
Nesta tarde, talvez possamos considerar (não intelectualmente, porém
realmente, com nosso coração, nossa mente, todo o nosso ser), talvez possamos
dispensar toda a atenção à questão das relações, não só entre os homens, mas
também à relação do homem com a natureza, com o universo, com tudo o que vive.
Porém, como já observamos, a sociedade nos está fazendo, e nós estamos ficando
cada vez mais mecânicos, superficiais, insensíveis, indiferentes. Uma horrível
matança está ocorrendo no Extremo Oriente e nos mantemos relativamente
despreocupados. Alcançamos grande prosperidade, mas essa
prosperidade nos está destruindo, porque nos estamos tornando indiferentes e
indolentes, porque nos mecanizamos, perdendo a estreita relação com todos os
homens e todos os entes vivos; e parece-me importantíssimo fazermos
esta pergunta: Que é relação — se de fato alguma relação existe — e que lugar
compete, nessa relação, ao amor, ao pensamento e ao prazer?
(...) Que é nossa vida, que exige relações profundas, seja com a esposa,
o marido, os filhos, a família, seja com a comunidade ou outra entidade
qualquer? (...) Temos um problema imenso, que é o de compreender a existência, de
aprender a viver. E, como dissemos,
viver é relação, não há viver se não estamos em relação. E, como a maioria de
nós não se acha em relação, no sentido mais
profundo da palavra, tentamos identificar-nos com alguma coisa — com a nação,
com um dado sistema ou filosofia, ou certo dogma ou crença. É isto que se observa no mundo: a
identificação de cada indivíduo com alguma coisa — com a família ou com sua
própria pessoa — e eu não sei o que significa “identificar-se consigo mesmo”.
Esta existência fragmentária, separativa, leva inevitavelmente a várias
formas de violência.(...) “Ser respeitável” é ser moral em conformidade com uma
coisa deveras imoral. Em tais condições, há alguma espécie de relação? Relação
significa estar em contato, profundamente,
fundamentalmente, com a natureza, com outro ente humano — estar em relação,
não de sangue, como membro de uma família, ou como marido e mulher, pois isso dificilmente pode chamar-se “estar em relação”. (...)
Quase todos nós temos imagens acerca de nós mesmos e a imagem de outrem; temos
tais imagens, nas relações.(...) quando conhecemos uma pessoa intimamente, dela
já formamos uma imagem; a própria intimidade implica a imagem que tendes da
pessoa (...) E há a imagem da sociedade, e as imagens que temos acerca de Deus,
da verdade, de tudo.
Como se origina essa imagem? E, se ela existe — e ela existe, pode-se
dizer, em todas as pessoas — como é então possível haver qualquer relação real?
Relação significa estar profundamente em contato um com
outro. Dessa relação pode nascer a cooperação, o trabalhar juntos, fazer
coisas juntos. Mas, se há alguma imagem — eu com uma imagem de vós, e vós com
uma imagem de mim — que relação pode haver, a não ser a relação de uma ideia,
de um símbolo, de certa memória, que se torna a imagem? Estão essas imagens em
relação, e é nisso que consistem as relações? Pode haver amor, no verdadeiro
sentido desta palavra(...), pode haver efetivamente esse sentimento de amor
quando as relações são puramente conceituais, entre imagens, e não relações reais? Só pode haver relação entre os
entes humanos quando aceitamos o que é, e
não o que deveria ser. Estamos sempre vivendo no mundo
das fórmulas, dos conceitos, que são imagens do pensamento. Pode, pois,
o pensamento, o intelecto, estabelecer relações corretas? Pode a mente, o
cérebro, com todos os seus instrumentos de autoproteção(...) pode esse cérebro,
que é inteiramente reação da memória e do pensamento, estabelecer relações
corretas entre os seres humanos? Que lugar compete à imagem, ao pensamento, nas
relações? Há realmente lugar para eles?
(...) se perdestes a relação com a natureza, como podeis estar em relação com o homem?
Quanto mais vivemos na cidade, tanto menos estamos em contato com a natureza.
Quando saís a
passear, num domingo, olhais as árvores e dizeis “Que
bonitas!” e retornais à vossa vida de rotina, dentro de gavetas, chamadas casas
ou apartamentos. Estais perdendo a relação com a natureza. Prova-o o fato de visitardes os
museus e passardes uma
manha inteira a contemplar quadros — abstrações de “o que é” — o que demonstra
que perdestes realmente,
totalmente, o contato e a relação com a natureza. Quadros, concertos,
estátuas, tornaram-se de enorme importância, e nunca olhais uma árvore, um
pássaro, o esplendor de uma nuvem.
Ora, que são relações? Temos, de fato, alguma espécie de relação? Vivemos tão fechados, tão absorvidos em proteger-nos, que
nossas relações se tornaram apenas superficiais, sensuais, aprazíveis.
Se nos examinarmos em silêncio(...), se observarmos a nós mesmos tais como realmente somos, talvez possamos descobrir o quanto
estamos a isolar-nos todos os dias, a erguer em torno de nós muralhas de
defesa, de medo. Olhar a nós mesmos é mais importante e de maior
necessidade do que nos observarmos de acordo com um especialista. Se vos olhais
de acordo com Jung ou Freud, ou Buda, ou outrem, estais a olhar-vos com olhos
alheios. Estamos sempre fazendo isto; para olhar, já não dispomos de nossos
próprios olhos, e eis porque estamos perdendo a beleza que há em olhar.
Pois bem; quando vos olhais diretamente, não descobris que vossas
atividades diárias (vossos pensamentos, vossas ambições, vossa agressividade,
vossa constante ânsia de ser amado e de amar, a constante tortura do medo, a
agonia do isolamento), não descobris que essas coisas são fortemente
separativas e causadoras de profundo isolamento? E, nesse profundo isolamento,
que relação podeis ter com outro, com esse outro que também
se isola com sua ambição, sua avidez, sua avareza, sua ânsia de domínio, de
posse, de poder, etc.? Eis, pois, duas entidades chamadas entes humanos
a viverem em seu próprio isolamento, a gerarem filhos, etc., mas sempre no
isolamento. E a cooperação entre essas duas entidades
isoladas torna-se mecânica; alguma cooperação, entretanto, é necessária
entre eles, para que possam viver, ter família, trabalhar num escritório ou
numa fábrica, mas eles permanecem sempre entidades
isoladas, com suas crenças e dogmas, suas nacionalidades(...). O isolamento, portanto,
é, essencialmente, o fator do estado de “não relação”. E nas pseudo-relações desse isolamento o prazer se torna da máxima importância.
(...)Se nossa relação é produto do prazer sexual, ou do
prazer derivado da família, da propriedade, do domínio, do controle, do medo de
nos vermos desprotegidos, privados de segurança interior e, por conseguinte,
sempre a buscar o prazer — então que lugar compete ao prazer nas relações? A exigência de prazer destrói
todas as relações, sejam sexuais, sejam de outra espécie. E, se bem
observarmos, veremos que todos os nossos chamados “valores morais” baseiam-se no prazer, embora o disfarcemos com a “virtuosa” moralidade de nossa
respeitável sociedade.
Assim, quando nos interrogamos, quando olhamos
fundo em nós mesmos, percebemos essa atividade de auto-isolamento, esse “eu”,
esse “ego”, a erguer defesas em torno de si, e essas
próprias defesas são o “eu”. Este “eu” é isolamento, é ele que produz fragmentos, que produz o “olhar”
que se fragmenta em pensador e pensamento. (...) É ou não é um fato que estamos vivendo na dependência de uma imagem, de uma fórmula, de um
fragmento que nos está isolando? Não foi por causa desse isolamento que o medo,
com sua dor e prazer (produtos do pensamento), se tornou existente? Tenta então
aquela imagem identificar-se com algo que seja permanente, com Deus, com a
verdade, com a nação, a bandeira, etc.
Assim, se o pensamento é velho (e ele é
sempre velho e, por conseguinte, nunca é livre),
como pode ele compreender as relações? As relações estão sempre no presente
vivo (não no passado morto, da memória, das lembranças, do prazer e da dor), as
relações estão ativas agora; “estar em
relação” significa justamente isso. Ao olhardes para outra pessoa
com olhos cheios de afeição, de amor,
estabelece-se uma relação imediata. Quando sois capaz de olhar uma nuvem com olhos que
a estão vendo pela primeira vez, há então uma relação profunda. Mas, se o pensamento se intromete, então essa relação se converte em imagem. Assim,
pergunta-se: Que é o amor? O amor é prazer? O amor é desejo? É o amor a
lembrança de uma multiplicidade de coisas que formastes e conservastes — a
respeito de vossa esposa, de vosso marido, de vosso próximo, da sociedade, da
comunidade, de vosso Deus? Pode-se chamar a isso amor?
Se o amor é produto do pensamento (como de fato é, na maioria dos
casos), então esse amor está fechado entre cercas, emaranhado na rede do ciúme,
da inveja, do desejo de dominar, de possuir e ser possuído, da ânsia de ser
amado e de amar. Pode, então, haver amor a um e amor a todos? Se amo um,
destruo o amor para com outros? E como, para a maioria
de nós, o amor é prazer, companhia,
conforto, segregação na família e o sentimento de segurança que nela se
encontra — existe, aí, realmente amor?
Pode um homem que está acorrentado à família amar o seu próximo? Podeis
discorrer teoricamente acerca do amor, ir à igreja para amar a Deus (o que quer
que isso signifique) e, no dia seguinte, ir para o trabalho e destruir o vosso próximo — porque estais em competição com ele, ambicionando o seu
cargo, as suas posses, e desejando melhorar a vós mesmos, comparando-vos com
ele. Assim, quando, dentro em vós existe essa atividade, da manhã à noite, e mesmo durante
o sono em sonhos, podeis estar em relação? Ou relação é coisa de todo
diferente?
Só pode haver relação quando há total abandono do “eu”, do “ego”. Quando não existe “eu”, estais
então em relação; nesta, não há separação de espécie
alguma. Provavelmente, nunca
experimentamos esse estado de total negação (não intelectual, porém
real), de total cessação do “eu”. E talvez seja esse
estado que a maioria de nós está buscando, sexualmente ou pela identificação
com uma coisa superior. Todavia, esse processo de identificação com uma coisa
superior deriva do pensamento; e o pensamento é sempre velho (como o “eu”, o
“ego”, ele pertence ao passado).(...) Como é possível abandonar de todo esse processo
isolante, esse processo que se centraliza no “eu”? Como é possível isso? (...) Como
pode o “eu”, cujas atividades diárias são motivadas pelo medo, pela ansiedade,
pelo desespero, a tristeza, a confusão e a esperança — como pode esse “eu” que
se separa de outro pela identificação com Deus, com seu condicionamento, sua
sociedade, suas atividades
morais e sociais, com o Estado — morrer, desaparecer, para que o ente
humano possa estar em relação? Porque, se não estamos
em relação, iremos viver em guerra uns com os outros. Poderá não haver
matança mútua, porque isso se está tornando muito perigoso, a não ser, talvez,
em terras muito longínquas. Como podemos viver de modo
que não haja separação, de modo que possamos
cooperar realmente?
Há tanta coisa por fazer neste mundo — acabar com a pobreza, viver com
felicidade, viver deleitosamente em vez de viver na agonia e no medo, edificar
uma sociedade de espécie completamente diferente, com uma moralidade superior.
Isso, porém, só se tornará possível quando a moralidade da atual sociedade for totalmente negada. Há tanto que fazer, e que não poderá ser
feito enquanto estiver em funcionamento o processo de isolamento. Falamos do
“eu”, do “meu”, e do “outro”; “o outro” está do outro lado do muro, e o “eu” e
o “meu” deste lado. Como pode, pois, essa essência
da resistência, que é o “eu”, ser totalmente abandonada? Porque esta é realmente
a questão mais importante,
em todas as relações — já que percebemos que a relação
entre imagens não é relação nenhuma e que, quando existe tal qualidade
de relação, há necessariamente conflito e estamos sempre em guerra uns com os outros.
(...)Vós tendes vivido num espaço criado pelo “eu” (um espaço
limitadíssimo). O espaço que o “eu” criou entre uma pessoa e outra (o processo
de isolamento), é esse o único espaço que conhecemos, o espaço entre ele
próprio e a circunferência (a fronteira que o pensamento criou). Nesse espaço
é que vivemos; nele há divisão. Dizeis: “Se abandono a mim mesmo, ou se abandono o centro que é o “eu”, ficarei
vivendo num vácuo.” Mas, já alguma vez abandonastes o “eu”, de fato,
realmente, de modo que dele não tenha ficado nenhum resquício? Já vivestes neste
mundo nesse estado de espírito — no vosso trabalho, com vossa esposa ou
marido? Se alguma vez já vivestes assim, deveis saber que há um estado de relação em que o “eu” não existe, um estado que não é utópico, que não é coisa sonhada ou experiência mística,
irracional, porém um estado possível: viver numa dimensão em que todos os entes humanos estejam
relacionados.
Mas essa possibilidade só existe se compreendemos o que é o amor. E,
para existirmos, para vivermos nesse estado, temos de compreender o prazer
(sustentado pelo pensamento) e todo o seu mecanismo. Então, se poderá ver
instantaneamente todo o complicado mecanismo que construímos para nós mesmos e
em redor de nós. Não há necessidade de percorrermos todo o processo analítico,
ponto por ponto. Toda análise é fragmentária e, por essa porta, não virá
resposta nenhuma.
Existe este imenso e complexo problema da existência, com seus temores,
ansiedades, esperanças, passageira felicidade e alegrias, mas a análise não pode resolvê-lo. O que o
resolverá é abarcá-lo, no seu todo, num rápido lance de olhos. Só podemos
compreender uma coisa quando a olhamos (não com o olhar prolongado, exercitado,
do artista, do cientista ou do homem que se exercitou para “olhar”), só podemos
compreender uma coisa quando a olhamos com toda a atenção, quando a vemos, em
seu conjunto, num relance de olhos. E, assim, vos
sentireis livres. Estareis então fora do
tempo. O tempo se deterá e, por conseguinte,
terá fim o sofrer. O homem entregue à amargura ou ao medo não está em
relação. Como pode um homem ambicioso de poder estar em relação? Ele poderá ter
família, dormir com sua mulher, mas não está em relação. Quem compete com outro não está em nenhuma relação. E
toda a nossa estrutura social, com sua moralidade, se baseia na competição.
Achar-se em relação, fundamental e essencialmente, significa a cessação do “eu”,
gerador da separação e do sofrimento.
Krishnamurti – 25 de abril de 1968 – Onde está a bem-aventurança