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Krishnamurti, momentos antes da conferência em Ommen |
Quando olhais em redor e
ponderais as coisas, vedes que o grupo se opõe sempre ao indivíduo. Quando uso
o termo “indivíduo” falo do homem que é íntegro, completo dentro de si mesmo,
como apartado do grupo que proclama que existe para beneficiar o indivíduo. Em
todos os departamentos de pensamento e emoção encontrareis este grupo opondo-se
ao indivíduo. E, no entanto, o próprio grupo é o indivíduo pois que o grupo se
compõe de indivíduos. Vou preocupar-me com o indivíduo, pois que é o indivíduo
que cria o caos, a angústia ao redor de si. Dentro do indivíduo — isto é, dentro
de cada qual, por todo o mundo, com raras exceções — existe o caos, a angústia
e a tortuosidade. E no entanto o grupo esforça-se por estabelecer a ordem, a
serenidade e a retidão. No coração do grupo, existe o caos, a angústia e a
luta; assim, pois, para estabelecer ordem, serenidade e retidão em geral, temos
que ter em consideração o indivíduo. O indivíduo é da máxima importância.
O indivíduo é vós próprios, e é
no tornar o indivíduo reto, sereno, criativo, que encontrareis a verdadeira
autoexpressão. É o indivíduo que tendes que ter em vista a todos os instantes,
porém não quer isto dizer que o vosso considerar deva ser feito a expensas de
vosso próximo: pois sustento eu que mesmo desde o próprio início do seu
desenvolvimento, o indivíduo, deve, ele próprio, ser uma lâmpada para si mesmo,
afim de não projetar sombras sobre a face de outrem.
Ninguém pode tornar o indivíduo
reto, sereno, criativo, a não ser ele mesmo. Por criação entendo eu a
verdadeira autoexpressão, não mera criação de ornamentos, como sejam cadeiras,
quadros e assim por diante; essas coisas não as considero eu verdadeira
criação. A expressão do preenchimento, a fruição, a consumação do eu é, segundo
o meu modo de pensar, a verdadeira criação. Isto somente pode ser o resultado
da percepção individual. Nenhuma instituição, nenhuma corporação religiosa,
nenhuma coação externa, nenhuma busca de auxílio exterior, pode tornar o
indivíduo reto, sereno e verdadeiramente criativo, pois que o indivíduo é
absolutamente livre e responsável para consigo mesmo. Quisera que tomásseis cuidadosamente
em consideração este pensamento, porque, se não entenderdes isto, tudo mais que
eu disser terá significado diferente, não será apropriadamente compreendido,
não vos será claro. Todo indivíduo, no mundo, sejam quais forem as suas
circunstâncias, é absoluta e inteiramente responsável perante si mesmo. No eu,
somente, portanto, reside a possibilidade, o poder de libertar-se a si mesmo
inteira, integral, incondicionalmente dos emaranhados, da corrupção do amor
imperfeito. É ele a pessoa única que pode vencer sua própria fraqueza, que pode
dominar suas próprias paixões, que pode subjugar seus desejos e que é
integralmente responsável pelas suas ambições. É da máxima importância, se
quiserdes produzir ordem, serenidade, pensamento claro e felicidade, não
somente no indivíduo, porém em todos no mundo, é preciso prestar atenção ao
indivíduo, desde o próprio começo. Pois que, se o indivíduo for dentro de si
mesmo caótico, cria o caos; se dentro em si próprio for tortuoso, torna
tortuosas todas as coisas que o rodeiam; se dentro em si mesmo estiver
perturbado, cria a perturbação ao redor de si.
Que é que o indivíduo deseja a
todo instante? Que é que busca continuamente? Que é que persegue em sua luta,
em sua corrupção, em sua angústia, em sua desgraça, em suas lágrimas, em seus
prazeres? Está buscando despedaçar as limitações por ele próprio colocadas
sobre si, de modo a atingir essa libertação que é perfeição, a
incorruptibilidade do amor e pensamento que estabeleça perfeita harmonia, a
qual é felicidade. O desejo que todos têm, que é a própria vida — está
continuamente encorajando, propelindo, impulsionando a todos para adiante; o
desejo está sempre buscando consumação na experiência, por exigir uma
objetivação externa, uma autoexpressão. A experiência sem propósito é
destrutiva, enquanto que a experiência com propósito é verdadeiramente
criativa. Esta é a razão pela qual necessitais primeiro estabelecer dentro de
vós próprios a finalidade da vida e depois, após este estabelecimento que será
para a eternidade, continuo, sem variação de geração em geração, esse propósito
será a meta, o objetivo em direção ao qual todo o desejo — que é a própria vida
— conduz. Se existir tal propósito — e
eu sustento que existe e que o realizei — então toda a experiência que é a
consumação de um desejo deve fortificar, libertar o indivíduo desse mesmo
desejo. Isto é: quando houverdes passado por uma experiência ela deve bastar
para libertar-vos dessa espécie particular de experiências. Assim, rompereis
com toda a limitação e chegareis a essa libertação que é o preenchimento de
toda a vida.
Conhecendo, portanto, o propósito
da vida e sabendo que o indivíduo é inteira e absolutamente responsável para
consigo mesmo, sobrepujais o medo, seja ele de que espécie for. É o medo que
estrangula, que sufoca a todo o ser humano. É o fantasma que persegue a todo o
ser humano como uma sombra, pois ele não se apercebe que por toda a ação e
resultado da ação, por todo o desejo e preenchimento do desejo é ele
integralmente responsável. Com essa verificação o medo de todas as espécies
desaparecerá, pelo fato de o indivíduo se tornado dono absoluto de si mesmo.
Quando não mais tiverdes medo,
começais realmente a viver. Não vivereis no futuro nem no passado, nem
esperando pela salvação futura, nem encarando o passado morto para obter vossa
força, porém — pelo fato de não terdes medo — vivereis nesse momento da
eternidade que é o AGORA.
É o AGORA que tem importância,
não o futuro nem o passado. É o que fazeis, o que pensais, como viveis e como
agis AGORA que tem valor. A verdade não está no futuro nem no passado. O homem
que não é limitado pelo medo vive integralmente responsável para consigo mesmo,
concentrado nesse momento que é o AGORA, que é a eternidade.
Para um tal homem não existe nem
nascer nem morrer. A maioria das pessoas atemorizam-se com a morte, porque
temem viver. Preocupam-se mais com a morte do que com o viver no momento
imediato, que é eternidade, que é AGORA.
Conhecendo, portanto, qual o
futuro de todo o ser humano, de todo o indivíduo, como ele se consumará a si
mesmo na libertação, que é incorruptibilidade do eu, que é a harmoniza entre a
razão e o amor — sabendo isto, importa vital, grandemente, que vivais na
realização dessa grandeza e dessa beleza no imediato presente.
Quando houver sofrimento, quando
houver lágrimas, quando houver temor em vosso coração de que serve o saberdes
que tais coisas hão de desaparecer no futuro? Quereis a felicidade, quereis a
liberdade, no presente momento, não em um futuro distante. Ninguém vos pode dar
felicidade, ninguém vos pode libertar, exceto vós próprios. Não podeis atingir
a meta por caminho algum, por meio de nenhuma religião ou seita. A libertação
está dentro do próprio indivíduo; está integralmente dentro de seu controle e
vem somente sob o seu mandado.
A libertação, essa felicidade que
é invariável, serena, essa perfeição, não está distante nem perto, pois que a
perfeição está onde está o indivíduo, acha-se dentro dele mesmo.
Para o atingir desta harmonia,
que é a consumação de toda a vida, que é a perfeição do eu, tudo o que o
indivíduo é, tudo o que ele faz, o que pensa, como se comporta e porque maneira
ama, tem importância. Não no futuro nem no passado deve ele começar a atingir
essa perfeição, porém no próprio momento de percepção clara, no justo momento
de entendimento — que é o AGORA.
Krishnamurti, 4 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen