“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Indícios que pressagiam a vinda da Graça


Não é preciso que façamos qualquer gesto exterior de renúncia ao mundo — embora o destino talvez o ordene — a fim de chegar a esse ponto de total auto-sujeição. Pois não somos instados a nos render a um determinado assunto ou pessoa, MAS NO SENTIDO PESSOAL INTERIOR QUE NOS MANTÊM CATIVOS. Esse SENTIDO DO EGO não pode ser banido por nenhuma força nossa, da mesma forma pela qual um homem não pode erguer-se com a ajuda dos cordões dos próprios sapatos. Conquanto durante a fase adiantada todo o objetivo do nosso esforço dirija-se para o ESVAZIAMENTO DA MENTE DE TODOS OS SEUS PENSAMENTOS e para possibilitar ao incontestável Eu Superior responder á nossa pergunta, não devemos, contudo, imaginar que seremos capazes de parar de pensar à custa dos nossos próprios esforços. O pensamento só cessará quando um poder superior se impuser a ele. Tal poder pertence ao Eu Superior e, assim sendo, aquilo que realmente fazemos é CONVIDAR, ROGAR e PERMITIR ao Eu Superior que torne o turbulento intelecto silencioso e calmo. O que pode ser feito é PREPARAR o caminho e REMOVER os obstáculos ao advento de um Poder Maior, que não é senão a Graça do Eu Superior. A Graça é o guardião do tempo. É a comunicação da Graça, essa manifestação de uma autoridade maior do que a nossa, que acaba por EXTINGUIR A NOSSA VINCULAÇÃO COM O EGO e dar-nos a inimaginável paz da liberação. Talvez haja uma grande distância a percorrer até chegar a esse ponto, mas isso não nos deve impedir de fazer a tentativa. "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos" são as palavras do Mestre Cristão, embora a mera manifestação de interesses ligados a este caminho possa ser um sinal de que a pessoa se inclua entre aqueles poucos felizardos. E mesmo que esse ponto elevado não seja atingido, OS ESFORÇOS JAMAIS SERÃO DESPERDIÇADOS. Um pouco de paz, um pouco de iluminação com certeza serão conseguidos em troca. 

A atuação desse poder da Graça é misteriosa. O nosso dever é PREPARAR AS CONDIÇÕES ADEQUADAS, a atmosfera conveniente dentro da qual o Eu Superior possa conceder sua revelação, pois não somos capazes de prever o momento exato em que tal revelação irá ocorrer, mesmo depois de preparada as condições. 

A Graça é considerada como um movimento definido do ser interior do aspirante, um movimento que tende a apossar-se dele e introvertê-lo ainda mais. A GRAÇA É SEMPRE EXPERIMENTADA COMO UMA MANIFESTAÇÃO INTERIOR À REGIÃO DO CORAÇÃO. 

Ela surge no interior do aspirante com tal força e se apossa de tal forma dos seus sentimentos e pensamentos que ele não apenas percebe ser inútil qualquer resistência como também não sente nenhuma inclinação a resistir, pois sua consciência está como que sob efeito de um encantamento. Tudo começa com a sensação de que algo SE ESTÁ DERRETENDO DENTRO DO CORAÇÃO. A seguir acontece uma revolução de todos os primitivos pontos de vista acerca da vida, durante a qual o orgulho, o preconceito, as ideias arraigadas, os desejos e as aversões são todos atirados a um canto e desaparecem por algum tempo. O desfecho é uma maior ou menor RENDIÇÃO DO EGO AO DIVINO GOVERNANTE recém-aparecido. Esta experiência poderá repetir-se amiúde ou não voltar a acontecer por muito tempo. Se se der a primeira hipótese, então o aspirante é um homem de sorte e o progresso da sua iluminação será deveras rápido; espantosas transformações irão ocorrer em sua vida, até que ele chegue a uma REVELAÇÃO não mesmo certa, precisa e definitiva do que sublime. A Graça poderá baixar tão apenas por cinco minutos, como poderá também persistir durante cinco horas. Nesta eventualidade o aspirante será um grande felizardo e, em consequência, passará por uma grande modificação. Foi através dessas generosas manifestações da Graça que ocorreram notáveis conversões na história religiosa da humanidade, tanto no Leste como no Oeste. 

Há indícios que pressagiam a vinda da Graça. O principal dentre eles é um forte desejo de luz espiritual que mais e mais toma CONTA DO CORAÇÃO, que atormenta o homem com frequência e que faz o resto parecer insatisfatório. A vida comum parece tornar-se insípida, estúpida, oca, mecânica e opressiva. A rotina diária torna-se espectral e despropositada. Quando essa aspiração intensa transforma-se como que numa poderosa corrente na vida emocional de um homem, ele poderá começar a pensar então que a sua gratificação não está muito distante. E quanto maior a intensidade do desejo, maior será a manifestação da Graça concedida. 

Entre os arautos da vinda da Graça encontra-se logo a seguir o ato de chorar, seja em virtude da ausência dessa luz espiritual, seja em virtude de alguma palavra, acontecimento, pessoa ou retrato que recorde a existência do Eu Superior. Tal pranto nem sempre será visível e exterior; poderá ocorrer SILENCIOSAMENTE NO FUNDO DO CORAÇÃO. Quando, porém, as lágrimas fizerem a sua aparição, não deveremos lhes resistir, mas ceder à sua pungente emoção, até mesmo ao ponto de derramá-las com frequência, tanto quanto o permitam as circunstâncias externas. ESSAS LÁGRIMAS SÃO ALIADOS DE VALOR NA CAUSA DO ASPIRANTE; ELAS TRAZEM CONSIGO UMA MISTERIOSA INFLUÊNCIA QUE TENDE A DISSOLVER AS DURAS INCRUSTAÇÕES CONSTITUÍDAS PELO EGO QUE BARRAM A ENTRADA DA GRAÇA. Através de sua ajuda suave porém poderosa muita coisa é conseguida, às vezes tanto quanto seria conseguido através do esforço da meditação. 

Por essa razão recebamos de braços abertos essas visitantes, quando elas vierem e choremos franca e deliberadamente se nos for possível estar a sós, ou silenciosa e ocultamente se for o caso, permitindo desta forma que as nossas deficiências auto-engendradas desapareçam. Tais anseios e tal pranto para serem eficazes deverão abalar o aspirante até as profundezas do seu ser. Na verdade, as lágrimas devem decorrer de uma compulsão interior. Somente aquele que sabe como chorar pelo mais Alto e como abster-se de chorar pelos desenganos mundanos está apto a conhecer a Verdade. 

Outros sintomas também poderão manifestar-se; o aspirante poderá ter um único e profético sonho, o qual será capaz de traduzir intuitivamente como uma mensagem do Eu Superior. Tal sonho será extraordinariamente vívido e inesquecível. Ademais, poderá ocorrer alguma modificação nas circunstâncias da sua vida terrena ou até mesmo alguma crise nos seus negócios indicando que é chegada a hora — ou que chegará dentro em breve — de mudar-se para novas vizinhanças, portadoras de novas influências. Desta e de outras maneiras, bem como em função dos seus sentimentos interiores, poderá o aspirante saber que se aproxima um período de luz espiritual. 

Um canal importante através do qual a Graça poderá atuar quando, finalmente, vier, é aquele que a ligue com alguma atividade externa do homem. Não raro a separação ou a morte de uma pessoa muito querida acarreta tal coisa, e como consequência do intenso sofrimento resultante, a vida do aspirante poderá receber uma orientação inteiramente nova em que a Graça poderá vir como uma espécie de compensação pela perda sofrida. A princípio ele terá contudo que passar por TODAS AS FASES DA AGONIA da sua perda e quando, por fim, a Graça começar a bafejá-lo, o aspirante irá descobrindo gradualmente que é capaz de suportar a dor com resignação. Já não terá um fardo a esmagá-lo, pois perceberá que o desaparecimento da outra pessoa da sua vida encerra um significado espiritual. O sacrifício que lhe foi imposto poderá fazer nascer em sua alma, primeiro um sentimento de resignação e depois a aceitação da vontade de Deus, o que afinal lhe trará a compensação da paz interior. O próprio ato da aceitação transferirá para Deus o seu ônus e em boa parte o libertará de novos sofrimentos nesse sentido. O sofrimento numa forma tão aguda poderá em última instância ser o arauto de uma serenidade compensadora ainda por vir. Não devemos, contudo, imaginar a partir disto que a Graça sempre nos magoa onde somos mais passíveis de nos magoar. Ela pode vir sem o concurso de um arauto tão pouco auspicioso. 

A outra forma humana através da qual a Graça pode vir inicialmente a um aspirante é a de um sábio ou iniciado — ou mesmo um discípulo especial de qualquer um destes — que via de regra poderá ser usado como um instrumento adequado para transmiti-la. Mas isto supõe alguns fatores incomuns, e tais homens raramente surgem no nosso caminho neste século vinte, embora alguns iniciados autopromividos continuem a enganar aos outros ou a si mesmos. 

Paul Brunton - A Busca do Eu Superior
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)