um universo espiritual poderia então revelar-se à nossa atenção interiorizada. Enquanto vivermos absorvidos na multidão dos pensamentos será impossível, ou extremamente difícil, asseverar aquilo que se acha por detrás do pensamento.

É preciso estudar o funcionamento da mente, reconhecer a sua dependência final da atenção, e a seguir aproveitar ao máximo esse conhecimento. Que melhor aproveitamento poderia ser encontrado do que o preenchimento do vácuo entre os pensamentos e a alma e do que o ganho daquela maravilhosa compreensão que tal preenchimento nos promete?

O tipo de atenção que torna possível o pensamento precisa ser desviado do mundo exterior para o interior, pois é o único meio de acesso ao eu fundamental. Dirigida para o recesso do ser, a atenção nos permite contemplar nossa própria significação à luz que emana do eu. A atenção é de fato uma manifestação da essência do homem, daquela alma que sobrepaira o intelecto, o sentimento e o corpo. Se nos fosse possível cultivar nossa atenção de maneira a dominá-la completamente, não nos seria preciso outro recurso para chegarmos às mais elevadas verdades espirituais e psicológicas, ou para descobrirmos os segredos da vida, do sono e da morte.

A providência seguinte será, então, isolar esse pensamento do Eu com toda a força da nossa atenção e conservá-lo cativo durante algum tempo; e preciso que penetremos no seu segredo e forcemos a obtenção da resposta a esta pergunta: "Que sou eu?”

Pois a lógica, como quase sempre sugere a experiência no estado desperto, já não pode fornecer uma solução; chegou a um impasse e não mais pode avançar. A argumentação só serviu para nos convencer de que o eu está além de qualquer argumentação, pois está além do intelecto. A nossa busca só termina com a percepção direta do eu.

Assim o leitor foi conduzido, como que por um tênue fio, através do mundo do intelecto até a fronteira daquele esplendor maravilhoso que existe no seu âmago. Mostrou-se-lhe algo que até então ele talvez não houvesse sequer haver suspeitado: que assim como o mundo externo deve ser alcançado através dos órgãos sensoriais, assim também o mundo interior da alma deve ser alcançado pela faculdade de uma consciência atenta, liberta da tirania dos pensamentos aleatórios, dos sentimentos flutuantes e das sensações externas.

Mas desenredar e encarar o pensamento do Eu não significa pensar no assunto. Não se chega a tanto fazendo declarações mentais ou inferências a respeito. Embora a seqüência de auto-observações críticas e argumentos lógicos tenha sido vital para nos fazer chegar a este ponto, ela só servirá, caso seja levada ainda mais adiante, para obstar o nosso progresso.

A atividade mental precisa agora ceder diante da quietude mental. Tão logo nos entregamos a tal processo somos de novo desviados do caminho e atirados de volta na sempre presente seqüência de pensamentos e idéias que nos mantém afogados em sensações múltiplas e nos impede de chegar ao eu.

A única maneira de penetrar e captar o pensamento do Eu a esta altura é abandonar todo o raciocínio divagador a respeito. O que se requer é apenas uma atenção total, restrita ao campo da autoconsciência e mantida sempre sobre si mesma, sobre o Eu nela mesma.

Mostrou-se que a atenção é a alma inerente ao pensamento, e está por isso um degrau acima do pensamento. Em conseqüência, apenas uma atenção redobrada e concentrada pode contemplar o pensamento do Eu.

Na prática, o pensamento não pode contemplar-se a si mesmo a menos que se coloque num posto de observação mais alto. Mas tão logo o consiga é preciso que modifique a sua natureza e se transforme em atenção pura.

Qual o significado de todas estas declarações? Qual a momentosa implicação anterior a estas observações do processo do pensamento, elas próprias o resultado de um exame atento por parte de antigos videntes e sábios?

Eis a resposta: o ato de pensar consuma-se em seu grau mais elevado como atividade quando chega ao ponto de considerar o pensamento do eu, atendo-se firmemente ao eu, mas deixando de lado o processo normal de logicidade de raciocínio. Mas a capacidade de controlar o fluxo dos pensamentos precisa ser conquistada antes que nos possamos aproximar do sentido do eu e percebê-lo sem disfarces sob o complexo das ondas mentais.

O destino certo do pensamento é atingido quando para aqui, quando se enquadra na compreensão de que precisa ser agora subjugado e dar lugar à faculdade mais sutil da atenção pura, diretamente ligada ao ego e apenas a ele; dar lugar a uma consciência fixa que não salta de ideia para ideia, mas se prende de forma irresistível ao pensamento primordial do homem.

Por isso, todos os pensamentos aleatórios precisam também desaparecer antes que possamos avançar ainda mais no sentido da natureza do eu. Aí então temos o direito de esperar que o eu oculto se mostre espontaneamente. E não precisamos supor esse eu como uma invenção da imaginação metafísica. Pelo contrário, uma vez que ele é o centro mais recôndito que vibra antes e durante o raciocínio, o sentimento e a ação, deve ser também a mais alta intensidade da nossa vida individual.

A própria busca da compreensão dessa fonte misteriosa em que se origina o pensamento ajuda a preparar a única condição dentro da qual a compreensão é possível — a condição de uma atenta observação voltada para o interior que permite à consciência, ainda que por breve espaço de tempo, deixar de entregar-se à sua costumeira atividade de pensar.

É preciso que tornemos a nossa atividade cerebral afiada como uma navalha e para tanto necessitamos acalmá-la. Quando todos os pensamentos se aquietam e a mente chega à tranquilidade total, então esta pode contemplar o seu próprio eu com plena consciência, mas não antes disso.

Assim o nosso pensamento se voltou no sentido de si mesmo. Tal não teria sido possível já no princípio da nossa busca. Primeiramente foi preciso separar o pensamento do corpo e fazer com que ele encarasse sua vida corporal como algo externo a si. A seguir foi necessário que o pensamento examinasse a natureza emocional e constatasse que também esta é estranha a si. Por fim o pensamento examinou-se a si mesmo e aprendeu a encarar as miríades de pensamentos como alguma coisa objetiva. O segredo da penetração no eu mais profundo envolve assim a drenagem da atenção do mundo externo para o mundo interior. Para dizer a verdade, esse eu não poderia viver atrás de nós, mas sim dentro de nós.

Não há o receio de sermos conduzidos a uma região de pura fantasia, desde que a nossa orientação seja adequada, pois nada pode estar mais perto, ser mais íntimo e mais real do que o nosso próprio eu.
Quando Ali, parente de Maomé, perguntou-lhe: "Que devo fazer para não perder o meu tempo”, o profeta árabe lhe respondeu: "Aprende a conhecer-te a ti mesmo!" Um conselho inestimável. Por quê? Que o próprio Maomé responda através das suas palavras inseridas no Corão: "Aquele que compreende a si próprio compreende o seu Deus”.

Acontece que a asserção bíblica de que o homem foi feito à imagem de Deus é verdadeira, mas tal imagem está dentro do homem. Não se trata de nenhum absurdo. Deus está sempre dentro do homem, da mesma forma pela qual o homem está dentro de Deus. Aceitar esta afirmação com enfadada resignação, como fazem aqueles que não conseguem compreender as suas implicações, é uma coisa; senti-la como uma realidade viva, uma força divina, é outra.

- Paul Brunton no livro "A BUSCA DO EU SUPERIOR", Editora pensamento páginas 87 a 90

Abordando a questão do desejo

As várias faces do apego

A trave de tropeço da especialização

Religião e filosofia: sistemas para moldar a mente


Pergunta: Que tendes a dizer relativamente à religião e à filosofia como fatores educativos na vida do indivíduo? Até que ponto, de acordo com a vossa opinião, é a religião de um valor qualquer para a compreensão da verdade? Será a direção espiritual compatível com a verdadeira espiritualidade? Qual a vossa concepção de Deus?

Krishnamurti: Para mim, religião e filosofia são sistemas para moldar a mente. Eu digo que a verdade não pode ser encontrada por meio de um sistema, por meio de um guia. A religião não pode mostrar o caminho para a verdade, pois que a verdade, Deus ou vida, seja qual for o nome que quiserdes dar a essa realidade, só pode ser realizada por meio do apercebimento individual. A religião e a filosofia apenas pretendem impor as ideias de outrem em vossa mente e, por esse modo, entenebrecer e estropear o vosso pensamento. Eles estabelecem ideias e padrões aos quais vos esforçais por vos conformar. Porque o vosso pensamento está limitado pela tradição, pela imitação, pelo temor, vossa ação tem também que ser limitada e, portanto, dessa ação provem tristeza. É somente por meio do intenso apercebimento, que podeis chegar a libertar-vos da tristeza e à realização daquilo que é eterno.

Como disse, a verdade não pode ser realizada por meio de qualquer forma organizada de pensamento. Haveis provavelmente ouvido a história de como o diabo e um amigo seu estavam passeando certo dia, e viram um homem apanhar qualquer coisa, olhar para ela atentamente e coloca-la depois no bolso. O amigo perguntou ao diabo: “Que foi que ele apanhou?” E o diabo respondeu: “Um pedaço da verdade”. O amigo retorquiu: “Isto é, para teu caso, um mau negócio, não?” E o diabo respondeu ainda: “Oh! Não, eu vou deixar que ele a organize”. Não se pode organizar a verdade, pois que a realização é puramente um assunto individual. Onde a mente e o coração perseguirem um sistema e não repousarem por completo em sua própria força, em sua própria integridade, há sempre confusão.
Assim, um sistema organizado de pensar, uma autoridade espiritual, é para mim, a negação completa da Verdade; pois que a Verdade, a Divindade do entendimento, não pode ser realizada por meio de um sistema ou por intermédio de outrem. Ninguém pode salvar o homem exceto ele próprio; e é esta a sua grandeza, a de que ele próprio, em sua plenitude de ação, reside a realização da Verdade. 
   

Krishnamurti, palestra pelo rádio em 1932

A estrutura social sabota o Ser que somos

O caminho é cair pra dentro

Por que tantos são colhidos pela tristeza?


Vou tentar explicar o que me parece ser a mais natural e importante atitude perante a vida. Vossos pensamentos e vossas ações acham-se presentemente condicionados, limitados por ideias sociais, econômicas e religiosas e vós haveis vos tornado meros dentes de engrenagem numa máquina vastíssima. Não estais seguros e nem sois responsáveis e, dessa incerteza e irresponsabilidade, surgem vossas ações desarmoniosas e em conflito. Onde há conflito no pensar e sentir e, portanto, na ação, segue-se a tristeza e, a maioria das pessoas no mundo, tanto os irrefletidos como os espertos se acham colhidos pela tristeza.

Para libertar-se desta tristeza é preciso tornar-se consciente de que se está apenas imitando, que os pensamentos e sentimentos são contorcidos pelo contínuo conformar-se a ideais preestabelecidos e padrões que cegamente seguis. Em virtude disso, vosso verdadeiro instinto, a integridade de vosso próprio pensamento e sentimento perverteu-se. Presentemente não podeis confiar em vosso instinto, porque através de múltiplos séculos vosso instinto tem sido pervertido pela opinião pública, pela tradição, pela autoridade espiritual. Vosso instinto, que é vosso verdadeiro guia, foi assim rudemente pervertido e daí haverdes perdido, naturalmente, toda confiança nele. Portanto, afim de uma vez mais descobrirdes vosso instinto puro, necessitais começar a verificar como vossos pensamentos e sentimentos estão condicionados pelo medo e por causa da imitação; e, no verdadeiramente defrontar essas limitações, impostas pela sociedade e pela religião, pelos múltiplos padrões e ideais, dareis liberdade à inteligência natural que é a intuição, a qual é verdadeiro instinto.

O que estou dizendo não é de modo algum filosófico, nem tampouco é o pensamento ocidental ou oriental expresso de modo a acomodar-se às mentes modernas; isto porque, para mim, a filosofia, um sistema de pensar, somente limita a liberdade de sentir e produz a conformidade, que é uma imitação. Não estou de modo algum oferecendo-vos uma panaceia para as doenças atuais do mundo, nem dando-vos um sistema mediante o qual possais encontrar a felicidade.

No mundo inteiro todos buscam a felicidade, a felicidade que perdura, porém uma tal felicidade não se encontra pela conformidade, seja de que espécie for. A conformidade, que é imitação, principia na infância, por meio da educação, pelo choque com a sociedade e com as circunstâncias externas. Por esse modo tendeis a fazer que vossos pensamentos e sentimentos correspondam à opinião pública e se tornem subservientes às ideias religiosas e às autoridades espirituais. Se refletirdes sobre qualquer religião ou filosofia, nela encontrareis um método estatuído mediante o qual podeis chegar à realização da verdade ou Deus. Tudo que fazeis é conformar-vos, imitar e forçar vosso pensar e sentir segundo o molde determinado desse sistema, e por essa maneira apenas vos tornais dentes de engrenagem numa máquina social ou religiosa. Todo o edifício da civilização moderna se acha baseado inteiramente na conformidade e ajustamento a padrões que foram estatuídos por uma autoridade, a autoridade da opinião pública ou de um instrutor espiritual. E o que se dá com religião, sociedade e ideias, dá-se com a educação; a conformidade contínua resulta na sufocação do pensamento individual.

O que acontece na vida atual? Tendes uma experiência, tal como a morte ou a falência num negócio ou uma grande desilusão, e esta experiência vos faz sofrer forçando-vos a pensar. Em face do conflito, da confusão e da desgraça, rompeis com a conformidade, com a imitação, na qual reside a insinceridade, a falsidade, e começais a pensar por vós próprios, acrescentando assim o conflito. Ora, quando isto acontece, que é que fazeis? Buscais uma maneira de sobrepujar este conflito, para vencer essa tristeza, não por compreender-lhe a causa, porém sim procurando uma evasão, e estabeleceis um ideal, esperando por meio desse ideal esquecer o conflito.

Assim, da conformidade, desperteis para o conflito, escapais para a satisfação, a qual mais uma vez é limitação, e assim vos amarrais a este processo de contínua fuga do presente, no qual unicamente está a imortalidade. Eu digo que há entendimento no presente, não no conformar-se à memória do passado ou na persecução de um ideal para o futuro, porém sim, no contínuo apercebimento que revela todos os conflitos. Vós compreendeis fazendo face aos vossos conflitos, não tentando deles escapar. Fazer-lhes frente é tornar-se apercebido de que o sofrimento existirá enquanto houver a persecução do anseio. É na intensidade do viver no presente, sem o embaraço da conformidade ou da fuga, que advêm um êxtase, uma perpétua felicidade que para mim é a beatitude da verdade.


Krishnamurti, palestra pelo rádio em 1932

Sois prisioneiros da ânsia e do desejo

Presentemente estais colhidos dentro de muros de uma prisão por vós mesmos confeccionadas e buscais auxílio no exterior; porém ninguém vos pode ajudar, ninguém, a não ser vós próprios, pode derrubar as paredes que vos fecham. Prisioneiros da ânsia e do desejo, perpetuamente vos preocupais com o que seja a verdade, Deus ou a luz. Só podereis saber isto quando estiverdes fora da prisão. No entanto, em vossa intensidade de sofrimento, não despedaçais as paredes que vós próprios haveis criado, permaneceis na prisão e esforçai-vos por imaginar a natureza da liberdade. Por esse modo, apenas trazeis uma ideia para a vossa prisão, e não rompeis as paredes. É somente derrubando as ilusões criadas por meio do desejo, da ânsia, que libertais a mente da ideia das distinções, de modo a não mais haver luta.

Portanto, eu vos digo, não presumais coisa alguma. Não luteis para imaginar o que seja uma vida perfeita ou o que deva ser a verdade, porém tornai-vos apercebidos do fato de serdes o criador de vossa própria prisão. No fazer frente a este fato, no reconhecer que esta limitação vem do vosso próprio anseio de acumular haveres ou conhecimento, começais a derrubar a prisão que vos encerra. Onde houver anseio tem que haver luta para consecução e a consecução sempre fenece em vossa mão; pois que, no próprio momento do preenchimento, ela já perdeu seu significado e é deixado de lado. Por esse modo continua uma incessante luta.

Portanto, afim de poderdes compreender verdadeiramente esta luta constante, seu significado e dela libertar-vos, tornai-vos conscientes de que sois prisioneiros e então, como indivíduos que sois, pulareis fora da prisão que é esta pretensa civilização baseada no egoísmo, esta estrutura monstruosa que foi erguida através dos séculos.

É somente tornando-vos apercebidos de que sois vós próprios os únicos criadores das paredes da prisão que vos encerra e tornando-vos plenamente conscientes de vossas ações, que são o resultado de vossos pensamentos e sentimentos, que podeis destruir a prisão. Quando a mente está livre e não mais se encontra limitada por ideias pessoais ou pela limitação do afeto pessoal, advém a harmonia, a quietude da intensidade viva. Somente então conhecereis aquilo que é eterno. Portanto, não busqueis o eterno, porém tornai-vos apercebidos no presente quanto a causa do sofrimento, e, nessa chama de apercebimento, conhecereis a liberdade da harmonia, que é verdade.   


Krishnamurti, palestra pelo rádio em 1932

Sobre a dependência de conforto

A maior parte das pessoas busca conforto físico, emocional e mental. Ora, eu digo que onde quer que haja persecução da satisfação existe um amesquinhamento do pensamento e da emoção, que resulta em mediocridade no modo de encarar a vida. Todo o edifício de vossa civilização e pensamento tem sido baseado na busca do consolo, da satisfação; ao passo que, segundo o meu ponto de vista, a busca do conforto não pode trazer entendimento e somente no entendimento está a realização do intenso viver.

No buscar conforto há a conformação contínua e, portanto, a dependência de outrem, de vossos amigos; de modo tal que, como indivíduos, vos tornais incapazes de pensar com propriedade. Há nisso uma imitação incessante e neste esforço para adaptar vossa mente a um ideal particular, não pode haver completude de pensamento, pois que não pensais com profundidade, porque continuamente estais embaraçados pelas circunstâncias, pela sociedade, pela tradição. Desse modo, a maioria das pessoas vive num estado de constante temor originado da conformidade. Para mim, onde houver conformidade, há morte; onde há transigência há mediocridade, estagnação e lento declinar. Ao passo que, se pesardes com intensidade e completamente, sem olhar à tradição ou ao hábito, a mente a si mesma liberta desta ideia de temor e, portanto, não mais haverá a busca de segurança, seja ela mental, emocional ou física para a vossa existência, seja neste mundo, seja em outro.   


Krishnamurti, palestra pelo rádio em 1932

Por não questionar os padrões, não sois livres


Para o confeccionar de teorias não há fim. Quem quer pode inventar teorias. Muitos livros se encontram cheios de teorias acerca da vida espiritual e a respeito da Verdade. Eu não estudei teoria nenhuma, nem vossa nem de outrem; todas as filosofias são teorias que podem ser verdadeiras ou falsas. Jamais me interessei, nem me interesso agora por uma teoria qualquer, seja ela pertencente ao Hinduísmo, ao Budismo, ao Cristianismo ou à Teosofia. Teorias são moldes aos quais a mente humana tem de conformar-se e, onde houver conformidade, não haverá inteligência. As teorias são isentas de valor para um homem que vive, embora sejam excelentes para um homem morto. Para o homem vivaz, que pensa, que palpita, que sofre, vossos livros e teorias quanto ao destino futuro do homem, quanto à sua vida após a morte, são completamente isentas de valor.

Eu tenho estudado gente que vive e não teorias. Tenho contemplado aqueles que pertencem a muitas sociedades e religiões, aos que alimentam muitas crenças e esperanças. Tendo contemplado, observado e sofrido, cheguei a certas conclusões que perante vós especificarei. Não são teorias tiradas de livros, porém coisas que brotam das vulgares experiências humanas na vida diária. Não estou tirando uma teoria contra outra afim de que vossa mente possa deliciar-se pelo contraste e criar divisões e conflitos. Não sou interprete nem mediador: ao contrário, somente pretendo mostrar-vos refletidas em vosso próprio espelho, as causas do conflito, de modo que, pela verdadeira percepção, pela clareza de pensamento, por vós próprios, possais descobrir este êxtase da Verdade viva e por esse modo vos tornar livres e alegres.

Para compreender o que vou dizer não podeis, portanto, ter vossa mente repleta de teorias. Sei que haveis modelado a vossa vida de acordo com teorias o que vem a ser uma das causas de conflito. Toda a vossa vida se baseia no que outrem disse — no que Buda, Sankaracharya ou Sri Krishna disseram. Como homem que vive, por esse modo haveis destruído vosso próprio entendimento pelo fato de vos conformardes, pelo seguirdes os ditames de outrem. Aquilo que haveis cultivado, vos destruiu.

Há conflito e tristeza na mente e no coração de todos no mundo e, portanto, de pouco serve o vos preocupardes com a ideia de ajudar o mundo, a não ser que vós próprios comeceis a compreender. Enquanto não chegardes a reconhecer a vós mesmos que sois prisioneiro e não começardes a destruir vossas paredes de ilusão, não podeis libertar a outrem; apenas a outros estimulareis para virem participar da vossa própria ilusão, a qual, por contraste, lhes pode parecer liberdade.

Em primeiro lugar, existe, pois, a conformidade.

Se examinardes vossa vida haveis de verificar que todos os vossos pensamentos e sentimentos se baseiam na imitação. Tendes uma imagem previamente formada daquilo que a vida ou a verdade é, imagem essa colhida em livros ou por meio da autoridade e sabedoria de outrem; por esse modo, insidiosamente forçais vossa mente e coração a acomodar-se a essa imagem. Haveis criado uma estrutura social que exige adaptação e conformidade; daí decorre que, como indivíduos, vos haveis tornado completamente incapazes de um pensamento verdadeiro e intenso, incapazes de perceber que, onde houver conformidade para com a ideia de um outro, tem necessariamente que haver falta de sinceridade, hipocrisia. Se cuidadosamente examinardes vossos próprios pensamentos, haveis de verificar que vos estais conformando seja a uma ideia pré-formulada da vida, da verdade, de Deus, seja uma experiência do passado, seja à autoridade de um guia. Dizeis vós: “Ele é sábio, deve saber. Portanto, devo ser instruído por ele: aceitarei suas palavras como sendo a sabedoria, pois que ele diz que sabe”. Eu, no entanto, vos digo: Acautelai-vos de uma tal pessoa, pois que ela cria em vossa mente e em vosso coração o temor que destrói todo o entendimento.

Não vos digo, portanto, que sei e que deveis seguir-me ou obedecer-me; não vos digo que represento a verdade e que vos deveis tornar discípulo dela ou que sou mediador entre vós e a vossa realização espiritual. Tais palavras mais não fazem que criar medo e do temor provém a conformidade, e onde houver conformidade não pode haver inteligência. Só quando a mente está livre de conformidade ou da autoridade, seja a autoridade de outrem, seja a da própria experiência de ontem, é que há a plenitude do viver no presente, na qual está o êxtase da verdade.

Esta imitação, esta conformidade, que resulta de vossa própria exploração e temor, criou autoridades, divisões e distinções de classe, o alto e o baixo, o evoluído e o não evoluído. Desta conformidade nasce a disciplina. Se contemplardes a vossa própria vida, verificareis que esta luta constante que vos é implícita, não é viver, porém, sim, conformar-se. Todo vosso esforço é um mero ajuste de ideias; de vossos sentimentos, de vossas ações, aos ditames de outrem, a uma autoridade, seja a de um Mestre, a de um livro ou a de qualquer pessoa morta. Assim, vossos esforços e lutas, baseadas na conformidade e na imitação, não vos levam ao entendimento, mas, antes, vos tornam hipócritas e faltos de sinceridade para convosco próprios. Não sabeis o que realmente pensais, o que na verdade sentis, pois que jamais duvidais do padrão, jamais colocais em dúvida a autoridade. Semelhantes a ovelhas, seguis o pastor e o pastor que vos guia é, ele próprio, cego. E assim, aquele que vos dirige é o vosso destruidor.

Tornou-se o homem nada mais que um dente de engrenagem. Vive sem completude, sem o êxtase de viver; está sempre disciplinando, controlando, suprimindo e destruindo seu próprio entendimento criativo. Daí a completa desgraça e caos do mundo.

Da conformidade provém, naturalmente, o desejo de aquisição. Todos buscais segurança, tanto neste mundo como no espiritual. Neste mundo, a segurança significa o amontoar de riquezas, de bens. Eu não advogo a pobreza. Quero que compreendais, não que puleis para o oposto. Todos os opostos nascem da ilusão e vós sois facilmente colhidos pela ilusão dos opostos. Inclinais vossas cabeças em prazerosa concordância, porém, se realmente pensásseis, começaríeis a chorar. Onde houver conformidade tem que haver aquisição e daí o sistema competitivo desta civilização, na qual cada indivíduo anda rudemente em busca de segurança para si e para os seus, à custa dos outros.

A seguir vem a busca de segurança espiritual, que denominais evolução ou progresso. O progresso nada mais é do que aquisição de virtudes. A virtude torna-se, assim, um vício. Na conformidade há medo e, portanto, adquiris qualidades, virtudes, e lutais pela consecução a fim de a vós próprios poderdes proteger e vos sentir ao abrigo da aflição, em segurança. Daí, por meio desta ideia de progresso, surge a divisão, o alto e o baixo, o homem que sabe e o que não sabe, todos os quais criam resistência, disputas, conflitos. Da aquisição brota a ideia de força. Todo o progresso de pensar, no presente se acha preso no esforço para subir cada vez mais alto, para adquirir mais e mais e, por esse modo, não estais vivendo, um dia que seja, completa e ricamente.

Portanto, a base de vosso pensar é imitação, segurança e força. Para isto é que tendes guias, diretores, gurus.

Vossa concepção do progresso é um contínuo movimento de um objeto de desejo para outro. Quando tendes ânsia de posse por um objeto material, lutais pela sua aquisição até possuí-lo; porém, a partir do momento em que o houverdes obtido, ele perde sua atração, seu significado. Portanto, vosso anseio vos compele a buscar afeto, popularidade, fama, poder, e ides em busca dessas coisas e as possuis. Uma vez mais, porém, ficais desiludidos; e então buscais a Deus, a verdade ou a vida, porém sempre impulsionados pelo desejo. Apenas tereis mudado o objeto de vosso desejo, e chamais a isto progresso. Nisto não pode haver entendimento. O entendimento vem quando há cessação de todo o desejo que cria o conflito.

Desejais o poder neste mundo material de aquisições. Por isso ides à busca de títulos, de reconhecimento e de riqueza, que vos dá o sentimento de poder, criando por essa maneira distinções nas quais não há ternura, nem gentileza, nem afeto. Um sentimento de superioridade domina o homem que há adquirido poder espiritual e em sua mente existe a distinção entre si próprio e o homem que não possui esse poder. Para mim é isto a verdadeira antítese da compreensão. Onde houver consciência de distinção não pode haver a realização desta viva realidade.

Portanto, conformidade, segurança e força são os três embaraços que impedem o homem de realizar a verdade pois que ela é inimaginável, inexpressável. Aquilo que é vivo, sempre mutante, não pode ser descrito. Aquilo que é descritível, não é a verdade. Eu, porém, posso dizer-vos quais os embaraços para a compreensão. Tornando-vos apercebidos desses embaraços, confrontando-os, reconhecendo-os pela vossa mente e coração, a vós próprios libertais deles e por esse modo realizais a harmonia, o equilíbrio da compreensão.

Tais são, pois, as barreiras, com todas as suas sutis variantes, que impedem o homem de viver no presente, o qual, unicamente, é imortalidade. Ora, eu digo-vos, não luteis contra eles nem pacificamente lhes resistais, porém tornai-vos conscientes de serem eles falsos, de serem eles um embaraço para a clareza do discernimento. E somente vos podeis tornar conscientes examinando-os com vossa mente, liberta por completo de todos os apegos. Presentemente, pertenceis a qualquer religião ou sociedade. Vossa lealdade exige de vós certos atos, vossa religião exige o preenchimento de certos deveres. Com todas essas coisas vossa mente fica sufocada e, portanto, incapaz de verdadeiro discernimento. Vossa mente acha-se apegada a crenças e preconceitos particularizados que vos dão satisfação e a sensação de grandeza, força. Enquanto existir apego, não pode haver discernimento do que é verdadeiro; e é somente quando estais plenamente apercebidos, quando a vossa mente e coração se acham livres, desapegados, que advém o entendimento no qual não existe esforço nem disciplina.           


Krishnamurti, palestra em Adyar, Índia, 28 de dezembro de 1932

A mística iniciática dos Doze Passos

O apego é irreflexão, incompletude no presente


Agora, o que eu tenho para vos dizer, refere-se a todos os impedimentos que inibem de reconhecer instantaneamente a verdade. Eu digo que existe um êxtase da vida, uma eternidade, uma imortalidade que reside na completude de vosso viver diário e não em qualquer futuro distante, o que nada mais é que passageira fantasia. Digo que esta perdurável realidade somente pode ser compreendida na plenitude do presente. Não pode, porém, ser fantasiada ou imaginada e aquilo que for passível de explicação, não pode ser verdade. Aquilo pelo qual lutais, aquilo que conquistais, não é a realidade. Este êxtase da Verdade vem espontaneamente, naturalmente, suavemente, sem o mínimo esforço, sem autodisciplina, sem autoanálise, sem introspecção. Tem que vir sem atarefamento, com facilidade, com tranquilidade. Digo que este vivo êxtase da verdade existe sempre e que eu o realizei. Não digo isto por vaidade, porém sim para mostrar-vos que esta realização está no presente, não se acha reservada para um futuro distante. Só pode ser compreendida quando a mente estiver livre desse passado que cria o futuro, e a libertação do passado advém quando existe a realização do pleno significado, da completude do presente.

Para compreender esta completude do presente, não pode a mente achar-se apegada a uma ideia única. Somente na libertação do apego existe a verdadeira inteligência. Quando a mente estiver apegada a uma ideia, a uma crença, ou uma passada experiência, revela falta de inteligência. Por favor, examinai vossa própria mente, porém não apliqueis o que eu digo a outrem, seja vosso próximo ou vosso guia. O apego é irreflexão, incompletude no presente; no meu entender, essa irreflexão no presente é falta de retidão.

Krishnamurti, palestra em Adyar, Índia, 28 de dezembro de 1932

O apego é auto-interesse personalizado

Tomamos disposições para que haja somente uma reunião por dia, afim de terdes oportunidade, se tal for vosso desejo, de pensar durante o resto do dia sobre o que eu digo pela manhã; pois é necessário pensar sobre isto e não tirar rapidamente uma conclusão. O que digo é essencialmente muito simples e, pela sua simplicidade, talvez para complicado para algumas pessoas. Portanto, tomai tempo para vós mesmos e cuidai diligentemente em pensar sobre o que eu digo para chegardes a vossas conclusões próprias e verdadeiras. Não estou aqui para vos convencer contra o vosso próprio entendimento.

A Sra. Besant e o Sr. Jinarajadasa convidaram-me a vir aqui, para o Quartel general da Sociedade Teosófica e, como hóspede, devo respeitar suas ideias, teorias e crenças. Porém, eu disse ao Sr. Jinarajadasa, previamente, antes de vir, que expressaria exatamente e francamente meu ponto de vista e ele disse que eu o devia fazer. Portanto, não abuso da bondade de ambos ao dizer o que considero a verdadeira antítese do que seja real inteligência e espiritualidade.

Não vos vou dizer o que é inteligência ou o que é espiritualidade, pois que não desejo que vos conformeis com as minhas ideias. Porém, mediante o reconhecimento daquilo que é estúpido, isento de inteligência, irrefletido, mediante o apercebimento daquilo que não é verdadeiro, podeis descobrir por vós mesmos, se disso cuidardes, o que é verdadeiro. Não ataco a imagem de nenhuma sociedade ou religião especializada. Para mim, todas as religiões organizadas são completamente falsas. Em minha opinião elas não conduzem o homem à realização da eternidade. Ao contrário, embaraçam-no.
Por favor, não vos contenteis em meramente repetir minhas palavras. Elas para vós não terão valor enquanto, por vós mesmos, não chegardes a uma conclusão que seja vossa, sem olhar ao que eu ou outra qualquer pessoa digamos.

E eu vos solicitaria a examinar minhas ideias sem as comparar com o que já houverdes lido ou ouvido, pois que, pelo mero comparar, não descobrireis o intrínseco mérito do que estou dizendo. Penso que estais aqui para verificar o que eu considero os embaraços que impedem no homem a plena compreensão da vida; se, porém, começardes a comparar, apenas lançareis uma ideia contra outra e então escolhereis de acordo com vossos próprios preconceitos e nisto não pode existir compreensão de mérito intrínseco.

Não desejo que aceiteis minhas ideias como autoridade para vós, quero que examinais o que digo livremente, quero que o critiqueis, que o duvideis e façais perguntas. Para isto fazerdes com inteligência, não podeis vos apegar a uma ideia qualquer. O apego nada mais é que interesse personalizado. Interesse ligado à vossa família, ao vosso sacerdote, á vossa sociedade. Todas estas coisas vos impedem a clareza no pensar; e quando começais a vos apegar às vossas ideias, criais a divisão de “meu caminho” e “teu caminho”. A verdade é isenta de caminhos, para ela não há senda alguma. A divisão entre “vosso caminho”, “vossa senda”, ocultismo e misticismo, nasce da ignorância, da ilusão, e operais vossa escolha com a mente apegada a certos preconceitos especiais. Só quando a mente estiver por completo livre de todos os apegos é que pode descobrir o que é verdadeiro e reconhecer o mérito implícito em qualquer ideia; ao passo que, quando começais a externas vossas distinções e divisões, não pode em absoluto haver compreensão. Ao contrário, apenas perpetuais a dualidade que é a base de todo o conflito. Portanto, não desejo que vos coloqueis do meu lado. Não há lados. Eu cheguei à realização de algo que, para mim, é eternidade, é imortalidade. Não pode este algo ser compreendido por meio de sistemas ou por meio da divisão de caminhos. Caso é esse em que a mente se torna disciplinada, controlada, dirigida, perdendo assim toda a plasticidade e, por isso, todo o entendimento.

Tentar aproximar-se da verdade e compreende-la por meio da divisão do “meu” e do “teu” é completamente vão. A ideia de tolerância, torna-se nada mais que uma invenção intelectual que encobre o conflito que surge dessa falsa divisão. Quando existe afeto, entendimento real, não é necessário que haja tolerância. Quando amais a alguém, não tolerais a essa pessoa; vós a amais e é quanto basta. Dá-se o mesmo com todas as invenções da mente. Quando existe afeto real, liberto de apego pessoal, então essa palavra de que tanto se tem abusado — “fraternidade”, desaparece. Então não mais necessitais de vos organizar em corporações para ser fraternais; não necessitais pertencer a nenhuma sociedade especial, a nenhuma instituição ou igreja. Sereis então seres humanos, coisa essa maior do que todas as teorias.

(continua)
Krishnamurti, palestra em Adyar, Índia, 28 de dezembro de 1932

Confrontai-vos com vossa solidão

Pergunta: Que indução real existe em trazer alguém a fazer este esforço de honestamente observar seu próprio pensamento e sentimento? O céu, o nirvana ou a imortalidade poderiam considerados dignos de por eles se trabalhar; vós, porém, aparentemente, não ofereceis nenhuma destas coisas. Na maioria, as pessoas não gostam de ver-se tais quais são e, mesmo quando alcançam um vislumbre acidental de si mesmas, apressam-se a esconder a feiura que viram. Conhecer-se a si próprio é, sinceramente, um assunto desagradável e o esquecimento uma real voluptuosidade neste mundo árduo e irrequieto. Porque fazer, então, o espantoso esforço de defrontar-se com a realidade?

Krishnamurti: Para o homem imerso em tristeza a indução não traz a felicidade. Somente desejais a indução quando andais em busca de satisfação e contentamento. A verdade não é nenhuma destas coisas. Facilmente vos satisfazeis quando não possuis esse divino descontentamento e o haveis coberto de falsos valores. Portanto, para vos libertardes da indução, sofrei e gozai grandemente, não vos afasteis da vida e não a repilais. Para serdes livres, jamais deveis atordoar-vos com incentivos.

Morre alguém a quem amais e, pelo fato de sofrerdes intensamente, ficais momentaneamente satisfeitos com a ideia de que essa pessoa continua a viver do outro lado da morte, que com ela vos unireis no futuro. De momento, ficais narcotizados e adormecidos. Para a mente que se apega à ideia da união, há sempre tristeza na morte por causa do isolamento. O que tendes que defrontar não é a morte porém sim a vossa própria solidão, a qual haveis cuidadosamente evitado. A morte é apenas o intenso apercebimento dessa solidão, e dela não podeis escapar por meio de crenças e consolações.


Krishnamuri, 14 de fevereiro de 1932, Oak Grove, Ojai 

Krishnamurti e a prática de curas físicas

Pergunta: Outro dia, vossa resposta a cerca de curas, não foi convincente; podeis, por favor, explicar novamente?

Krishnamurti: Como disse, eu operei curas. Não o faço presentemente porque quero, se me é dado falar assim, curar a mente e o coração. O poder que cria feridas dolorosas é o mesmo poder que cura a mente e o coração; e eu estou me esforçando por fazer isto. Eu desejo ajudar-vos a chegar a essa serenidade natural da mente e do coração que vos assegure a libertação de todo o temor, e que é harmonia.


Krishnamuri, 14 de fevereiro de 1932, Oak Grove, Ojai 

Libertai-vos da gaiola da eu-consciência


Quisera dizer que estou fazendo experiências, por meio de palavras, esforçando-me por encontrar frases adequadas, mediante as quais possa expressar aquilo que não pode ser expresso, pois que precisa ser vivido. Se jamais vos houverdes deleitando pelo perfume do jasmim, este perfume, para vós será indescritível. Do mesmo modo, jamais minhas palavras transmitirão o pleno significado daquilo que desejo explicar.

Existe uma vida eterna, da qual vós, em momentos raros, haveis obtido um vislumbre. Cada qual deseja tornar permanente esse lampejo. Ora, a realização da verdade só pode ser permanente quando a mente perder as suas diferenciações. Os indivíduos alimentam a ilusão de que podem identificar-se com esta realidade eterna. Não há identificação. Se houvesse tal identificação, levaríeis vossa personalidade para o eterno, o que não é possível. Isto é, uma consciência limitada, que implica sempre um centro, uma dualidade, não pode tornar-se uma com o eterno. A realidade infinita, que não teve começo nem terá fim, que se acha liberta de todo o tempo, mora com o homem a todos os instantes. Ele pode realizar esta realidade, dando a isso sua mente e seu coração. Por haver eu encontrado esta vida eterna, quisera explicar como haveis de dissipar em vós próprios o centro da eu-consciência. A eu-consciência vela a realidade. No dissolver, no libertar a si mesmo desse centro de todo o egoísmo, está o êxtase dessa vida na qual não existe divisão. Isso somente pode ser realizado por meio de um grande esforço por parte do indivíduo. A maioria das pessoas deseja chegar a essa condição da mente isenta de esforço, que é a própria vida, sem fazer esforço algum. Libertar o pensamento da pessoalidade é o verdadeiro esforço. O esforço correto é essencial para libertar a mente de falsas ideias, de falsas crenças, de concepções erradas quanto àquilo que se supõem ser a realidade última. Vós é que tendes de fazer este esforço supremo para vos tornardes apercebidos. Vós é que tendes que vos tornar plenamente acautelados quanto às vossas ações, aos vossos pensamentos e sentimentos, e somente podeis operar isto vos tornando cônscios de vossas ações no presente, e não olhando para o passado. É assim que vos libertais da eu-consciência que é o passado. A mente só pode renovar a si própria quando está plenamente desapegada do conteúdo de ontem. Vós não podeis olhar para o passado para vos tornardes conscientes no presente, e só uma mente liberta do tempo, é que pode compreender a beatitude da Verdade.  

O esforço no presente cria cada vez mais confusão. Quanto mais esforços fazeis mais vos amarrais, mais a vossa mente fica sobrecarregada, nublada, entenebrecida. É colhida pelo seu próprio esforço, pela sua própria luta. Verdadeiro esforço é tornar-se consciente no presente, o que representa libertar a ação de todo o egoísmo. Este esforço consciente no presente, exclui o tempo, não acrescenta o fundo psicológico, o centro da eu-consciência. Portanto, o verdadeiro esforço, é essencial.

A eu-consciência é o centro do egoísmo, é formada de qualidades, atributos e de seus opostos. Em vosso esforço, tentais fugir de uma qualidade para outra e não vos esforçar por vos libertar de todas as qualidades, ficando, por esse modo, isentos de esforço. Vossa mente está sobrecarregada pelo medo e por isso vos esforçais por ser corajosos. A bravura encerra a qualidade do medo. Toda qualidade encerra o seu oposto. Se tendes medo, não busqueis o oposto do medo; buscai a causa do medo, que é divisão, a individualidade, a eu-consciência. Assim vos libertareis desta luta contínua, que se chama progresso. O esforço existirá sempre, a não ser que a própria semente do esforço esteja extirpada. A semente do esforço é a limitação causada pelo fundo, pelo centro do egoísmo que é a eu-consciência. Para dissolver a causa da tristeza, que é a eu-consciência, não podeis dar abrigo a motivos e incentivos. Para compreender a ação, a mente deve estar liberta de motivos, de crenças, de ideias. O entendimento reside na ação livre de crenças.

O homem vive pela ação, seja ela pensamento ou trabalho. Para mim, ambas as coisas são ação. Quando alcançardes o êxtase do pensamento, não haverá mais incentivo nem motivo. Quando estiverdes imersos nas profundezas de um grande sentimento, todas as crenças, todas as ideias e limitações estarão apagadas. O homem trabalha ativamente por causa da eu-consciência. Espera que, por meio de um incentivo, por meio de uma atração, se libertará de seu egoísmo. Eu digo, pelo contrário, que não podeis vos libertar desse fundo, desse centro de eu-consciência por meio de incentivos e crenças.

O incentivo embaraça a espontaneidade da ação. Nele não há alegria. Apenas vos modelais na conformidade de uma crença e todas as crenças são mortas. Para agir com plenitude precisais dissolver até esse mesmo centro que cria as crenças. Assim, sereis capazes de viver vida mais rica em lugar de estardes à espera de algo para vos guiar, para vos orientar. Esta plenitude de vida desafia as complicações da crença. Para compreender a experiência, para encontrara valores retos, não podeis ter crenças nem motivos.

Eu acentuo bem o que se refere à mente, porque para mim, o amor é a sua própria eternidade. É a mente que corrompe o amor. Não falarei a respeito do amor que é eterno. Ele desafia toda a descrição, não necessita de purificação, nem glorificação, está sempre livre do “eu” e do “tu”. Este amor se perverte pela mente com as pessoalidades, distinções e divisões que lhe são peculiares. O amor é eterno, sempre constante, porém, somente é possível realiza-lo quando houverdes libertado a mente da eu-consciência, que é o centro da individualidade.

Pensamento e sentimento estão em guerra contínua, combatendo e lutando para dominar um ao outro. Por isso abandonais a mente e tentais sobrepuja-la com o amor. Mas por esta maneira desviais a mente de sua finalidade. Quando a mente estiver completa — quando estiver liberta de sua própria criação, a eu-consciência — somente então existirá perfeita harmonia da mente e do coração. A mente deve perder, por meio da ação, por meio da plena eu-consciência, suas pessoalidades próprias. A mente deve perder sua objetividade sem ser mera pesquisadora do futuro. Se estiverdes, por pouco que seja, apercebidos de vós mesmos, sabereis que vossa mente está continuamente buscando; cria o objeto. Isto quer dizer que a mente cria a dualidade, o “tu” e o “não-tu”, os opostos. Enquanto a mente estiver colhida em sua própria eu-consciência, haverá sempre um sujeito e um objeto. A mente tem que perder o sentimento de seu próprio centro. Sereis mero observador enquanto o centro da eu-consciência existir, enquanto vossa em mente existir pensamento egoísta, dualidade; e este fundo, este centro só pode ser dissolvido por meio da plena eu-consciência. Uma mente imperfeita, por consumada que esteja em grande amor, permanecerá sempre imperfeita e esta imperfeição é causa de incessante conflito. Só quando a mente houver dissolvido seu próprio centro por meio da ação, haverá harmonia. Haverá, então, o êxtase que sempre se renovará a si mesmo, que zomba do tempo.

A vontade existirá enquanto houver seleção, a qual é esforço; enquanto tiverdes de escolher entre o que é essencial e o que não é essencial, entre o falso e o verdadeiro, haverá vontade. Quando não mais houver seleção, quando a mente estiver livre da eu-consciência que cria distinções, então a vontade desaparecerá. Quando o desejo, que é vontade, por causa do egoísmo estiver colhido em cativeiro, então a ação só conseguirá fortificar a eu-consciência. Para vos libertardes da gaiola da eu-consciência, tendes que vos tornar plenamente conscientes dos falsos valores que vos rodeiam e, em virtude disso, romper com eles. Para descobrir os verdadeiros valores, deve a ação estar liberta de crenças, de incentivos, de ideais.

Se um ideal ou um incentivo, por nobre e magnífico que seja, vos libertar de uma gaiola particular de falsos valores, continuareis a ter em vós o poder de criar outra gaiola. A mente que não houver compreendido os valores corretos está sempre criando uma ilusão, uma gaiola ao seu redor. Somente por meio do correto esforço para vos tornardes plenamente eu-conscientes no presente, o que é perceber os verdadeiros valores, podereis dissipar o centro da individualidade.

Para agir verdadeiramente, espontaneamente, com intensidade de vida de que falo, não necessitais de uma crença que vos compila à ação reta. A ação nascida da crença não é espontânea e nela não há alegria. A imitação exclui a felicidade. Para compreender a vida, que é todo-integrativa, a ação necessita libertar-se da eu-consciência.


Krishnamuri, 14 de fevereiro de 1932, Oak Grove, Ojai 

No fim do sofrimento está a paixão - Washington, 1985

J.Krishnamurti – Dublado - Sobre a dependência psicológica

A compreensão do essencial e o real valor do transitório

Pergunta: Dizeis que não devemos ter motivos para a ação. No entanto a razão revela que somente os animais e as pessoas desprovidas de senso agem sem motivo. Podeis, por favor, explicar mais um pouco esta afirmação?

Krishnamurti: Como vos disse, o motivo ou incentivo para a ação não vos dá entendimento. Vós achais que o incentivo é necessário, porque vos atemorizais de agir de acordo com a vossa própria pobreza de compreensão. Por isso necessitais de um ideal que vos conduza à ação reta. Esta dependência de um incentivo para vos compelir, embaraça o vosso viver no presente.

Relativamente à segunda parte da pergunta, não vos podeis identificar com a Vida Uma, porque essa identificação admite dualidade. Ainda que eu vos diga que existe uma Vida Uma em toda a sua imensidade e glória, vós não a podeis realizar por meio da identificação, e vos tornando unos com ela. Só podeis abordar isto como uma teoria intelectual, a qual jamais pode chegar ao terreno da realidade. Somente quando houverdes compreendido o essencial, o transitório e o verdadeiro valor do transitório, é que podeis realizar a verdade; pois a verdade está sempre no passageiro, e escapa ao homem que é escravo de um ideal, o qual vem a ser um motivo. O que necessitais é possuir uma mente alerta, altamente plástica. Só quando a mente a si mesma houver libertado, por meio da percepção dos verdadeiros valores, é que pode morar no que é essencial. Esta permanência da verdadeira seleção, que é energia concentrada no essencial, é felicidade e libertação.

Pergunta: Por favor, podeis nos explicar por que a nossa consciência está inativa quando dela mais necessitamos? Ou, por outras palavras, porque é que a consciência é ativa quando já é muito tarde?

Krishnamurti: Só pode existir consciência quando a experiência não é plenamente compreendida; quando, porém, a experiência é plenamente compreendida, ocorre a libertação da consciência. A falta de compreensão cria o tempo, e para a mente, tempo é consciência. Libertar-se da consciência por meio da compreensão, é viver no eterno presente, sem lamentações quanto ao passado, nem futuras esperanças. A memória das experiências não compreendidas, cria a consciência, porém a experiência plenamente compreendida, não deixa após si consciência, por haver completo entendimento no presente.

Pergunta: Dizeis que a ação no presente pode nos aprisionar ou nos libertar no presente. Por acaso vos referis a formas particulares de ação, as quais ligam ou libertam quanto ao seu efeito? Será o ato de contemplar um pôr-do-sol ou ouvir palestras mais conducente à libertação do que, por exemplo, cavar em uma mina de carvão ou lavrar um campo? Um pensamento sensual ligará porventura mais do que o faria um pensamento acerca de Deus?

Krishnamurti: Não importa que estejais cavando ou escutando-me. Toda a ação baseada num centro de egoísmo, sempre aprisiona, pois uma ação tal brota da limitação do pensamento. A ação não liga quando está liberta da eu-consciência.


Krishnamurti, 7 de fevereiro de 1932, Oak Grove, Ojai

A mente deturpa o amor e cria a dualidade


Estou tentando explicar algo que é quase impossível de traduzir em palavras. Minhas palestras podem, portanto, dar a impressão de que estou expondo uma filosofia complicada. Se meramente acompanhardes a letra, não compreendereis; se somente lhe tomardes o espírito, interpretareis o que estou me esforçando por transmitir, de acordo com as vossas crenças, preconceitos e fantasias.

Ser simples não é ser primitivo; simplicidade é riqueza, plenitude de compreensão. No viver com plenitude, eis como chegais a esta simplicidade, a única que vos pode proporcionar a realização da Verdade. Para viver simplesmente, e, portanto, intensamente, não podeis seguir uma direção ou trilhar um caminho qualquer que seja. Muitos caminhos há que levam ao prazer, à consolação, às fantasias, aos deuses; porém, para a compreensão da vida, não há caminho algum. Para tal não pode haver regras, e, no entanto, cada qual se esforça por moldar sua vida de acordo com um dado conjunto de ideias. É coisa vital o compreender que tendes de viver inteiramente pela vossa própria integridade de pensamento, sem depender das ideias e da verdade trazidas por outrem. A verdade é a compreensão do mérito essencial de todas as coisas. Este entendimento, em si, vos liberta do que não é essencial. E então, vivereis com energia concentrada no que é essencial, e que é iluminação. Esta compreensão não vos pode ser dada por outrem, a ela não podeis chegar por meio de qualquer tradição. Nem tão pouco será pela erudição que tereis a compreensão. O conhecimento é excelente, porém não vos proporciona entendimento algum. Só a mente liberta de ideias preconcebidas, de motivos, pode realizar a Verdade. Tendes que libertar vossa mente de toda a limitação e, para isto fazerdes, não vos podeis mover numa direção qualquer estabelecida ou possuir uma meta em direção à qual tenhais que trabalhar. Para compreender a vida, para compreender o valor do transitório, que encerra o essencial, vossa mente tem que estar isenta de motivos. Entendo por motivo um incentivo à ação. Não deveis ter motivos para a ação, porque na própria ação é que está o entendimento; se tiverdes um incentivo, ele vos roubará a compreensão da ação. Quando admitis ideias e vos esforçais por leva-las ao terreno da ação, destruís o entendimento de vossa ação, a qual, unicamente, vos pode libertar da eu-consciência.
A vida, a verdade, é infinita, não pode ser compreendida pela mente em cativeiro. Ela só pode ser realizada pela mente que estiver liberta de todas as qualidades, opostos e distinções criadas pela eu-consciência. A eu-consciência é sempre limitada. Não a podeis tornar perfeita pelo acumulo de experiências ou confiando na memória, a qual é tempo. Para mim, não existe consciência superior; toda consciência é eu-consciência, é limitação. A consciência sempre pertence ao particular, à individualidade; portanto, precisais libertar essa eu-consciência por meio da inteligência, e inteligência é a contínua escolha em ação.

Para tornar a mente perfeita por meio da inteligência, o que é libertar da eu-consciência, tendes que ter em vista o desejo. Se não compreenderdes o vosso próprio desejo, vivereis numa ilusão de falsos valores. Tendes que proceder a uma busca de vossos secretos desejos; e verificareis então que todo o desejo, mesmo o mais sublime, está preso no cativeiro da consolação, da satisfação, e desse cativeiro provém o medo. Portanto, não é caso de vos libertardes do desejo, porém sim de libertar o desejo da sua limitação. Desejo é vida, mas vós o perverteis por meio de falsos valores e falsos padrões. Assim, se examinardes vosso desejo, verificareis que existe um conflito entre o que ele anseia e o medo que para si mesmo criou. Neste conflito entre o desejo e o temor, estabeleceis falsos valores e desperdiçais energia nesse esforço, nesse conflito. A colheita de energia é energia é desejo consumado no essencial, que é iluminação. O entendimento da experiência, que desperta em vós o senso do valor verdadeiro, da compreensão da vida, não vos pode ser dado por outrem. Por isso tenho eu repetido constantemente que deveis deixar de parte vossas crenças, ideias, motivos, e buscar encontrar por vós próprios o verdadeiro mérito de cada experiência, isto é, de cada reação.

Muita gente anseia por conhecer o plano divino e sua finalidade, afim de poder torcer sua vida transitória na direção dessas pretensas verdades eternas. A verdade jamais pode estar contida em um ideal, em um plano ou sistema de pensar. A verdade sempre escapa ao homem cuja mente se modela na conformidade de um padrão. A verdade jamais pode ser percebida ao começo da pesquisa; somente por ocasião da consumação dessa pesquisa é que ela se revela. Qualquer tentativa para encerra-la em uma teoria ou plano, é sempre falsa, e moldar a si mesmo de acordo com uma tal falsidade é a própria negação da vida. No entanto, vedes que isto acontece com todo o mundo, as pessoas modelam-se de conformidade a um elevado ideal, o qual mais não é que uma perversão da mente e do coração.

Se na realidade examinardes o desejo, ireis eliminando aquilo que não vos servir e, portanto, estareis libertando a mente da limitação do desejo. Isto vos pode parecer uma maneira negativa de viver, porém não o é. No ato de compreenderdes aquilo que não quereis, vossa energia, em lugar de dissipar-se no que não é essencial, concentra-se naturalmente no que é essencial. Esta consumação da energia é iluminação que revela a verdade. Portanto, tendes que começar por verificar se sois ou não escravos de crenças, se vossos sentimentos são para a posse, se dependeis de riqueza para a vossa felicidade. Não vos descarteis das coisas por pensar que é tradicionalmente correto o ser desprendido. Pela eliminação gradual, por meio da compreensão do desejo em sua consumação sem temor, estareis libertando-vos do não essencial. A persecução do não essencial nada mais é que o esforço colhido pelos falsos valores. Isto é, se vosso desejo estiver constantemente buscando satisfação própria, se estiver ajustando-se a valores falsos e não libertando-se deles, vossa energia estará sendo dissipada. Assim, não haverá mais a concentração, que é o rico entendimento da experiência.

Assim, pois, no conservar e libertar a energia, o que é verdadeiro esforço, tornai-vos acautelados e somente então sereis plenamente autoconscientes. Quer isto dizer que, então, sereis indivíduos plenamente responsáveis pelas vossas ações. E então verificareis que vossas ações e reações provêm de vós próprios e vos tornais, assim, plenamente apercebidos de vós mesmos. Então, podereis começar a libertar a vossa mente por meio da inteligência na ação. A ação é a resultante do desejo, e o desejo não compreendido cria e fortifica a eu-consciência.

Como vos disse, não se trata de libertar o amor da limitação. O amor é sua própria eternidade, na qual não existe “tu” nem “eu”. É a mente que deturpa o amor e cria a dualidade. Só podereis encontrar a realidade última por meio da plenitude do coração e da plenitude da mente e não sobrepujando uma por meio da outra. O desejo de posse admite a dualidade “tu” e “eu” e, enquanto o amor estiver nesse cativeiro, há solidão, dor e prazer. Para evitar esta tristeza, dedicais vosso amor a um ideal ou a um salvador, o qual só momentaneamente disfarça vosso vazio isolamento. A maior parte de vós temem defrontar o isolamento. Buscam fugir-lhe apegando-se ao auxilio externo. No defrontar, entretanto, a pobreza de vosso próprio afeto e de vosso próprio pensamento, é como chegareis a realizar a riqueza da vida. Isto, porém, exige o despedaçamento dos símbolos que são vossas esperanças, e é aí que a verdadeira pesquisa começa.               

Krishnamurti em Oak Grove, Ojai, 7 de fevereiro de 1932

Algumas das bençãos do Paradigma Holotrópico

Notas sobre a Vida – parte 4

O amor é sua própria eternidade.

A harmonia somente pode ser realizada por meio do extremo.

No amor não existe nem “tu” nem “eu”.

Um navio na superfície das águas não deixa rastro. O mesmo acontece ao homem da Verdade, o ser perfeito.

O desejo é a chama da vida perdurável.

No movimento do tempo, vós e eu somos um.

A beleza jamais passa para o nada. Buscai a beleza e o temor da extinção desaparecerá. Na busca pela beleza está a imortalidade.

A morada da vida é o coração do homem.

Levar no coração o peso fatigante da incompletude, é tristeza.

O fim está no começo de todas as coisas.

Persegui a firmeza da intuição.

Simplicidade é ação pura.

Desejo, antecipação, preenchimento e saudade, é o estado do homem.

Verdadeira felicidade é experiência intuicional.

O temor é a falta de equilíbrio.

Buscais prestar auxílio por meio de palavras e explicações que se tornam nada mais que cinzas na boca. Somente na plenitude de vosso ser se apagam todas as diferenciações. Isto é compaixão.

A criação não é resultante da reação.

Existe tempo e espaço para o homem colhido pelo turbilhão da experiência.

Não há passado para o pesquisador da Verdade.  

O estigma da tristeza é o caminho da felicidade.

O desejo é sua própria lei.

A vida é a imortalidade do amor. A vida é a impessoalidade do pensamento.

A vida não tem tempo nem espaço, porém age livremente através do tempo e do espaço.

Para quem está jubiloso deve haver descontentamento.

A vida sempre se oculta em si mesma.

Suavemente equilibrado com a tristeza e o riso de uma idade.

A feiura é a sombra de um padrão.

A senda da vida é muito mais importante do que a forma da vida.

Entre mim e vós está o mundo.

Apercebei-vos da permanente significação das coisas e dai a cada uma seu valor verdadeiro.

Toda reação vos deve conduzir à ação pura.

Seleção é a descoberta continua da Verdade.

A moderna civilização é a cruel fastidiosidade da individualidade. Seus filósofos retiram-se para seus reclusos intelectos. Sua arte é apenas uma vivida descrição.

A grandeza do ontem cria a gloria de hoje.

A Verdade não tem muitas faces. Ela é completa.

O apercebimento está isento de escolhas.

Entendei o coração, porém não deixeis que ele vos prenda.  


Extraído do livro de notas de Krishnamurti 

Notas sobre a Vida - parte 3

A imperfeição, o conflito, cria a eu-consciência, o sentimento da individualidade.

O ser liberto não vive nem no futuro nem no passado, porém sim no presente, que contém todo o tempo.

A verdadeira piedade destrói a distinção entre “tu” e “eu”.

Libertação é estar isento da causa do egoísmo.

Quando o homem perceber que ele é o criador da tristeza, então, compreenderá a Verdade.

Deuses, Mestres, aparições e mistérios, não podem libertar o homem.

A sabedoria pertence à vida.

Para compreender a vida tendes em vista aquilo que é morte. Desse modo a vida passa por vós e vai adiante. A morte não pode pavimentar a estrada do entendimento.

Em absoluto não presteis culto.

Todo o momento de pensamento, todo o sopro de emoção, torna-se um degrau para chegar a essa verdade que é vida eterna.

A perfeição é divisível ao infinito, porém a imperfeição, a individualidade, é indivisível.

Para vos transformardes, renovai a mente.

Em vossa pesquisa pela verdade, buscai o essencial.

A individualidade não constitui um fim em si mesma. No frutífero contato com a vida ela perde sua separatividade.

Contra a autoridade, a razão não pode prevalecer.

O homem glorifica sua individualidade e deseja que ela continue após a morte. Assim, pois, ele a identifica com um Mestre, com um guru ou com um Deus. Toda a ilusão, porém, cessa, com a dissolução da individualidade.

Para o homem de tristeza, não há futuro.

A Verdade não tem discípulos, porém vós tendes que vos tornar discípulos da Verdade.

No vale dos grandes desejos eu fui apanhado.

A sabedoria não é botão que desabroche em uma só noite.

Não vos é possível realizar a imortalidade através de outrem.

O conhecimento direto é a porta da Verdade.

A afeição desapegada age sempre, porém jamais reage. As reações pertencem à limitação.

O amor do homem é maior do que o amor da pessoa.

O homem apega-se aos muitos no uno. O uno nos muitos será demasiado para ele.

Estar em íntimo contato convosco próprios, é Vida criativa.

Não tomeis a lagoa pelo oceano. Os encrespados do lago não são as vagas do mar.

Amai e libertai-vos do amor.

Não tomeis o perfume de uma flor única, porém, recolhei o perfume da flor da vida.

Sede ardentemente impassíveis.

O fardo das posses e crenças traz tristeza. Na plenitude da tristeza nasce o entendimento. Pelo entendimento criativo o homem se liberta.

Abri o desejo.

No agir, sois colhidos pelo conflito.

Não cultiveis vossa planta em um vaso, porém, deixai que toda a terra seja o seu solo.

Ação sem reação é harmonia.

A verdade se revela a si própria no libertar-se da eu-consciência, e não por meio de milagres e profecias.

O essencial é sempre simples.

Não adoreis a flor aberta de ontem.

Não vivais para vós mesmos. Assim, sereis capazes de resistir.

A inspiração da ambição é o sutil engano da mente.

Estranhas ideias exigem estranhos deuses.

Feliz o homem que está liberto de toda a conformidade.

A Verdade é sua própria espontaneidade.

Compreendei a vida e compreendereis a morte. Vencei a vida e vencereis a morte. Não temais a vida e não temereis a morte.

Sede independentes, sem particularidades.

Não vos é possível ocultar o perfume do amor.

Pelo comportamento sem esforço, julga-se a virtude do homem. Se houver esforço, não mais será virtude.

Não ameis com a mente.

A Verdade jamais pode ser conhecida, ela só pode ser realizada.     


Extraído do livro de notas de Krishnamurti

Notas sobre a Vida - parte 2

Não existe nem recompensa, nem castigo, nem céu, nem inferno.

Estar unido à vida é ser imortal.

A Verdade é contínua.

No coração daquele que é eternamente feliz, está o finito e o infinito, o homem colhido pela roda da experiência e o liberto. Todas as coisas estão nele.

A raiz da imortalidade é a compreensão.

Como a semente de futuras promessas reside fundo no coração do fruto maduro, assim está a verdade habilmente escondida no coração de toda a experiência.

A persecução da beleza é a glória do homem.

O mundo é o indivíduo.

Sem a completa cessação de todo o medo, vossos atos criarão limitação, e por isso, tristeza.

A ilusão só pode ser destruída pela cessação de toda a perturbação interior, a qual é o medo.

A Verdade é complexa, porém, jamais complicada.

Firmar-se na liberdade absoluta é o propósito do homem.

Certificai-vos e depois não tereis nem fé e nem crença.

O homem tornou-se sábio nas suas coisas infantis.

A reta compreensão vem pelo processo de eliminação.

A vida é integral, é a semente de todas as coisas.

É pelo viver que atingis a vida incondicionada. É pelo viver neste mundo que encontrais a Verdade.

Para viverdes em êxtase de propósito, vossa vida diária tem que mergulhar suas raízes no eterno.

O desejo está sempre buscando preenchimento na experiência.

O orgulho de ser diferente dos outros consegue-se à custa de absurdos e trivialidades.

A simplicidade é inexaurível.

Cada experiência vos deve fortificar e libertar dessa mesma experiência.

Não busqueis a pureza e sim a Verdade.

Ninguém vos censurará, ninguém vos julgará. Pois sois senhores de vós mesmos.

O homem precisa conhecer o bem e o mal e por esse modo ultrapassar o bem e o mal.

Que a vida vos discipline, pois somente então pode ser verdadeira autodisciplina.

Só podeis compreender a ignorância quando possuirdes sabedoria.

A vida é um rio no qual deveis ser como barco desapegado das margens.

O institucionalismo mata o pensamento.

Todo o homem busca roubar a luz de seu próximo, tal como a árvore na floresta espessa.

Sede a fonte cujas águas não secam.

Quando a mente está tranquila, imperturbada por pensamento algum, nasce a compreensão. Há então a criação da eternidade.

A verdade não pode ser objeto de crença.

O que é objetivo jamais pode estar em harmonia com o que é subjetivo, a partir do ponto de vista do objetivo.

Na Verdade não há mistério.

As cavernas mentais particulares do indivíduo devem cessar de existir.

Isolamento é limitação.

O homem perdeu a percepção da realidade. Vive na sensação.

A verdadeira força é equilíbrio.

A afirmação de si mesmo é a própria essência do eu.

A posse e a exclusão são as causas da infelicidade.

Durante a luz do dia prepara-te para a escuridão da noite.

A vida é independente da limitação de espaço e tempo. Portanto, ele opera através de todas as mudanças do tempo e do espaço.

A auto-determinação é maior do que a prece.

Contemplai e expressai seu deleite na ação.

Preocupai-vos com a raiz da tristeza e não com o clamor do sofrimento.


Extraído do livro de notas de Krishnamurti
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill