
Ora, existe, no meu sentir, uma maneira de viver totalmente diferente — uma maneira de viver em que não há fugir, nem recolher-se em mosteiros ou fazer certos votos, ou aderir a um dado movimento social, político ou econômico. Há, sem dúvida, outro caminho, uma diferente maneira de superarmos as enormes dificuldades de nossa vida diária — não com o fim de concordar ou discordar, porém que escutem simplesmente, tranquilamente, assim como ouvem o barulho daquele avião. Escutem atentamente, porém, sem nenhum esforço, se possível. Porque é bastante óbvio que com a mera sondagem, exame ou análise intelectual, não seremos capazes de resolver o problema do sofrimento humano. Há tantos anos, e em tantas vidas, e há tantos séculos vimos tentando encontrar uma saída de nossos sofrimentos, mediante disciplinas, sacrifícios, controle, por meio de auto-esquecimento e da identificação com algo considerado superior. Temos tentado inumeráveis sistemas, seguido caminhos inumeráveis e, todavia, no fim da jornada, nos encontramos, aflitos. Portanto, deve haver uma maneira completamente diferente de resolver este problema.
Nesta manhã, pretendo enveredar por esse caminho — não apenas verbal ou intelectualmente, porque verbal e intelectualmente não se pode entrar naquela luminosa região e tampouco podemos atingi-la com qualquer espécie de sentimentalidade ou emocionalismo. Lá devemos chegar insensivelmente, sem esforço algum, sem nenhuma intenção deliberada; e, se ficarmos escutando tranquilamente, talvez então possamos marchar juntos. Mas, se a investigação de vocês for puramente intelectual, analítica, então é de temer que percamos o contato, a comunhão entre nós.
Deve, pois, haver uma maneira completamente diferente de considerar este nosso monstruoso viver, com suas guerras, suas rivalidades, a medonha ambição de ser alguém, a constante batalha, com o semelhante, com a sociedade; e, para compreendê-lo, temos de examinar a questão da liberdade (...) A maioria de nós não deseja a liberdade, porque não sabe o que ela é — e preferimos suportar as coisas dolorosas e aflitivas que temos, a abandoná-las, porque ignoramos o que nos reserva o futuro.
Não sabemos o que é liberdade. Temos uma ideia a seu respeito, porém a ideia não é o fato, e nenhuma soma de experiência ou de conhecimento pode levar-nos à liberdade. Como há dias estive dizendo, a liberdade exige ordem; e a ordem que se produz deliberada e planejadamente é desordem. A ordem estabelecida pela vontade é uma mera forma de resistência e com essa pretensa ordem estamos bem familiarizados, porque o homem a vem cultivando há séculos.
Onde há liberdade, deve haver espaço. O espaço implica um estado de solidão, de "singularidade". Isto não é nada de místico, de abstrato, porém uma positiva realidade, tão positiva como o fato de estarem sentados nesta pavilhão aqui, na Suíça.
Não pode haver um imenso espaço para a mente funcionar, se ela não estiver inteiramente só. "Estar só" e "estar isolado" são, naturalmente, dois estados diferentes. Sabemos muito bem o que é isolamento: esse estado em que nos vemos isolados, sem companheiros, sem relações, mesmo que estejamos cercados de nossa família e vivendo ativa e prosperamente. Apesar de tudo isso, manifesta-se um estranho sentimento de isolamento, sentimento que a maioria de nós — ou pelo menos os que têm investigado as coisas da vida — já conhece.
Pois bem. Solidão e isolamento são dois estados diferentes. O isolamento resulta das atividades diárias, nas quais toda ação emana do centro ou imagem. A imagem é, essencialmente, um centro que se formou pela rejeição da dor e a não-rejeição do prazer. Nossos valores estão baseados no que nos dará prazer, e não no fato, no que é.
Escute com atenção o que se está dizendo, não como quem ouve as palavras de um estranho, porém, as de alguém com quem estão conversando a respeito de si mesmos. Em verdade, é isso justamente o que estamos fazendo, em todas estas nossas palestras. Cada um de nós está a observar-se, a abrir-se, não neuroticamente, emocional ou sentimentalmente, porém, de maneira real. Cada um está descobrindo a si próprio e, portanto, compreendendo a si mesmo.
Assim, enquanto existir essa imagem, cujos valores se baseiam no prazer, haverá necessariamente o isolamento do centro, pois este cria seu espaço próprio. O centro cria espaço ao redor de si, em suas relações com pessoas, coisas, ideias; e, esse centro que cria espaço em torno de si é isolamento — um estado de que podemos estar conscientes ou não. "Estar isolado" é coisa bem diferente de "estar só". A solidão não resulta de nenhuma atividade mental.
A mente, é bem de ver, evoluiu através do tempo. Atingiu seu estado atual de desenvolvimento, tal como os animais, pelo cultivo dos valores baseados no prazer. Se vocês têm observado os animais, terão notado quanto lhes agrada o prazer e quanto tratam de evitar qualquer coisa que cause dor. De modo idêntico, a mente humana, desenvolvida no decorrer dos séculos, continua baseada, não no fato, no que é, porém na avaliação do que é, pelo padrão do prazer. Ela deseja viver continuamente num estado de prazer e, por conseguinte, o próprio espaço que cria em torno de si constitui sua própria limitação. A solidão, pelo contrário, não é produto do prazer. Cabe-me, pois, compreender muito profundamente, e em seu todo, esta questão do prazer. Não estou dizendo que o prazer seja coisa boa ou má. Só estou assinalando que, se a mente tudo está avaliando pelo padrão do prazer — o que denota a existência de um centro, cujos valores, juízos, conceitos, atividades estão todos baseados no prazer — então esse próprio centro se torna criador de conflito e contradição; e enquanto existir contradição interior, na mente, todas as suas atividades e as suas relações irão necessariamente criar mais conflito e mais confusão.
Pois bem, se estamos cônscios, vigilantes, em certo grau, saberemos o que se deve fazer quando surge um problema. Pela observação dele — e não pela fuga — pela atenção total dispensada ao problema, é possível colocar-lhe fim. Se, por exemplo, vocês fumam, podem se tornar conscientes desse hábito até o ponto de provocar uma crise. Quando se torna agudo o desejo, se dele tomam pleno conhecimento e não tratam de fugir, verão ele se dissolver, definhar, desaparecer rapidamente. Se já experimentaram isto, sabem que de fato é assim. E o que isso significa? Que aprendemos um certo "truque" — se me permitem o termo — a maneira de dissolver um dado problema. Mas, nós temos uma infinidade de problemas, tanto consciente como inconscientes.
(...) Nós temos numerosos problemas, tanto ocultos, como patentes — problemas com alguns dos quais podemos estar em contato, e com outros não. É necessário examinar de ponta a ponta, "abrir", investigar, erradicar cada problema? Isso exige tempo, não? Temos incontáveis problemas — econômicos, sociais, de relação, de sofrimento, dúvida, incerteza, a ânsia de segurança absoluta, etc. Ora, devemos pegar esses problemas, um a um, para compreendê-los e resolvê-los? Dispomos do tempo necessário para tratar cada problema separadamente? Que implica tal "processo"? Se tentarmos resolver cada problema separadamente, necessitaremos de tempo, de energia, e nos veremos empenhados numa interminável batalha para não deixarmos passar despercebido um só problema. Assim, o que acontece? Dizemos a nós mesmos "É um nunca acabar de problemas. Não terei possibilidade de resolver todos os meus problemas antes de morrer; são numerosos demais" — e, por conseguinte, tratamos de refugiar-nos em alguma extravagância mística, fantasiosa, idiota. Se damos para fumar maconha ou para frequentar a igreja — tudo isso é mais ou menos a mesma coisa.
Ora, deve haver uma maneira muito diferente de considerarmos os nossos problemas; é o que desejo investigar. Tenho, digamos, dez ou mais problemas, e se eu me aplicar a cada problema em separado, terei de compreender cada um deles tão completamente, que ele não possa prejudicar a minha compreensão do problema subsequente. Entendem? E sei muito bem que todos os problemas — econômicos, sociais, pessoais — estão relacionados entre si. Não há problema separado, independente dos outros. Isso eu percebo. E percebo igualmente que preciso ter liberdade, imediatamente — não amanhã, não quando estiver à morte, porém imediatamente. Respectivamente com a necessária intensidade, impulso, energia, deve existir um estado de liberdade; devemos estar livres de todos os problemas, pois esta é a única liberdade.
Liberdade implica ação; a liberdade é ação; a ação não deriva da liberdade. Mas quase todos dizemos: "Devo estar livre para agir". Dizemos: "Devo ser livre, para pensar o que me agradar, política, econômica, socialmente", mas poucos dizem: "Religiosamente, devo ser livre", porque, nesse particular, nos vemos completamente inibidos. Exigimos aquilo a que chamamos liberdade, pois, em virtude dela, esperamos agir; ou, gozando de uma suposta liberdade, escolhemos nossa maneira de agir. Se estamos sob a tirania de um sistema partidário — de uma ditadura, em nome do povo, etc. — desejamos liberdade de ação. Por conseguinte, para a maioria de nós a liberdade é diferente da ação. Mas eu estou dizendo que a liberdade é ação; a ação não se baseia, então, em nenhuma ideia. Quando a ação se baseia em ideia, ela é movimento organizado, com a mira no prazer, não acham? É produto do desejo de satisfação. Por conseguinte, a ação baseada em ideia é, de fato, inação, conducente à servidão e não à liberdade. Só há liberdade no agir se dele estamos livres, ou temos perfeita compreensão da ação baseada em ideia.
Vejo, pois, que liberdade é ação e que a ação não depende do tempo. Mas, temos possibilidade, não só de resolver imediatamente os nossos inúmeros problemas, mas também de impedir o nascimento de outros futuros problemas? Há, pois, duas coisas a fazer: resolver imediatamente os problemas que já tenho, e impedir o nascimento de futuros problemas, de modo que minha mente não se veja sempre emaranhada numa rede de problemas. Só então há liberdade; e a liberdade é, então, ação.
Krishnamurti - O descobrimento do amor
Krishnamurti - O descobrimento do amor