“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A crosta dos condicionamentos e a Broca do Ser que somos

Sobre guardar silêncio e o falar


Nós índios sabemos do silêncio. Não o tememos.

De fato, para nós é mais poderoso que as palavras…

Nossos anciãos foram educados nas maneiras do silêncio, e eles nos transmitiram esse conhecimento. Observa, escuta, e logo atua, nos diziam. Essa é a maneira de viver.

Observa os animais para ver como cuidam de suas crias. 

Observa aos anciãos para ver como se comportam.

Observa o homem branco para ver o que quer...

Sempre observa primeiro, com coração e mente quietos, e então aprenderás. 

Quando tenhas observado o suficiente, então poderás atuar. 

Com vocês é o contrário. Vocês aprendem falando. 

Premiam as crianças que falam mais na escola. 

Em suas festas todos tratam de falar. 

No trabalho sempre estão tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez ou cem vezes... e o chamam "resolver um problema". 

Quando estão numa residência e há silêncio, tornam-se nervosos. Têm que encher o espaço com sons. 

Assim, falam impulsivamente, inclusive antes de saber o que vão dizer. 

O povo branco gosta de discutir. Nem sequer permitem que o outro termine a sua frase. Para os índios, isto é muito desrespeitoso e, inclusive, muito estúpido...

Sempre interrompem.

Se começas a falar, eu não vou lhe interromper. O escutarei.  

Quem sabe deixe de lhe escutar se for desagradável o que estejas dizendo. 

Porém, não vou lhe interromper... Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que dissestes, porém, não lhe direi nada se não estiver de acordo, a menos que seja importante... Ao contrário, simplesmente me manterei calado e me afastarei.

Me dissestes o que necessito saber...

Não há nada mais a dizer.

Porém, isso não é o suficiente para a maioria da gente branca. 

A gente deveria pensar em suas palavras como se fossem sementes.

Deveriam plantá-las, e logo lhes permitir cresceeme em silêncio. 

Nossos anciãos nos ensinaram que a terra sempre nos está falando, mas que devemos guardar silêncio para lhe escutar. 

Existem muitas vozes além das nossas. Muitas vozes...

"Guarda tua língua na juventude", disse o velho chefe Wabashaw, “e na maturidade, quem sabe, firmes um pensamento que seja de utilidade a teu povo”.

(Ohiyesa/Dr.Charles A. Estman, Dakota santee, 1902)



Extratos do livro "Nem lobo nem cão. Por caminhamos esquecidos com um índio ancião" de Kent Nerburn.

Das artimanhas do ego


O que ele fez foi transferir o ego, com sua ganância autocentrada, sua complacência arrogante e sua colossal ignorância sobre sua própria origem, das atividades no mundo para as atividades espirituais. O ego fará qualquer coisa possível para preservar sua existência e arquitetará todo recurso possível para assegurar seu futuro. É por isso que, raramente, o indivíduo desperta para o que está acontecendo e, assim, o destino poderá vir a esmagá-lo no chão, destruindo seu sono. Se tal situação ocorrer enquanto ele for comparativamente jovem, quando seus poderes ainda estiverem fortes, e não no fim da vida, quando eles estarão mais débeis e menos eficazes, ele em verdade será afortunado, embora, com certeza, não pensará desta forma nessa idade.

É tanto um ironia como uma tragédia na vida que utilizemos nossa cota estrita e limitada de anos de vida em propósitos que, posteriormente, perceberemos que foram inúteis e em desejos que nos trazem sofrimentos quando realizados. Um moribundo, que vê o filme de sua vida passada lhe ser revisionada através de flashes diante de seus olhos, descobrirá essa ironia e sentirá essa tragédia.

Quando vier a descobrir que vinha seguindo sua própria vontade mesmo quando acreditava que estava seguindo a vontade do eu mais elevado, é que realizará a extensão do poder do ego, o prolongado tempo que será necessário para subjugá-lo e o que terá de sofrer antes que isso seja alcançado. 

Um dia o aspirante se sentirá completamente cansado do ego; verá então quão astuta e insidiosamente ele se imiscuiu em todas as suas atividades; como, mesmo nas atividades supostamente espirituais ou altruístas, esteve apenas trabalhando para o ego. Nessa aversão pelo seu eu terreno, o aspirante irá orar para libertar-se. Verá como esse ego o enganou no passado, como todos os seus anos foram monopolizados pelos desejos dele, como sustentou, alimentou e cuidou dele, mesmo quando pensava estar espiritualizando a si próprio ou servindo a outros. Orará então fervorosamente para ser libertado do ego, procurará avidamente desidentificar-se e desejará ardentemente ser tragado no nada de Deus. 

O impulso que compele o ser humano a buscar a verdade ou a encontrar a Deus vem de algo que é mais elevado do que seu ego. 

O pecado do orgulho espiritual é o do indivíduo se sentir orgulhoso por ser um aspirante espiritual. Ele não percebe que quase sempre é ele que está no centro de sua busca, enquanto que seria SUA relação com Deus que importaria. Ele está sempre apegado ao ego!

Será necessária uma real humildade para que ele reconheça que está errado. Tal sentimento o beneficiará de duas formas: corrigirá sua tendência errada e diluirá a inflação do ego.

Quando puder perdoar a Deus por toda a angústia de suas calamidades passadas e aos outros homens e mulheres pelos erros cometidos, ele chegará à paz interna. Pois é justo isso que seu ego não pode fazer.

Lao Tzu louvava a modéstia no comportamento social e o mínimo de conversa entre os outros. Tais sugestões tinham a intenção de pôr o ego no seu lugar e torná-lo humilde.

Oito minutos de prosa sobre família funcional

Será que conhecemos o real coração de nosso ser?


No contexto de nossa experiência pessoal, sabemos que a consciência é mais do que a mente racional. Possuímos todo um undo interior de reações e respostas; vivenciamos amor e apreciação, e sentimos alegria quando abrimos nosso coração para os outros. Os nossos sentimentos de bem-estar brotam de uma fonte interior que não entendemos completamente. Sabemos da existência da intuição e da inspiração, mas não temos meios de explicá-las; conhecemos a criatividade mas não conseguimos despertá-la por um ato racional ou volitivo. Somos sensíveis a uma sensação de admiração e poder que transcende o nosso senso de eu, e podemos manifestar compaixão pelos nossos semelhantes.

Estas parecem ser respostas humanas universais ao fato de vivermos em um mundo intrinsecamente belo, que se altera de momento para momento, em um desdobrar que é sempre novo. Porém, nossas reações a este mundo vivo e cambiante são interpretadas e julgadas pela parte da nossa mente que nos diz o que desejar, o que rejeitar, e o que irá nos "fazer" felizes, como se não tivéssemos, dentro de nós, meios para "ser" felizes. Aplicamos rótulos que são inteiramente nossos, mas que derivam do nosso condicionamento cultural. Como este aspecto condicionado da mente não consegue penetrar as barreiras do processo da percepção, ele não consegue conhecer o coração do nosso ser, a parte nossa que responde ao verdadeiro e ao real. 

Quando o conhecimento do ser humano não passa além da fisiologia e dos aspectos mais visíveis da consciência, como é que podemos sequer pensar sobre todas as coisas que o homem possui como direito inato, ou pensar em abrir novas possibilidades de crescimento? 

Nossa consciência é receptiva por natureza, e pode se sustentar a partir de influxos de apreciação e alegria. Porém, como um grande lago, ela pode se exaurir quando sua energia corre apenas para fora. Quando a consciência fica continuamente preocupada e pressionada, cheia de pensamentos, desejos e expectativas, não abrimos espaço algum para revitalização. Com o tempo, nossa consciência fica cansada. Os sentidos, inadequadamente sustentados por nossa percepção, tornam-se amortecidos e embotados, exigindo formas cada vez mais intensas de estimulação externa. 

O nosso modo atual de viver e de estar no mundo não consegue impedir que isto aconteça. Por maior que seja o número de fatos que tenhamos sob nosso comando, e por melhor que aprendamos a manipular informações, o uso que fazemos da mente não é suficientemente dinâmico para despertar o poder pleno da nossa consciência. 

Apesar de todo o nosso esforço para satisfazer o desejo natural do homem de uma vida mais saudável e feliz, há sinais de que uma form profunda está crescendo no seio das mais prósperas sociedades. Necessidades e desejos parecem estar aumentando, em vez de diminuir. À medida que ingressamos no futuro, inventando novas aplicações para o nosso conhecimento e produzindo uma torrente infindável de novos produtos, parecemos forçados a andar mais depressa, impelidos por um querer inquieto que não se deixa serenar. Sob certo aspecto, nossa criatividade está sendo canalizada no sentido de conceber e dar forma a novos produtos, para que possamos, então, desejar novas criações. 

Nossas vidas hoje caminham rapidamente, transportando-nos em uma onda de desejos, e permitindo-nos pouco tempo para desfrutar em profundidade qualquer experiência. Enquanto uma festa de produtos e prazeres se estende à nossa frente, temos tempo apenas para provar e passar adiante, seguindo as imagens dos nossos desejos de um lugar para outro. Estamos sempre em movimento; levados por pensamentos e imagens para longe de nosso centro vital, ficamos sem lugar de descanso, sem uma verdadeira morada.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade              

Será que a mente racional, de fato, comanda o nosso ser?


Ao refletir sobre as complexidades da mente, pode ser útil pensarmos em nossa consciência comum como um navio, tendo como capitão a mente racional e valorativa, que mapeia o curso que nossa vida irá seguir. Nossos sentidos e sistema nervoso, bem como os centros cognitivos da mente, possuem todos suas próprias redes que distribuem força para todo o navio. No entanto, eles também trabalham em conjunto, coordenados pela mente. 

O intrincado sistema de alimentação de força do nosso navio-mente inclui incontáveis interações que estimulam a energia da consciência, evocando correntes de força que entram em nossa cognição com grande ímpeto, à medida que pensamentos explodem em imagens. Estas imagens multiplicam-se, refletem-se, fundem-se e dividem-se em mais imagens, que dão continuidade aos mesmos processos. Interagindo umas com as outras e criando de volta inúmeras réplicas, estas imagens cambiantes estruturam-se em padrões definidos. Os padrões de imagens encontram-se também em movimento, dividindo-se em reformando-se em um sem-número de combinações, Toda esta atividade transcorre dentro do pensamento, como se o pensamento em si fosse uma esfera de prismas facetados, cada qual tendo a oportunidade e o brilho de um diamante. 

Pensamentos isolados giram para fora desta esfera, para se disporem em progressão linear, dentro de uma cadeia de pensamentos correlatos. Estes, por sua vez, interagem entre si e se proliferam numa complexa dinâmica interna, que inclui surtos de impressões sensoriais, percepções, lembranças, associações e interpretações, que jorram juntas e respondem umas às outras sem cessar.

Mesmo antes que consigamos vislumbrar um pensamento que vem surgindo, o processo está quase que concluído, despertando sentimentos e emoções que canalizam mais energia para ciclos padronizados. O sistema inteiro está pré-programado para disparar automaticamente, com o início do processo de percepção. 

Nosso navio-mente navega num oceano de emoções, algumas vezes encontrando bom tempo, outras atravessando tempestades. O oceano, em movimento com as correntes alternadas dos desejos, raramente é calmo; guiando o navio através de águas incertas, o capitão toma decisões que determinam o nosso curso. 

Mas será que podemos confiar em nosso capitão para nos guiar com sabedoria? Em um nível, pensamos que conhecemos a nossa mente. Treinamos suas capacidades racionais e as utilizamos e as utilizamos para conferir uma ordem coerente à nossa vida. Podemos testar a sensibilidade dos nossos sentidos e localizar, em nosso cérebro, os centros que a eles correspondem; podemos acompanhar a trajetória do processo da percepção, definir nossas faculdades integrativas e analíticas, e mensurá-las de acordo com uma escala de definições. Mas será que estes métodos conseguem revelar toda a extensão da capacidade humana? 

Quanto mais de perto olhamos para a natureza da mente, menos confiantes ficamos. Consideramos a mente o árbitro do nosso conhecimento. Tudo aquilo que constitui a nossa realidade é percebido pela mente. A mente nos diz o que é conhecível e o que é inconhecível; nossas perguntas surgem dentro da mente e são respondidas pela mente. A mente mede, a mente interpreta, a mente desenvolve diálogos com a mente, a mente avalia e julga, a mente decide. 

Quando investigamos a natureza do nosso mundo interior de sentimentos, emoções, pensamentos, lembranças, associações e conceitos, vemos que a mente é, igualmente, o árbitro da nossa experiência. Porém, se tentamos investigar o campo que está por trás das nossas percepções e pensamentos, a mente se mostra curiosamente silenciosa. Parece que a mente consegue apenas fazer mensurações dentro de padrões de pensamentos e de conceitos; a mente não tem medidas para ela mesma. 

Será que a mente racional comanda verdadeiramente o nosso ser? Como é ela influenciada por emoções, por sentimentos e pelas flutuações na receptibilidade dos nossos sentidos? Qual é a verdadeira natureza do pensamento? Existiriam outros aspectos da nossa consciência que não entendemos por inteiro? Se existissem, como é que ficaríamos sabendo? O que acontece com a nossa consciência quando dormimos, quando passamos horas sem consciência de que estávamos pensando? Será que realmente sabemos quem somos, e, em caso negativo, será que podemos saber para onde estamos indo? 

Podemos nós confiar na capacidade da nossa mente discernir entre o verdadeiro e o aparente, ou distinguir entre valores reais e superficiais? Mesmo quando pensamos que estamos sendo racionais ou razoáveis, será que este é sempre o caso? Nossa posição pode parecer razoável na superfície e, no entanto, estar fundamentada em suposições falsas. Se somos hábeis, conseguimos justificar quase que qualquer posição que tenhamos interesse em assumir. Mesmo inconsequentemente, podemos mudar de uma posição para outra, em diferentes ocasiões, automaticamente ajustando os "fatos" de modo a se encaixarem nos nossos propósitos. Da mesma forma que tendemos a ser enganados por aparências externas, tendemos a aceitar argumentos lógicos como convincentes, sem examinar muito de perto as suposições que estão apoiados. É possível que vejamos a palavra escrita de maneira ainda menos crítica do que a falada. Como os pensamentos que as precederam, as palavras tendem a ser "verossímeis" quando apresentadas "racionalmente" — esquecendo-nos de que tanto as palavras quanto a lógica são produtos da mente humana. 

As percepções são instantaneamente nomeadas e rotuladas pela mente, dando origem ao pensamento e ideias que criam uma determinada versão da realidade. Nosso senso de "realidade" é especialmente acentuado quando estamos envolvidos por uma forte emoção, como por exemplo, a raiva. Aí, afirmamos, negamos, rejeitamos, tudo com a base no que "sabemos" ser o correto. No entanto, daí a instantes, podemos estar nos sentindo ternos e carinhosos. Então, pode ser que a nossa realidade seja diferente; os motivos da nossa raiva talvez não sejam mais contundentes; mais tarde, podemos até negar a nossa raiva passada. Será que uma "realidade" era menos real do que a outra? Que tipo de fio une estas duas "realidades"? Nós poderíamos, provavelmente, estabelecer uma ligação que soasse muito plausível. Será que estas ligações são válidas, ou será que são suposições? Será que são verdadeiras em si mesmas, ou será que são aquilo que gostaríamos de acreditar que fosse verdade? Como é que podemos saber?

A "construção" da nossa realidade pode ser vista mais claramente em circunstâncias em que sentimos necessidade de nos "acobertar". Raramente precisamos mentir — geralmente existem muitas "meias verdades" que servem para nos proteger. Em um certo sentido, nenhuma das nossas respostas precisa estar errada, embora todas possam ser enganosas. Facilmente perdemos de vista as formas sutis pelas quais escondemos a verdade pura de nós mesmos e dos outros. Uma vez que tenhamos explicado nosso comportamento e a outra pessoa tenha aceito nossas razões, nossa mente pode tomá-las como sendo toda a verdade. As palavras conferem solidez às nossas razões; depois que as palavras são pronunciadas, podemos facilmente nos convencer de que são verdadeiras. Não temos proteção alguma contra tais enganos, que nascem da qualidade oscilante de nossa própria mente. É possível que a nossa "realidade" seja mais "flexível" e instável dos que nos damos conta.

Esta qualidade oscilante parece permear todas as nossas experiências. Por exemplo, valorizamos nosso direito de "mudar de ideia", mas será que esta "mudança" toma por base conhecimentos novos que investigamos a fundo? Ou será que ela reflete apenas uma alteração de interesse ou de motivação? Até que ponto é estável a nossa ligação com as coisas que possuem valor e valem a pena buscar? Como é que podemos confiar em nossas ideias, quando elas podem "mudar", ser mudadas ou influenciadas tão facilmente?

Não dispondo de um maior conhecimento sobre o funcionamento da mente, alimentamos nossa consciência com uma dieta mista de coisas verdadeiras e falsas, reais e artificiais, a começar dos pensamentos que surgem em nossa mente. Quando acreditamos na realidade dos pensamentos e imagens criados pelo impulso arrebatador da cognição, fundimos nossa consciência a ilusões, e plantamos as sementes do auto-engano. A cada vez que surgem percepções mais pensamentos são criados, repetindo-se o processo de fusão da nossa consciência a ilusões. 

Nossa consciência fica sintonizada neste processo contínuo; as sementes anteriormente plantadas deitam raízes e se desenvolvem. A qualidade de pureza original da percepção diminui; uma qualidade de inquietação permeia todas as nossas experiências, condicionando nossa visão de nós mesmos e do nosso meio. Ao buscar contato com o real, encontramos o superficial, o provisório e o artificial.

Dado que a nossa consciência tem uma fixação tão forte no polo objetivo das nossas experiências, fica muito difícil olharmos para dentro e nos estudarmos de perto. Apesar de todos os nossos conhecimentos a respeito do mundo observável, e da nossa engenhosidade em manipular o nosso meio ambiente, pouco sabemos sobre a nossa própria natureza.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade        

A formação da limitada e separatista mente dual


Em algum ponto no passado, os seres humanos começaram a reconhecer contrastes de luz e sombra como formas isoladas às quais podiam dar nomes. Contrastando, identificando e nomeando formas, eles criaram um mundo de polaridades interdependentes (dualidade): grande e pequeno, duro e macio, macho e fêmea. Embora todas estas distinções, bem como os rótulos aplicados a elas, foram criação da mente humana e variassem em caráter de cultura para cultura, com o tempo adquiriram maior substância e passaram a ser vistas como efetivamente sólidas e reais.  

A partir desta única semente, com raiz no processo da percepção, os seres humanos criaram o "eu" e o seu mundo. Eles se transformaram em espectadores que vivenciavam seu meio comum como um mundo objetivo. Ao olhar para dentro, podiam refletir sobre os contrastes que percebiam em seus próprios estados interiores, e dar nomes a sentimentos e emoções. Assim, foi-lhes possível distinguir entre gostos e aversões, prazer e dor; podiam recordar e refletir sobre suas sensações. Empregando nomes, os seres humanos podiam avaliar sua experiência e expressar preferências e opiniões. 

Gradativamente, os nomes foram adquirindo maior significado, através de associações com outros nomes; conceitos se tornaram mais complexos. Mais tarde, criou-se uma base que viria possibilitar pensamentos mais abstratos e sofisticados. Derivados desta longa cadeia de desenvolvimentos, moldados pela linguagem, pela cultura e pelo meio ambiente, nossos atuais padrões mentais evoluíram ao longo de muitos milhares de anos. 

Durante toda a história da humanidade, a parte da nossa consciência que se liga a objetos recebeu contínuos reforços. Canais profundos foram entalhados em nossa mente, direcionando nossa energia mental para o plano dos objetos, e distanciando-a da dimensão aberta da consciência. A cada pensamento ou sensação, nossa mente agora ágil com a velocidade de uma corrente elétrica para absorver o mundo aparentemente objetivo. Desde o nascimento, somos condicionados a estes padrões de percepção, pensamento e reação

Automaticamente, empregamos estes padrões para interpretar objetos e situações, e responder a eles. Esta forma única de reagir é tudo o que conhecemos: como um trem segue seus trilhos, parecemos predestinados a seguir o caminho demarcado pelo curso da nossa evolução. Embora possamos estar convencidos de que estamos pensando e agindo de acordo com nossas próprias escolhas, na verdade vivemos condicionados por um sentido de separação e pelo jogo de atração e repulsão das polaridades. Estamos fadados a avaliar e reagir a todas as coisas em termos de agradável e desagradável, desejável e não-desejável, bom e ruim. 

Comprometidos com uma visão baseada na dualidade, e confinados às estruturas conceituais que emergem a partir desta visão, não conseguimos conceber a possibilidade de uma estrutura mais aberta para os nossos pensamentos e ações. Quase nada existe em nosso modo de vida que nos leve a qualquer indagação sobre os nossos padrões de percepção e pensamento, ou a qualquer reflexão sobre as inclinações mais profundas da nossa maneira de ver a nós mesmos e ao nosso mundo. 

Ao mesmo tempo, a força atrativa do mundo objetivo tornou-se mais intensa do que em qualquer outra época. As sociedades modernas deram luz a inúmeras tecnologias novas, colocando em movimento um tipo moderno de evolução, alimentado pela inventividade da mente racional. Embora nossa evolução científica e tecnológica seja um desenvolvimento recente na história do planeta, sua força fez crescer de forma significativa o impulso natural das mudanças. 

[...] À medida que o mundo se torna mais caótico e confuso, será que estaremos sendo mais e mais atraídos pela previsibilidade racional do computador? Será que alguns de nós poderão chegar até a se identificar mais com a inteligência computadorizada do que com seus semelhantes? (o aparelho celular como exemplo). Será que com o tempo vamos começar a avaliar nossa própria inteligência por comparação aos computadores?
[...] As respostas a estas perguntas precisam estar fundadas em um conhecimento do ser humano que seja o mais completo possível. Antes que sejamos arrastados na direção de um futuro que talvez não se apresente da maneira como desejamos, precisamos olhar de perto para a nossa situação atual, e começar um processo de exame da base mesma do nosso conhecimento — nossa consciência humana e a natureza da nossa mente. 

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)