“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A arte como manifestação do Sagrado

O papagair da mente adquirida e o pirata do ser

Sinta-se abraçado!

Grato pela leitura atenta sobre as nossas percepções quanto a questão do vazio, o qual sempre nos acompanhou e que nos acompanhará até que se dê o fechamento do processo de resgate da Perene Consciência Amorosa e Integrativa que somos — isso para aqueles que forem realmente sérios e se debruçarem sobre o material que faculta a percepção e o autoconhecimento.

É comum ouvirmos os confrades, principalmente o confrades mais assíduos com o estudo das obras de pensadores como Jiddu Krishnamurti, Osho, Ramana Maharshi, Paul Brunton, entre outros autores que indicamos, bem como com o material dos nossos áudios e com os raros contatos presenciais — que vão estreitando uma aproximação com outros buscadores mais antigos — mesmo que virtualmente, com ajuda das várias ferramentas provenientes nas redes sociais, é natural enquanto se absorve o paradigma holotrópico, ir se instalando a sensação de vazio. Isso é muito natural!

No início do processo de autoconhecimento, o qual nos prontifica para a manifestação do contato consciente com a Perene Consciência Amorosa Integrativa que somos, não conseguimos mensurar com clareza a Graça que estamos recebendo em meio desse processo de desconstrução de um modo condicionado de existir, modo esse que nos priva do conhecimento da verdadeira liberdade do espírito humano. Acabamos não percebendo as silenciosas ocorrências. Sempre procuramos chamar atenção para o fato de que se você vai lendo os textos desses autores citados, se você vai ouvindo os áudios e vídeos, por ainda estar num momento de muita confusão, resultante dos instintos naturais ainda adulterados, não é possível perceber com clareza, que está ocorrendo uma silenciosa revolução estrutural interna; que está ocorrendo uma mutação na maneira de se perceber a vida, perceber a si mesmo, perceber as situações, perceber o fluxo da história e todo movimento feito até aqui. Leva certo período para começar a tomar consciência da transformação que está nos ocorrendo; é uma revolução silenciosa nunca sequer imaginada. E o sentimento de vazio é justamente um dos sintomas dessa revolução silenciosa.

Devido a imaturidade emocional, não conseguimos perceber com clareza as transformações que ocorrem nesse novo modo de perceber tudo que está ocorrendo, de perceber a nós mesmos e de perceber o mundo. Até porque, nunca houve um impulso para um incondicionado observar de tudo. Não havia a consciência e a presença do observador: funcionávamos apenas no automático. Então, com a instalação do observador é natural nos percebermos assustados com a qualidade desse novo olhar que se manifesta. Esse momento inicial de nosso processo é muito bem retrato no filme Matrix, quando o personagem Neo, ainda deitado num leito, vira-se para o personagem Morfeus e lhe questiona: “Por que os meus olhos doem?” E Morfeus com muito tato lhe responde: “Porque você nunca os tinha usado antes, Neo!” O próprio filme é um excelente arquétipo para apontar as várias fases e sintomas — os medos, as paranoias — que nos ocorrem durante o processo de autoconhecimento e de prontificação para a manifestação do contato consciente com a Perene Consciência Amorosa Integrativa que somos. Tudo isso é muito normal nessa etapa inicial.

É preciso ficar claro o porquê desse medo. Não esperávamos por nada disso, uma vez que não fomos nós que escolhemos o processo: o processo foi quem nos escolheu. E uma vez que o processo teve seu início, não há mais como dele se abster. Quando a toca do coelho branco se abre, não tem mais como fugir, pois Kansas e suas distrações, torna-se muito pequena e profundamente insatisfatória. Quando se instala o processo de prontificação para a manifestação da Perene Consciência Amorosa Integrativa, não tem como conseguir, de modo satisfatório, optar pelo autoesquecimento. Então, é preciso ter consciência de que essa confusão inicial é muito natural, afinal, esse processo de desconstrução nos lança num vazio de situações que antes eram psicologicamente extremamente importantes para nós.

O Paradigma Holotrópico, se formos realmente sérios, de modo muito claro, vai gradualmente nos apresentando a falência de nossas crenças, bem como a percepção de que não há como negociar para a continuidade do falso que vamos tomando conhecimento. Vamos constatando de modo irreversível, que tudo aquilo pelo qual antes seríamos capazes de dar a nossa vida, não faz o menor sentido de ser alimentado. Esse novo olhar faz com que fiquemos conscientes de que tudo isso sempre foi dotado de vazio, mas que não era percebido pela ausência dos “olhos de ver e dos ouvidos de ouvir”. Esse novo olhar faz com que entoemos a velha canção do poeta Herbert Viana: “Entrei de gaiato no navio, entrei, entrei, entrei pelo cano!” E esse paradigma holotrópico vem nos tirar desse processo de inconsciência de nossos condicionamentos que impedem a percepção da realidade espiritual que somos. Ele nos tira do convés desse social barco furado e nos arranca o chapéu e a viseira pirata que encobria a possibilidade de um olhar descondicionado, proveniente das qualidade de nossa natureza real, do incondicionado ser que somos.

Um fraterabraço e um chute nas canelas!

Condicionamento é ausência de Consciência

Medo X Real


Coração Vazio

A Tradição e a Autoridade como pedras de tropeço

Ao ouvir estas palestras, não vos apegueis, por favor, a uma única frase, imaginando haver compreendido o todo. Eu posso, por infortúnio, usar palavras que deixem de transmitir o que tenho em vista , ou usar um exemplo que não expresse o significado pleno do meu entendimento. Portanto, eu vos concitaria a não vos dardes por satisfeitos com o sentido literal das palavras, porém antes, buscar-lhes o integral significado. Vossos pensamentos acham-se tão condicionados por preconceitos e tradições que estais habilitados a perverter o entendimento. Se sois cristãos, tendeis a colorir as novas com a visão tradicional, não as podeis examinar livremente. Se fordes comunista, dar-lhe-eis uma interpretação comunista. Assim, pois, vosso pensamento está sendo continuamente condicionado pelas tradições, pelas vossas opiniões e ideias preconcebidas. Enquanto vossa mente não estiver liberta de todos os preconceitos, jamais compreendereis o verdadeiro significado da vida.

Tendes que por de lado vosso Cristianismo, vosso Budismo, vossa Teosofia. Isto é coisa muito difícil de fazer, como bem o sabeis. Educado como hindu, que sou, tive que libertar minha mente de todos os hábitos tradicionais do pensamento hindu e, mais tarde, das ideias teosóficas. Tive que abandonar todas as minhas ideias preconcebidas e encarar as coisas sob o ponto de vista de seu valor intrínseco, não do ponto de vista imbuído da tradicional irreflexão. A tradição e a autoridade são compulsões que violam a completude intrínseca.

A maioria das pessoas no mundo não se libertam porque desejam conforto e consolação; vivem na ilusão porque querem contentamento e satisfação. Não ousam desnudar-se, temem esvaziar suas mentes. Se contemplardes vossa própria mente verificareis estar ela cheia de teorias herdadas a respeito do mal e do bem, do que é espiritual e do que não o é.

Ocasionalmente, em meio desta luta de tristeza e alegrias alternadas, alcançais um vislumbre de algo que vos dá êxtase e buscais tornar isto permanente evitando o conflito. Percebeis este êxtase à distância, ao passo que estais ainda rodeados por todas as vossas lutas, por vossas tristezas, por vossos prazeres e dores. Ele parece distante e ansiais por escapar a todos esses torvelinhos para ingressar nesse êxtase; no entanto, é por meio deles e neles que se acha este êxtase da liberdade e não na evasão.

Pelo fato de evitardes o conflito e a luta, o medo é criado e por causa do medo estabeleceis ilusões que vos proporcionam consolo, conforto. Por causa deste medo aderis às tradições e vos tornais um imitador. Confiais na compulsão e por isso não há entendimento. Por causa deste medo estabeleceis autoridades espirituais e vós próprios vos erigis em autoridade. Assim nasce a religião do temor e desse medo surge a exploração espiritual.

O mesmo se dá em relação com as coisas físicas. O homem que necessita de haveres para sua felicidade, cria a exploração material. O explorador não vem à existência de súbito, ele não é um exotismo da natureza; é o resultado de vossas exigências espirituais e econômicas. Portanto, vós sois os responsáveis.

Se estiverdes colhidos pela ilusão proveniente do medo, da tradição, da imitação, vossas ações hão de levar à estagnação. No vos esforçardes por escapar ao conflito, vossas ações conduzirão a ilusões inconscientes e à dependência da autoridade, na qual vos tornais cada vez mais embaraçados. O homem viola sua própria e intrínseca completude pela sujeição à autoridade espiritual. Sua disciplina não é disciplina, mas unicamente uma sutileza de egoísmo que lhe proporciona animação para beneficiar levado pelo seu desejo. Toda a sua concepção de vida está baseada sobre o egoísmo, com todas as suas ramificações, suas ilusões, temores e consolos. Pelo fato de sua ação, por causa do medo, ser inconsciente, ela conduz à irresponsabilidade e, portanto, ao caos.

Ajustamento é apercebimento continuado, o auto-recolhimento, a concentração que sabe que, onde quer que haja egoísmo, há irresponsabilidade de ação e, por conseguinte, caos. O homem que conhece o verdadeiro significado do ajustamento, está continuamente buscando preservar em sua ação, a qual inclui pensamento e emoção, o límpido êxtase do entendimento, e por isso não cria exploração, seja ela espiritual ou física. Sendo a sua ação consciente, conduz à ação pura, sendo pura ação na qual não mais exista egoísmo, personalidade, na qual a individualidade cessou por completo.
Tornando-vos plenamente consciente, responsáveis, baseareis vossa ação nessa responsabilidade consciente e não no temor e na compulsão. Verdadeira ação é o consciente ajustamento de si próprio, sem coação nem temor, sem estímulo de recompensa. É alegria agir sob este ponto de vista; porém, quando imitais a alguém ou vos disciplinais de acordo com um sistema dado, nada mais será que conformar-vos, coisa que representa a lenta decadência. Não vos enganeis a vós mesmo dizendo: “É este o meu mais alto ideal, portanto, a este ideal me estou adaptando”. Não vos podeis adaptar a um ideal. Haveis apenas estabelecido uma imagem para vosso culto, que nada mais é que egoísmo. Por outras palavras, mais não estais fazendo que glorificar o vosso próprio ego, vossa própria personalidade. A realidade não é um ideal; é a própria vida, e o vosso ajustamento a essa vida é a verdadeira ação.

Se pretendeis buscar o entendimento, libertai-vos de todas as vossas imitações, de vossos cultos, de vossas reclusões, de vossas igrejas e templos. Eles são a origem da exploração, cuja fonte está dentro de vós mesmos.

Em primeiro lugar temos, pois, a irresponsabilidade da ação; a obediência, em vossa vida espiritual e moral, e, como consequência dela, a exploração e a desgraça. Isto é, primeiro vos é estatuída uma lei e vós a seguis sem pensar; depois, por meio do sofrimento, por meio da alegria, chegais a vos tornar responsáveis, plenamente conscientes e através dessa chama da eu-consciência vos libertais de ação irresponsável. E assim vos tornais a vossa própria lei.

O trabalho deve ser organizado, planejado, porém o esforço individual para a compreensão jamais pode estar sujeito a um sistema. No trabalho tem que haver autoridade, porém o pensamento e emoção individual, a luta e ajustamento individual na vida, não podem ser organizados nem disciplinados por autoridades.

Nos antigos tempos as comunidades eram ilhas de refúgio baseadas na ideia de salvação comum; pensamento e emoção eram guiados pela autoridade. Os indivíduos somavam suas capacidades e combinavam entre si a partilha do trabalho da comunidade, visto sustentarem uma crença comum. Reuniam-se sob a égide de uma autoridade aceita.

Ora, como disse, não vos é licito sistematizar o pensamento e emoção individuais; o indivíduo tem que ser livre. Porém, com esta liberdade, advém a organização natural do trabalho para benefício do conjunto, sem sacrifícios individuais. A ideia de que mediante uma autoridade espiritual pode ser criada uma moral que influencie a economia da vida, é uma utopia, pois a moral somente pode ser firmada para o indivíduo por meio de seu próprio esforço desperto. Por esta maneira, o trabalho torna-se nada mais nada menos que um incidente necessário e o indivíduo não confia somente no trabalho para a realização da verdade.

Não podeis realizar o êxtase da verdade unicamente por meio de mera perfeição da técnica, de um talento particular, ou do trabalho ou do serviço. Pensais que, a não ser que acentueis vossa particular capacidade, não podeis ser indivíduos, ficareis submersos na coletividade, no grupo anônimo. Ora, eu encaro as coisas por modo diferente. Pelo fato de serdes parte da comunidade, a comunidade organiza vosso trabalho; porém, quanto ao pensamento e emoção ficais inteiramente livres e é esta a verdadeira liberdade individual. Portanto, não acentueis coisa alguma de pequena importância.

Eu sustento que a realização da verdade, do êxtase, reside unicamente em vossa auto-completude. É então que conheceis plena, a consciente responsabilidade e sereis mantidos na solidão pela vossa própria integridade. Por meio da chama da eu-consciência, chegais à plena responsabilidade; estabeleceis vossa própria lei e isto é liberdade plena. Esta solidão não é uma fuga, uma evasão; é a cessação gradual da ação inconsciente, que não leva senão à desgraça, e que é começo da verdadeira ação.

Não sei quantos de vós tomarão o que eu digo meramente como uma teoria filosófica, como um discurso que se pode repetir aos outros, ou quantos de vós o tomarão com sinceridade. Se o tomardes como um discurso filosófico ou se meramente repetirdes as minhas palavras, será isso coisa difícil. É apenas pelo mudar fundamentalmente, com uma orientação diferente do pensamento, uma modificação básica da mente, que podeis achar esta completude, que podeis realizar este êxtase da vida. Para mudar fundamentalmente, tendes que proceder a um começo consciente. Tornai-vos plenamente responsáveis para convosco próprios, desde o próprio início; pensai continuamente no que estais fazendo. Podeis conhecer a felicidade perdurável apenas se, verificando o peso morto e a tirania dos anos passados, mantiverdes a grade resolução de a vós próprios modificar no presente.          

Krishnamurti, Palestra em Ommen, Reunião de Verão de 1931

A real recuperação em Anônimos

O Cão Celeste


D’Ele fugia, noites e dias;
D’Ele fugia pela arcada dos anos;
D’Ele fugia por becos e labirintos
De minha própria mente; e na névoa das lágrimas
D’Ele me escondia e no riso incontido.
Atrás de esperanças imaginadas corri;
E atirei-me, precipitado,
Nas sombras titânicas de abissais pavores,
Destes fortes Pés que perseguiam, perseguiam,
Em caçada sem pressa
Imperturbável passo.
Deliberada urgência, majestática instância,
Ressoando – e a Voz reiterando
Mais insistente que os Pés
“Tudo te trai, a ti que Me trais.”

Supliquei, esperto fora-da-lei,
A muitos uma janela cordial, com rubras cortinas,
Tecidos com retorcidos amores
(Pois embora eu conhecesse o Amor de Quem me seguia,
Contudo eu estava certo na dor,
Que, tendo-O, nada mais poderia ter).
Mas, se apenas uma fresta se abrisse,
O susto de Sua vinda a teria trancado:
Não sabe o medo fugir, como o Amor perseguir.
Pela margem do mundo fugi,
Turvei o dourado chão de estrelas,
Buscando refúgio em suas sonoras barras,
Aflito por doces jarras
E tremor de prata nos pálidos portos da lua.
Disse à aurora: “Acontece!” E à tarde: “Vem logo!”
Com teus jovens celestes botões afasta-me
Deste tremendo Amante!
Faze flutuar teus vagos véus sobre mim, que Ele não me veja!
A todos os Seus servidores tentei. Nada achei.
Traído fui pela constância deles.
Na fé para com Ele, nos seus caprichos comigo,
Traiçoeira veracidade, leal engano.
A tudo de mais veloz mais rapidez urgi.
Grudado à uivante crina de todos os ventos.
Mas perpassassem, mansa brisa,
As longas campinas do azul;
Ou, incitados pelo Trovão,
Atroassem seu carro para um céu
Pejado de raios voadores em volta da poeira de Seus Pés,
Não sabe o medo fugir, como sabe o Amor perseguir.
Ainda em caçada sem pressa
E imperturbável passo,
Deliberada urgência, majestática instância,
Vieram os perseguidores Pés,
E a Voz acima do som de Sua marcha:
“Nada acolha a ti, que não acolhes a Mim!”

Não mais busquei aquilo atrás do que vagava
Em faces de homem ou donzela.
Apenas ainda lá, nos olhos dos pequeninos,
Parecia haver alguma coisa, alguma coisa respondendo!
Ao menos eles eram por mim, certamente, por mim!
Voltei-me para eles, muito tristemente,
Mas, logo que seus olhos belos se abriram,
Com nascentes respostas ali,
Seu anjo arrancou-os de mim pelos cabelos:
Venham, então, outras crianças, dom natural,
“Deem-me – disse eu – sua gentil amizade!
Deixem-me saudá-los, lábios nos lábios!
Deixem-me entrelaçá-los de carícias,
Caprichosamente,
Com as ciganas tranças de nossa Mãe Senhora,
Banqueteando-me
Com ela no seu palácio de muros de vento,
Sob seu pavilhão azul,
Tragando, como seu costume sem mancha,
De um cálice
Luzente de gotas do amanhecer!”
E assim se fez:
Eu, na gentil companhia deles, fui um –
Abri os selos dos segredos da Natureza,
Conheci todos os deslizantes significados
Na teimosa face dos céus.
Conheci como as nuvens se levantam,
Espumas do selvagem respiro do mar;
Tudo o que nasce ou morre,
Ergue-se ou cai; fiz deles moldes
De meus humores, ou penosos ou divinos.
Com eles jubilei e me enlutei.
Eu me via pesado com a tarde,
Quando ela acendeu vacilantes velas,
Em redor dos mortos trabalhos do dia.
Ri nos olhos da manhã,
Triunfei e me deprimi em qualquer clima,
O céu e eu juntos choramos,
E suas doces lágrimas se salgaram com as minhas mortais;
Contra o rubro pulsar do seu coração – crepúsculo,
Deixei o meu próprio bater,
E partilhar o bem vindo calor.
Mas nem assim, nem assim, aliviou-se meu humano sofrer.
Em vão minhas lágrimas molharam as cinzas faces dos Céus
Pois ah! Não sabemos o que um ao outro diz
Essas coisas e eu; em sons eu falo –
Seus sons não são mais que ondulações: falam por silêncios.
A natureza, pobre madrasta, não pôde matar-me a sede;
Deixai, se ele quiser me possuir,
Afastar do seu peito o véu azul celeste, e mostrar-me
Os seios de sua ternura.
Nunca seu leite abençoou
Minha sedenta boca.
Perto e mais perto se mostra a caçada,
Em imperturbável passo,
Deliberada urgência, majestática instância,
E, atrás destes ruidosos Pés,
Uma Voz chegou mais veloz:
“Nada te contente a ti, que não me contentas!”

Nu, espero do Teu amor o golpe final!
Peça por peça a armadura me arrancaste
E de joelhos me puseste;
Nenhuma defesa me resta.
Dormi, creio, e acordei,
Num lento olhar me vi despido no sono.
Na dura cobiça de meus jovens poderes,
Sacudi os pilares das horas,
Puxei minha vida sobre mim; rosto manchado
Estou de pé em meio ao pó de amontoados anos –
Minha estropiada juventude jaz morta nos escombros.
Meus dias demolidos se tornaram pó,
Inflaram, rebentaram como bolhas no riacho.
Sim! Falha, agora, cada sonho
Ao sonhador e a viola, ao violeiro;
Mesmo as sólidas fantasias, logros floridos,
Onde vi toda a terra como enfeite no meu punho,
Recuam: suportes de todo fracos
Para a terra de tão pesados lutos.
Ah! Será Teu amor
Erva daninha, embora florida,
Sem tolerar outros botões que não os seus?
Ah! Tens,
Infinito Inventor
Ah! Tens Tu de queimar a lenha antes de iluminar?
Meu frescor se foi, regando a poeira,
E, agora, meu coração é fonte exaurida,
Onde lágrimas estancadas se desintegram para sempre
Desde úmidos pensamentos que tremem
Sob os gementes ramos de minha mente.
Assim é. O que é para ser?
Se a polpa é tão amarga, como será a casca?
Zonzo, vislumbro que o tempo nas brumas se funde,
Mas, sempre de novo, a trompa ressoa,
Nos ocultos baluartes da Eternidade.
Destas névoas sacudidas, um espaço incerto se abre, então
Em redor das mal vislumbradas torres lavadas de novo.

Mas não será ele, o que convoca,
Quem antes eu vira, ileso,
Com brilhantes vestes púrpura, coroado de cipreste;
Seu nome conheço, e o que sua trompa clama.
Se o coração humano ou a vida seria o que produz
Tua ceifa, deve a sega dos Teus campos
Ser adubada com a podridão das mortes?
Agora, desta longa perseguição
Perto chega o rumor;
Esta voz me rodeia como o estrondo do mar:
“É esta a tua terra tão amada,
Partida em cacos e mais cacos?
Vê, todas as coisas fogem de ti, que foges de Mim!
Estranho, lamentável, fútil ser!
Porque qualquer coisa te daria singular amor?
Nenhuma vendo, fiz muito do nada” (Ele disse),
“E o amor humano necessita humano merecer:
Como tens tu merecido –
De todo humano coágulo de barro o mais obscuro coágulo?
Pobre, não sabes
Quão pouco digno de amor és tu?
Quem tu queres para amar-te, ignóbil ser,
Exceto Eu, somente Eu?
Tudo o que de ti tomei, tomei
Não para ferir-te,
Mas só para que tudo pudesses encontrar em meu abraço,
Tudo o que teu infantil engano
Imaginava perdido, guardei para ti em casa:
Levanta! Segura Minha mão e vem!”
Cessa, por mim, estes passos em tropel:
É minha tristeza, depois de tudo,
Sombra de Sua mão, estendida em carícia?
“Ah, tão querido, cego, fraco,
Eu sou Aquele a quem procuras!
Do amor te afastavas, tu que de Mim te afastavas”.

FRANCIS THOMPSON (1859-1907), Tradução por R. PAIVA, SJ

Sobre a fuga da intimidade espiritual

Quem sou eu?

Quem sou eu? Esta é uma pergunta que deve penetrar fundo na nossa consciência. Ela deve ser formulada em silêncio e feita com reverência, com seriedade e, mais tarde, até mesmo num espírito de quase prece.

Devemos começar a tomar consciência dessa indagação e nos absorvermos nela durante um espaço limitado ao menos uma vez ao dia em nossa vida reflexiva. Devemos fazer uma tentativa de analisar a nossa natureza e — com espírito responsável e meticuloso — dissecar o conceito do eu assim como um anatomista disseca o corpo físico, até tomar ciência daquilo que o corpo realmente é. Esta análise deve ser mais do que um mero esgravatamento das paixões humanas, o qual, segundo numerosos psicólogos modernos, já seria suficiente. Ela deve ser um esforço para perscrutar uma seção transversal da experiência humana, em sua totalidade, desde o mais grosseiro até o mais etéreo.

Voltamos sempre ao único fator que deve ter preeminência, seja na filosofia teórica, seja na vida prática: o conhecimento do eu. Em consequência, o autoconhecimento dirige-se diretamente para este objetivo: uma análise mental do eu pessoal que resulte na descoberta do eu espiritual. Tal descoberta jamais surgirá se nos debruçarmos sobre uma mesa de laboratório. É essencial uma profunda meditação acerca do tema QUE SOU EU?

O princípio básico deste método é, portanto, tomar essa indagação, e tentar referir a natureza e a origem do conceito do eu; analisar a totalidade dos componentes que de hábito consideramos como partes do nosso ser individual; examinar, uma por uma, cada parte do corpo e suas respectivas emoções e pensamentos; e através disto tudo buscar aquilo que realmente se pode chamar de eu, relegando tudo mais a um esquecimento TEMPORÁRIO.

Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior

Os graciosos lampejos do Ser que somos

Concentração: porta da libertação do intelecto


A concentração consiste em deter a habitual mobilidade do intelecto e conservá-lo firmemente dirigido para uma única linha de deslocamento, entrando profundamente num pensamento especial. Para conseguir isto é necessário ignorar as impressões e sensações físicas que o ambiente atira sobre nós, abafar o ruído da vida mundana, silenciando-o; e manter à distância o enxame de pensamentos intrusos e externos, praticando o controle consciente da mente durante a meia hora de meditação. Em suma, enquanto pensamos integralmente no assunto escolhido, é preciso que haja uma resistência voluntária aos impactos da percepção, que vêm de fora, e as rebeliões dos pensamentos aleatórios, que vêm de dentro. Não nos é possível destruí-los ou apaga-los prontamente, mas podemos fixar um alvo inarredável, um ideal de permanecer indiferentes a eles como a rocha contra a qual as ondas do mar batem em vão, impotentes para desloca-la da sua base. Durante a primeira metade do exercício sentimos uma necessidade quase incontrolável de abandoná-lo, de nos erguermos e tratarmos de outra coisa. A mente se queixará amargamente de ser desviada da sua trilha habitual, da tirania de ser contrariada pela interiorização, quando de bom grado aceita a tirania muito maior de ser o dia todo levada para o exterior. A inquietude da mente é a descoberta genérica de todos quantos adotam a meditação. Tal descoberta é confirmada por cada esforço e conduz à princípio a um certo desencanto. Os primeiros e desajeitados esforços deixam uma sensação de fracasso e fadiga. Compreendemos então que apenas uma pequena fração dos nossos pensamentos é realmente nossa, o resto não passando de uma turba indisciplinada e rebelde. Se cedermos a esses sentimentos negativos estaremos caminhando para o fracasso. Se, contudo, aceitarmos o fato de que a tarefa empreendida é séria e difícil — conquanto exequível e digna de ser cumprida —, atacando com coragem e sem desfalecimentos os exercícios, um dia haverá uma recompensa, quando no tumulto da mente surgir uma parada maravilhosa e a tendência exteriorizante for inteiramente dominada.

Até aqui temos obedecido irresistivelmente à constante mobilidade da mente e cedido a ela; no instante em que começamos a silenciar a agitação habitual da mente, aparece, claro está, uma séria resistência. E isso seria de esperar. Devemos aceitar, por conseguinte, o fato da inevitabilidade dessa resistência e, ao invés de abandonar os exercícios, por faltos de inspiração e estéreis, devemos perseverar com paciência e confiança de que o intelecto se torne um pouco mais firme a cada mês que passe.

Porque a mente foi aprisionada pelo corpo e sujeita ao seu serviço, o objetivo da meditação é inverter as posições e libertá-la de um jugo despótico, de modo que ela possa reunir-se com o seu legítimo senhor, o Eu Superior. Quando a mente foge ao nosso domínio e faz com que as sensações externas ou lapsos se imponham à nossa atenção, devemos fazer o mais difícil: impedi-la de divagar; tentar torna-la introspectiva e, pacientemente, fazer sua atenção reverter ao foco apropriado, por mais cansativo e repetitivo que possa ser. Paciência e indiferença aos fracassos reiterados são essenciais na obtenção do sucesso final.

A concentração do pensamento é como cavalgar uma mula teimosa que não se cansa de enveredar para onde bem entende; sempre que o montador percebe que a sua montada está desgarrando, é obrigado a fazê-la endireitar a cabeça e retomar o caminho certo. O nosso Eu Superior interno está sempre ao nosso alcance, mas os nossos pensamentos itinerantes devem transformar-se no seu combustível; há tanto tempo agimos como filhos pródigos que a jornada da volta demandará um apreciável espaço de tempo. Por essa razão requer-se paciência nesses esforços. A ninguém é dado tornar-se um bom músico em apenas três meses, contudo a maioria dentre nós espera conseguir o melhor da vida depois de uns poucos esforços, tornando-se pessimista quando não há uma resposta imediata.

É preciso acrescentar uma observação final a fim de eliminar uma confusão que frequentemente ocorre à mente dos que adotam a ioga — o caminho da concentração. A conservação de uma linha de pensamentos consecutivos e ordenados, ou meditação, é o único processo preliminar e intermediário desse caminho. Trata-se de um estado de transição. A concentração ou contemplação adiantada consiste em fixar a atenção num único pensamento, objeto ou pessoa, deixando que ela ali se demore e evitando outros pensamentos sobre o mesmo tempo. Em consequência, um pensamento consecutivo efetivo é o esforço inicial que leva à concentração, mas não é a concentração final propriamente dita, porque envolve a passagem de uma sucessão de pensamentos. A concentração envolve apenas um objeto, ou apenas um pensamento. Precisamos aprender a encarar o intelecto como uma máquina de pensar que deve ser temporariamente posta de lado quando houver servido aos seus propósitos, ao invés de ser continuamente manipulada. A ação mental disciplinada tem de ser seguida por um repouso mental controlado — repouso que, abrindo o momento presente, faz-nos entrar na eternidade e liberta o pensador do sempre febricitante casulo de pensamentos.  


Paul Brunton em A Busca do Eu Superior

É preciso pular fora do sistema

Quando a sociedade está edificada sobre o egoísmo, sobre a rude competição, quando um luta contra o outro para a sua própria segurança, como se dá no edifício da presente civilização, então, essa ordem social deve a seu tempo ruir. O homem, movido pela sua ânsia de posse, construiu aquilo que ele denomina civilização. E apega-se a esse mundo; e, naturalmente, um edifício baseado no desejo contínuo, na consecução constante de alturas vazias, tem que a seu tempo desmoronar.

Qual é o remédio? Não há panaceias mundiais. Podeis, porém, individualmente e, portanto, coletivamente, pular fora do sistema que é seu inevitável produto. No mundo da ação, o homem, como indivíduo, tem-se tornado rudemente agressivo em seu desejo pelos haveres, em sua busca pela segurança. Tem-se servido de sua mente para lisonjear seus desejos egoístas. Ora, eu digo que necessitais pensar integralmente por vós próprios e libertar-vos de toda a imitação, que precisais manter a integridade de vossa individualidade em pensamento e sentimento. Só por esse meio pode haver a espontaneidade da verdadeira cooperação no mundo da ação, no trabalho coletivo em benefício de todos.

No buscar o que é eterno está o verdadeiro trabalho por todos, baseado nas necessidades humanas, não na cobiça e exploração humanas. Quando vós, pessoalmente, derrubardes esta estreiteza do patriotismo, da nacionalidade, de bandeiras tremulantes e de guerras; quando vós, individualmente, deixardes de ser exploradores em virtude de vossa força e habilidade egoísta, então vos virá a paz e o entendimento pelos quais agora vos esforçais em vão.

Haveis construído um sistema, um edifício que denominais civilização e essa civilização baseia-se na segurança individual; de modo que, no mundo da ação está o indivíduo constantemente buscando segurança para si próprio e para os seus. Esta civilização foi construída pelos homens através dos séculos, no decorrer dos quais o indivíduo se tornou semelhante a um animal selvagem, lutando pelo seu próprio bem estar, segurança e haveres; ao passo que, espiritualmente, isto é, no mundo do pensamento, o indivíduo completamente se deu a si próprio à autoridade, à obediência e à imitação e aí se tornou ele como um cordeiro, tendo perdido por completo a sua integridade individual. Aí ele é irresponsável e vive num mundo de ilusões; no entretanto é aí que ele tem de libertar sua mente e coração, por completo, de toda a autoridade, de todas as limitações nascidas do desejo, quer material quer espiritual.

Ora, como disse, necessitais inverter por completo o processo. No mundo da vida diária, isto é, da existência cotidiana, deveis formar planos para o conjunto e não para o indivíduo em particular. Não deveis sustentar nacionalidades e fronteiras, porém sim preocupar-vos com o conjunto dos homens, não como uma raça ou classe particular. Isto só pode ter lugar quando não mais se houver de seguir cegamente a autoridade. Só por esse meio será produzida a verdadeira cooperação reta, o planejamento reto no mundo da ação.

Quando vós como indivíduos, não mais fordes os dentes de engrenagem na máquina da sociedade; quando cessardes de explorar e ser explorados; quando não vos entregardes à autoridade; quando vos libertardes de todas as tradições que estropiam vossa mente e coração; quando cessardes a busca da felicidade, da verdade, por intermédio de outrem, então tornar-vos-eis plenamente responsáveis na ação e criareis assim um entendimento da vida baseado na verdade e na liberdade.


Krishnamurti em, Palestras pela rádio, Canadá, 1932    

Sobre a desigualdade econômica


Pergunta: O mundo inteiro está atualmente passando por uma fase critica. Há uma aguda crise econômica entre as nações, sob um firmamento político obscurecido. A que causa ou causas atribuis este estado de coisas e que remédio sugeris?

Krishnamurti: Desejais resolver vossas dificuldades econômicas por meio de um milagre. Haveis construído um sistema através os séculos, baseado na competição e no egoísmo. Agora deveis aspirar, não à substituição de um sistema por outro sim à completa reorientação de vossas mentes e corações.
Haveis estabelecido inúmeras autoridades, instrutores religiosos, deuses para vosso culto. Individualmente, no campo do pensamento, haveis vos tornando como se fosseis cordeiros; porém no trabalho para viver sois semelhantes a lobos.

É da máxima importância que desçais à raiz do problema. Isto é, no campo do pensamento e do sentimento não deveis estabelecer a outrem como guia, porém sim permanecer inteiramente sós; ao passo que, no trabalho, deveis formar planos coletivos para viver. Aí é que está o remédio. É pela expressão da individualidade em seu lugar correto que podeis encontrar liberdade, que é verdade; e na realização dessa verdade resolvereis vossos problemas sociais e econômicos. Podando meramente as folhas da árvore não colocareis fim aos vossos males; porém, se nutrirdes as raízes de maneira apropriada, os ramos serão vigorosos e abundantes. Trabalhai, pois, pela mudança, individualmente, das mentes e dos corações e então estes problemas se resolverão por si mesmos.

A presente civilização acha-se baseada na cobiça e na competição individual; ela não pode durar para sempre, pois que não possui valor intrínseco. O indivíduo que criou e está dominado por esta civilização, acha-se preso na acumulação, a qual é o seu único incentivo; isto é, o indivíduo esforça-se por expressar sua ambição e atingir a deseja posição social por meio de acumulo de riquezas e de poder. Por isso estabeleceu ele distinções sociais, e uma tal civilização, baseada no rude egoísmo, tem que, a seu tempo ruir. É só uma questão de tempo. Enquanto alimentardes esta concepção da individualidade, que nada mais é que cobiça e egoísmo, nenhuma civilização, nenhum edifício sobre essa concepção construído pode perdurar, nem tão pouco ela libertar a mente da tristeza.

Até agora tendes sido espiritualmente escravos; isto é, haveis seguido os outros, haveis estabelecido autoridades espirituais e a tradição tem amarrado a vossa mente. Não importa qual o pais a que pertenceis, por toda a parte há um constante ajuste à tradição. Em pensamento e emoção, como indivíduos, apenas vos tendes conformado, ao passo que no mundo da ação tendes vivido por completo sobre vós mesmos, buscando, egoisticamente, vossa pessoal segurança. Como vos disse, não vos estou dando uma panaceia; sustento, porém, que somente quando compreenderdes a reta função da individualidade é que haverá um caminho para vos conduzir para fora deste caos. No meu modo de ver, a individualidade só pode expressar-se no mundo do pensamento, não no mundo da existência; isto quer dizer que precisais pensar intensamente por vós mesmos, desembaraçados da tradição, do hábito ou do temor da opinião pública. Porém, para atender às necessidades da existência, precisais cooperar, trabalhar e planejar em conjunto; isto é, precisais libertar-vos da ideia de bandeiras e fronteiras. Por esse modo chegareis naturalmente a resolver o problema econômico, pois que estareis trabalhando a partir de um ponto de vista humano e não com base em preconceitos nacionais separatistas.


Krishnamurti em, Palestras pela rádio, Canadá, 1932    

O intelecto não pode conceber a Verdade

Se fosseis pedir a um hindu, a um budista, a um maometano ou a um hebreu que vos descrevesse Deus, cada um deles se esforçaria para externar uma expressão de sua concepção particular. Isto é, cada qual se empenharia em dar forma a Deus de acordo com sua fantasia particular, sua preferência ou preconceito particular.

Ora, Deus, a vida ou a verdade, não pode ser concebida nem descrita. Se jamais houvésseis contemplado o oceano e alguém viesse lhe descrever, apenas poderíeis imaginá-lo; porém vossa ideia não vos proporcionaria a realidade. Do mesmo modo, sendo limitados, finitos e condicionados, buscais imaginar o imensurável, o indescritível. Como um prisioneiro que anseia pela liberdade começa a imaginar o êxtase, a adoração da libertação, porém não derruba as paredes que o mantêm prisioneiro, assim o homem brinca com a concepção de Deus, da realidade, através as grades da sua limitação.

Eu digo que existe a imortalidade, que existe a eternidade, porque a realizei; ela, porém, não pode ser atingida por uma mente em limitação. Portanto, não vos preocupeis com isto, porém antes com o presente no qual estais vivendo, com o conflito, a crueldade, o sofrimento dos incidentes diários. Quando começardes a libertar a mente e o coração desta limitação, desta ilusão, desta tristonha prisão de múltiplos séculos, conhecereis por vós próprios essa eternidade que é Vida, Deus, Verdade. Portanto, vivei com intensidade no presente, pois que somente no presente está a eternidade. A imortalidade não está num futuro distante e a preocupação de vosso destino individual nada mais é que esforço vão. No presente, somente, está a plenitude do entendimento, a qual é suprema inteligência.


Krishnamurti em, Palestras pela rádio, Canadá, 1932    

Sobre a necessidade de retiro e silêncio

A aquietação da respiração aquieta os pensamentos


[...]Os ritmos da respiração trabalham em uníssono com os ritmos dos nossos estados mentais; a excitação provoca uma respiração irregular e entrecortada; a contemplação tranquila provoca uma respiração regular e suave. Uma vez que o pensamento e a respiração estão entrelaçados, basta-nos apenas manter a atenção constante — bem como dosar o ritmo — sobre a respiração para que produzamos um efeito correspondente sobre os pensamentos. Em consequência, a aquietação da respiração tende a aquietar os pensamentos. Quando, a exemplo do que ocorre no exercício seguinte, o pensamento e a respiração são amalgamados com tal propósito, começará a surgir um estado de calma inalterável dentro do qual a verdadeira meditação torna-se muito mais fácil para a hiperativa mente ocidental.

Devemos então adotar o seguinte exercício que deve ser praticado imediatamente após a análise intelectual do eu, e não antes.

Há, contudo, três breves preliminares a serem cumpridas. A primeira exige a direitura da espinha dorsal de uma forma fácil e natural enquanto estivermos sentados. Isto porque a postura física afeta a respiração.[...] Depois os olhos devem ser fechados e mantidos assim durante todo o exercício. Por fim, todo o ar viciado dos pulmões deverá ser expelido por meio de quatro exalações seguidas. Feito isto, deve-se cuidar do processo de alterar o ritmo normal de nossa respiração.

1.       Devemos diminuir gradualmente a velocidade da respiração de semana para semana, e durante cinco ou dez minutos por dia até que, aproximadamente, essa velocidade fique reduzida à metade.
2.       No final de cada inalação devemos interromper a atividade respiratória, reter o ar durante dois ou três segundos, e a seguir expirar o ar puro.
3.       Simultaneamente, a respiração deve ser tornada tranquila, suave, plácida e isenta de esforço;
4.       Devemos manter em cuidadosa observação a respiração e enfocar nela toda a nossa atenção.

[...] É importante que o exercício seja convenientemente praticado, apesar de sua simplicidade. Ele só será capaz se todas as condições forem satisfeitas.

[...] Devemos fazer o exercício durante cinco minutos cada vez — não mais. Se nos exercitamos pela manhã, poderemos repetir à dose à noite.

Não se deve progredir com rapidez exagerada; deve-se progredir lenta e naturalmente nesta esfera.
Em todos os caos a diminuição do ritmo respiratório deve acontecer de tal forma que não se verifique nenhum desconforto agudo e anormal. Naturalmente, no princípio será inevitável uma ligeira sensação de tontura, pois quando começamos a usar de forma diferente um órgão do corpo, este reage e resiste durante algum tempo à atividade inusitada que lhe está sendo imposta. Se patentear-se alguma dor real, ou uma sensação definida de sufocação ou qualquer outro sintoma obviamente anormal, o exercício deverá ser imediatamente suspenso e o estudante reverá com cuidado o método prescrito, a fim de verificar se o está seguindo à risca pois tais sintomas só podem surgir em decorrência de uma má interpretação do método, ou em virtude de algum mal orgânico do coração ou do pulmão. Pessoas afetadas por doenças deste tipo não devem jamais fazer exercícios respiratórios.

[...] Devemos evitar uma série de movimentos bruscos ao inspirar e objetivar de preferência uma ação firme, leve e contínua. A respiração deve ser propositadamente convertida num fluxo leve e suave. Deve-se evitar um ofegar audível. O nosso esforço deve ser no sentido de acalmar o processo respiratório. O ar deve correr com tal suavidade que, segundo com muita propriedade dizem os místicos chineses, uma pensa colocada diante das narinas não deverá se agitar. Assim como devemos relaxar inteiramente o corpo afim de conseguir a postura física para a meditação, assim também devemos relaxar por completo a respiração. A arte do relaxamento deve ser levada através do corpo até os pulmões. Por meio de treinamento adequado a respiração poderá tornar-se tão suave que apenas uma tênue corrente de ar se movimente como um fio entrando e saindo das narinas.

[...] Requer-se uma vigília contínua durante os poucos minutos da prática, uma observação mental atenta da entrada e saída do ar. A mente deve estar abstraída de qualquer outra atividade e presa tão apenas ao movimento respiratório; essa observação voluntária acabará por proporcionar o controle sobre esse movimento e reduzi-lo ao ritmo mínimo, que é o objetivo. Precisamos ater a mente a isso. Este exercício não deve ser feito com indiferença, mas com uma concentração consciente sobre o fluxo da respiração; isto é muito importante se desejamos um aproveitamento integral. Todos os demais pensamentos devem ser suprimidos e esquecidos, e o nosso eu deve ser totalmente imerso no ritmo respiratório. A potencialidade do método será proporcional à concentração nele empregada. Se a atenção for interrompida ou pausas desnecessárias acontecerem durante os exercícios, o poder de alterar o estado mental será reduzido.

Enquanto empenhados no exercício respiratório é possível que adquiramos uma consciência muito aguda do nosso batimento cardíaco, que se apresentará não como um latejar descompassado mas como um pulsar suave. Trata-se de uma consequência natural da maior atenção dispensada à respiração e não há razão para alarme.

O êxito poderá surgir de pronto, como também poderá vir apenas com o tempo, mas os exercícios não são difíceis de seguir. Algumas pessoas levarão mais tempo que outras porque a capacidade física, mental e pulmonar varia de indivíduo para indivíduo.

Qual será o resultado de tais exercícios?

A mente será posta numa condição de harmonia com a respiração. Os pensamentos espontaneamente se tornarão mais escassos à medida que a respiração for se tornando mais escassa. Todo o processo do pensamento será retardado. Uma impressão global de calma interior e equilíbrio começará a impor-se gradualmente. As paixões flutuantes e inquietas tornar-se-ão mais tranquilas. O intelecto será aprisionado como um pássaro cativo; ao nos apossarmos da vida respiratória, a vida reflexiva será também dominada. A total serenidade da inalação moderada será refletida na moderação da mente. Naqueles compridos momentos em que a respiração é realmente sustada o intelecto será apanhado por uma reação e o seu poder de encobrir a realidade tornar-se-á menor.

Este é precisamente o esforço necessário para nos levar ao estágio seguinte no caminho do desenvolvimento espiritual. O intelecto atingiu os seus limites e chegou o momento de prepara-lo para cessar os seus esforços. Uma análise ulterior a este ponto seria improdutiva e, na verdade, desvantajosa. Precisamos estar agora preparados para invocar e intensificar toda a nossa faculdade da atenção e mergulhar mais fundo no nosso ser, na busca do Eu Superior.

Um homem que mergulhe no mar não se entregará a uma sucessão de pensamentos acerca do mar, mas, esquecendo o resto, sustará a respiração e fará o mergulho. Da mesma forma, quando nos prepararmos para mergulhar na região fronteiriça do Eu Superior, não devemos nos entregar a novas meditações a respeito, mas, esquecendo o resto, trataremos de controlar a respiração a ponto de sustá-la intermitentemente e a seguir mergulhar diretamente no ser mais profundo.

[...] É concebível a existência de tipos altamente metafísicos ou altamente espiritualizados sobre os quais esses exercícios respiratórios não exerçam nenhuma atração e para os quais pareçam totalmente desnecessários. Tais pessoas poderão prescindir dos exercícios desde que encontrem força interior para passar sem dificuldades do estágio da análise intelectual para o estágio intuitivo que se segue. Mas a maioria esmagadora dos ocidentais não será capaz de fazer a passagem de um estágio para o outro, a não ser com a maior dificuldade, e este simples exercício foi concebido para auxiliá-las. Pois, extrovertidas como de hábito são, com mentes sempre a produzir imagens do mundo externo, elas não podem subtrair-se com facilidade aos assuntos mundanos, colocando-se numa região de profunda abstração espiritual.

Poderemos também nos beneficiar do exercício mesmo fora dos minutos de retiro diário. Se em qualquer período do dia formos perturbados por estados de indesejável melancolia ou ira desordenada, de extrema irritabilidade ou paixões descontroladas, nervosismo desenfreado ou medo opressivo, basta-nos apenas praticar essa respiração vagarosa, onde quer que estejamos, e de imediato surgirão os efeitos benéficos, acalmando os nervos e reajustando harmonicamente as nossas perspectivas.               


Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior   

Retomar o Sopro, retomar o ritmo

Quem houver praticado este método de auto-indagação durante um espaço de tempo suficiente e feito um progresso apreciável na arte, precisa então aprender a manejar os pensamentos durante seu exercício diário de meditação de uma forma diferente. Nos estágios mais elementares a pessoa esteve formulando uma análise da sua estrutura íntima. Esteve empenhada numa dissecação de si mesma por meio de um pensamento concentrado adestrado. Porém, com o passar do tempo, deverá desenvolver uma atitude que ao menos intelectualmente compreenda que a alma ou o eu não se limita ao corpo. Conseguida essa atitude, não será preciso prosseguir numa repetição estéril e detalhada da análise e, na verdade, a pessoa não se sentirá inclinada a fazê-lo. Pelo contrário, suas meditações poderão sofrer uma guinada e, com rápidas generalizações, ela poderá superar em pouco tempo as fases que antes eram assaz demoradas.

Que se deve fazer a seguir? O Eu Superior, conquanto perceptível pela cognição intelectual, continua impossível de ser descoberto através da experiência, embora a pessoa compreenda agora onde ele não se encontra, ou melhor, onde não deve procura-lo.

Agora pode a pessoa entrar numa nova e adiantada fase do seu trabalho, em que, com auxílio do controle da respiração, da fixação visual e do adestramento da imaginação, ficará capacitada a fazer progressos nesse reino mais profundo. Trata-se de fato de uma fase crítica que precede a grande e gloriosa chegada do Eu Superior.

É chegada a época em que a própria função do raciocínio que tão bem serviu ao homem durante detalhadas autoanálises feitas tem de ser inteiramente suspensa porque aprisiona o homem ao tempo!

Não devemos tomar tal providência, porém, antes que surja finalmente um sentimento interior dizendo-nos que estamos deveras preparados; se cedermos à impaciência, esperando resultados rápidos, nada conseguiremos e acabaremos desapontados. A busca intelectual precisa agora ser sucedida por uma busca intuitiva, mas o ponto em que devemos passar de uma para outra deve ser determinado com grande cuidado. Se a tentativa for feita demasiado cedo, nossos esforços serão inúteis e se for tardia, teremos perdido muito tempo valioso e um sentimento de medo terá tomado conta de nós. Enquanto nada deve ser forçado, nada deve, por outro lado, ser esquecido.

Tentar suspender o pensamento cedo demais no caminho é roubar a nossa personalidade humana do enriquecimento a que tem direito. Determinar quanto tal ponto foi realmente atingido não é fácil. Precisamos ser orientados por uma espécie de sentido íntimo; tal sexto sentido começa na verdade a despertar e fazer-se progressivamente sentido dentro do homem, depois que este persistiu algum tempo nestes exercícios mentais. O homem não pode cria-lo por si próprio; pode apenas dizer que o sentido está lhe vindo. Uma vez porém manifestado, deve o homem entregar-lhe toda a sua confiança e permitir-se guia para onde for.

A maior dificuldade neste processo é agora libertar a atenção do fluxo constante dos pensamentos indesejáveis. Somente quando tentamos fazê-lo é que descobrimos até que ponto nos encontramos escravizados, até que ponto somos incapazes de manter à distância essas ondas de pensamento que de contínuo batem às praias do nosso ser. Fazê-las cessar, parecerá a princípio a coisa mais difícil do mundo, contudo pode ser conseguido por um esforço lento e firme.

Colocar-se de lado e observar os nossos pensamentos durante algum tempo todos os dias é constatar que tão logo um dos nossos pensamentos se vai, outro se apressa em tomar-lhe o lugar no nosso cérebro. Isto se repete sem cessar. As rodas do cérebro não param de girar até que o sono sobrevenha afinal e lhes proporcione uma trégua temporária.

Para os orientais a dificuldade de deter os pensamentos não é tão formidável como para os ocidentais e aqueles nem sempre compreendem que estes últimos precisam desenvolver um esforço muito maior para alcançarem à região da calma abstração. A ajuda que o europeu e o americano médio precisam nesse sentido tem de ser ao menos em parte física; eles precisam de algum método indireto envolvendo um ato físico para fortalece-los na tarefa da autodisciplina. Ademais, os orientais estão acostumados a recorrer à presença e assistência de guias espirituais cuja atmosfera ajuda espontaneamente os outros a subjugar os pensamentos, ao passo que os ocidentais raramente encontram tais guias em seus países.

A ajuda está bem próxima; fica na regulagem da respiração. Principalmente para as pessoas que estão sempre ocupadas com assuntos prementes ou que estão fortemente vinculadas ao mundo material pelos desejos e ambições, este exercício presta-se admiravelmente para lhes proporcionar o controle da mente.

Nossos sábios ocidentais acumularam um acervo de conhecimentos que deve impressionar todas as mentes em virtude das suas proporções colossais, contudo existem algumas coisas que estancam aos seus olhos perspicazes — coisas, porém, da máxima importância para a humanidade. Por exemplo, a respiração ocupa uma posição algo peculiar. Seus efeitos mais imediatos são claramente visíveis e fisicamente registráveis, mas, declaram os videntes do Oriente, existem efeitos remotos não facilmente identificáveis. Assim é que fazemos nossos maiores esforços com a respiração contida e os de pouca monta com a respiração curta. Existe também uma inter-relação especial entre a respiração e o pensamento. Ambos possuem uma ascendência comum, uma origem familiar.

[...] Podemos agora provar a ligação que existe entre a respiração e o pensamento de maneira bem simples. Tome-se o caso de um homem que se tenha deixado enfurecer — observe-se a sua respiração pesada e se constatará que ela se tornou tão agitada como os seus pensamentos e paixões. A respiração vai bem, arquejos curtos e apressados, e quanto mais violenta for a conduta do homem tanto mais violenta será a sua respiração. Tome-se agora o caso de um poeta cismando, sonhador, em algum poema ainda em embrião e percebemos que, muito ao contrário, sua respiração é plácida, leve, calma e lenta. Tome-se a seguir um homem refletindo sobre algum intrincado problema matemático. Automaticamente, ele respira mais devagar e mais suavemente. A corrente da vida do homem, tal qual uma árvore, desenvolveu dois ramos: um é a mente e outro é a respiração.

[...] A força vital imanente na respiração e a força mental que ativa o cérebro provém de uma fonte comum. Tal fonte é a Única Corrente de Vida que impregna o universo e, em cada ser humano, transforma-se no seu Eu Divino, seu Eu Superior. “A respiração é a marca da vida” é uma frase cuja significação é bem mais profunda do que imaginam os muitos que a empregam.

Como resultado dessa íntima correlação, as modificações na respiração trazem modificações na mente, e vice-versa.


Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior   

Um breve passo a passo do Paradigma Holotrópico

Este caminho do auto-adestramento está dividido em dois estágios e contém diferentes práticas. O primeiro estágio é intelectual e consiste de observações que propiciam compreensão; o segundo é místico e provoca a compreensão. No primeiro estágio formamos uma corrente mental de auto-indagação, tentando descobrir aquilo que realmente somos e localizar o ser vivo que pensa e sente dentro do corpo; ao passo que no segundo a mente racional é desligada, o assim chamado consciente é posto em recesso e o erroneamente chamado subconsciente pode assim aparecer.

Os componentes da personalidade são sujeitos a uma rígida análise durante o período da meditação. O corpo e suas partes, órgãos e sentidos, são cuidadosamente examinados em pensamento, visando-se apurar se o eu reside ou não nele, e, através de numerosas análises, verifica-se que tal não acontece. Elimina-se então o corpo da análise e as emoções são submetidas a um exame semelhante. Aqui, uma vez mais, a temporalidade das emoções e as implicações da frase instintiva, “Eu sinto”, indicam que o eu é alguma coisa à parte. As faculdades da mente: imaginação, raciocínio e percepção são semelhantemente observadas e analisadas; descobre-se que o eu não é inerente em nenhuma dessas funções. O próprio intelecto é cortado em pedaços, verificando-se que não passa de um conglomerado de pensamentos. Observamos os pensamentos no processo e depois tentamos transfixá-los na mística quietude da qual provêm. Afinal o eu consciente é referido a um único pensamento. Do grande silêncio e vazio anteriores à mente, o pensamento do eu é o primeiro surgindo do eu pessoal interior à consciência. Dele proveio a multidão de outros pensamentos que criaram o conceito de um ser pessoal dotado de existência própria. Toda a personalidade desenvolveu-se em torno dessa única raiz-pensamento. Erradicando-se esse pensamento primordial não restará senão a Vida Impessoal.

Se persistirmos e nos dedicarmos a frequentes meditações sobre o tema, o esforço propiciará o mais elevado emprego criativo da lógica e, em última instância, iremos referir esse pensamento à sua origem, o eu à sua toca e a consciência ao seu estado primordial indivisível.

No final desta análise metal e mente deverá, portanto, ser silenciada tanto quanto possível e um estado emocional de quase-oração deverá sobrepor-se. Aquela quietude da qual o eu surgiu deve ser o objeto dessa devoção. O próprio eu é imobilizado e tornado inerte. Toda a nossa atenção deverá ser focalizada na misteriosa vacuidade anterior a ele. É a esta altura que a eletrizante orientação de um verdadeiro Iniciado — se tivermos a boa sorte de encontra-lo — torna-se de poderosa ajuda.
Mas antes de conseguirmos essa quietude, precisamos dominar a tendência dos pensamentos a divagar-se e dissipar-se, e chegar àquela concentração de atenção que é tão essencial; em consequência alguns acessórios da prática mental se fazem necessários e breve serão apresentados. Primeiro existe um exercício respiratório a ser feito; ele acalma a mente. A seguir há um exercício de vista, que fixa a atenção e induz a um estado concentrado. A cessação da atenção no campo externo coloca a atenção no campo interno. Atingido esse estado, que acontecerá então? Se o esforço tiver sido corretamente executado, cria-se uma espécie de vácuo provisório na consciência, mas a Natureza, tendo horror ao vácuo, rapidamente reajusta as coisas. A investigação mental cessando então, fica assegurada uma revelação interior. Os pensamentos banidos são substituídos pela Universal Mente Superior; esta, por sua vez dá mais tarde lugar ao divino Eu Superior, que entra no campo de nossa consciência. Esta investigação traz consigo “a paz que ultrapassa a compreensão” na expressão de São Paulo. (Melhor tradução seria: “A paz que ultrapassa o intelecto”).
Uma vez consumado o salto, o verdadeiro eu revela-se à mente estupefata.  Somos então compelidos a uma quietude mental absoluta, porque compreendemos estar diante de uma presença divina. Trata-se de uma experiência que não pode ser suplantada. Ela romperá todas as ilusões tolas e desfará todos os sonhos errôneos. A confusão e a contradição desaparecerão com o escuro. A iluminação inundará de um brilho radiante os recantos escuros da mente. Nós sabemos, e, sabendo, aceitaremos. Pois descobriremos que o coração do nosso ser é também o coração do Universo. E isso é bom.
Depois, a tarefa que se resumia num retiro temporário transforma-se na criação de um hábito de auto-recolhimento ao qual se deve recorrer sempre que necessário durante o dia e onde quer que estejamos, até que surja uma disposição fixa e prevalecente quando o coração estiver para sempre imerso no Único, mesmo estando a cabeça e as mãos ocupadas com outras coisas.
Devemos ter presente que uma frieza e insensibilidade não bastará durante a análise; este caminho exige que coloquemos nele o coração, tanto quanto a cabeça.
A esta altura também é importante compreender que a duplicação intelectual dos pensamentos dada nessa análise meditativa é por si só insuficiente; se a análise fria e crítica pudesse por si só alcançar o sutil reino do espírito, muitos pensadores deste mundo não se teriam transformado em materialistas; não, algo mais é requerido. Esse algo mais é a inspiração íntima no sentido da verdade, um desejo sincero e genuíno de guindar-se à região espiritual. Devemos colocar de lado todos os demais desejos durante o período da auto-investigação. Essa inspiração atua como uma força propulsora e, sem ela, um detalhamento seco e intelectualizado do ego poderá levar a resultados estritamente negativos. O que se deseja então é induzir estados em que o pensamento seja incendiado pelo sentimento; e criar emoções quando a mente é inflamada pelas centelhas da inspiração espiritual. Se seguirmos cuidadosamente as instruções, tal resultado será conseguido. Desta forma um desenvolvimento equilibrado nos preparará para progredirmos no caminho e, embora o treinamento fundamental seja de caráter intelectual, a exaltação essencial das emoções caminhará passo a passo com ele. Assim, no devido tempo, surgirá uma atmosfera adequada à sublime manifestação interior do divino e a que se aspira.
Depois de havermos treinado um espaço de tempo suficiente, o segundo estágio começará a desdobrar-se gradualmente e nele a leitura atenta destas páginas tornar-se-á desnecessária e as ideias e frases básicas precisarão ser apenas reavivadas mentalmente pela memória e meditadas. A questão da duração da meditação deve ser resolvida por nós mesmos. A meditação é necessária enquanto sentirmos que está sendo exigida; é necessária até que se obtenha a mais ampla convicção intelectual das verdades ensinadas nestas páginas. É necessária até que a achemos tão fácil, espontânea e agradável que ansiamos por aquela meia hora diária e nos apressemos a fazer o nosso exercício diário; necessária até que possamos abandonar todos os tipos de pensamento digressivo e sentir uma crescente luminosidade no cérebro, de maneira que todas as ideias verdadeiras apareçam como imagens de espantosa clareza ou como certezas inspiradas a essa luz deslumbrante. Os exercícios devem ser continuados até que possamos superar o clamor constante das impressões externas, das sensações físicas e dos pensamentos inquietos em favor de uma vigilância interior que, embora intensa, dispensa na aparência qualquer esforço. O estado induzido deve ser reiteradamente reproduzido até tornar-se habitual; só então poderá ser deixado de lado.
Não pode haver pressa nem paciência. A menos que o estudante caminhe nesse mundo mental com calma e confiança e tranquila determinação, ele não atingirá seus propósitos. Pensamentos meramente superficiais, a passagem apressada de dados insuficientes a conclusões vagas e generalizadas, a pressa em terminar a meditação — todos esses fatores entravam o progresso da vida interior; tal pressa não é realmente velocidade e na verdade atrasa o estudante e o impede de penetrar no profundo mundo da alma a que ele aspira.
Devemos nos sentar para a nossa prática de meia hora com compreensão de que um determinado espaço de tempo é necessário para a perscrutação preliminar da mente, antes que as camadas mais profundas sejam atingidas; outro fator é preciso para a entrada na Mente Superior; daí precisarmos estar prontos para esperar com resignação pelos resultados enquanto lutamos por eles.
A questão da atitude íntima tem alguma importância nesta busca, como também é importante a atitude do corpo. É preciso que nos entreguemos ao exercício dessa meditação com um estado de espírito esperançoso, confiante e otimista, e jamais vacilemos; contudo não devemos jamais perder de vista a importância capital da humildade. A humildade é o primeiro passo em todos os caminhos que conduzem ao Infinito, por mais distantes que sejam, e é também o último. Mas devemos começar acreditando que a Verdade pode ser atingida, que a mente pode ser dominada, que o próprio antagonismo de um ambiente hostil fornece oportunidades para superar tal ambiente, e que esse esforço constante no sentido de encontrar a luz-Alma terminará por evocar a sua Graça.
Não devemos hesitar em manter essa atitude íntima porque o simples fato de havermos adotado uma tal prática significa que o Eu Superior está começando a nos tocar, a nos despertar. E o interesse do Eu Superior é em si mesmo um arauto da vinda da sua Graça.
Devemos agora lutar por captar a essência deste método especial. Não é apenas a ruminação diária das verdades metafísicas, pois se trata em parte de um processo de refinar a mente e dar-lhe uma tendência à abstração. Nem é tampouco o cultivo intermitente de determinados estados que exaltam a alma, porque, isto também não passa da aquisição daquela enaltecedora força da aspiração que nos faz progredir na busca interior. Não; trata-se também da criação que uma atitude de indagação correta. Esse deslocamento da vida mental para o campo da auto-interrogação é uma diferença vital que distingue o método presente de todos os demais. Ao invés de fazer do esforço pessoal o único fator do nosso progresso, ele consegue a colaboração de uma parte mais elevada do nosso ser num estágio mais adiantado do caminho. Pois, a questão permanente do eu, a busca do eu, quando praticadas como aqui se recomenda, fornece bases adequadas para tal colaboração, porque depois de propiciar a preparação devida, convida o Eu Superior a participar mais ativamente do jogo, e fazer algo que nos empurre para diante! Dificilmente se poderá exagerar a importância deste princípio da auto-interrogação. Ao invés de fazer afirmações positivas porém vãs como: “Eu tenho uma alma” ou “Eu sou uma alma” o que se faz é perguntar: “Tenho eu uma alma?” ou “Sou eu uma alma?” E a resposta fica a cargo do componente anímico do nosso ser. Enquanto o primeiro método resume-se em dogmatizar intelectualmente, o último torna humilde o intelecto, silencia o seu balbuciar incessante e aguarda que a resposta seja dada pela única parte do nosso ser competente para dá-la. Significa isto que já não valorizamos em excesso o intelecto, mas mantemo-lo em seu devido lugar. Uma busca espiritual só pode ter êxito quando recebe satisfação na região espiritual de nosso ser, e não apenas na intelectual. Os pensamentos nos trarão para a estrada do eu espiritual, mas eles próprios não contêm esse eu. Se alegássemos que continha, então as acusações dos críticos de que poderíamos nos tornar vítimas de visões autosugestivas seriam corretas. E, na verdade, se a alma não existisse, se a divindade não passasse de uma ilusão e o corpo fosse todo o ser e todo o fim do homem, jamais poderíamos obter uma resposta espiritual genuína para as nossas perguntas e teríamos de nos contentar com meras teorizações. Por isso, esse método ocupa o seu lugar na realidade do eu divino da humanidade. Porque o Eu Superior é de fato uma realidade, esse método pode ser entregue ao mundo com confiança, na certeza de que aqueles que o seguirem com sinceridade e paciência obterão um dia resultados demonstráveis, vale dizer, resultados em suas próprias experiências. Se o Eu Superior não existisse, ou mesmo dando de barato a sua existência, se fosse totalmente indiferente às aspirações dos homens e aos seus anseios de um consolo que apenas a vida material não pode proporcionar, então este método não teria valor nem produziria resultados. Mas, pelo contrário, o Eu Superior é o fator fundamental mais revelador da nossa existência e está sempre pronto a revelar-se, a dar o supremo consolo da vida àqueles que preenchem as condições já mencionadas. Por isso esta investigação não passa desapercebida, mas no devido tempo o investigador que se mantém fiel à sua busca toma consciência do seu eu divino.
Este princípio envolve, por isto, uma completa inversão da mente, que passa de uma atitude de afirmação positiva para uma atitude de humilde indagação. A verdade não faz questão de revelar-se aos intelectualmente arrogantes, mas se entrega àqueles que se prostram humildemente de joelhos; e a prática deste método leva invariavelmente o homem à humildade do espírito. Não foi à toa que Jesus se pronunciou dizendo que o Reino dos Céus só está aberto aos que se comportam como criancinhas. O dito constitui uma referência simbólica à condição de humildade intelectual de que tanto carece a nossa época. Embora tenhamos primeiro que penetrar com cérebro aguçado a casca do ego, precisamos contudo não hesitar em abandonar esse instrumento ao atingirmos um ponto em nossos exercícios no qual percebemos que aquela condição foi atingida. Essa disposição para “pedir” a verdade em cada estágio, com espírito de uma criancinha, depois de empregadas todas as forças intelectuais, não é um sinal de fraqueza. Se a nossa orgulhosa época pudesse compreendê-lo, isto seria um indício de fortaleza espiritual. Reconhecer livremente as limitações do intelecto quando houvermos chegado ao limite extremo daquela faculdade é facilitar a vinda de alguma coisa mais elevada. Este é o verdadeiro desiderato da ioga: submeter o pensamento e a seguir descartar-se dele.
Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)