“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A crosta dos condicionamentos e a Broca do Ser que somos

Sobre guardar silêncio e o falar


Nós índios sabemos do silêncio. Não o tememos.

De fato, para nós é mais poderoso que as palavras…

Nossos anciãos foram educados nas maneiras do silêncio, e eles nos transmitiram esse conhecimento. Observa, escuta, e logo atua, nos diziam. Essa é a maneira de viver.

Observa os animais para ver como cuidam de suas crias. 

Observa aos anciãos para ver como se comportam.

Observa o homem branco para ver o que quer...

Sempre observa primeiro, com coração e mente quietos, e então aprenderás. 

Quando tenhas observado o suficiente, então poderás atuar. 

Com vocês é o contrário. Vocês aprendem falando. 

Premiam as crianças que falam mais na escola. 

Em suas festas todos tratam de falar. 

No trabalho sempre estão tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez ou cem vezes... e o chamam "resolver um problema". 

Quando estão numa residência e há silêncio, tornam-se nervosos. Têm que encher o espaço com sons. 

Assim, falam impulsivamente, inclusive antes de saber o que vão dizer. 

O povo branco gosta de discutir. Nem sequer permitem que o outro termine a sua frase. Para os índios, isto é muito desrespeitoso e, inclusive, muito estúpido...

Sempre interrompem.

Se começas a falar, eu não vou lhe interromper. O escutarei.  

Quem sabe deixe de lhe escutar se for desagradável o que estejas dizendo. 

Porém, não vou lhe interromper... Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que dissestes, porém, não lhe direi nada se não estiver de acordo, a menos que seja importante... Ao contrário, simplesmente me manterei calado e me afastarei.

Me dissestes o que necessito saber...

Não há nada mais a dizer.

Porém, isso não é o suficiente para a maioria da gente branca. 

A gente deveria pensar em suas palavras como se fossem sementes.

Deveriam plantá-las, e logo lhes permitir cresceeme em silêncio. 

Nossos anciãos nos ensinaram que a terra sempre nos está falando, mas que devemos guardar silêncio para lhe escutar. 

Existem muitas vozes além das nossas. Muitas vozes...

"Guarda tua língua na juventude", disse o velho chefe Wabashaw, “e na maturidade, quem sabe, firmes um pensamento que seja de utilidade a teu povo”.

(Ohiyesa/Dr.Charles A. Estman, Dakota santee, 1902)



Extratos do livro "Nem lobo nem cão. Por caminhamos esquecidos com um índio ancião" de Kent Nerburn.

Das artimanhas do ego


O que ele fez foi transferir o ego, com sua ganância autocentrada, sua complacência arrogante e sua colossal ignorância sobre sua própria origem, das atividades no mundo para as atividades espirituais. O ego fará qualquer coisa possível para preservar sua existência e arquitetará todo recurso possível para assegurar seu futuro. É por isso que, raramente, o indivíduo desperta para o que está acontecendo e, assim, o destino poderá vir a esmagá-lo no chão, destruindo seu sono. Se tal situação ocorrer enquanto ele for comparativamente jovem, quando seus poderes ainda estiverem fortes, e não no fim da vida, quando eles estarão mais débeis e menos eficazes, ele em verdade será afortunado, embora, com certeza, não pensará desta forma nessa idade.

É tanto um ironia como uma tragédia na vida que utilizemos nossa cota estrita e limitada de anos de vida em propósitos que, posteriormente, perceberemos que foram inúteis e em desejos que nos trazem sofrimentos quando realizados. Um moribundo, que vê o filme de sua vida passada lhe ser revisionada através de flashes diante de seus olhos, descobrirá essa ironia e sentirá essa tragédia.

Quando vier a descobrir que vinha seguindo sua própria vontade mesmo quando acreditava que estava seguindo a vontade do eu mais elevado, é que realizará a extensão do poder do ego, o prolongado tempo que será necessário para subjugá-lo e o que terá de sofrer antes que isso seja alcançado. 

Um dia o aspirante se sentirá completamente cansado do ego; verá então quão astuta e insidiosamente ele se imiscuiu em todas as suas atividades; como, mesmo nas atividades supostamente espirituais ou altruístas, esteve apenas trabalhando para o ego. Nessa aversão pelo seu eu terreno, o aspirante irá orar para libertar-se. Verá como esse ego o enganou no passado, como todos os seus anos foram monopolizados pelos desejos dele, como sustentou, alimentou e cuidou dele, mesmo quando pensava estar espiritualizando a si próprio ou servindo a outros. Orará então fervorosamente para ser libertado do ego, procurará avidamente desidentificar-se e desejará ardentemente ser tragado no nada de Deus. 

O impulso que compele o ser humano a buscar a verdade ou a encontrar a Deus vem de algo que é mais elevado do que seu ego. 

O pecado do orgulho espiritual é o do indivíduo se sentir orgulhoso por ser um aspirante espiritual. Ele não percebe que quase sempre é ele que está no centro de sua busca, enquanto que seria SUA relação com Deus que importaria. Ele está sempre apegado ao ego!

Será necessária uma real humildade para que ele reconheça que está errado. Tal sentimento o beneficiará de duas formas: corrigirá sua tendência errada e diluirá a inflação do ego.

Quando puder perdoar a Deus por toda a angústia de suas calamidades passadas e aos outros homens e mulheres pelos erros cometidos, ele chegará à paz interna. Pois é justo isso que seu ego não pode fazer.

Lao Tzu louvava a modéstia no comportamento social e o mínimo de conversa entre os outros. Tais sugestões tinham a intenção de pôr o ego no seu lugar e torná-lo humilde.

Oito minutos de prosa sobre família funcional

Será que conhecemos o real coração de nosso ser?


No contexto de nossa experiência pessoal, sabemos que a consciência é mais do que a mente racional. Possuímos todo um undo interior de reações e respostas; vivenciamos amor e apreciação, e sentimos alegria quando abrimos nosso coração para os outros. Os nossos sentimentos de bem-estar brotam de uma fonte interior que não entendemos completamente. Sabemos da existência da intuição e da inspiração, mas não temos meios de explicá-las; conhecemos a criatividade mas não conseguimos despertá-la por um ato racional ou volitivo. Somos sensíveis a uma sensação de admiração e poder que transcende o nosso senso de eu, e podemos manifestar compaixão pelos nossos semelhantes.

Estas parecem ser respostas humanas universais ao fato de vivermos em um mundo intrinsecamente belo, que se altera de momento para momento, em um desdobrar que é sempre novo. Porém, nossas reações a este mundo vivo e cambiante são interpretadas e julgadas pela parte da nossa mente que nos diz o que desejar, o que rejeitar, e o que irá nos "fazer" felizes, como se não tivéssemos, dentro de nós, meios para "ser" felizes. Aplicamos rótulos que são inteiramente nossos, mas que derivam do nosso condicionamento cultural. Como este aspecto condicionado da mente não consegue penetrar as barreiras do processo da percepção, ele não consegue conhecer o coração do nosso ser, a parte nossa que responde ao verdadeiro e ao real. 

Quando o conhecimento do ser humano não passa além da fisiologia e dos aspectos mais visíveis da consciência, como é que podemos sequer pensar sobre todas as coisas que o homem possui como direito inato, ou pensar em abrir novas possibilidades de crescimento? 

Nossa consciência é receptiva por natureza, e pode se sustentar a partir de influxos de apreciação e alegria. Porém, como um grande lago, ela pode se exaurir quando sua energia corre apenas para fora. Quando a consciência fica continuamente preocupada e pressionada, cheia de pensamentos, desejos e expectativas, não abrimos espaço algum para revitalização. Com o tempo, nossa consciência fica cansada. Os sentidos, inadequadamente sustentados por nossa percepção, tornam-se amortecidos e embotados, exigindo formas cada vez mais intensas de estimulação externa. 

O nosso modo atual de viver e de estar no mundo não consegue impedir que isto aconteça. Por maior que seja o número de fatos que tenhamos sob nosso comando, e por melhor que aprendamos a manipular informações, o uso que fazemos da mente não é suficientemente dinâmico para despertar o poder pleno da nossa consciência. 

Apesar de todo o nosso esforço para satisfazer o desejo natural do homem de uma vida mais saudável e feliz, há sinais de que uma form profunda está crescendo no seio das mais prósperas sociedades. Necessidades e desejos parecem estar aumentando, em vez de diminuir. À medida que ingressamos no futuro, inventando novas aplicações para o nosso conhecimento e produzindo uma torrente infindável de novos produtos, parecemos forçados a andar mais depressa, impelidos por um querer inquieto que não se deixa serenar. Sob certo aspecto, nossa criatividade está sendo canalizada no sentido de conceber e dar forma a novos produtos, para que possamos, então, desejar novas criações. 

Nossas vidas hoje caminham rapidamente, transportando-nos em uma onda de desejos, e permitindo-nos pouco tempo para desfrutar em profundidade qualquer experiência. Enquanto uma festa de produtos e prazeres se estende à nossa frente, temos tempo apenas para provar e passar adiante, seguindo as imagens dos nossos desejos de um lugar para outro. Estamos sempre em movimento; levados por pensamentos e imagens para longe de nosso centro vital, ficamos sem lugar de descanso, sem uma verdadeira morada.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade              

Será que a mente racional, de fato, comanda o nosso ser?


Ao refletir sobre as complexidades da mente, pode ser útil pensarmos em nossa consciência comum como um navio, tendo como capitão a mente racional e valorativa, que mapeia o curso que nossa vida irá seguir. Nossos sentidos e sistema nervoso, bem como os centros cognitivos da mente, possuem todos suas próprias redes que distribuem força para todo o navio. No entanto, eles também trabalham em conjunto, coordenados pela mente. 

O intrincado sistema de alimentação de força do nosso navio-mente inclui incontáveis interações que estimulam a energia da consciência, evocando correntes de força que entram em nossa cognição com grande ímpeto, à medida que pensamentos explodem em imagens. Estas imagens multiplicam-se, refletem-se, fundem-se e dividem-se em mais imagens, que dão continuidade aos mesmos processos. Interagindo umas com as outras e criando de volta inúmeras réplicas, estas imagens cambiantes estruturam-se em padrões definidos. Os padrões de imagens encontram-se também em movimento, dividindo-se em reformando-se em um sem-número de combinações, Toda esta atividade transcorre dentro do pensamento, como se o pensamento em si fosse uma esfera de prismas facetados, cada qual tendo a oportunidade e o brilho de um diamante. 

Pensamentos isolados giram para fora desta esfera, para se disporem em progressão linear, dentro de uma cadeia de pensamentos correlatos. Estes, por sua vez, interagem entre si e se proliferam numa complexa dinâmica interna, que inclui surtos de impressões sensoriais, percepções, lembranças, associações e interpretações, que jorram juntas e respondem umas às outras sem cessar.

Mesmo antes que consigamos vislumbrar um pensamento que vem surgindo, o processo está quase que concluído, despertando sentimentos e emoções que canalizam mais energia para ciclos padronizados. O sistema inteiro está pré-programado para disparar automaticamente, com o início do processo de percepção. 

Nosso navio-mente navega num oceano de emoções, algumas vezes encontrando bom tempo, outras atravessando tempestades. O oceano, em movimento com as correntes alternadas dos desejos, raramente é calmo; guiando o navio através de águas incertas, o capitão toma decisões que determinam o nosso curso. 

Mas será que podemos confiar em nosso capitão para nos guiar com sabedoria? Em um nível, pensamos que conhecemos a nossa mente. Treinamos suas capacidades racionais e as utilizamos e as utilizamos para conferir uma ordem coerente à nossa vida. Podemos testar a sensibilidade dos nossos sentidos e localizar, em nosso cérebro, os centros que a eles correspondem; podemos acompanhar a trajetória do processo da percepção, definir nossas faculdades integrativas e analíticas, e mensurá-las de acordo com uma escala de definições. Mas será que estes métodos conseguem revelar toda a extensão da capacidade humana? 

Quanto mais de perto olhamos para a natureza da mente, menos confiantes ficamos. Consideramos a mente o árbitro do nosso conhecimento. Tudo aquilo que constitui a nossa realidade é percebido pela mente. A mente nos diz o que é conhecível e o que é inconhecível; nossas perguntas surgem dentro da mente e são respondidas pela mente. A mente mede, a mente interpreta, a mente desenvolve diálogos com a mente, a mente avalia e julga, a mente decide. 

Quando investigamos a natureza do nosso mundo interior de sentimentos, emoções, pensamentos, lembranças, associações e conceitos, vemos que a mente é, igualmente, o árbitro da nossa experiência. Porém, se tentamos investigar o campo que está por trás das nossas percepções e pensamentos, a mente se mostra curiosamente silenciosa. Parece que a mente consegue apenas fazer mensurações dentro de padrões de pensamentos e de conceitos; a mente não tem medidas para ela mesma. 

Será que a mente racional comanda verdadeiramente o nosso ser? Como é ela influenciada por emoções, por sentimentos e pelas flutuações na receptibilidade dos nossos sentidos? Qual é a verdadeira natureza do pensamento? Existiriam outros aspectos da nossa consciência que não entendemos por inteiro? Se existissem, como é que ficaríamos sabendo? O que acontece com a nossa consciência quando dormimos, quando passamos horas sem consciência de que estávamos pensando? Será que realmente sabemos quem somos, e, em caso negativo, será que podemos saber para onde estamos indo? 

Podemos nós confiar na capacidade da nossa mente discernir entre o verdadeiro e o aparente, ou distinguir entre valores reais e superficiais? Mesmo quando pensamos que estamos sendo racionais ou razoáveis, será que este é sempre o caso? Nossa posição pode parecer razoável na superfície e, no entanto, estar fundamentada em suposições falsas. Se somos hábeis, conseguimos justificar quase que qualquer posição que tenhamos interesse em assumir. Mesmo inconsequentemente, podemos mudar de uma posição para outra, em diferentes ocasiões, automaticamente ajustando os "fatos" de modo a se encaixarem nos nossos propósitos. Da mesma forma que tendemos a ser enganados por aparências externas, tendemos a aceitar argumentos lógicos como convincentes, sem examinar muito de perto as suposições que estão apoiados. É possível que vejamos a palavra escrita de maneira ainda menos crítica do que a falada. Como os pensamentos que as precederam, as palavras tendem a ser "verossímeis" quando apresentadas "racionalmente" — esquecendo-nos de que tanto as palavras quanto a lógica são produtos da mente humana. 

As percepções são instantaneamente nomeadas e rotuladas pela mente, dando origem ao pensamento e ideias que criam uma determinada versão da realidade. Nosso senso de "realidade" é especialmente acentuado quando estamos envolvidos por uma forte emoção, como por exemplo, a raiva. Aí, afirmamos, negamos, rejeitamos, tudo com a base no que "sabemos" ser o correto. No entanto, daí a instantes, podemos estar nos sentindo ternos e carinhosos. Então, pode ser que a nossa realidade seja diferente; os motivos da nossa raiva talvez não sejam mais contundentes; mais tarde, podemos até negar a nossa raiva passada. Será que uma "realidade" era menos real do que a outra? Que tipo de fio une estas duas "realidades"? Nós poderíamos, provavelmente, estabelecer uma ligação que soasse muito plausível. Será que estas ligações são válidas, ou será que são suposições? Será que são verdadeiras em si mesmas, ou será que são aquilo que gostaríamos de acreditar que fosse verdade? Como é que podemos saber?

A "construção" da nossa realidade pode ser vista mais claramente em circunstâncias em que sentimos necessidade de nos "acobertar". Raramente precisamos mentir — geralmente existem muitas "meias verdades" que servem para nos proteger. Em um certo sentido, nenhuma das nossas respostas precisa estar errada, embora todas possam ser enganosas. Facilmente perdemos de vista as formas sutis pelas quais escondemos a verdade pura de nós mesmos e dos outros. Uma vez que tenhamos explicado nosso comportamento e a outra pessoa tenha aceito nossas razões, nossa mente pode tomá-las como sendo toda a verdade. As palavras conferem solidez às nossas razões; depois que as palavras são pronunciadas, podemos facilmente nos convencer de que são verdadeiras. Não temos proteção alguma contra tais enganos, que nascem da qualidade oscilante de nossa própria mente. É possível que a nossa "realidade" seja mais "flexível" e instável dos que nos damos conta.

Esta qualidade oscilante parece permear todas as nossas experiências. Por exemplo, valorizamos nosso direito de "mudar de ideia", mas será que esta "mudança" toma por base conhecimentos novos que investigamos a fundo? Ou será que ela reflete apenas uma alteração de interesse ou de motivação? Até que ponto é estável a nossa ligação com as coisas que possuem valor e valem a pena buscar? Como é que podemos confiar em nossas ideias, quando elas podem "mudar", ser mudadas ou influenciadas tão facilmente?

Não dispondo de um maior conhecimento sobre o funcionamento da mente, alimentamos nossa consciência com uma dieta mista de coisas verdadeiras e falsas, reais e artificiais, a começar dos pensamentos que surgem em nossa mente. Quando acreditamos na realidade dos pensamentos e imagens criados pelo impulso arrebatador da cognição, fundimos nossa consciência a ilusões, e plantamos as sementes do auto-engano. A cada vez que surgem percepções mais pensamentos são criados, repetindo-se o processo de fusão da nossa consciência a ilusões. 

Nossa consciência fica sintonizada neste processo contínuo; as sementes anteriormente plantadas deitam raízes e se desenvolvem. A qualidade de pureza original da percepção diminui; uma qualidade de inquietação permeia todas as nossas experiências, condicionando nossa visão de nós mesmos e do nosso meio. Ao buscar contato com o real, encontramos o superficial, o provisório e o artificial.

Dado que a nossa consciência tem uma fixação tão forte no polo objetivo das nossas experiências, fica muito difícil olharmos para dentro e nos estudarmos de perto. Apesar de todos os nossos conhecimentos a respeito do mundo observável, e da nossa engenhosidade em manipular o nosso meio ambiente, pouco sabemos sobre a nossa própria natureza.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade        

A formação da limitada e separatista mente dual


Em algum ponto no passado, os seres humanos começaram a reconhecer contrastes de luz e sombra como formas isoladas às quais podiam dar nomes. Contrastando, identificando e nomeando formas, eles criaram um mundo de polaridades interdependentes (dualidade): grande e pequeno, duro e macio, macho e fêmea. Embora todas estas distinções, bem como os rótulos aplicados a elas, foram criação da mente humana e variassem em caráter de cultura para cultura, com o tempo adquiriram maior substância e passaram a ser vistas como efetivamente sólidas e reais.  

A partir desta única semente, com raiz no processo da percepção, os seres humanos criaram o "eu" e o seu mundo. Eles se transformaram em espectadores que vivenciavam seu meio comum como um mundo objetivo. Ao olhar para dentro, podiam refletir sobre os contrastes que percebiam em seus próprios estados interiores, e dar nomes a sentimentos e emoções. Assim, foi-lhes possível distinguir entre gostos e aversões, prazer e dor; podiam recordar e refletir sobre suas sensações. Empregando nomes, os seres humanos podiam avaliar sua experiência e expressar preferências e opiniões. 

Gradativamente, os nomes foram adquirindo maior significado, através de associações com outros nomes; conceitos se tornaram mais complexos. Mais tarde, criou-se uma base que viria possibilitar pensamentos mais abstratos e sofisticados. Derivados desta longa cadeia de desenvolvimentos, moldados pela linguagem, pela cultura e pelo meio ambiente, nossos atuais padrões mentais evoluíram ao longo de muitos milhares de anos. 

Durante toda a história da humanidade, a parte da nossa consciência que se liga a objetos recebeu contínuos reforços. Canais profundos foram entalhados em nossa mente, direcionando nossa energia mental para o plano dos objetos, e distanciando-a da dimensão aberta da consciência. A cada pensamento ou sensação, nossa mente agora ágil com a velocidade de uma corrente elétrica para absorver o mundo aparentemente objetivo. Desde o nascimento, somos condicionados a estes padrões de percepção, pensamento e reação

Automaticamente, empregamos estes padrões para interpretar objetos e situações, e responder a eles. Esta forma única de reagir é tudo o que conhecemos: como um trem segue seus trilhos, parecemos predestinados a seguir o caminho demarcado pelo curso da nossa evolução. Embora possamos estar convencidos de que estamos pensando e agindo de acordo com nossas próprias escolhas, na verdade vivemos condicionados por um sentido de separação e pelo jogo de atração e repulsão das polaridades. Estamos fadados a avaliar e reagir a todas as coisas em termos de agradável e desagradável, desejável e não-desejável, bom e ruim. 

Comprometidos com uma visão baseada na dualidade, e confinados às estruturas conceituais que emergem a partir desta visão, não conseguimos conceber a possibilidade de uma estrutura mais aberta para os nossos pensamentos e ações. Quase nada existe em nosso modo de vida que nos leve a qualquer indagação sobre os nossos padrões de percepção e pensamento, ou a qualquer reflexão sobre as inclinações mais profundas da nossa maneira de ver a nós mesmos e ao nosso mundo. 

Ao mesmo tempo, a força atrativa do mundo objetivo tornou-se mais intensa do que em qualquer outra época. As sociedades modernas deram luz a inúmeras tecnologias novas, colocando em movimento um tipo moderno de evolução, alimentado pela inventividade da mente racional. Embora nossa evolução científica e tecnológica seja um desenvolvimento recente na história do planeta, sua força fez crescer de forma significativa o impulso natural das mudanças. 

[...] À medida que o mundo se torna mais caótico e confuso, será que estaremos sendo mais e mais atraídos pela previsibilidade racional do computador? Será que alguns de nós poderão chegar até a se identificar mais com a inteligência computadorizada do que com seus semelhantes? (o aparelho celular como exemplo). Será que com o tempo vamos começar a avaliar nossa própria inteligência por comparação aos computadores?
[...] As respostas a estas perguntas precisam estar fundadas em um conhecimento do ser humano que seja o mais completo possível. Antes que sejamos arrastados na direção de um futuro que talvez não se apresente da maneira como desejamos, precisamos olhar de perto para a nossa situação atual, e começar um processo de exame da base mesma do nosso conhecimento — nossa consciência humana e a natureza da nossa mente. 

Os conceitos e a "linha de enredo" do pensamento

Se refletirmos sobre a natureza dos conceitos e sobre a maneira não-crítica como aceitamos a realidade que eles criam, poderemos ter a impressão de estar presos no meio de um elaborado programa de computador que funciona sem a nossa decisão consciente. E, no entanto, tendemos a achar que comandamos o nosso pensamento. Somos nós que estamos operando o programa, ou será que é ele que está nos operando? Seríamos capazes de nos separar do programa e permitir que os nossos pensamentos e ações fossem informados por um conhecimento mais abrangente e confiável, intrínseco ao nosso próprio ser?

À luz de uma compreensão mais ampla, será que poderíamos retreinar a nossa mente para uma forma mais satisfatória de visão? Seria possível uma visão que conseguisse penetrar as nossas estruturas e padrões conceituais? Haveria um meio de abrirmos os nossos conceitos e revitalizá-los com significados que nos permitissem comunicar nossas ideias de forma mais completa? Poderíamos encontrar conceitos que fossem mais próximos da qualidade imediata de nossa experiência, e mais sintonizados com os nossos insights e sentimentos?

Talvez haja meios de vislumbrarmos um lado mais sutil da nossa consciência que poderia nos permitir examinar, com maior clareza, os padrões fixos da mente. Quando relaxamos o corpo, podemos diminuir o ritmo dos pensamentos e das imagens, e observar mais diretamente o processo dos pensamentos em si. 

Este relaxamento não precisa de qualquer técnica especial. É simplesmente uma questão de observarmos os pensamentos que vêm, sem comentários nem interpretações. Quando experimentamos esta maneira de observar o funcionamento da mente, o que vemos talvez não seja bem o que esperávamos: pode parecer não muito importante. Porém, com o tempo, é possível que comecemos a observar com uma qualidade de concentração relaxada e não-forçada, a qual, em si mesma, pode constituir uma experiência nova. Esta forma de olhar para dentro pode levar a importantes insights acerca da natureza dos pensamentos, bem como uma nova consciência das ligações que existem entre os pensamentos e os sentimentos.

Os pensamentos, quando deixados por si só, tendem a caminhar até um ponto em que pausam, quase como se tivessem convergido para uma parede vazia. Pode ser que já tenhamos vivenciado esta pausa, num momento em que seguíamos rigorosamente um determinado encadeamento de pensamentos, ou que nos percebemos "entalados" num problema. A qualquer momento, a mente pode ficar silenciosa por um instante. Se notamos esta pausa, geralmente consideramos que chegamos ao fim de uma cadeia de pensamentos. Se nenhum pensamento novo surge para continuá-la, voltamos nossa atenção para um outro assunto. 

No entanto, este aparente "beco sem saída", onde os pensamentos caminham para um único ponto e se desfazem, pode também representar a porta para um novo conhecimento. Focalizando-nos neste ponto com uma concentração equilibrada, podemos ver possibilidades de um modo de conhecer que se encontra além de nossos padrão habitual de pensamento.

Se permanecermos relaxados e atentos, poderemos perceber uma sensação de luminosidade, como se através do silêncio brilhasse uma luz. O fluxo normal dos pensamentos e o hábito de fixarmos a atenção no conteúdo dos pensamentos, dão-nos poucas oportunidades de perceber a presença de luz em nossas imagens mentais. Se afrouxarmos nosso apego ao conteúdo dos pensamentos e ficarmos atentos aos pensamentos em si, poderemos percebê-los surgindo de dentro desta luminosidade, logo antes de tomarem a forma de palavras.

O processo acontece tão rápido que imediatamente identificamos os pensamentos com palavras, ou talvez com blocos inteiros de palavras que dão início a um diálogo interno. À proporção que mais interpretações vão se seguindo, e que conceitos vão se combinando e evocando fortes cores emocionais, podemos nos dar conta de que os nossos sentimentos estão onerados por uma sensação de peso que parece escura e séria. Que pensamentos contribuem para esta sensação pesada? O que aconteceu com as qualidades de abertura e luz com as quais o processo havia se iniciado?

Ao fazermos estas perguntas, talvez o fluxo dos pensamentos faça novamente uma pausa, por um breve momento. Porém, quase que imediatamente, um novo fluxo de pensamentos se põe em movimento, durando um período longo ou talvez apenas poucos instantes, antes que uma nova sequência se inicie. De onde vêm estas fileiras de pensamentos? O que acontece quando tomamos posse dos nossos pensamentos e conscientemente os guiamos em uma direção específica?

Talvez pareça não haver pausas no fluxo dos pensamentos: somos envolvidos por uma sequência que tem um tema ou uma "linha de enredo", quando, de repente, o conteúdo muda e nos vemos no meio de uma outra história. Como fomos parar de uma história na outra? Será que cada uma delas tem um começo e um fim, ou será que são contínuas? Elas se sobrepõem, influenciado-se umas às outras?

Ao questionarmos os pensamentos desta maneira, conseguimos afrouxar nosso apego e fixação ao conteúdo dos pensamentos, e ganhar novos insights acerca dos nossos processos mentais. Cada pensamento constitui uma oportunidade para observarmos a nossa mente e aprendermos com ela. Com maior experiência, podemos começar a ver como os pensamentos podem, na verdade, criar confusão e prolongar estados mentais indesejáveis. Com o tempo, ficará mais óbvio o modo como um pensamento gera outro, e como a dinâmica dos pensamentos tende a se auto-propelir, alimentando e realimentando ciclos de impulsos que correm pela mente.

Da mesma forma que um tecelão cria uma tapeçaria, definindo a trama básica do tecido, e depois ornamentando-a com um desenho após outro, nossa mente parece ter pensamentos e imagens em réplicas intermináveis. Quando pegamos o começo de um pensamento, podemos observar como ele se inicia com um padrão simples, aberto e espaçoso, que vai se tornando mais denso, à medida que imagens se entrecruzam para formar padrões cada vez mais complexos.

Ao estimular lembranças e associações que evocam um universo de sentimentos e emoções, os pensamentos perdem sua abertura, enquanto vão se proliferando e se entrelaçando. Concomitantemente, podemos perceber nossas faculdades críticas em ação, rotulando nossa experiência como felicidade, depressão, êxtase, tédio, raiva, como algo nobre ou condenável. 

À medida que cada experiência é carimbada e testemunhada pela mente, nossos pensamentos a seu respeito tornam-se mais conscientes e "reais"; então, identificamo-nos com a experiência e reagimos a ela de acordo com o nosso condicionamento. Dentre todas as possibilidades de enxergarmos uma determinada experiência, vamos, quem sabe, optar por chamá-la de "prazer". A seguir, projetamos a experiência fora de nós, e decidimos que queremos ter aquela experiência. Ao buscarmos as coisas que associamos com o prazer, encontramos a nossa própria imagem do que o,prazer "deve ser". Ao tentar agarrar um objeto, esperando sentir prazer e desejando prolongá-lo, experimentamos prazer por apenas um curto tempo. Quase que imediatamente, sentimos que ele escorrega em nossa mão.

Observar os movimento de ir e vir dos pensamentos nos permite ver como a mente apõe rótulos às percepções, sentimentos e emoções, e como ela então produz comentários e mais comentários sobre o que estamos vivendo. Ao ver estes padrões de pensamento sendo tecidos diante de nossos olhos, podemos nos perguntar se eles, na realidade, formam uma trama sólida. Talvez seja possível nos vermos — não só a nossa personalidade, aparência e atividades, mas a própria raiz do nosso ser —  de modo diferente. Uma visão assim nova e aberta poderia aliviar a mente das tendências que congelam a experiência e nos deixam vulneráveis a confusões. Assim que descobrimos que é possível soltar a garra dos conceitos que nos enredam em dores emocionais, teremos dado os primeiros passos em direção a uma compreensão nova, capaz de transformar a qualidade de todas as nossas experiências.

Com um maior discernimento acerca de quem somos e do que somos, por que percebemos, sentimos, compreendemos e interpretamos da maneira como fazemos, seria possível considerar tudo o que sabemos de uma perspectiva inteiramente nova. Poderíamos, então, analisar nossas pressuposições mais a fundo, decidindo por nós mesmos o que é possível e  que não é possível mudar, que forma de pensar são saudáveis e úteis, e quais delas nos envolvem em sofrimentos desnecessários. À medida que continuássemos a questionar, nossos pensamentos poderiam se tornar mais vitais e mais claros, abrindo novas possibilidades de autocompreensão e de maior controle sobre a direção da nossa vida.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade

Assumindo a Natureza Outsider de ser

É possível ver tudo como que pela primeira vez?

Será que conseguimos sequer pensar em alguma coisa para a qual não temos um conceito? Se não tivéssemos um conceito de amor, será que poderíamos ter expectativas sobre como é o amor, ficar decepcionados quando nossas experiências não correspondessem a estas expectativas, ou então fantasiar sobre as pessoas que amamos? Se não tivéssemos noção alguma de amor, poderíamos ter ódio? E como seria se não tivéssemos nenhum conceito de "eu", ou da nossa pessoa como, de alguma forma, separada dos outros? Então, o que iríamos amar ou odiar? Será que poderíamos ficar apegados a pessoas ou coisas, sentir insegurança ou temer rejeição? Se a sociedade não fosse capaz de nos apresentar ideais que não se casassem com a realidade da nossa situação, será que iríamos nos sentir culpados por não nos pormos à altura desses ideais? Que diferença poderia haver na qualidade da nossa vida se não tivéssemos nenhum "deveria" ou "gostaria" em nosso idioma? 

Se olharmos com cuidado para a nossa experiência, poderemos ver que muitas coisas que parecem substanciais e reais são, na verdade, noções formadas por nossa mente. Ao operá-las em nosso pensamento e empregá-las em nosso cotidiano, tendemos a esquecer que são formulações mentais, e nos relacionamos com elas como se fossem reais. Assim, por exemplo, a felicidade não é inerente aos objetos que desejamos, mas nasce da maneira como interpretamos uma certa qualidade de entusiasmo. Por mais que valorizemos a felicidade, ela é também um conceito, um nome que aprendemos a aplicar a certos tipos de situações ou sentimentos.

Sem a nossa ideia de felicidade, e sem as muitas noções ligadas a ela sobre o que nos deixa felizes, será que iríamos saber se éramos felizes? Será que poderíamos ser infelizes? Será que teríamos os mesmos sentimentos se nos faltasse uma palavra para expressá-los? Como é que poderíamos ficar pensando ser éramos felizes, ou então nos sentir carentes se não o fôssemos?

É quase impossível imaginar como seria a vida sem estes conceitos familiares. Passamos a confiar em nossas atuais estruturas e padrões conceituais, tomando por um reflexo razoavelmente seguro da verdade, e não vemos nenhuma razão para questioná-los. Mas será que as nossas estruturas conceituais aumentam as nossas opções de estar e atuar no mundo, ou seriam elas limitadas demais para atender às nossas necessidades? Será que os nossos conceitos atuais são capazes de acomodar todo o conhecimento que nos é possível adquirir, ou será que eles se tornaram demasiadamente rígidos para sustentar uma perspectiva mais abrangente com relação ao conhecimento?

Quando dependemos de conceitos de uma maneira automática — seja ao pensar, falar ou escrever — podemos, na realidade, estar diminuindo nossa capacidade de comunicação. Todos nós vivemos em um mundo mental próprio; nossas experiências pessoais condicionaram as conotações específicas dos conceitos que utilizamos. Embora nosso mundo mental coincida em parte com os das outras pessoas, eles nunca são completamente idênticos. Ao dependermos de um conhecimento que seja filtrado através de conceitos, não conseguimos comunicar plenamente os significados que tencionamos transmitir; ficamos sutilmente isolados uns dos outros. Embora todos nós empreguemos as mesmas palavras diariamente, há um hiato em nossa comunicação que não pode ser fechado por completo. 

Quando traduzimos os conceitos de uma cultura para os de outra, o hiato na comunicação se amplia. O significado de cada conceito pode parecer o mesmo, mas as conotações associadas a eles podem variar enormemente. Hoje em dia, à medida que o inglês e outros idiomas ocidentais estão cada vez mais usados nas comunicações internacionais, os povos do mundo parecem estar caminhando em direção a um corpo comum de conceitos. No entanto, o que é compartilhado talvez seja apenas algo superficial; as mesmas palavras podem ter significados diferentes dentro de culturas diferentes. Mesmo a estrutura de diferentes idiomas pode influenciar muito a capacidade de expressarmos importantes nuances de significado. Assim, há um grande potencial para confusões e mal-entendidos. Podemos, sem saber, perder conhecimentos valiosos no processo de tradução. É também possível que os povos do mundo venham a se comportar como parceiros dentro de um mau relacionamento, que trocam palavras e procuram se reassegurar, mas que não dispõem de uma base para uma comunicação real. 

Seriam os nossos padrões conceituais necessariamente a melhor base para expandirmos a nossa compreensão de nós mesmos e do nosso mundo? Já exploramos as pressuposições que estão por baixo dos nossos conceitos? Se as condições do nosso passado tivessem sido diferentes, é possível que outros padrões mentais tivessem se desenvolvido com igual facilidade; aí, estaríamos vivendo em outro panorama mental, tão confiantes em nosso senso de realidade quanto estamos hoje. O que agora consideramos como nossas verdades inquestionáveis e auto-evidentes poderia nem sequer existir; não teríamos como pensar nelas, ansiar por elas, sofrer com elas, lutar por elas.     

No endurecimento dos conceitos, a morte do criativo


Os conceitos, a princípio, são fluídos e flexíveis, mas vão-se tornando mais fixos, à medida que amadurecemos. Quando aprendemos pela primeira vez um conceito — como, por exemplo, "espaço" ou "consciência" — somos muito receptivos às nuances que o cercam; podemos brincar com ele por um período, questioná-lo e explorar suas possibilidades. Assim que sentimos que o "conhecemos", tendemos a perder o interesse. Nossa disposição para reexaminar, descartar ou expandir a abrangência do conceito diminui; a palavra já não está mais viva, sujeita a modificações à luz de novos conhecimentos, mas sim, congelada como um dado ou informação que possuímos. Lançamos mão dela automaticamente em nosso processo mental, que passa a ser mais uma questão de rememorar do que uma atividade criativa

Ao recorrer exclusivamente às nossas estruturas e padrões conceituais, vamos lentamente contraindo a abertura natural da mente. Fica difícil percebermos as nuances sutis do momento, que se refaz constantemente. No ato da percepção, nossa mente apreende e interpreta as informações sensoriais, e nos devolve conceitos pré-fabricados que possuem associações e cores emocionais específicas, baseadas em nossa experiência passada. Estas associações emergem simultaneamente com o conceito, projetando uma situação passada sobre o presente, e condicionando a forma como enxergamos uma dada experiência. Não respondemos necessariamente à experiência imediata mas, sim, à experiência tal como filtrada através dos nossos conceitos, lembranças, imagens e associações.

Ao identificar uma situação no presente como semelhante a uma outra no passado, tendemos a reagir automaticamente, reduzindo nossa capacidade de avaliar a situação presente de forma espontânea. Vinculados deste modo ao passado, não conseguimos perceber a ampla gama de alternativas que estão disponíveis no presente, diminuindo assim nossas opções de ação. Esta tendência obscurece nossa visão; ao perdermos contato com a dinâmica aberta do momento vivo, passamos a viver dentro de um mundo amortecido. 

Quando os conceitos se tornam assim fixos em nossa consciência, não somos capazes de perceber nada de novo. Impossibilitados de notar as sutilezas de cada situação, à medida que ela vai se modificando, chegamos a repetir os mesmos gestos e os mesmos comentários em situações que parecem iguais. Quando nossa mente se acostuma a estas reações automáticas, ela se torna preguiçosa e desatenta, especialmente em ambientes que lhe são familiares. Nossos pontos de vista fixos nos dão uma sensação de segurança. Sentimos que "conhecemos" os objetos do nosso mundo; sentimos que "conhecemos" as pessoas e os demais seres vivos. Esperamos que as coisas permaneçam as mesmas e que preencham as nossas expectativas do que achamos que elas devam ser e fazer. 

Quanto mais reforçamos essa passividade e recorremos a conceitos amortecidos, mais a nossa mente resiste a qualquer tentativa de reexaminar aquilo que sabemos. À medida que tentamos, à força, encaixar nossa experiência em moldes rígidos, nosso mundo interior vai-se tornando cada vez menor e mais limitado, em vez de enriquecer-se com as nossas experiências do dia a dia. Confinados a conceitos que limitam os sentimentos e as compreensões que podemos expressar conseguimos apenas reeditar os padrões que prendemos, tal como os nossos pais, nossos avós, os pais dos nossos avós, etc. É possível que todo o conhecimento que adquirimos com a nossa educação formal e com as nossas experiências, represente apenas associações cada vez mais complexas de conceitos que pouco significado têm para uma vida humana. Tais conceitos são muito congelados, muito particularizados, muito distantes do mundo das coisas vivas para expressar nossos níveis mais profundos de experiência. 

Até que questionemos, analisemos e reavaliemos os conceitos que utilizamos para nos expressar, ficamos restritos a apenas um conjunto de interpretações sobre as nossas experiências. Quer elas se ajustem à realidade do que está acontecendo, quer nos tragam sofrimento desnecessário, não nos permitimos outra escolha a não ser viver neste mundo limitado. Mesmo que o nosso mundo mental seja solitário e que tenhamos pouco prazer com as nossas experiências, os nossos pensamentos nos são familiares e nos proporcionam uma ilusão de segurança e controle, que nos conserva presos a eles. É possível que não vejamos nenhuma alternativa para este modo de entender a nós mesmos e ao nosso mundo. Porém, quando até mesmo pensamentos como este dependem de conceitos que nunca examinamos em profundidade, como podemos saber que não existem outra possibilidades? 

Os conceitos e a limitação "do que É"

Será que nossos pensamentos e ações poderiam ser orientados por um conhecimento mais abrangente e confiável, intrínseco ao nosso próprio ser?

Todos nós vivemos dentro de um mundo interior de imagens, pensamentos e lembranças, que se alteram continuamente, evocando uma rica trama de sentimentos, emoções e humores. Por vezes surgem imagens vívidas em nossa mente, que estimulam uma cadeia de pensamentos; outras vezes, podemos sentir a nossa mente procurando focar uma ideia. Inicialmente, talvez percebamos simplesmente que estamos vendo imagens ou pensando pensamentos, mas logo o pensamento toma mais corpo; percebemos as palavras concretas em nossa mente, à medida que as pensamos ou as expressamos em nossa fala ou por escrito.

As palavras que expressam imagens e pensamentos são conceitos agrupados em cadeias que esclarecem as suas inter-relações. Os conceitos são as unidades a partir das quais a nossa língua é construída, e os seus significados constituem a substância do nosso conhecimento. Inúmeros conceitos que empregamos hoje tiveram sua origem muito tempo atrás.  Ao longo de toda a história da humanidade, os conceitos deram nascimento uns aos outros, ramificando-se e proliferando-se como as trepadeiras na selva.

Os conceitos podem ser simples elementos identificadores, como “árvore” e “casa”, ou noções mais abstratas, como “liberdade”, “amor” ou “justiça”. Eles são construídos por meio de um processo de distinções, segundo um padrão lógico que contrasta “isto” com “não-isto”. O “verde” distingue-se do “não-verde”; a “árvore” distingue-se de tudo que seja “não-árvore”. Estas distinções dependem todas umas das outras — “alto” ganha seu significado em comparação a “baixo”, “grande” tem sentido em comparação a “pequeno”.

À medida que continuamos a nos deparar com novos objetos, podemos rotulá-los, distinguindo-os daquilo que já conhecemos... Estas distinções simples servem de base para conceitos mais complexos, que se valem dos significados de muitos outros conceitos. “Liberdade” tem sentido porque podemos definir o que significa ser “não-livre”. Podemos fazer uma ideia de “amor” fazendo um contraste entre tudo o que associamos a amor e aquilo que seja “não-amor”.

Em algum momento de nossa infância, nós nos vimos pensando e falando, usando conceitos e reagindo a eles. De nossos pais, amigos e demais influências do nosso complexo condicionamento social, absorvemos nossa estrutura conceitual básica. Quando éramos crianças, ficávamos fascinados com formas que se moviam e com padrões de luz e sombra; aprendemos a reconhecer nossos pais e a distinguir objetos. Já fazíamos associações entre as coisas que víamos, ouvíamos, cheirávamos, saboreávamos e sentíamos através do nosso corpo. Podemos ter desenvolvido uma noção de que as nossas associações continham significado, mas não dispúnhamos de palavras para expressá-lo.

Ouvindo as palavras ditas à nossa volta, aprendemos a dar nome às formas e qualidades do nosso mundo. Este processo foi desenvolvido por meio de tentativas e erros; as palavras que a princípio ligávamos aos objetos que nos rodeavam nem sempre correspondiam às palavras empregadas pelos outros... Corrigidos e recorrigidos muitas vezes, moldamos nossas primeiras impressões de modo a se encaixarem nos conceitos dos adultos, e começamos a associar formas e sons “corretamente”.

Com o tempo, não precisávamos mais ouvir os sons como sons — eles tocavam nossos conceitos de imediato, de modo que “ouvimos significados” diretamente. Os conceitos se tornaram um modo conveniente de nos referirmos a objetos conhecidos, sem ter que descrever precisamente o que estávamos vendo ou exatamente o que queríamos dizer.

Concomitantemente, fomos ensinados de que forma reagir a estes conceitos: o que podíamos e não podíamos tocar, o que valorizar, o que querer e o que rejeitar; aprendemos até com o que ficar alegre e com o que ficar triste.  De acordo com os costumes da nossa cultura, foi-nos ensinado o modo apropriado de categorizar, pensar e usar todas as coisas em nossa experiência.

Gradativamente, muitas associações começaram a se acumular em torno dos conceitos. Elas eram capazes de tocar lembranças e evocar reações complexas. Podíamos, ao falar a palavra “casa”, despertar uma infinidade de sentimentos e associações que conferiam a este conceito um significado especial para nós. Desta forma, talvez, muitas palavras adquiriram um profundo significado pessoal, do mesmo modo que certas cenas, cheiros, sons e sensações algumas vezes pareciam ressoar com significados intensos e inexplicáveis.

No entanto, tudo o que tinha significado pessoal para nós, precisava ser expresso dentro de conceitos disponíveis em nossa língua. Tínhamos que aceitar os significados que nos eram dados, e deixar não-expressos os significados e sentimentos que não tínhamos condições de comunicar. Os conceitos que aprendíamos refletiam sobre nós, e assim começamos a pensar com as palavras da nossa língua. As palavras que agora se formam tão espontaneamente em nossa mente são, todas elas, conceitos que nos foram transmitidos pelos outros. Este conceitos condicionam, hoje, a maneira como vemos a nós mesmos e ao nosso mundo, como pensamos e como respondemos àquilo que acontece à nossa volta. Eles criam a nossa realidade do cotidiano, e nós os utilizamos para interpretar todas as nossas experiências.  

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade

Sobre as oscilações emocionais no processo

Sobre a dependência de aprovação

A limitação do pensamento

A humanidade está descobrindo que não pode resolver seus problemas antigos de forma habitual. A maneira lógica de fazer isso será a de tentar um novo caminho. Numa era de intelecto e religião materialistas, como a nossa, esse novo caminho consistirá em se voltar para um intelecto e religião espiritualizados. O primeiro passo a ser dado pelo intelecto será o da humildade e o primeiro passo do sentimento religioso o da obediência. O intelecto deverá se recolher autoconstrito através da oração constante ao Poder Superior; o sentimento religioso deverá obedecer, com sinceridade e honestidade, às advertências dadas pelos grandes profetas. O intelecto não mais deverá continuar a enganar a si mesmo e o sentimento religioso não mais a enganar a Deus.

O intelecto deverá ficar confuso e exausto pela sua própria atividade de busca do Eu Superior, mesmo desesperado por reconhecer que não possui nenhuma possível chance de chegar a conhecer a verdade através de seus próprios procedimentos autodestrutivos; que está se movendo em círculos, dando mais e mais voltas, e que, por fim, terá de abandonar todos os seus esforços. Nesse ponto, uma grande oportunidade espera o aspirante; mas é aqui que também muitos saem pela tangente e perdem a oportunidade. Ou consideram a busca como fútil e ilusória, perdendo qualquer interesse por ela, ou se abrigam em uma organização hierárquica religiosa que impõe dogmas e exige submissão completa à sua regra e autoridade.

A não ser que o pensamento intelectual compreenda suas próprias limitações e saiba quando parar suas atividades, ele não levará o ser humano à verdade e o enganará. Entretanto, quando estiver predisposto a negar a si mesmo, no momento certo para isso, permitirá assim que surja o pensamento intuitivo, o qual o levará ainda mais próximo ao seu objetivo.

Um mesmo indivíduo, em diferentes fases de sua vida, poderá sustentar pontos de vista diferentes. Será irrealista exigir que todos devam ser consistentes em relação a isso por todo o curso de suas vidas.

Kant viu como a mente forma suas ideias sob condições definidas e limitadas, como ela não pode evitar fazer isso e como essas ideias são meramente o melhor que a mente poderá produzir sob tais condições – de forma alguma as mais verdadeiras.

Quão poucos estão, verdadeira e sinceramente, buscando estabelecer a verdade; quão muitos, por outro lado, querem chegar a vitórias. Eles poderão assinalar os erros nas conclusões, opiniões e crenças dos outros, mas estão cegos aos próprios erros.

Limitar suas ideias àquelas existentes ao meio ambiente, no qual aconteceu de ele ter nascido, é uma falha comum.

Muitos aspirantes não chegam a realizar que se movem a maior parte do tempo, no domínio de suas próprias ideias pessoais e não necessariamente no domínio da verdade integral.

A situação pode ser assim sumarizada: se a atividade do pensamento estiver direcionada para objetos externos e inspirada pelo desejo de obter ou possuir eles, ela prenderá o indivíduo à sua ignorância espiritual. Se, entretanto, estiver direcionada a Deus, ou à sua alma divina, e inspirada pelo desejo de alcançar a Ele ou a ela, então ela o conduzirá a intuições espirituais.

Certifique se de realmente estar em busca da Verdade

O mundo precisa que te transformes

Quando somos colocados face a face com as consequências de nossas más ações, gostaríamos de evitar o sofrimento ou, pelo menos, de diminuí-lo. É impossível dizer com alguma precisão até onde isso pode ser feito, pois depende em parte da Graça Divina, mas em parte também depende de nós mesmos. Podemos ajudar a modificar e ás vezes até eliminar essas más consequências, se colocamos em movimento certas influências opostas. Primeiro, temos de levar profundamente a sério as lições das nossas más ações. Não devemos culpar ninguém e nada fora de nós mesmos pelas nossas fraquezas morais e pelas nossas enfermidades mentais, e não nos devemos conceder a chance de enganar a nós mesmos. Temos de sentir todas as aflições do remorso e pensamentos constantes de arrependimento. Segundo, se pretendemos ser perdoados, temos de perdoar aos outros os pecados que cometeram contra nós. Isso quer dizer que precisamos não ter maus sentimentos contra ninguém, seja quem for ou a respeito do que for. Terceiro, temos de constantemente pensar e agir ao longo da linha que indica uma direção oposta à nossa má ação. Quarto, devemos fazer a promessa, com um voto sagrado, de TENTAR nunca mais praticar essa má ação. Se realmente tencionamos cumprir essa promessa, nós a traremos com frequência à mente e à memória, e assim a renovaremos e a manteremos nova e viva. Tanto o pensamento, na proposição anterior, quanto a promessa, nesta proposição, têm de ser fortes tanto quanto possível. Quinto, se necessário for, e se quisermos fazê-lo, podemos orar ao Eu Superior pela ajuda da sua Graça e perdão nesse assunto; mas não devemos recorrer a essa oração normalmente. Ela só deve ser feita sob a instigação de uma profunda inspiração interior e sob a pressão de uma difícil situação exterior.

Em relação ao mundo exterior, não podemos satisfazer a esperança vã de guiar toda a humanidade para fora do caos em que agora se encontra, pois ela se recusará a seguir a luz que nos está guiando. Iludida pela sua natureza inferior, cega pelas suas tradições ocas e convenções hipócritas, indiferente à ainda pequena voz silenciosa da verdade apenas porque a voz da inverdade clama de modo mais impressivo através dos milhares de autofalantes investidos de interesses escusos, a raça humana continuará a debater-se de maneira confusa e a sofrer desnecessariamente. Mas aqui e ali há indivíduos que, apesar disso, saudarão a luz que trazemos. Por causa deles, temos de manter a tocha no alto, pacientemente.

ORAÇÃO AO MUNDO

Nesta época de confusão e ansiedade, de luta e preocupação, é nosso dever sagrado lembrarmos a nossa dependência de Ti, ó real Governante do mundo!

Compreendemos que a escuridão do mundo de hoje existe porque muitos esqueceram a dependência de Ti.

Aqueles cujas posições de poder ou influência, os colocaram nos conselhos das nações precisam, em sua séria responsabilidade, da ajuda da comunhão Contigo e do benefício de Tua orientação como nunca antes, para que não se desviem, caindo no erro e na fraqueza.

Por isso oraremos diariamente por eles e por nós, em minutos de devoção pessoal ou de meditação silenciosa, para que todos possam recobrar o sentimento de Tua presença. Confessaremos frequentemente nossas imperfeições e faltas, mas prometemos lutar para melhorar e enobrecer nossas vidas. Esforçar-nos-emos para deitar fora todo o pensamento mau e crença materialista. 

Nossa necessidade de Tua misericórdia e graça é enorme. Mostra-nos o modo de consegui-las, ó Pai Infinito de todos os seres, Pai cujo amor é o nosso último recurso.

Até certo ponto, você é o que você pensa

Nossas vidas externas, até certo ponto, refletem o estado de nossas mentes. Muitas das provas que temos de passar se dissolveriam se encarássemos a nós mesmos e removêssemos as características negativas existentes em nossas mentes.

A habilidade em perseverar durante um período negro em nossas vidas, quando as frustrações e humilhações da privação são insuportáveis, poderá transformar a fortuna de toda a nossa vida para melhor.

Nenhum animal, exceto o homem, vive em constante medo, pois nenhum deles vive tanto no passado, presente e futuro como o faz o ser humano. 

Tão logo sucumbimos aos sentimentos de desalento, desesperança e impotência estamos condenados. Tão logo triunfamos sobre eles estamos salvos.

Tenha cuidado com os seus pensamentos, porque quando mantidos por longo tempo e sentidos fortemente podem refletir-se em situações externas ou personificar-se em outros seres humanos que entram em sua vida. Mas eles por si mesmos e desprovidos de atos físicos não podem formar o padrão completo da sua vida; somente o adepto iluminado pode fazer isso. Pois outros fatores também estão contribuindo, tal como a vontade de Deus – isto é, a necessidade evolutiva, ou a Ideia do Mundo.

Se você INTEIRAMENTE vive em amor e harmonia consigo mesmo e com todos os outros, se persistentemente rejeita todas as ideias contrárias e aparências negativas, então esse amor e essa harmonia têm de se manifestar EXTERNAMENTE no seu ambiente. 

Os estados da mente não são somente resultados das condições físicas; são também uma força criativa que contribui para essas condições. Ela é tanto uma causa oculta como uma evidente consequência. 

Os estados mentais e condições emocionais, que são fortemente mantidos pela pessoa, se relacionarão aos eventos, ambientes e situações que, subsequentemente, se formarão ao redor dela.

Ela poderá reagir às experiências de vida e ao curso dos eventos seja com seu lado animal de sua natureza seja com seu lado espiritual. A escolha é dela.

O que acontece conosco é uma auditoria contínua do que somos. 

De forma misteriosa, essas forças do destino respondem às nossas necessidades internas assim como refletem nosso estado interno.

À proporção que seu trabalho interno faz com que haja uma mudança na sua atitude, na sua visão de vida e, em especial, na sua consciência, também uma correspondente mudança nas suas condições externas virão, dentro de certo tempo.

Cada ser humano responde ao que lhe circunda e aos seus contatos, experiências e fortunas através de sua maneira pessoal de resposta. “Assim como você é, assim será o mundo,” assinalou Ramana Maharshi no nosso primeiro contato.

A espiritualidade e o ego

Infinito é o processo de ilusões através do qual o ser humano mantém seu ego vivo. Ele se desenvolve nele de forma sutil na natureza e refinada na qualidade, chegando mesmo a se elevar do plano material para o espiritual. Mas sua capacidade de enganar básica permanece a mesma.

A estrutura dos interesses, apegos, tendências e emoções egocêntricas preenchem a consciência tanto do ser humano ainda na obscuridade como a dos aspirantes espirituais. Neste segundo caso, ela será ou ampliada ao incluir crenças e dogmas religiosos, experiências e sentimentos místico-religiosos, ou diminuída através de realizações ascéticas e noções fanáticas.

Quão facilmente o ego pode se mascarar através de um falso altruísmo ou se ocultar por trás de pronunciamentos elevados! Quão rapidamente pode explorar os outros para a sua própria vantagem! Quão insidiosamente poderá levar uma aspiração genuína a desvios ou, pior, a armadilhas!

Através de eventos inesperados e de experiências involuntárias somos em parte expostos, mostrando-nos o que sempre fomos mas que não sabíamos até então. Contudo, o poder e astúcia do ego é tal que ele mesmo nunca se expõe – o verdadeiro malfeitor – e nos mantém na ignorância sobre a verdadeira causa de nossos problemas. Assim, nos manterá preocupados com pensamentos espiritualmente elevados e nos fará sentir presunçosamente que estamos fazendo progresso, mas não nos permitirá perceber e eliminar o verdadeiro inimigo – ele mesmo!

Astutamente ele se ajusta a cada estágio de nosso crescimento espiritual, permanecendo assim em todas as nossas relações e atividades.

No próprio ato de louvar a Deus ou ao Espírito, o ego louvará a si mesmo – tal é a astuciosa duplicidade através da qual nos faz pensar que estamos sendo espirituais ou nos tornando mais piedosos!

Será prudente, de nossa parte, que suspeitemos da presença do ego mesmo nas maiores aspirações, reflexões e experiências espirituais.

Quando pressionado a defender a si mesmo e justificar suas posturas, o ego as racionalizará falando de nossa ‘necessidade evolutiva’ ou da nossa ‘tarefa histórica e missão superior’. Tudo isso será uma construção mental fraudulenta e não uma orientação genuinamente intuitiva. O aspirante que caia vítima de suas próprias desculpas mentais fictícias ou especulações, imaginações e álibis, cairá vítima das maquinações do ego. Desta maneira, em vez de acusá-lo por ser a verdadeira fonte de seus problemas, ele o apoiará tolamente e, em vão, encobrirá seus erros.

O ego estará ao seu lado esperando sutilmente enganá-lo para que venha a tomar decisões erradas e realize falsas interpretações, preservando assim sua vida ao obstruir seu crescimento no caminho da verdade.

É esperado que o ego proteja a si mesmo, mesmo que tenha que se envolver numa busca espiritual que, a princípio, teria o propósito de eliminá-lo.

Ele estará aqui, sempre presente e trabalhando mesmo onde supostamente deveria estar ausente. Insinuar-se-á até mesmo no seu trabalho ou aspiração espirituais, de forma que o aspirante tomará dos ensinamentos aquilo que se adequar ao seus próprios fins pessoais, e ignorará o resto, ou tomará somente aquilo que se adequar ao seu conforto pessoal, e será contrário ao resto.

Sobre o impulso ao recolhimento do social

Samadhi Movie, 2017 - Part 1 - "Maya, the Illusion of the Self"

Delírios de Iluminose

Por que exercitar a arte da escuta atenta?


Vá a um templo JAINA e você verá vinte e quatro estátuas dos TIRTÂNKARAS JAINAS — as pessoas que são como Jesus, Buda, Zarathustra — e você se surpreenderá: eles parecem ser exatamente o mesmo. Não é possível: você não pode encontrar vinte e quatro pessoas exatamente iguais. Nem JAINAS podem fazer a distinção de quem é quem. Eles não podem dizer quem é Mahavira e quem é Neminath e quem é Parshwanath e quem é o primeiro e quem é o último, porque eles parecem absolutamente iguais — os mesmos rostos, os mesmos narizes, os mesmos olhos, os mesmos corpos, a mesma posição. Para distinguir que eles são pessoas diferentes, os JAINAS descobriram os símbolos: o símbolo mostra um leão ou algo assim, que mostra de quem é a estátua. 

Por que eles a fizeram iguais? Certamente elas não são históricas. Elas são iguais porque os escultores jainas não estavam interessados na História, eles estavam interessados no FENÔMENO INTERIOR. Aqueles homens tinham atingido à MESMA EXPERIÊNCIA... — como representar isso? E como representá-lo em mármore? Eles atingiram à mesma IMOBILIDADE, ao mesmo CENTRAMENTO, ao mesmo FUNDAMENTO, à mesma CRISTALIZAÇÃO. Daí, as estátuas iguais — a mesma posição, o mesmo corpo representando algo do MUNDO INTERIOR — o mesmo estado espiritual, o mesmo SAMADHI. 

Você se surpreenderá sobre muitas coisas, ao olhar aquelas vinte e quatro tirtânkaras e suas estátuas. Você verá que suas orelhas são muito grandes, seus lóbulos encostam-se nos ombros. Você não encontrará orelhas assim. Isso representa algo: diz que aquelas pessoas atingiram seu supremo estado de consciência PELO OUVIR ABSOLUTO — ouvir as canções dos pássaros, ouvir o vento passando entre os pinheiros, ouvir o som das águas, ouvir silenciosamente TUDO QUE VAI ACONTECENDO AO SEU REDOR. 

Ouvir era o método deles. Assim como o método budista é o de observar a respiração, o método JAINA é o de ouvir os sons. Ouvir corretamente é o suficiente. Se a pessoa puder ouvir SEM O TAGARELAR INTERIOR DA MENTE, se a mente tornar-se completamente calma... este cão latindo lá longe, ou o pássaro piando. Se você puder apenas ouvir SEM PENSAR, sem pensar nem que "o cão está latindo", "os passarinhos estão piando", APENAS OUVIR SEM NENHUM PENSAMENTO, SEM QUALQUER INTERPRETAÇÃO, você atingirá cada vez mais e mais profundos reinos de silêncio: atingirá à suprema consciência. 

Qualquer espécie de consciência alerta conduz ao Supremo. Ora, a consciência alerta pode vir dos sentidos, de qualquer um dos cinco. Você poderá ouvir música e funcionará... pode ouvir qualquer coisa e funcionará. Pode olhar as nuvens e o pôr-do-sol e os pássaros voando no espaço e, ao ver, funcionará. O único ponto a ser lembrado é este: SUA MENTE NÃO PODE FUNCIONAR — seus sentidos não podem ficar anuviados pela mente. 

Para representar isso, as longas orelhas. Ora, como representar em mármore o método de ouvir? Esta é uma bela representação. Mas há tolos eruditos jainas, tão tolos quanto os cristãos, que pensam que todo tirtânkara tem aquelas longas orelhas — sem as tais longas orelhas, não pode ser um tirtânkara. Tirtânkara quer dizer exatamente o mesmo que Buda, ou Cristo — essa é a terminologia jaina. Isso é estupidez, falta de compreensão, abordagem nada compreensiva. E depois, isso pode ser cristalizado muito facilmente. 

OSHO

Uma imagem vale mais que mil palavras


Todo processo do Paradigma Holotrópico numa só imagem...No princípio, UM com o todo... Consciência Espiritual.... "A QUEDA" para a identificação material-sensorial.... o fundo de poço e o início da Consciência Mental (Base)... Retomada da Consciência Espiritual pelo processo de observação sem escolhas... O retorno para a dimensão do coração!

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)