“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Uma releitura dos Doze Passos

PRIMEIRO PASSO - Admitimos que éramos impotentes perante a solução dos nossos conflitos existenciais por intermédio do uso do pensamento condicionado – que nossas vidas estavam estagnadas devido ao pensamento condicionado.

A percepção da atividade do pensamento compulsivo com todas as suas capacidades, sutilezas, sagacidade, sugestões, e sua extraordinária e incessante atividade desprovida de inteligência, só é possível através da observação sem escolhas.
O pensamento nunca é original, é sempre um resultado do coletivo, da tradição. O pensamento não consegue abordar os acontecimentos da vida, com todos os seus relacionamentos, de forma limpa, depurada, não contaminada pelas experiências do passado contidas na memória. As recordações das experiências do passado impedem a manifestação de um estado de mente aberta, inocente e, portanto, não preconceituada. As memórias, as recordações, formam imagens que atrapalham a visão da realidade causando assim, uma interminável fonte de conflitos. Para a manifestação de um modo de vida sóbrio, sereno, equilibrado e feliz, torna-se de extrema urgência a percepção visceral da natureza exata dos nossos conflitos: o pensamento compulsivo com todo seu processo psicológico, sua manifestação, uma vez que toda reação condicionada parte do processo do pensamento. Esta percepção do pensamento e todo seu processo tem que ser livre de qualquer tipo de julgamento ou escolha, pois toda escolha e julgamento alimentam o processo de análise, que em sua origem é pensamento. O pensamento precisa “morrer de morte natural”, de inanição causada pela falta de identificação. Quando observamos o pensamento, sem qualquer tipo de esforço, de escolha ou julgamento, não ocorre a identificação com o mesmo, e sem essa identificação, não há a manifestação de qualquer forma de reação condicionada. Todo ato compulsivo é precedido de um pensamento compulsivo e da não observação do processo do pensamento. Através da observação do processo do pensamento, torna-se possível, sem qualquer tipo de esforço, a percepção do falso e da insanidade contida em sua promessa de prazer imediato.
Após uma minuciosa reflexão torna-se fácil a percepção de que não somos dependentes de um determinado tipo de comportamento compulsivo, mas sim, impotentes perante a ação do processo do pensamento compulsivo. Somos impotentes perante o pensamento, uma vez que nunca podemos saber de antemão qual será o seu próximo conteúdo, sua carga e manifestação. O pensamento se manifesta independente da nossa vontade, do nosso convite, trazendo consigo o conteúdo e a energia que quiser. Querer brigar, tentar silenciá-lo a força, seja através de um método, seja através de uma droga de escolha ou através do abuso da vontade própria, só pode resultar em mais conflito aos já instalados.
Através da observação sem escolha da natureza exata dos nossos conflitos, que é o pensamento com todo seu processo divisor, é que podemos chegar a conhecer um estado de unidade interna, através do qual, torna-se possível a visão das coisas como realmente são e não como é traduzido pelo nosso condicionamento, de acordo com as nossas experiências do passado, com as nossas imagens, preconceitos e acumulo de conhecimento.
A natureza exata dos nossos conflitos – o pensamento - é uma resposta irrefletida do acúmulo das nossas experiências armazenadas na memória, tanto individual como coletiva, particular ou racial, consciente ou inconsciente, por isso que a doença é física, por afetar as células da memória. Portanto, nosso pensamento nunca está no só por hoje, no agora; ele é fruto do passado projetando-se num futuro imaginário. Não pode haver uma nova maneira de viver através da ação do pensamento condicionado, uma vez que o pensamento é uma resultante do “velho”, do “conhecido”. O pensamento é sempre resposta do passado com todos os seus condicionamentos, tradições, crenças, moral, experiências e acúmulos pessoais e coletivos. O pensamento nunca poderá renovar a si mesmo e é aí que reside a nossa verdadeira impotência.
Sem a admissão da total impotência e futilidade do uso do pensamento como um meio de solucionar os nossos conflitos, torna-se impossível a ação do despertar da inteligência criativa e integrativa, a qual é capaz de ver o falso no falso. O pensamento pode apenas descobrir a sua própria projeção, não pode, portanto, descobrir uma nova maneira de viver. O pensamento pode se identificar apenas com aquilo que já vivenciou; não pode se manifestar com o que não vivenciou. Não se trata aqui de nada filosófico, espiritual ou metafísico. Basta uma minuciosa reflexão para mostrar que enquanto o “eu” – com todas as suas recordações, compulsões e condicionamentos – estiver na ativa, não pode haver nunca o despertar da inteligência criativa e com ela, a manifestação de uma nova e saudável maneira de viver, repleta de equilíbrio, serenidade, sobriedade, felicidade e amor. O pensamento jamais poderá vivenciar o novo, ele só poderá vivenciar o que lhe é conhecido, só pode operar nos domínios do conhecido, ele é totalmente impotente para ir além desses domínios. Basta surgir uma situação desconhecida, que a mente logo se agita e prontamente se instala o conflito. O pensamento tenta modificar a realidade, aquilo que por si mesmo não pode modificar. O pensamento procura sempre trazer o desconhecido para os domínios do conhecido. Mas o desconhecido nunca poderá ser trazido para o conhecido, e essa é a natureza exata dos nossos conflitos: tentar modificar através do pensamento aquilo que não está no alcance do pensamento.
Sem a admissão incondicionada do pensamento como a natureza exata dos nossos conflitos, torna-se impossível o despertar da inteligência criativa com todo seu bem-estar comum, unidade interna, autonomia e auto-suficiência psicológica.

SEGUNDO PASSO - Constatamos que somente uma transformação psicológica poderia nos proporcionar um estado de unidade interna e de bem-estar comum.

O que é "pensar"? Quando é que passamos a ter consciência do nosso processo de pensar? Certamente, nos damos conta dele, quando estamos "adictos" [afeiçoados, apegados] de um problema, quando nos sentimos ameaçados, inseguros, quando existe algum tipo de confusão. Somente nesses momentos é que percebemos sua existência como um processo auto-consciente, e, não raro, nesses momentos quase todos nós sentimos o desejo de desligar nossas mentes do 220 volts.
Portanto, se queremos experimentar um modo de vida sereno, equilibrado e feliz, mostra-se emergencial a prática da "observação relâmpago" do nosso processo de pensamento, o qual utilizamos em todas as nossas atividades.
É preciso observar o nosso próprio pensamento com todo seu conteúdo, energia e sugestões. Não poderemos despertar para a inteligência se apenas lermos estas linhas e não tomarmos consciência do nosso próprio processo de pensamento, se não observarmos a maneira pela qual ele surge, como ele se produz e o que pede. Se queremos vivenciar uma experiência própria, uma nova maneira de viver, livre de qualquer forma de comportamento compulsivo, precisamos através da observação consciente, descobrir o processo do nosso pensar. Precisamos trazer à luz da observação, a escuridão em que se encontram nossas vidas governadas pela ação do pensamento condicionado.
Não há dúvida que pensar é uma reação originada na memória, nos preconceitos, com todos antecedentes e condicionamentos. É de acordo com tudo isso que o pensamento adquire poderes para governar à nossa existência.
O pensamento não quer de forma alguma ser um servidor de confiança da inteligência. Ele quer governar e por isso vive criando um ciclo vicioso de conflitos. Quanto mais conflito, mais pensamento, quanto mais pensamento, mais conflito. Não importa qual seja a sua religião, nacionalidade, cor, orientação sexual - quem tenta responder aos conflitos é o pensamento, com todos os seus condicionamentos e desprovido da inteligência amorosa e integrativa. O núcleo desses condicionamentos é o "eu" presente no processo da ação. Enquanto os condicionamentos não forem compreendidos através da ação da observação sem escolhas, enquanto o processo do pensamento, a natureza exata do problema, não for compreendido e não tiver tido seu fim, continuaremos fadados a enfrentar conflitos, compulsões, dentro e fora, no pensamento, na emoção e na ação.
Nenhuma solução, de nenhum tipo, por mais sagaz ou bem pensada que seja jamais poderá pôr fim aos nossos conflitos. Poderá somente postergá-los. Precisamos, através da observação sem escolha, tomar ciência de como o pensamento nasce, de que fonte ele se origina, qual é a sua natureza e se é possível o mesmo deixar de governar nossas vidas, passando a ser tão somente um servidor de confiança da ação da inteligência criativa amorosa.
Enquanto o pensamento, que é resultado do conhecido, insistir em governar nossas vidas, não há a possibilidade da manifestação de um modo de vida sereno, equilibrado e feliz. O que podemos esperar é tão somente conflito, isolamento e a incapacidade de autênticos, nutritivos e satisfatórios relacionamentos.
Se você for um inconsciente adicto do pensamento é bem provável que esteja agora criando várias objeções, resistências à tudo o que leu até aqui.
No entanto, gostaríamos de lhe perguntar:
Você pode através dos seus pensamentos resolver seus problemas de ordem técnica, no entanto, pode resolver seus problemas psicológicos, emocionais?
Pensar bastante sobre os seus problemas tem feito com que você os resolva realmente?
Se você não sofre devido aos seus pensamentos, por qual motivo se interessou por este texto?
No cotidiano, quanto mais se pensa sobre um problema, mais complexo, insolúvel e incerto ele se torna. Não é exatamente isso o que ocorre em nossa vida diária e real?
Você até pode, se pensar sobre certos aspectos do problema, perceber com maior clareza o ponto de vista de outra pessoa, mas o pensamento não pode enxergar a plenitude e a totalidade do problema; o pensamento apenas vê parcialmente e uma resposta parcial não é uma resposta plena. Logo, não há solução!
Quanto mais pensamos sobre um problema, quanto mais o investigamos, analisamos e discutimos, mais complexo ele se torna. Precisamos observar o problema de forma plena e totalmente abrangente e isso não é possível através da ação do pensamento. Isso só é possível quando o processo do pensamento - que tem sua origem no "eu", nos condicionamentos, na tradição, no preconceito, nas crenças, na esperança, no conflito - tiver chegado ao fim. Precisamos compreender a nós mesmos, não por meio da análise, mas sim, através da observação sem escolha, enxergando assim, o fato tal como realmente é, tendo consciência dele como um fato e não como uma teoria.
Precisamos através da observação sem escolha enxergar a constante atividade do "eu". Se em cada um de nós não existir o centro do "eu", com seu desejo de poder, de posição, de prestigio, de autoridade, de continuidade, de auto-proteção, de reconhecimento, nossos conflitos certamente terão seu fim.
O si-mesmo, o "eu" é um problema que o pensamento não pode resolver. É preciso haver uma percepção que não parta do pensamento. Não se trata aqui de uma "ação divina" ou "ação da graça". Trata-se de observar sem escolha, sem condenação ou justificação, estar ciente das atividades do si-mesmo - apenas estar ciente, sem qualquer espécie de julgamento - isso é o suficiente. Enquanto você se mantiver ciente visando descobrir a forma de resolver seus conflitos, com o interesse de transformá-lo, de produzir um resultado, um ganho, você estará ainda no interesseiro campo do "eu", do si-mesmo. Enquanto estivermos interessados na busca de um resultado, seja por meio da análise, ou por meio da consciência, ou através de um exame constante de cada pensamento, continuaremos ainda presos no campo do pensamento, o qual se encontra no campo do "mim", do "eu", do "ego".
É preciso manter o simples: observar sem escolhas!

TERCEIRO PASSO - Decidimos aplicar em nossa vida e à nossa vontade uma observação isenta de escolha.

Poucas são as pessoas que realmente estão conscientes da insanidade à que estão acometidas, às dificuldades de seus relacionamentos, seus medos e suas buscas de prazer imediato. Poucas se perguntam com seriedade do por que de se conformarem a viver como estão vivendo, uma vida mecânica, rotineira e medíocre. Poucas e raras são as pessoas que dedicam sua atenção a isso. Poucos procuram se conscientizar da maneira como suas mentes se encontram condicionadas, como um computador e uma mente condicionada nunca poderá ser uma mente livre de conflitos. Não queremos saber, por nós mesmos, se existe uma possibilidade de sair da corrente do condicionamento social e viver uma vida autônoma e auto-suficiente, onde não seja necessária a busca pela doação psicológica de fora. A maioria se conforma com um modo de vida embotado, condicionado e socialmente tido como normal. Preferem viver de imagens, ideias, conceitos, orientadas por líderes, autoridades e livros tidos como “espirituais” e dentro deste condicionado modo de vida não pode existir o senso de investigação tão necessária para a libertação dos condicionamentos que nos mantém distantes de um modo de vida livre. Não pode existir o sincero desejo de compreender os conflitos humanos quando estamos presos a várias formas de influências e condicionamentos.
A grande maioria não quer fazer a mais importante das viagens que um ser humano pode fazer, que é a viagem para o mais íntimo de sua própria mente. Buscam pelos mais variados e atuais modos de entretenimento e distração, menos a grande profundidade e significação da jornada interior em busca da natureza exata de todos os condicionamentos, que os mantém num modo de vida fragmentado e infeliz. Se não há o autoconhecimento, estamos fadados aos mais variados tipos de conflitos e para que haja o autoconhecimento, tem que haver a prática da observação sem escolhas. Só na observação sem escolhas pode ocorrer a percepção do falso com toda sua carga de insanidade e não por meio de qualquer tipo de sistema de crenças. O autoconhecimento só pode existir quando temos um relacionamento correto com nós mesmos, onde não mais procuramos fugir, julgar, comparar ou retalhar os nossos pensamentos e sentimentos.
Uma vez admitido que o nosso modo de pensar, produz um modo de ser que é uma fonte inesgotável de conflitos, é extremamente necessário entrar nesta observação sem escolhas com sinceridade e seriedade, uma vez que, somente por meio dela pode ocorrer a percepção que não é produto do pensamento, capaz de colocar fim a toda forma de conflito. Há uma urgência de transformação radical e imediata, que não é produto do tempo, pois de outra forma manteremos a progressão de nossos condicionamentos, o que pode se revelar como fatal, nos levando à loucura ou até mesmo, a morte prematura.
Precisamos observar as muitas facetas de nossa existência para que assim, todos os nossos fragmentos possam ser juntados, integrados, unidos, harmonizados, proporcionando assim, um estado de unidade interna e bem-estar comum. Este é todo o significado da observação sem escolha: encontrar um modo de vida isenta de qualquer tipo de fragmentação dentro de nós e, portanto, portadora de serenidade, sobriedade, equilíbrio e felicidade.
Toda realização do pensamento é fragmentadora e onde existe uma mente fragmentada não pode coexistir bondade, igualdade, justiça, liberdade e amor. Liberdade não significa ser livre de um determinado padrão de comportamento, uma vez que isso é somente uma reação para fugir da dor. Liberdade não significa trocar uma prisão por outra, ainda que mais espaçosa e colorida. Liberdade não é de alguma coisa, mas a liberdade é por si mesma. Se existem feridas psicológicas armazenadas em nossa memória, criadas pelos nossos condicionamentos, estas feridas criam toda forma de dor e sofrimento. A mera liberdade da ferida, não é liberdade de fato. Só pode haver liberdade quando por meio da observação sem escolha, ocorre a percepção que não é produto do pensamento, que por sua vez traz a unidade de todos os nossos fragmentos e como resultado, o surgimento de um estado de bem-estar comum, não momentâneo, não passageiro, que é total, um modo holístico de viver.
Uma vez admitido tudo isso é de profunda urgência iniciar o inventário da nossa moral que é o resultado de nosso sistema de crenças, tradição e cultura. Sem o minucioso inventário da nossa moral, com todo seu sistema de crenças condicionantes, torna-se impossível o despertar da inteligência criativa com todo seu modo de vida total e livre. Sem o minucioso inventário de nossos condicionamentos, de toda nossa programação religiosa, sentimental, romântica, idealista, torna-se impossível a manifestação de um estado de unidade interna e bem-estar comum.
Se queremos realmente descobrir a verdadeira liberdade do espírito humano precisamos inventariar todos os condicionamentos pelos quais fomos programados desde a mais tenra idade. Precisamos nos tornar conscientes de toda forma de influência externa, pressões, sistemas de propaganda e instituições que nos condicionam internamente, psicologicamente, disparando nossos gatilhos de desejos, nossos medos, nossas crenças, nossa avidez, nosso conflito, dor e sofrimentos. Nosso sofrimento e nossa dor condicionam ainda mais a nossa mente.
Se realmente queremos ser uma pessoa livre, serena, equilibrada e feliz, precisamos saber por meio da observação sem escolhas, se nossa mente pode ser descondicionada, autônoma e psicologicamente auto-suficiente, de outra forma, nossos condicionamentos continuarão para sempre.
Existe toda uma cultura castradora que afirma que somente pela ação da “graça de um Deus”, de um “Poder Superior” pode a mente ser libertada de todo condicionamento. No entanto, se queremos realmente ser livres, deixar de viver no estado infantil da crença e descobrir por experiência pessoal a possibilidade desse modo maduro de ser, precisamos urgentemente assumir a responsabilidade que nos cabe de observar com seriedade a natureza exata do que nos mantém condicionados. Nenhum agente exterior pode socorrer-nos; o “agente exterior” é outra invenção da mente condicionada, outra concepção ideológica da mente que é incapaz de descobrir a saída para seus conflitos e, por conseguinte, necessita de uma crença. Somente por meio dessa observação sem escolhas é que podemos deixar de ser psicologicamente dependentes. Sem que se assuma a responsabilidade por nós mesmos, pelo nosso autoconhecimento, com todo o processo do nosso pensar, continuaremos sempre vitimas de dependências, sofrimento e dor. Somente quando tomamos consciência de todo o conteúdo de nossa consciência é que podemos ser livres, descondicionados de toda forma de reação emocional. Só é possível produzir uma profunda e radical transformação em nós mesmos, que não seja produto do tempo, se estamos conscientes, sem escolha, sem direção, sem controle, sem motivo, somente observando todos os nossos pensamentos e ansiedades, somente vendo-os, sem o intuito de fugir deles. É como se observa-se uma grande jóia em sua própria mão, observando todas as suas facetas, a cor, o brilho. Observar sem nenhum movimento do pensamento, então, isso produz uma mudança radical em nossa própria mente.
 QUARTO PASSO - Fizemos um minucioso e destemido inventário do nosso sistema de crenças, valores e condicionamentos.

Se quisermos sinceramente inventariar nossos condicionamentos é preciso, antes de tudo, libertar nossa mente de qualquer preconceito caso contrário nunca poderemos compreender nossos diversos condicionamentos. Se quisermos compreender algo, não podemos abordá-lo partindo de uma opinião pré-estabelecida, precisamos colocar tudo de lado e tão somente examinar. Se quisermos compreender nossos condicionamentos, é preciso que nossa mente esteja livre de qualquer conceito, uma vez que uma mente livre não é prisioneira de medos e ansiedades. Sem dúvida, são os conceitos, os condicionamentos, que nos amedrontam e diante desse medo, ocorre a invenção dos sistemas de crença que acabam por aprisionar as nossas mentes. Uma mente livre de conceitos, crenças, dogmas e condicionamentos é uma mente sem medo, sem ansiedade. Sendo assim, enquanto a mente tiver qualquer tipo de condicionamento, enquanto estiver psicologicamente presa num sistema de crenças, a um programa, a um conceito, ela não poderá saber o que é o despertar da inteligência criativa. A mente que acredita é uma mente condicionada e uma mente condicionada nunca poderá saber o que é o estado de liberdade proveniente da inteligência criativa integrativa.
É muito importante compreender todo o processo do nosso pensamento condicionado e essa compreensão não surge através do isolamento; a compreensão dos nossos condicionamentos ocorre no espelho dos relacionamentos. A compreensão do processo do nosso pensamento condicionado surge quando nos observamos em todas as nossas atividades, quando nos observamos em nossos relacionamentos diários, nas nossas reações, nas nossas atitudes, nas nossas crenças, na maneira como tratamos nossos familiares e conhecidos. É somente no espelho dos relacionamentos que podemos ver refletidos os processos do nosso pensamento condicionado. Não existe, é claro, uma vida isolada. Podemos, cuidadosamente, eliminar diversas formas de relacionamento físico, mas, ainda assim, a mente permanecerá relacionada.
O autoconhecimento só pode ocorrer quando enxergamos os fatos relacionados tais como eles são sem inventar, condenar, justificar ou racionalizar. No relacionamento, o pensamento condicionado faz certas avaliações, julgamentos e comparações; ele reage ao desafio de acordo com várias formas de recordação contidas na memória. Através do inventário dos processos da mente, através da conscientização de todo esse processo é que o pensamento se imobiliza. A mente fica então bastante quieta, silenciosa, sem incentivo, sem movimento em qualquer direção, e, nessa quietude, que é meditação, pode ocorrer o despertar da inteligência criativa integrativa. Isso não é algo que se possa cultivar dia após dia, que possa ser reunido, acumulado, mantido pela ação do tempo. Tudo o que podemos fazer é verificar como a mente está condicionada, e, através do autoconhecimento, compreender o processo do nosso próprio pensamento. Precisamos nos conhecer, não como nós, ideologicamente, gostaríamos de ser, mas como somos na realidade, não importa se feios ou bonitos, se invejosos, compulsivos, ciumentos, ambiciosos ou o que quer que seja. Mas, por causa dos nossos condicionamentos, é muito difícil ver apenas o que se é, sem querer mudá-lo. Esse próprio desejo de mudança é outra forma de condicionamento que tanta dor e sofrimento nos proporcionam. E assim seguimos, passando de um condicionamento para outro, jamais vivenciando o despertar da inteligência criativa integrativa.
Muitos confrades se ressentem pelo motivo de nunca terem vivenciado um estado de unidade e bem-estar comum, a não ser algo momentâneo, passageiro, experiência temporária sem maior significado. Estes confrades se questionam e se ressentem por após tantos anos não terem vivenciado o despertar da inteligência criativa integrativa. Durante anos, alimentaram a crença de que, por vigiarem, por terem consciência, se tornariam mais amorosos, sofreriam menos, seriam menos nervosos, menos compulsivos, atingiriam algo superior. Assim, o inventário deles era interesseiro, egocêntrico, um processo de compra, ou seja, uma observação condicionada por uma escolha, por um desejo, logo, não se trata de observação, não se trata de atenção. Inventariar os condicionamentos é observar sem escolher, é nos enxergar tal como somos, sem o desejo de mudar, sem fazer qualquer movimento, e fazer isso é de extrema dificuldade, mas isso não significa que continuaremos no estado atual. Não podemos saber o que acontecerá se pudermos nos enxergar tal como somos e se não quisermos promover uma mudança naquilo que se vê.
Esses membros ressentidos querem saber por que não podem ir além das disputas superficiais da mente. O motivo é muito simples: é porque, de forma consciente ou inconsciente, a mente vive sempre buscando por algo e a própria busca produz conflito, competição e a crônica sensação de insatisfação. Apenas quando, por meio da meditação não organizada, a mente atinge o silêncio absoluto é que existe a possibilidade da ação do despertar da inteligência criativa integrativa. Enquanto a mente abrigar qualquer tipo de desejo não poderá estar em silêncio absoluto, sendo para si mesma, uma eterna fonte de conflito, sofrimento e dor.
Para inventariar minuciosa e destemidamente o nosso sistema de crenças e condicionamentos é preciso dedicar atenção total, atenção na qual não pode haver esforço e nem o atrito produzido pelo desejo, ou pela busca de critérios auto-estipulados; porque no esforço, no atrito, no desejo, no estabelecer metas, há distração. Se estivermos realmente decididos a inventariar nossos condicionamentos, essa própria decisão produz uma atenção na qual não existe desvio ou conflito, ou sentimento ao qual devamos prestar atenção.
É muito fácil observar o que se passa no exterior sem qualquer tipo de escolha. Mas, concentrar-se em nosso interior e tomar ciência sem condenação, sem justificativas, sem condenação, é muito difícil. Precisamos nos limitar a inventariar o que se passa dentro de nós – nossas crenças, nossos medos, nossos dogmas, nossas esperanças, nossas frustrações, nossas ambições e o que mais se apresentar. Ao fazermos isso se dá o inicio do desdobrar da consciência e do inconsciente. Não precisamos fazer absolutamente nada. Perceber apenas; isso é tudo o que precisamos fazer: sem condenar, sem forçar, sem tentar mudar aquilo que se percebe. Se percebermos sem fazer escolhas, todo o campo da consciência começa a se revelar. E, à medida que se revela, só precisamos acompanhar sem qualquer forma de resistência, julgamento ou comparação, e este acompanhar torna-se extremamente difícil – acompanhar no sentido de acompanhar o movimento de cada pensamento, de cada sentimento, de cada desejo secreto. Torna-se difícil a partir do momento em que dizemos: “Isto é feio”, “Isto é bom”, “Isto vou manter”, “Isto vou guardar”, “Isto vou me abster”.
Assim, começamos com a observação exterior e movemo-nos para o interior. E a seguir descobrimos que o interior e o exterior não são diferentes, que ambos são um só. Então podemos ver que o tempo todo estivemos vivendo no passado; nunca houve um viver real, nunca houve a prática do só por hoje no qual o passado nem o futuro existem. Descobrimos através dessa observação que sempre estivemos vivendo nesse movimento entre o passado e as projeções do futuro – o que sentimos; o que fomos; se fomos espertos, bons ou maus – e que vivemos presos nas recordações. Somos adictos da memória. Portanto, precisamos compreender a memória, não negá-la, suprimi-la, não fugindo dela. Se um homem faz um voto de abstinência e se apega a essa recordação, quando recai ele se sente culpado; e isso asfixia a vida.
Então, passamos a estar atentos a tudo e, assim, tornamo-nos muito sensíveis. Portanto, ao escutarmos – ao repararmos não apenas no mundo exterior, no gesto exterior, mas ao escutarmos também a mente interior que olha e, portanto, sente – quando tomamos ciência assim, sem escolhas, não existe nenhuma espécie de esforço, conflito, sofrimento ou dor. É muito importante que compreendamos isso.
Sendo assim, precisamos descobrir se em algum momento, pode o pensamento ser original, uma vez que cada um dos nossos problemas é novo e original. Precisamos descobrir através do nosso inventário e não por meio de doações psicológicas vindas de terceiros, o que é o pensamento e todo seu processo fragmentador. Sem esta experiência única, especial e intransferível, torna-se impossível a descoberta de um modo de vida sereno, equilibrado e feliz, onde se possa ter ciência do que vem a ser a verdadeira liberdade do espírito humano.

QUINTO PASSO - Reconhecemos perante nós mesmos e perante outro ser humano o pensamento condicionado como a natureza exata de nossos conflitos existenciais.

Desde a mais tenra idade temos sido treinados para sermos leais ao sistema de crenças em que nascemos com todos os seus condicionamentos. Isso é conveniente para que possamos ser explorados pela sociedade. Para todos os interesses estabelecidos, a lealdade é simplesmente uma necessidade, mas ela reduz o ser humano a um estado de retardamento mental. Ela não permite o questionamento, ela não permite a dúvida, ela não permite o despertar da inteligência criativa integrativa; e se não somos capazes de duvidar, de questionar, de dizer "não" quando sentimos que a coisa está errada, caímos num estado de mediocridade e estagnação.
Se percebemos a necessidade de uma profunda transformação pessoal, precisamos ter em mente que discutir sobre a libertação dos condicionamentos, sem a devida atenção, pode gerar até mais condicionamentos! Um dos nossos condicionamentos é essa ideia de que devemos nos analisar, nos observar introspectivamente, olhar minuciosamente as feridas psicológicas da nossa infância. Nessa análise, há sempre o "censor", a entidade que controla, guia, molda, condena; há sempre conflito entre o analista e a coisa analisada. É preciso considerar isso não como teoria, não como conhecimento; o conhecimento é excelente em seu próprio lugar, mas não quando estamos procurando compreender a estrutura do nosso ser. Se nos servimos do conhecimento, da associação, da acumulação, da análise, como meio de nos compreendermos, cessamos de aprender sobre nós, no aqui e agora, que é onde se manifesta todos os nossos conflitos. O aprender requer que sejamos livres para podermos observar sem o "censor".
E o que significa ser livre? Será liberdade fazer o que nos convém, ir onde nos agrada, pensar o que nos apetece? De qualquer modo, é isso o que fazemos. Ter independência, simplesmente significará liberdade? Muitas pessoas no mundo são independentes, mas poucas são livres. A liberdade implica uma grande inteligência. Assim, ser livre é ser inteligente, mas a inteligência não vem apenas pelo desejo de ser livre. Ela só vem quando começamos a compreender totalmente o meio que nos rodeia, as influências sociais, religiosas, familiares e tradicionais que nos pressionam constantemente disparando nossos gatilhos da memória, que por sua vez, disparam todos os nossos padrões de comportamentos destrutivos. Mas para compreender as várias influências do meio cultural ao qual pertencemos, as crenças e superstições, a tradição à qual nos conformamos sem a mínima reflexão - para que possamos compreendê-las todas, e nos libertarmos delas, é preciso uma visão profunda, uma percepção que não pertence ao pensamento.
Geralmente nos submetemos a elas porque interiormente estamos com medo. Temos medo de não obter uma boa posição na vida; temos medo do que os outros poderão dizer; temos medo de não seguir a tradição, de não fazer a coisa certa, de acabarmos sós, falidos. Mas liberdade é, verdadeiramente, um estado de espírito em que não há medo, compulsão, nem a ansiedade de se estar seguro. A liberdade não está longe de nós. Ela se acha à nossa frente, e só temos de saber observar. Nunca fomos ensinados e incentivados a observar. A mente cheia de preconceitos, conclusões, crenças, não tem nenhuma possibilidade de observar e ser livre; e um dos nossos piores preconceitos é o processo analítico. Quando percebemos isso abandonamos esse preconceito sem esforço. E, uma vez abandonado, ele não tornará a nos aprisionar; nunca mais pensamos com propósitos de ascensão, de repressão, de resistência, porque tudo isso está implicado na análise.
É só em liberdade que podemos descobrir o que é o despertar da inteligência criativa integrativa, e não por efeito das crenças, dogmas, conhecimentos, fórmulas e preconceitos. Quando vivemos nossas vidas de acordo com um padrão de comportamento estabelecido por terceiros acabamos destruindo a nós mesmos. É muito perigoso seguir um padrão de comportamento pré-estabelecido, por mais espiritual que pareça ser, uma vez que, quando fazemos isso, tiramos nossa vida de seu centro, de sua base e isso nos torna insanos. Quando nos conformamos com um padrão de pensamento condicionado pré-estabelecido somente deformamos a nós mesmos e com isso geramos toda espécie de conflitos.
Para desenvolver uma percepção mais ampla, devemos estar dispostos a observar nossa visão estreita. A curto prazo é muito mais fácil não fazer isso - permanecer onde estamos, continuar usando o mesmo mapa microscópico, evitar sofrer a morte do sistema de crenças que valorizamos. Contudo, o caminho do despertar da inteligência criativa segue a direção oposta. Começamos desconfiando, questionando tudo o que já conhecemos, buscando ativamente o que é ameaçador e desconhecido, deliberadamente desafiando a validade do que nos foi ensinado e valorizado. O caminho para a sanidade está em questionar tudo.
Um dos problemas que nos mantém num modo de vida fragmentado é que poucos de nós desenvolvemos uma vida pessoal distinta, poucos de nós chegamos a saber por experiência própria o que vem a ser um estado de unidade interna, autonomia e auto-suficiência psicológica. Tudo em nós parece de segunda mão, até mesmo nossas emoções. Em muitos casos, dependemos de informações de segunda mão para funcionar. Aceitamos a palavra do médico, do terapeuta, do psicanalista e do cientista, dando-lhes crédito. Podemos aceitar informações de segunda mão sobre o estado dos nossos rins e os efeitos colaterais do colesterol. Mas quando se trata de questões de significado, finalidade e despertar da inteligência criativa, informações de segunda mão não servem. Não podemos sobreviver com uma fé de segunda mão num deus de segunda mão, autoconcebido pelo próprio pensamento condicionado. Precisamos sair da crença para a experiência. Tem de haver uma palavra pessoal, uma confrontação única, se pretendemos descobrir uma nova maneira de viver autônoma, auto-suficiente, onde não seja necessária as doações psicológicas vindas de fora. Enquanto aceitá-las não há a mínima possibilidade da manifestação da inteligência criativa.
Quando olhamos para o nosso mundo exterior, resultante dos nossos conflitos interiores, nos parece clara a necessidade de uma revolução total em nossa consciência. E não será possível tal revolução, se permanecermos insensatamente apegados a crenças, ideias e conceitos. Não encontraremos saída de nossa confusão, angústia, conflito, pela constante repetição do conteúdo dos livros tidos como sagrados e espirituais; isso poderá levar somente à hipocrisia, a uma vida de insinceridade, de interminável pregação moral, porém nunca a enfrentar a realidade. O que nos cumpre fazer é nos tornar conscientes dos condicionamentos de nossa existência diária, de nossos infortúnios, nossas angústias, nossa confusão e conflitos, e tratar de compreendê-los tão profundamente que possamos lançar uma base adequada, para começar uma nova maneira de viver, onde nossos pensamentos são apenas servidores de confiança da inteligência criativa, não tendo poderes para nos governar. Não há outra solução. Temos de nos enfrentar assim como somos e não como pensamos que deveríamos ser, segundo um certo padrão, ideal ou critério pré-estabelecido. Temos de ver realmente o que somos e, daí, nos prontificarmos para a transformação radical que não chega por meio de falácias como a força do pensamento positivo ou através do esforço pessoal.
Sem o reconhecimento da natureza exata dos nossos conflitos, poderemos tão somente encontrar por paliativos para situações momentâneas, o que de modo algum pode nos brindar com uma inteligência criativa capaz de trazer luz em todos os nossos tipos de relacionamentos.

SEXTO PASSO - Prontificamo-nos inteiramente a exercitar A observação não-cumulativa.

Em geral não temos seriedade, pois levamos uma vida superficial, uma vida de interesses, prazeres e proveitos imediatos. Quando temos o preenchimento daquilo que buscamos, desejamos ir ainda mais longe, e começamos a investigar, a indagar, a buscar por coisas que nos prometam por maiores satisfações. A pessoa séria não se interessa apenas pelas exigências e prazeres imediatos da vida, mas também pela solução de todos os problemas humanos, não numa data futura, porém imediatamente, aqui e agora. A pessoa séria vive o só por hoje; não deixa o tempo psicológico interferir. A pessoa que quer investigar e ter sua existência repleta de vida não se deixa distrair por influência de espécie alguma. Mas a grande maioria de nós não são suficientemente sérios. Não somos sérios porque, em primeiro lugar não sabemos o que precisamos fazer, não sabemos como nos aplicar quando estamos sobre pressão, quando estamos tensos, e quando surgem os problemas e as ansiedades da vida de relação. Quando estes sentimentos ocorrem acabamos inseguros, tensos e quase sempre saímos às pressas atrás de alguém a quem julgamos ser mais experiente e que possa nos dizer com exatidão o modo pelo qual podemos aplacar o sofrimento causado por tais sentimentos. Não nos sentimos prontos para nos sentarmos a sós com nossos próprios sentimentos, não nos prontificamos a observá-los de forma amorosa, isento de qualquer forma de escolha, comparação ou julgamento. Não somos sérios, porque, íntima e profundamente, temos medo. Não percebemos o fato de que ninguém pode nos dar certeza; ninguém pode nos dar a garantia de uma direção correta, porque, infelizmente, não há nenhuma direção para se seguir. A vida de relação é como um rio que, em seu movimento constante, salta sobre pedras, vence precipícios; ela está sempre em movimento. No mesmo instante em que desejamos segurança, garantia, certeza, esse próprio desejo gera o medo.
Se formos realmente sérios e inventariarmos nossos pensamentos e sentimentos, veremos que sempre estamos em busca de garantias. Estamos sempre em busca de uma autoridade que tenha investigado a matéria mais profundamente, que tenha “mais tempo de caminhada” e que nos diga o que devemos fazer, que nos mostre, num mapa imaginário, as estradas, as pontes, as cataratas, as pedras e os pontos perigosos a serem desviados. Condicionados por tantos e tantos anos, pensamos que não possuímos a inteligência ou a capacidade necessária para, por nós mesmos, exercitar essa observação amorosa, capaz de descobrir, de trazer à luz, não só os nossos problemas conscientes, mas também os inconscientes, aqueles problemas profundamente ocultos, que nos atormentam a vida. Estamos sempre à procura de alguém ou de um método, sempre em busca de mais perfeição, em busca do que é correto fazer. Esse próprio desejo é o criador da autoridade psicológica, é o criador de nossas dependências doentias que mantém encoberta a ação do despertar da inteligência criativa. Se formos sérios e destemidos, veremos a verdade contida nestes fatos. Estamos sempre prontos a seguir qualquer um que alegue "saber mais", que alegue poder nos dirigir, nos guiar. A autoridade psicológica, criada pela nossa incerteza, nos mantém pessoas dependentes, o que, por sua vez, gera ainda mais medo. Se formos sérios e honestos, não será preciso um exaustivo inventário para constatarmos que muitos de nós estamos presos neste círculo vicioso da dependência psicológica, por busca de segurança. Não sabemos o que fazer com a nossa vida de relação e por isso, nos submetemos a alguém e essa própria submissão gera medo. Esta é a maneira pela qual muito de nós estamos vivendo. Sentimo-nos muito mais seguros diante de um psicólogo, um terapeuta, um sacerdote, um dogma, um método, uma crença ou algo que represente uma causa. A sós, nos sentimos inseguros, desprovidos de certa garantia. Não aprendemos a confiar em nós mesmos; desde a mais tenra idade, muitos de nós temos sido condicionados de que não temos a capacidade de prover nossas necessidades, tanto físicas como emocionais. Assim, nos submetemos a certas autoridades psicológicas; à autoridade de uma idéia, de um método, de uma pessoa, de um dogma, ou de uma organização. Nesse próprio processo gera-se o medo. Por não termos a experiência direta da prática de uma observação amorosa de nós mesmos, não acreditamos possuir a inteligência necessária para compreender o inteiro processo da vida de relação, sem a doentia necessidade de dependermos psicologicamente de alguém. Não acreditamos ter a possibilidade de psicologicamente não depender de ninguém, de nenhum livro, de nenhuma filosofia, nenhum terapeuta, nenhum psicólogo, nenhum instrutor ou de alguma concepção de algo superior fora de nós mesmos que possa nos aliviar dos problemas que enfrentamos pelo fato de não sabermos usar nosso pensamento à luz da inteligência criativa. Não acreditamos na possibilidade de descobrir uma nova maneira de viver, por nós mesmos, à medida que vamos vivendo no espelho das relações e com isso, alimentamos nossa imaturidade emocional, continuando sempre como pessoas psicologicamente dependentes, sendo sempre seguidores, medrosos, neuróticos, compulsivos, e por isso, adictos da incerteza e da escuridão.
Por não termos aprendido a confiar em nós mesmos, nunca nos perguntamos se é possível, por nós mesmos, encontrar um modo de ter clareza. Por esse fato, nunca chegamos a ver e agir, de um modo que nunca haja confusão e que a nossa ação nunca gere mais sofrimentos, mais conflitos e escuridão. Muitos de nós não acreditamos que seja possível observar amorosamente a si mesmo e a seus problemas com tanta clareza que sobre cada problema não paire a mais leve sombra de dúvida, e o problema, por conseguinte, seja resolvido totalmente. Mas, se queremos descobrir um modo de vida, sereno, equilibrado e feliz precisamos nos prontificar a sentamos a sós com nossos próprios pensamentos e sentimentos. Precisamos nos sentar com nós mesmos para compreender essa nossa doentia necessidade de certeza, de garantia, e de sermos estimulados, como crianças, por alguém que nos diga: "Parabéns, você está indo muito bem! Este é o caminho certo; continue por ele". Se queremos atingir o estado que separa os adultos dos adolescentes precisamos nos prontificar a largar todas as nossas muletas psicológicas. Só então será possível saber por experiência própria o que vem a ser a verdadeira liberdade do espírito humano. Sem esta prontificação, continuaremos como crianças em corpos de adultos, sempre psicologicamente dependentes e incapacitados de resolver de modo inteligente os constantes desafios que surgem com a vida de relação. Sempre haverá problemas, e cada problema significa "desafio - e reação". A vida de relação está sempre a nos lançar desafios, e quando a reação ao desafio é inadequada, incompleta, dessa reação inadequada resultam os problemas com suas dores e mais variadas formas de sugestões de fugas emocionais. Um problema implica alguma coisa que nos é lançada, uma dificuldade que subitamente nos é apresentada. Se não somos capazes de reagir a esse desafio totalmente, completamente, com todo o nosso ser, nossos nervos, nosso cérebro, nossa mente, nosso coração, sem depender psicologicamente de nada e ninguém, então dessa reação inadequada, insuficiente, surgem mais e mais problemas. Durante toda a vida fomos exercitados e educados para não reagir totalmente. Só reagimos fragmentariamente. Em certas ocasiões, quando não estamos pensando de forma condicionada, reagimos com tanta facilidade e naturalidade que nenhum problema existe. Mas, com a maioria de nós acontece que os problemas estão surgindo constantemente por não despertarmos a inteligência criativa que surge pela prática da observação amorosa e isenta de escolhas.
Se queremos ser pessoas maduras, integras, não fragmentadas, se queremos vivenciar um estado de unidade interna e bem-estar comum, precisamos descobrir, por nós mesmos, se é possível reagir tão livremente e sem nenhuma resistência, tão completamente e sem nenhum motivo, que nenhum problema venha nos torturar a mente. Se formos capazes de reagir dessa maneira, a inteligência criativa despertará em nós e o “céu se abrirá para nós”. Se praticarmos as sugestões contidas neste PASSO, não será necessário buscar por palavras de garantia para descrever o que acontece. Não mais seremos entes humanos torturados, psicologicamente dependentes e emocionalmente deformados.
Se quisermos buscar por uma definição que resuma a essência do SEXTO PASSO, seguramente podemos nos contentar com esta: este é o PASSO que separa os adultos dos adolescentes.

SÉTIMO PASSO - Humildemente nos dispusemos a sentar com nossos próprios pensamentos e sentimentos, sem recorrer a nenhuma fonte externa para a obtenção de uma melhor compreensão de nós mesmos.

A humildade não é uma virtude que possa ser cultivada, nem pertence ao campo da moral e da respeitabilidade social. A pessoa que acumulou conhecimentos não conhece a humildade. Ela pode falar a respeito da humildade, pode citar palavras sobre ela, mas não tem o sentido da humildade. Somente aqueles que através da observação sem escolhas aprendem sobre si mesmos é que são essencialmente humildes. O ato de aprender está livre do processo de acumulação, o que já não ocorre com a aquisição de conhecimentos. A aquisição de conhecimento é de natureza mecânica, o que já não ocorre com o aprender sobre si mesmo. Podemos falar em termos de quantidade no campo do conhecimento, mas nunca no aprendizado de si mesmo. Quando comparamos, cessamos o processo de aprender, o processo da percepção imediata, que está fora dos limites do tempo. Toda acumulação e conhecimentos são limitados. A humildade não admite a comparação; não podemos falar em mais ou menos humildade e é impossível cultivá-la. A humildade e o amor transcendem os limites da velha mente e, portanto, não é produto do pensamento. A humildade está no próprio ato do findar do pensamento. Só podemos aprender sobre nós mesmos quando nossa mente está quieta, quando não “reage” imediatamente, quando há um intervalo entre reação e aquilo que se vê. Só nesse silêncio, que em sua essência é humildade, que ocorre a compreensão de si mesmo, ação esta que nada tem de compreensão intelectual. Se ocorre este intervalo entre o que se vê e a própria reação condicionada ao que se vê, nesse intervalo, nasce a clareza do autoconhecimento. Esse intervalo é a essência de uma nova maneira de viver onde não há espaço para as reações condicionadas pelo pensamento. A reação imediata faz parte do velho e compulsivo modo de viver, adicto do governo do pensamento condicionado e que funciona segundo sua própria tendência tradicional, reacionária e dos instintos degenerados. Quando, através da observação sem escolhas, ocorre o retardamento, a suspensão dessa reação condicionada, ou seja, um espaço de tempo, manifesta-se uma mente nova com uma maneira de atuar diametralmente oposta aos nossos velhos padrões de comportamento. Somente esta mente nova é capaz de compreender, de ver o falso, e não a velha mente.
É de extrema importância a compreensão da atividade condicionada da nossa velha mente com sua maneira de operar, de funcionar e de reagir. Nossa velha mente nunca é capaz de compreensão, somente a nova mente. Somente quando a velha mente – a mente condicionada, adicta dos instintos degenerados, que foi cultivada durante anos, que vive perpetuamente em busca de segurança, de conforto, de prazer – somente quando a velha mente se aquieta, é possível ver que há uma maneira de viver completamente diferente, e esse modo novo de viver é que traz a unidade interna, a clareza e a inteligência criativa que proporciona um estado de bem-estar comum, não passageiro. Esse novo movimento da mente é o inicio do despertar da inteligência criativa que coloca o pensamento em seu devido lugar: o de ser apenas um servidor de confiança não tendo poderes para nos governar. Para que possa ocorrer a libertação do nosso pensamento condicionado, precisamos compreender o mecanismo das atividades da nossa velha mente, prestar atenção em seus movimentos, atividades, exigências, desejos, planos; por isso que é de extrema importância a meditação não organizada. Isto não tem relação alguma com a insana ideia da prática do pensamento positivo; isso só demonstra total falta de maturidade, pura infantilidade. Por meditação, entendemos a observação e compreensão das operações do nosso velho modo de pensar, a observação sem escolhas do nosso pensamento condicionado, o conhecimento de como reage e de quais são as suas reações, suas velhas tendências, suas exigências de gratificação e agressivos planos. Meditação é o conhecimento total do mecanismo da velha mente, tanto a parte consciente como inconsciente. Quando conhecemos nosso velho modo de pensar, quando o observamos claramente, sem procurar de modo algum controlá-lo, dirigi-lo, sem compará-lo com um ideal, quando percebemos o seu velho movimento, quando o vemos totalmente, holisticamente, então, a mente torna-se quieta.
É preciso perceber como a velha mente vê os acontecimentos das relações sempre com o conhecimento do passado, armazenado na memória, com todos seus traumas, aflições, compulsões, ansiedades, medos, sentimentos de culpa, desespero, esperança e tudo mais que foi acumulado das experiências passadas. Olhamos a vida com todos seus relacionamentos através das lentes do passado e se quando olhamos a velha mente, a olhamos com o conhecimento do passado, não há em absoluto percepção alguma. Se buscamos realmente pelo autoconhecimento o passado deve estar quieto; a comum sucessão ininterruptas dos pensamentos tem que parar. Se faz necessária uma observação que está no eterno agora, no só por hoje. Para observar, todo o conhecimento de nossas próprias intenções, nossas preocupações, nossos problemas pessoais, e tantas outras coisas mais que se manifestam na vida de relação, o passado deve ser colocado totalmente de lado. Isso significa que se necessita de liberdade para poder observar, liberdade para olhar a complexidade do mecanismo da velha mente, que há tantos anos tem sido nutrido, essa mente que não está no hoje e que representa a continuidade do passado. Necessita-se liberdade para olhar todas as suas reações, necessita-se expô-la à luz da inteligência criativa. Só assim é possível a observação não dependente de doações de fora; e, sem essa observação autônoma e auto-suficiente torna-se impossível o autoconhecimento.
Não podemos observar, quando temos defesas, quando oferecemos resistência, e a maioria de nós teve muito cuidado em cultivar por anos e anos esses mecanismos de autodefesa, os quais, nos impedem de olhar a vida através de um novo paradigma, através de uma nova maneira de viver. Somos o resultado de um aglomerado de condicionamentos, e através desses condicionamentos, através da atividade da nossa velha maneira de pensar e de viver, é que olhamos a vida e as suas relações, e nunca olhamos a velha mente com liberdade. Só quando há liberdade de observação, a velha mente “se apresenta”, revela-se. Se estamos a nos defender, precisamos de liberdade para compreendê-la, pois só em liberdade podemos olhar e compreender toda a falsidade do nosso velho modo de viver. Só quando há liberdade, a velha mente “responde” de maneira natural, e podemos então compreendê-la, bem como todo seu complexo, repetitivo e insano mecanismo.
No entanto, o que se pode constatar é que a grande maioria de nós não quer ser completamente livre, não quer total liberdade, não busca pela excelência humana. Queremos uma liberdade condicional e assistida, queremos ficar livres de uma determinada dor, de um determinado padrão de comportamento compulsivo, ansiedade ou problema imediato, mas essas exigências de liberdade imediata não é liberdade em si mesma. Ser livre significa liberdade total. Só nessa liberdade, temos a possibilidade de descobrir a nós mesmos na vida de relação. Só em total liberdade podemos encontrar por uma nova maneira de viver.
A exigência de liberdade e a insistência em obtê-la revelarão, natural e facilmente, sem esforço, os variados condicionamentos e defesas que temos construído durante anos. Nessa revelação do passado começamos a ficar livre no agora, no hoje, realmente livres do passado, tanto consciente como inconsciente.


OITAVO PASSO - Fizemos uma relação de todas as instituições e pessoas pelas quais fomos condicionados e das quais abrigávamos qualquer espécie de ressentimento.

A mente é um macaco pulando de galho em galho, em busca do fruto, na selva do condicionamento humano. Discutir sobre a libertação dos condicionamentos, sem a devida atenção, pode gerar até mais condicionamento. Temos sido condicionados desde a mais tenra idade, por pais, professores, escola, faculdade, universidade, local de trabalho, religião, amigos e vizinhos. Todos têm tentando fazer de nós uma outra pessoa, alguém que não podemos ser e por isso, muitos de nós chegamos a ficar emocional e mentalmente doentes. O fato de negarmos as nossas mais profundas necessidades interiores em favor de seguir as expectativas descabidas de terceiros é que nos deixou emocionalmente desequilibrados. As pessoas que detém algum poder sobre nós, não querem de modo algum que sejamos um individuo integro, centrado, autônomo e psicologicamente independente, porque um homem centrado em si mesmo não pode ser explorado, não pode ser escravizado, não pode ser manipulado. A família e a sociedade não têm permitido o florescimento de um estado de excelência humana, ao contrário, condenam todo aquele que estiver tentando levantar-se sobre os próprios pés, e aprecia tão somente o homem que se torna apenas um imitador. Eles não querem um ser humano pleno, mas sim, um ser humano condicionado, robotizado, onde naturalmente, sua inteligência criativa, sua potencialidade, jamais tenha a chance de ser despertada, pois desse modo garantem a continuidade de suas zonas de conforto.
Se quisermos ser pessoas realmente livres precisamos estar cientes de que o condicionamento é a própria raiz do medo; e onde existe medo, aí não há inteligência criativa. Precisamos inventariar o modo pelo qual fomos "programados" biologicamente, fisicamente, e, também, "programados" mentalmente, intelectualmente. Precisamos estar cientes de que fomos programados como um computador. Os computadores são programados por especialistas para produzirem os resultados que eles desejam. Muitos de nós fomos programados para seguir uma determinada religião, para defender uma nacionalidade, para seguir determinada profissão e assim por diante. Durante anos temos sido programados - para acreditar para ter fé, para seguir certos rituais, certos dogmas; programado para ser um homem de sucesso. Desse modo, nosso cérebro se tornou tal como um computador, embora não tão capaz, porque nosso pensamento é limitado e isso significa que não somos mais um indivíduo autônomo, psicologicamente auto-suficiente, não necessitando de doações de fora.
Nunca investigamos a profundidade do condicionamento do pensamento coletivo, bem como, do nosso próprio pensamento: e porque nunca o questionamos, ele assumiu o governo da nossa vida. Ele é o tirano da nossa vida e os tiranos raramente são desafiados. O autoconhecimento brota quando observamos e compreendemos todos os nossos sentimentos e pensamentos, momento por momento, dia a dia. A totalidade dessa compreensão resolve os problemas da vida. O pensamento, sem dúvida nenhuma, é a reação daquilo que conhecemos. O conhecimento reage, e damos a isso o nome de pensamento. Se ficarmos alertas, conscientes do nosso próprio processo de pensamento, nos daremos conta de que o que quer que pensemos molda a mente; e uma mente moldada pelo pensamento deixa de ser livre, e por isso não é uma mente individual. O autoconhecimento não é um processo de continuidade do pensamento, mas de redução, de cessação do pensamento. O pensamento só pode terminar quando conhecemos o conteúdo total da pessoa que pensa; e assim começamos a ver como é importante ter autoconhecimento. A maioria de nós se contenta com o autoconhecimento superficial, com arranhar a superfície, com o bê-á-bá psicológico. Não adianta ler alguns livros de psicologia, arranhar um pouco a superfície e dizer que sabe. Isso é mera aplicação à mente daquilo que se aprendeu. Uma mente que acumula não pode aprender sobre si mesma e, portanto, nunca pode ser uma mente livre. Autoconhecimento não significa conhecer-se, mas conhecer a atividade do pensamento. Porque o ego é pensamento, a ideia. Portanto, é preciso observar cada movimento do pensamento, não deixando nunca que um pensamento passe sem se certificar do que ele é. Isso revigora o cérebro. O pensamento é medo, o pensamento é prazer, o pensamento é tristeza. E o pensamento não é amor. O pensamento não é compaixão. O pensamento é limitado porque o conhecimento é limitado e qualquer que seja a atuação do pensamento, o que quer que ele crie, tem de ser limitado.
Precisamos perceber através da meditação a totalidade de cada movimento do pensamento, sem jamais negá-lo ou tentar reprimi-lo; isto quer dizer, deixar cada pensamento "florescer" livremente: pois só em liberdade pode o pensamento "florescer" e terminar. A mente precisa estar quieta, saber o que realmente significa "estar quieta", estar verdadeiramente tranquila. E, nessa tranquilidade, existem várias outras formas de movimento que, para quem nunca refletiu a esse respeito, só verbalmente se podem descrever.
A menos que descubramos a natureza exata do pensamento, nos veremos sempre de novo enredados num sistema de vida que levará finalmente ao conflito, uma maneira de vida que é violência. A natureza exata precisa ser descoberta. Enquanto existir observador e coisa observada, haverá contradição, distância, intervalo de tempo, separação entre ambos, e o pensamento tem de existir. Enquanto houver observador e coisa observada, e, entre ambos, intervalo de tempo, distância, espaço - essa separação dará origem ao pensamento. Só quando o observador é o objeto observado, e não há observador nenhum, não há pensar, não há fragmentação, há então, tão somente, unidade.
Precisamos estar cientes de que o pensamento não é inteligência. A inteligência pode fazer uso do pensamento, mas quando o pensamento tenta apoderar-se dessa inteligência para uso próprio, ele se torna sagaz, danoso, destrutivo. A inteligência, pois, não é nossa. Não é mensurável. Ela é, com efeito, um estado de "não-existência". Inteligência é pensamento e sentimento em perfeita harmonia, e, portanto, a inteligência é a própria beleza, inerentemente, e não uma coisa para ser procurada. O que nos cabe fazer é, apenas, observar, estar cônscios de nossos atos, pensamentos, e "motivos", e descobrir se existe alguma possibilidade de transformarmos totalmente nossas tendências humanas, crenças e desesperos. Quando um problema se apresenta – se não há seriedade – a mente hesita, porque não percebe o pleno alcance desse problema. Ir de encontro ao verdadeiro problema que causa a preocupação, conhecer de onde se originou este problema, quais pensamentos fazem parte deste problema, permitir que a plena percepção do problema seja a solução do problema. Nessa meditação encontra-se o despertar da inteligência com seu estado de unidade e bem-estar comum, que é eterno e não um paliativo para situações momentâneas.
Para meditar, no sentido mais profundo da palavra, temos de ser íntegros, morais. Não se trata da moralidade de um padrão, de uma prática, ou da ordem social, mas sim da moralidade que brota naturalmente, inevitavelmente, suavemente, quando começamos a nos compreender a nós próprios, quando estamos atentos aos nossos pensamentos e sentimentos, às nossas atividades, desejos, ambições, etc. — atentos sem qualquer escolha, observando apenas. Dessa observação nasce a ação correta, que não tem nada a ver com conformismo ou com uma ação de acordo com um ideal. Então, quando isso existe profundamente em nós, com a sua beleza e austeridade na qual não há nenhuma rigidez — rigidez só existe quando há esforço — quando tivermos inventariado todos os sistemas, todos os métodos, todas as promessas e olhado para eles objetivamente, sem gostar ou não-gostar, então podemos nos abster de tudo isso completamente, para que a mente fique livre do passado; então podemos prosseguir na descoberta do que é meditação. A meditação exige a mais alta disciplina — não a da repressão e do conformismo — mas a que surge quando observamos o nosso pensamento. Essa mesma observação tem a sua própria disciplina, de uma sutileza extraordinária. E podemos fazê-lo em qualquer momento. A meditação consiste em observar, estar atento a tudo, ao que está acontecendo à nossa volta e ao que está acontecendo em nós mesmos – é estar consciente de todo o processo, do movimento total.
Ser inteligente é estar livre da ação do pensamento condicionado. O pensamento condicionado não pode resolver os nossos problemas, porque eles foram criados pela atividade do pensamento. E o nosso principal problema é produzir uma mudança fundamental, radical, revolucionária, psicológica. Sem essa revolução, torna-se impossível uma nova maneira de viver. Essa revolução vem com o cessar do pensamento. Para fazer cessar o pensamento é indispensável entender inicialmente o mecanismo do pensar. É preciso ir até o mais profundo do ser, compreender o pensamento como um todo. É preciso examinar cada pensamento; não deixar que algum deles escape sem ser plenamente compreendido; desse modo, o cérebro, a mente, todo o ser fica bastante atentos. E quando então se persegue todo e qualquer pensamento até o fim, até a extremidade de sua raiz, até a sua natureza exata, desse momento em diante, vemos que o pensamento cessa por si mesmo. Não é preciso fazer nada a respeito porque o pensamento é memória. A memória é a marca deixada pela experiência e, enquanto a memória não for compreendida de forma plena e total, continuará a deixar marcas. A partir do momento em que tivermos vivenciado completamente a experiência, esta não deixará marcas. Desse modo, se examinarmos cada pensamento e descobrirmos onde se situa a marca, e se permanecermos com essa marca, aceitando-a como um fato, esse fato irá desnudar-se e fará cessar esse processo particular de pensar, de maneira que cada pensamento, cada sentimento será compreendido. Então o cérebro e a mente se libertarão de um acúmulo enorme de recordações. Isso requer tremenda atenção interior, para cuidar que cada pensamento seja compreendido. Todos os problemas que enfrentamos hoje, tanto psicologicamente, como nas outras esferas, são o resultado do pensamento. E nós estamos alimentando o mesmo padrão de pensamento, e o pensamento nunca solucionará nenhum desses problemas. Há, contudo outro tipo de instrumento que precisa ser despertado: a inteligência criativa integrativa.
Infelizmente, para a maioria de nós, o pensamento se tornou demasiadamente importante. Para a maioria das pessoas, ter a mente vazia equivale a ficar em estado de estupor, de idiotia, ou coisa parecida, e nossa reação instintiva é de rejeitar tal estado. Mas, sem dúvida, a mente que é muito tranquila, a mente que não está sendo distraída pelo próprio pensamento, a mente que é aberta, pode encarar o problema de maneira muito direta e muito simples. É essa capacidade de olharmos nossos problemas sem nenhuma distração, que representa a única solução. Para tanto, é preciso que a mente seja muito tranquila, muito serena. Essa mente não é resultado, não é produto do exercício, de meditação organizada, de controle. Ela não nasce de qualquer espécie de disciplina, constrangimento ou sublimação; nasce sem esforço algum por parte do "eu", do pensamento; nasce quando compreendemos o processo total do pensar, quando podemos ver um fato sem distração alguma. Nesse estado de tranquilidade, da mente que se acha verdadeiramente silenciosa, existe inteligência. E só a inteligência pode resolver todos os nossos problemas. Somente a inteligência pode nos levar à um estado de bem-estar comum e de unidade interna e à descoberta do significado dos nossos conflitos. A inteligência começa a funcionar no momento em que se dá a agudez do sofrimento, quando a mente e o coração não mais procuram por mecanismos de fugas. Se cuidadosamente observamos, sem preconceito, vemos que enquanto existir uma fuga, não teremos solucionado, não teremos defrontado face a face o conflito e, portanto, o nosso sofrimento é mero acumulo de ignorância. Isto quer dizer que, quando cessamos de fugir pelos canais já bem conhecidos, então, ao se dar a agudez do sofrimento, principia o despertar da inteligência. E é somente quando a inteligência está funcionando plenamente que pode ter lugar a completa dissolução da causa dos nossos conflitos. Enquanto estivermos buscando soluções, enquanto buscarmos substituições, por causa e para alivio do conflito, tem que haver a identificação da mente com o passado. Se a mente estiver nesse estado de intenso sofrimento no qual todas as vias de fuga ficam bloqueadas, então a inteligência despertará, funcionando natural e espontaneamente. O despertar da inteligência acontece através do constante inventário do pleno valor de qualquer ambiente no qual nossa mente esteja presa.
É através desse inventário constante da validade dos ambientes que podemos nos tornar livres de todo o ambiente particularizado, uma vez que, desse modo, estamos funcionando de modo inteligente, o que impede de sermos condicionados, pervertidos e modelados pelo ambiente. A inteligência desperta pela ação do constante inventariar do ambiente e pela descoberta do verdadeiro significado desse ambiente. Para que ocorra o despertar da inteligência, nossa mente precisa estar livre de toda a espécie de tradição; caso contrário, ficamos completamente privados da verdadeira inteligência. A inteligência é um estado em que todo o nosso ser, a totalidade da nossa mente e das nossas emoções, estão integrados num só todo. Esse ente humano integrado é um ente humano inteligente, e não a pessoa que é "talentosa”. Para que possamos ser um ente humano inteligente, é preciso que ocorra uma completa revolução em nosso pensar. Ser um ente humano inteligente significa ser um ente humano sem medo, não limitado pela tradição, o que não implica que deva ser amoral.
É o inventariar constante e a autêntica insatisfação que fazem nascer a inteligência criadora; mas é extremamente difícil manter acesos a investigação e o descontentamento; a maioria das pessoas não querem que sejamos pessoas portadoras dessa espécie de inteligência, porque é muito desagradável conviver com alguém que está sempre pondo em dúvida os valores convencionais.

NONO PASSO - Rompemos com a nossa dependência psicológica de tais instituições e pessoas através da compreensão da disfunção proveniente dos condicionamentos das mesmas.

Sem a percepção de que a dependência das ideias, opiniões e juízos de terceiros, de que a veneração de pessoas, líderes, dos exemplos, geram condicionamentos, e portanto, fragmentação e conflito, não há como se experimentar um estado de liberdade, de unidade interna e bem-estar comum, onde não existe o medo e a inadequação; verdadeiros combustíveis de nossos específicos comportamentos dependentes. Nosso problema central não está na libertação de um padrão de comportamento especifico, mas sim, na completa e absoluta libertação pessoal do governo do condicionado pensamento compulsivo.
Precisamos descobrir por nós mesmos o que é viver neste mundo em total liberdade psicológica, sem nos isolarmos “neuroticamente” da vida de relação numa “torre espiritual” criada pelo nosso pensamento condicionado.
Aceitar a necessidade de sistemas, programações, métodos e autoridades é um dos nossos maiores obstáculos, o qual impede a ação do despertar da inteligência. Somente a liberdade proveniente do despertar da inteligência pode dar à vida um novo significado. Mas, para que isso possa ocorrer, precisamos desenvolver a energia da mente aberta, tão necessária para poder olhar holisticamente; quer dizer, olhar com a mente e o coração e não com os olhos cheios de medo gerados pelo pensamento condicionado. É o pensamento condicionado que gera o medo que nos impede um novo olhar. O pensamento condicionado diz: “Se você olhar, poderá criar uma enorme confusão em sua vida” (como se ele já não estivesse vivendo em total confusão). É o pensamento, portanto, que gera o medo e impede o percebimento da verdade de que nenhum sistema, programação, método, “agente exterior” pode verdadeiramente nos libertar.
Somos adictos. Esse é um fato que precisa ser visto com toda intensidade do nosso ser. Precisamos ver a própria palavra “adicção” [dependência], não de forma fragmentada, mas, totalmente. Somos muito mais do que adictos de um padrão comportamental especifico, somos adictos de uma forma de pensar condicionada que nos rouba a liberdade da vida de relação. O que precisamos recuperar é a nossa liberdade original, nossa inocência que em sua essência é inteligência. Liberdade de um padrão especifico de comportamento não é liberdade em absoluto – é apenas mais um condicionamento.
Não somos pessoas realmente livres; levamos uma pesada carga de condicionamentos que nos foram impostos pela cultura em que vivemos, pelo ambiente familiar e social, pelos sistemas de crença, etc. E por estarmos condicionados, somos adictos. Por estarmos condicionados levamos uma vida fragmentada, sem unidade interna e externa. Nosso viver cotidiano, nossos pensamentos diários e aspirações, nosso terrível desejo de aperfeiçoamento, sempre embasado em comparações, nos fragmenta ainda mais. Esse condicionamento, essa fragmentação não só nos faz pessoas egocêntricas, mas também, pessoas isoladas, divididas, incapacitadas para manter relacionamentos onde seja presente uma verdadeira intimidade.
Não somos pessoas livres, somos adictos, dependentes. Na situação em que nos encontramos, condicionados, moldados por tantas influências, pelas repetitivas propagandas, pelos livros que lemos, pelo cinema, pela TV, pelo rádio, pelas revistas – com tudo isso a nos martelar e moldar a nossa mente – não temos a mínima condição de saber o que vem a ser a verdadeira liberdade do ser humano.
Nossa maior recuperação está na verdadeira liberdade, sem a qual, não há amor, somente ciúme, ansiedade, medo, controle, busca de prazeres imediatos. Sem a liberdade, não pode haver clareza da visão incondicionada e sem esse tipo de visão não há a possibilidade da sensibilidade à beleza.
Portanto, é preciso não se identificar com aquilo que vem do pensamento condicionado, isento da ação da inteligência. Existe uma inteligência por ser despertada. É preciso apenas observar com atenção e energia; encontrar os olhos para ver, pois o próprio ver é agir. O próprio ver é ação imediata.

 DÉCIMO PASSO - Continuamos observando nossos pensamentos e sentimentos, isentos de qualquer julgamento, procurando sempre reconhecer possíveis fontes de condicionamentos.

Somos pessoas influenciáveis. Deixamos-nos influenciar com muita facilidade e estamos sempre prontos para aceitar as ideias sem a menor reflexão. Tememos perder nossa segurança psicológica e por causa disso estamos sempre ansiosos para seguir e obedecer todo aquele que diz que “sabe” ou que “experimentou” algo diferente da nossa própria realidade. A mente da maioria de nós está seriamente deformada, de modo que somos incapazes de ver as coisas diretamente, por nós mesmos, sem a interferência das ideias de terceiros. Em geral, nossas mentes estão dominadas por preconceitos e uma mente assim condicionada só pode produzir um modo de vida vazio, doentio, superficial e sem valor.
Parecemos prosseguir ano após ano, vivendo dentro de um mesmo padrão comportamental, dentro do mesmo molde ou prisão, adictos da agonia, do desespero, dos sentimentos de culpa, da vergonha tóxica, do medo, além do desejo de poder e prestigio. Assim, temos vivido deixando nos prender na imensa rede de condicionamentos da geração precedente.
Assim, todo aquele que deseja descobrir um modo de viver sereno, equilibrado e feliz precisa perguntar a si mesmo se é possível libertar-se dessa imensa rede de condicionamentos, desse modo de vida, dessa existência mecânica e superficial que só lhe oferece solidão, desespero, relacionamentos superficiais e constantes conflitos do cotidiano. Se desejamos descobrir uma maneira de viver que em si mesma contenha as sementes da nossa perdida integridade, precisamos nos libertar de toda forma de dependência emocional e da perniciosa influência de toda autoridade psicológica.
Desde a mais tenra idade temos sido vitimas de influências que pouco a pouco foram nos fragmentando e, por sua vez, essas fragmentações acabaram nos levando para vários tipos de isolamento. Fomos condicionados por vários tipos de ideologias, no entanto, nenhuma delas foi capaz de nos proporcionar um modo de vida realmente sereno, equilibrado e feliz. Nenhuma ideologia, por superior e grandiosa que fosse pode nos proporcionar esse estado de inocência, unidade e bem-estar comum. Isso só pode se manifestar quando não mais somos pessoas influenciáveis, quando não somos manipulados por qualquer tipo de autoridade psicológica. Onde existe seriedade não há espaço para a aceitação da autoridade, pois a autoridade impede que sejamos uma luz para nós mesmos. Se não formos uma luz para nós mesmos, seremos sempre pessoas de segunda mão, pessoas dependentes e incapazes de potencializar nossos talentos adormecidos. Essa nova maneira de viver só pode ser despertada quando ousamos ser uma luz para nós mesmos. Somente quando cada um de nós for sua própria luz, só então estaremos aptos para estabelecer autênticos relacionamentos, para saber o que realmente é o amor e para viver num estado de unidade e comunhão, com nós mesmos, com outro ser humano e a natureza em seu todo.
Mas, enquanto estivermos sendo psicologicamente influenciados por uma autoridade particular, seja a de um indivíduo, de um sistema de crença organizada, de um método, ou da própria experiência pessoal do passado, seremos impossibilitados de despertar a inteligência e com ela, esse estado de unidade e comunhão que é amor. Somente quando estamos de fato livres de toda influência psicológica é que somos capazes de comungar, de cooperar. Se buscamos por isso, precisamos ser verdadeiramente judiciosos, não aceitando a autoridade de ninguém, nem aquelas que nós mesmos cultivamos, baseadas em nossas experiências, nosso acumulo de conhecimento e em nossas numerosas conclusões. Só podemos despertar para um modo de vida livre de condicionamentos quando somos realmente livres.
Cada um de nós deve ser, para si próprio, tanto o afilhado como padrinho, tanto o discípulo como o mestre. Isso só se torna possível quando rompemos com as dependências, influencias e observamos, por nós mesmos, os acontecimentos cotidianos tais como são. Temos que despertar em nós essa nova maneira de viver. Isso não são meras palavras ou ideologias: temos de criar uma nova maneira de viver, onde, como entes humanos autônomos, não estejamos neste constante estado de conflito e insatisfação e onde cada um seja um individuo realmente livre. Porque somente nessa liberdade podemos estabelecer unidade em nós mesmos e consequentemente em nossa vida de relação. Portanto, precisamos estar inventariando sempre e rompendo as redes de condicionamentos que permitimos tecer em volta de nós, rede essa que nos impede de viver a vida de relação com toda sua intensidade. Caso contrário, continuaremos eternos prisioneiros desse atual modo de vida que produz tanta ansiedade, tristeza e isolamento.
É preciso despertar para essa inteligência capaz de nos tornar indivíduos livres, cheios de vitalidade, energia, clareza e intensidade. Isso pode parecer muito difícil, mas, a menos que esse despertar ocorra, continuaremos criando um mundo de relações disfuncionais, superficiais, geradoras de conflito e aflições sem fim.
Portanto, temos que devotar nossa mente e coração no trabalho de inventariar nossos condicionamentos e influências, para que, na própria percepção, os mesmos caiam por terra, sem esforço algum de nossa parte. Só podemos agir totalmente quando vemos nossos condicionamentos em seu todo, e não apenas fragmentos dos mesmos. Compete-nos descobrir por uma nova maneira de viver e de agir, que em sua essência traz a capacidade de amar. E, para esse descobrimento, não podemos fazer uso dos velhos instrumentos que possuímos: o pensamento, as emoções e a influência condicionadora da tradição. Temos manejado e utilizado por anos esses instrumentos e tudo o que conseguimos é o atual estado de confusão em que se apresentam as nossas vidas. Precisamos de uma nova mentalidade, depurada das experiências do passado. Em outras palavras: nossa crise atual não se encontra em nosso mundo de relações, mas em nossa consciência condicionada. A crise está na própria mente, na nossa mente, na nossa consciência. E, a menos que saibamos, por meio da meditação não organizada, como fazer frente a essa crise existencial, a esse desafio diário, tornaremos – consciente ou inconscientemente – cada vez mais confusos, aflitos, adictos dessa imensa angústia em nós já existente.

 DÉCIMO PRIMEIRO PASSO - Procuramos através da meditação “não organizada”, melhorar nosso contato consciente com nossa realidade interna, procurando nos abster da prática de toda reação condicionada.

O homem, para fugir dos seus conflitos, tem inventado e organizado muitos métodos de “meditação”. Estes métodos têm por base o desejo, a vontade e a ânsia de conseguir algo, o que implica conflito e uma luta para chegar. Este esforço consciente, deliberado, realiza-se sempre dentro dos limites de uma mente condicionada e nesta não existe liberdade. Onde há esforço para meditar não pode haver meditação, pois o esforço é contrário à meditação.
A meditação vem com o cessar do pensamento e só então, se revela uma dimensão diferente, que está além das imagens, das palavras e do tempo.
A verdadeira meditação só pode ocorrer quando a mente está silenciosa. Não o silêncio que o pensamento pode imaginar, mas sim, o silêncio que vêm quando o pensamento – com todas as suas imagens, palavras e percepções – cessa completamente. É só a partir deste silêncio que a inteligência criativa pode ser despertada.
A meditação é o autoconhecimento, a observação de nós mesmos, momento por momento, em todas as nossas atividades – é estar atento a tudo, em nós mesmos, sem qualquer escolha, comparação, justificação ou recusa. É um estado onde há constante presença. É como a gota da chuva que alimenta a terra; sem ela, a terra seria um deserto. Sem a meditação, também o coração se tornaria um deserto, um lugar abandonado.
Meditar é ver se a mente, com todas as suas atividades, todas as suas experiências, todos os seus preconceitos, pode ficar inteiramente silenciosa, sem qualquer tipo de esforço da nossa parte. O ato de meditar está em procurar descobrir, em reparar, em escutar todos os movimentos do pensamento, os seus condicionamentos, seus interesses, seus medos, seus desejos, sua busca de segurança, está em observar como a mente funciona.
A meditação não é uma atividade de isolamento, ela é uma ação feita em todas as nossas atividades e não uma espécie de escapismo, de fuga. Ela é uma atividade pela qual conhecemos a ação condicionada do “eu” e sem esse conhecimento, a prática da meditação é de pouco significado. Esta meditação não pode ser aprendida através de terceiros. Temos de “começar” sem nada dela saber, e temos de ir sempre de mente aberta, sempre de inocência em inocência.
A meditação não é algo diferente da vida de todos os dias; não é nos isolarmos no canto escuro de um quarto, numa pratica contorcionista qualquer para meditar durante alguns minutos. Meditar é algo da maior seriedade e pode ser feito em todas as nossas atividades. A meditação está em observar tudo e ver a nossa reação e participação condicionada a isso. Quando assim meditamos encontramos nesse meditar uma liberdade extraordinária. Agimos com sanidade em todos os momentos; e se num dado momento cometemos um deslize, não importa. Tentamos novamente agir com sanidade e sem a tola perca de tempo com lamentações e sentimentos de culpa.
A meditação não está separada da vida de relação, ela faz parte dela. Meditar é percorrer o mundo do conhecido e libertar-se dele para penetrar no desconhecido. Meditar não é fugir do mundo, mas sim a compreensão da sociedade e todo seu condicionamento que pouco tem a nos oferecer, a não ser conflito e sofrimento. Meditar é recusar toda forma de condicionamento social: é optar por ser completamente “anônimo”. Então, ganhamos com isso uma nova maneira de viver completamente livre e repleta de sensibilidade e vigor. Então, descobrimos a capacidade de amar, que não é prazer. E, a parti daí, tem inicio uma nova vida de relação que não é fruto do conflito, da contradição, da busca do sucesso pessoal, poder e prestigio.
A meditação é aquela inteligência que, na mente, ilumina o caminho da ação correta, e, sem essa inteligência não pode haver a incondicionada capacidade de amar. Na meditação, o pensamento cessa e com ele cessa também a emotividade, pois, nem o pensamento e nem a emotividade é amor. Sem amor não se vive a essência, não se conhece o que é a verdadeira unidade. Sem amor há apenas cinzas nas quais se baseia nossa atual existência, nossa atual vida de relação. Só da plenitude do vazio, que é a essência do verdadeiro significado do anonimato é que pode surgir o despertar da inteligência, que em outras palavras, é amor.

DÉCIMO SEGUNDO PASSO - Tendo tido o despertar da inteligência criativa integrativa, graças a estes passos e constatado a mediocridade do nosso antigo modo de vida, adicto do pensamento condicionado, procuramos transmitir a mensagem impessoal, que por nós se manifesta, aos que ainda sofrem.

Para que uma pessoa possa receber a transmissão da mensagem sobre o pensar compulsivo, é preciso que ela esteja num estado de atenção total, estado este, caracterizado pelo que podemos chamar de “mente aberta”. Esse estado de mente aberta, de plena atenção só existe quando a busca de recuperação pessoal de determinado padrão de comportamento compulsivo ou a busca de satisfação, já não é capaz de solucionar nossos conflitos, como o medo, o tédio e o vazio. Essa atenção, esse estado de mente aberta deve estar presente desde o princípio para que possa ser transmitida a mensagem, caso contrário, nossa experiência tem demonstrado que tal tentativa de transmitir a mensagem só resultará em conflitos e perda de energia desnecessária. Essa atenção não é coisa que se ensine, mas pode-se ajudar a suscitar na pessoa um estado de mente aberta, não deixando que se crie em torno dela aquela sensação de compulsão que produz uma existência que se contradiz. Só então, a atenção dela poderá focalizar-se, a qualquer momento, na mensagem a ser transmitida, e não será a estreita concentração provocada pelo desejo compulsivo de afirmação ou confrontação com aquilo que lhe é conhecido.
Uma pessoa incentivada desse modo estará livre do medo e porque é assim incentivada, ela não dependerá da herança do que lhe é tradicional. Esse assunto de seguir irrefletidamente a tradição destrói a verdadeira independência e limita a inteligência; pois produz uma falsa sensação de segurança, dando uma autoconfiança que não tem base e cria uma obscuridade mental, uma mente fechada, em que nada de novo pode florescer. Mas, uma pessoa incentivada dessa maneira, totalmente diferente da que temos considerado, co-criará uma realidade nova, pois terá a capacidade nascida dessa inteligência que não é cercada de medo.
Visto que a recuperação é responsabilidade tanto dos veteranos, quanto dos novatos, precisamos aprender a arte de trabalhar juntos, e isto só é possível quando cada um de nós percebe o que é a verdadeira natureza exata dos nossos conflitos. Em nossa confraria, é a percepção da verdade que nos une, e não a opinião, a crença, a teoria ou a tradição incentivada pelo medo e busca de segurança. Há uma vasta diferença entre o conceito e o fato. O conceito pode unir-nos temporariamente, mas tornará a haver separação, se nossa cooperação for apenas fruto da convicção mental, do intelecto. Se a verdade é percebida por cada um de nós, pode haver desacordo quanto a detalhes dos padrões de comportamentos dependentes, mas não há pressão para gerar a quebra de unidade. Os detalhes só separam os tolos, os medianos, aqueles que nem recaem para os velhos padrões de comportamento e nem experimentam uma nova maneira de viver à luz da inteligência amorosa e criativa - capaz de proporcionar um estado de unidade interna e bem-estar que seja comum e não algo passageiro. Quando todos enxergam a verdade, quando todos enxergam a natureza exata dos nossos conflitos, os detalhes comportamentais nunca se tornam motivo de quebra de unidade.
A maioria de nós está habituada a cooperar nos moldes da autoridade estabelecida pela tradição. Reunimo-nos para trocar ideias sobre um conceito, ou para desenvolver critérios de sobriedade criados por uma mente perturbada, e isto exige convicção, persuasão, propaganda, e assim por diante. Essa cooperação no sentido da pratica de um conceito ou da busca de um ideal é totalmente diferente da cooperação que advém de se enxergar a verdade e da necessidade de pôr essa verdade em prática. Operar sob o estímulo de alguma autoridade psicológica - seja a autoridade de um ideal ou de um veterano ou membro que represente esse ideal - não equivale a uma real cooperação. Uma autoridade dominante que pensa saber muita coisa, ou que tem uma forte personalidade e que está com sua mente aprisionada por certos conceitos, pode forçar ou sutilmente convencer os outros a cooperar com ela em busca do que chama de critérios de sobriedade; mas isso certamente não representa a cooperação de indivíduos alertas e dinâmicos. Em contrapartida, quando cada um de nós compreende por si mesmo a verdade quanto a natureza exata de qualquer conflito, então nossa compreensão comum dessa verdade leva à ação, e tal ação é a cooperação que produz a verdadeira unidade e a busca pelo bem-estar comum. Aquele que coopera porque vê a verdade como verdade, o falso como falso, e a verdade no falso, também saberá quando não cooperar, quando não transmitir a mensagem sobre o pensar compulsivo - o que é igualmente importante. A mensagem sobre o pensar compulsivo, igualmente como os remédios da medicina, se for aplicada de forma indevida pode levar a resultados desastrosos e, por vezes, fatais.
Se cada um de nós compreender a necessidade de uma revolução fundamental em nosso processo de recuperação e perceber a verdade do que estivemos aqui considerando, então compartilharemos juntos sem qualquer forma de persuasão. A persuasão só existe quando alguém assume uma postura de liderança e respeitabilidade da qual não quer ser destituído. Quando está meramente convencido de uma ideia ou aprisionado numa opinião, num conceito, ele fatalmente provoca oposição e a quebra de unidade, e então ou ele ou os outros têm de ser persuadidos, influenciados ou induzidos a pensar de forma diferente. Tal situação nunca ocorrerá quando cada um de nós vê a verdade da natureza exata de uma questão por si mesmo. Mas se não vemos a verdade da natureza exata de nossos conflitos e agimos unicamente baseados na mera convicção verbal ou na racionalização do intelecto, então com certeza haverá contendas, quebra de unidade, desacordo, com toda a distorção e esforço inútil decorrentes.
É essencial que trabalhemos juntos, e é como se estivéssemos edificando uma casa. Se alguns de nós estão construindo e outros destruindo, a casa obviamente nunca será edificada. Assim, precisamos individualmente estar bem certos de que realmente vemos e compreendemos a necessidade de criar o tipo de realidade que produza uma nova geração capaz de enfrentar as questões da vida como um todo, e não como partes isoladas por um padrão comportamental especifico sem relação com a totalidade do ser.
Para sermos capazes de agir dessa maneira cooperativa, precisamos reunir-nos com frequência e estar alertas para não submergirmos em detalhes. Aqueles que estiverem seriamente dedicados à recuperação da doença do pensamento compulsivo e de seu processo divisor, têm a responsabilidade não só de pôr em prática tudo o que compreenderem, mas também de ajudar os outros a chegar a essa mesma compreensão. A transmissão da mensagem é a nossa ação mais nobre - se é que se pode chamar-lhe de ação. É uma arte que requer não só o despertar da inteligência, mas infinita paciência, bom-censo, intuição e amor. Estar verdadeiramente em recuperação é compreender nosso relacionamento com todas as coisas - com o dinheiro, com a propriedade, com o sexo, com as pessoas à nossa volta e com a Natureza - no vasto campo da nossa existência.
É preciso manter o simples, pois a beleza reside nas coisas simples. A beleza faz parte dessa compreensão, mas ela não é apenas uma questão de proporção, de forma, de gosto e de comportamento. A beleza é aquele estado em que a mente abandonou o centro do ego na paixão da simplicidade. A simplicidade não tem fim; e só pode haver simplicidade quando há uma austeridade que não é resultado de disciplina forçada, da autonegação, da repressão através de um conjunto de conceitos. Essa austeridade é desapego, o que só o amor pode produzir. Quando não temos amor, criamos um modo de vida em que a beleza da forma é procurada sem a vitalidade e austeridade interiores do simples desapego. Não há desapego se houver um sacrifício de nós mesmos em boas obras, em ideais, em crenças. Essas atividades parecem livres do ego, mas, na realidade, o ego ainda está operando sob o disfarce de diferentes rótulos a quem muitos de nós chamam de virtude. Só a mente inocente pode pesquisar o desconhecido. Mas a calculada inocência que pode usar o palanque da respeitabilidade não é aquela paixão de desapego de que procede a cortesia, a delicadeza, a humildade, a paciência - expressões todas essas do amor que busca pelo estado de unidade e bem-estar comum.
Ao procurar gerar uma recuperação total do ser humano, precisamos obviamente levar em consideração a mente inconsciente tanto quanto a consciente. Recuperar apenas a mente consciente sem compreender a inconsciente acarreta contradição em nossas vidas, com todos os desenganos e misérias decorrentes. A mente inconsciente é muito mais dinâmica do que a consciente. A maioria dos veteranos está apenas interessada em fornecer informações ou conhecimento à mente superficial, incentivando-a para conseguir abster-se de um padrão comportamental especifico de ação e ajustar-se aos moldes da “sociedade”. De modo que a natureza exata dos conflitos humanos – a mente oculta - nunca é tocada. Tudo o que a atual busca de recuperação faz é proporcionar uma camada de conhecimento e dotá-la de certa capacidade para ajustar-se ao ambiente, o mesmo ambiente que tornou a mente doente.

Precisamos despertar a plena capacidade da mente superficial, que vive na atividade cotidiana, e também compreender a mente oculta. Ao compreender a mente oculta, estabelece-se um viver total, em que a autocontradição, com sua alternância de tristeza e felicidade, depressão e euforia, desaparece. É essencial que nos familiarizemos com a mente oculta e com seus processos; mas é igualmente importante não nos ocuparmos dela em excesso ou dar-lhe importância indevida. Só quando compreender o superficial e o oculto poderá a mente ir além de suas limitações e descobrir a intemporal bem-aventurança que surge com o despertar da inteligência amorosa e criativa. 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)