“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A importância de um minucioso e destemido inventário moral


O mergulho introspectivo nas profundezas do caráter e da capacidade do estudante é uma aventura que deve ser feita com frieza e destemor. Inevitavelmente, haverá resistências inatas, oposições instintivas e impedimentos emocionais para obstruir a descida. Tais fatores decorrem naturalmente das tendências inatas, bem como do meio ambiente, da educação e das circunstâncias. Trata-se, na maior parte dos casos, de fraquezas disfarçadas ou repressões psicológicas. Não obstante, ao inteirar-se delas através de uma tranquila autocrítica, o estudante encontrará na sua própria presença — se tiver uma mentalidade filosófica — um incentivo especial para corrigi-las e assegurar à sua vida o desejado ajustamento. Exige-se para tanto grande dose de honestidade intelectual com a consequente recusa em fugir à realidade, e uma coragem intelectual ainda maior para superar o obscurantismo; trata-se, portanto, de uma tarefa para um herói mental que não se envergonhe de reconhecer que precisa mudar e não receie contribuir voluntariamente para as modificações requeridas. É um processo de metabolismo interno que provoca sofrimentos temporários mas leva a uma saúde permanente. E é a única forma pela qual o estudante pode colocar-se em condições de dominar a filosofia oculta. 

Imensamente difícil é convencer as pessoas a contrariar ou modificar seus antigos hábitos de raciocínio, porque a natureza humana é basicamente conservadora. E esses velhos hábitos se reafirmam teimosamente a cada passo. No entanto, se a pessoa achar que essas qualificações psicológicas estão muito além do seu alcance, e que esse padrão de conduta intelectual é demasiado elevado, não é preciso que se mortifique. Os notáveis resultados clínicos conseguidos com o auxílio da psicoterapia estão a mostrar as insuspeitadas forças de auto-aperfeiçoamento que existem em estado latente na mente humana. Nenhum de nós atingiu o limite extremo da sua capacidade. Sempre acumulamos mais discernimento quando buscamos novos horizontes. Numerosos homens poderiam tornar-se filósofos se se pusessem em ação, se quisessem pagar o preço de um esforço persistente e ininterrupto no sentido de romper o encanto dos velhos vícios, se se dedicassem com afinco a um tipo de vida em que iriam ganhando fé à medida que as suas possibilidades fossem crescendo. 

Anos atrás costumávamos pensar que o homem nascia com um caráter estabelecido, um grau fixo de capacidade, uma dose limitada de força mental, e que jamais poderiam exceder tais limites. Hoje em dia a percuciente análise psicológica relegou esse mito ao esquecimento em que merece ficar. Assim como o poder da cultura física é hoje reconhecido como definitivo, assim como sabemos que os nossos músculos podem ser fortalecidos e a nossa circulação sanguínea ativada através da exercitação diária, assim também sabemos que a nossa capacidade mental e as nossas características naturais poderão ser desenvolvidas de uma forma bem precisa, se atacarmos corretamente a tarefa. 

[...]Nós podemos refazer a nossa mentalidade se assim o desejarmos. Pois as teorias da psicologia e as realidades da experiência demonstram claramente o fato de que a capacidade da mente é extraordinariamente flexível e expansível. Essa capacidade pode desenvolver-se de forma inimaginável quando um esforço paciente no sentido de compreender aquilo que na aparência é incompreensível se aliar à esperança, que é a derradeira das possessões humanas, assim como a sabedoria é a melhor. Por isso, é preciso que nos disciplinemos mentalmente e nos moldemos eticamente para despertar a atitude correta para a árdua jornada que temos pela frente. Essa é a providência preliminar. 

[...] Quase todos nós começamos (no paradigma) como pecadores; cabe-nos esperar que terminemos um dia como sábios. Mas há uma enorme diferença entre o homem que se limita a chafurdar nos seus pecados e o homem que se ergue descontente e insatisfeito depois de cada ocasião de pecar. O primeiro está atolado e sem perspectivas, ao passo que o segundo não apenas se movimenta como também o faz na direção certa. Pois a alegria de enobrecer o caráter, aguçar a inteligência e ganhar fortaleza à medida que vivemos é uma das inúmeras vantagens da filosofia. Um simples olhar para as qualidades necessárias a esse estudo purificador mostrará que não se trata de um mero esmalte superficial destinado a pôr em relevo o intelecto do indivíduo e nem mesmo de um ornamento cultural; elas exigem muito do homem mas, no final, dão-lhe ainda mais em troca, pois têm ação preponderante no que diz respeito tanto a vida material como a eterna. Essas qualidades levam ainda a uma equilibrada compreensão da engrenagem da vida, não para efeitos de demonstrações teóricas mas para uma ação efetiva e sensata. Já foi demonstrado que a justificação prática da religião é a defesa que ela faz da boa vida; demonstrar-se-á mais tarde que a justificação da filosofia é a defesa que ela faz da melhor vida. Ainda que o presente estudo mais não faça, os objetivos práticos e psicológicos que nos apresentam lançam um sólido fundamento mental e moral para uma personalidade excepcional, que, mais cedo ou mais tarde, está fadada a distinguir-se numa ou noutra esfera de atividade. Ele será um guia seguro para uma conduta adequada e uma satisfação dos mais puros e exaltados sentimentos. Nós temos de sofrer uma profunda transformação com vistas à melhoria da atitude, das perspectivas e dos hábitos. Assim sendo, aquelas horas dedicadas à disciplina filosófica ou ao estudo não são em vão. A divindade que por essa forma adoramos recompensa os seus fiéis devotos.[...]

Em todos os estágios da disciplina filosófica o estudante deve reprimir suas emoções e seus sentimentos sempre que estes entrem em conflito com a razão. Sempre que se analisou o processo psicológico, constatou-se que, particularmente no exame dos problemas complexos, bem como na apreciação das idéias rivais, a tendência das pessoas indisciplinadas a embaralhar um raciocínio claro por meio de um confuso emaranhado emocional era incontrolável. Via de regra, tais pessoas vêem o mundo e interpretam as experiências da vida através dessa bruma. Cabe ao estudante desobstruir o caminho.

A personagem humana encerra em seu seio conglomerados de desejos antagônicos e impulsos contraditórios. Ela abriga paixões indistintas e antigos anseios cujo caráter arraigado nem sempre é suspeitado enquanto os momentos críticos não o traz à baila. Todas essas forças são tão poderosas que é acertado dizer que os homens vivem mais no sentimento do que na razão. A consequência é que pintam a maior parte dos seus pensamentos com desejos e anseios conscientes ou subconscientes, com temores irracionais e outros complexos emocionais. Não raro colocam cadeias nos próprios pés na forma de indecorosos anseios pessoais que são essencialmente danosos aos seus interesses. O fluxo e refluxo desses sentimentos e impulsos empurra-as contra a sua vontade e torna difícil para elas basear sua atitude genérica face à vida em fatos concretos ou no raciocínio correto.

[...] As rajadas emocionais mais fortes erigem uma barricada contra a qual nada podem os ataques da razão. A emoção não controlada pela razão é um dos grandes traidores da humanidade. Duas emoções poderosas — o ódio e a cobiça — respondem em conjunto por numerosos crimes na história do mundo. As paixões criadas pelo sexo são responsáveis por terríveis distúrbios. Aqui está uma das causas dos tradicionais vetos que a sociedade vem colocando à livre e plena manifestação da emoção no convívio humano decente.

O estudante de filosofia em particular não se pode dar ao luxo dessas explosões emocionais. Ele sabe que quando o sentimento inunda a vida do homem, isto se faz em detrimento da sua natureza intelectual.

E uma vez que o principal instrumento de penetração no domínio da verdade não é senão a própria mente, devidamente aguçada, ele, mais cedo ou mais tarde, terá de chegar a uma escolha definitiva entre o exercício constante da razão e da contenção ou o abandono à emoção e à paixão. Mais do que os outros, deve ele precaver-se contra as ilusões fomentadas pelos sentimentos pessoais, contra a prevalência do entusiasmo contagioso sobre o julgamento sóbrio, contra o sacrifício do fato objetivo à imaginação acalorada ou contra as ilusões ocasionadas pelos sentimentos pessoais ou pelo desejo sexual. Ele não poderá, de forma alguma, descobrir a verdade, se não estiver disposto a partir de uma posição fidedigna.

[...] Os desejos humanos, especialmente, são deveras competentes em seduzir a razão. Poucas pessoas reconhecem os reais motivos para as suas ações mais importantes. Há numerosas barreiras íntimas a tal reconhecimento erigidas pela própria pessoa ou então puramente inatas. E numerosos complexos emocionais envolveram-nas em suas ataduras que precisarão ser agora penosamente removidas a fim de que a verdade possa ser vista. Não raro o conhecimento é distorcido de modo a atender às conveniências da pessoa. É possível, por hipótese, que um estudante seja dotado de uma inteligência aguda e desenvolvida e ainda assim a sua dependência aos desejos faça-o acreditar na materialidade derradeira do mundo físico, quando todas as provas estiverem a indicar que essa derradeira natureza é essencialmente espiritual.

[...] A superfície de um lago só é capaz de refletir sem distorção uma imagem quando livre da ação do vento; a mente só pode investigar devidamente a verdade quando livre da ação dos sentimentos fortes. A racionalização do desejo é sempre agradável mas amiúde muito pouco proveitosa.

A esperança da filosofia está em obedecer à razão e não de frustrá-la obedecendo a desejos desordenados e excentricidades emocionais. Até mesmo a ambição desequilibrada e a vaidade indevida distorcerão o raciocínio e impedirão a aquisição de um conhecimento exato. Contudo, a ira e o ódio são desencaminhadores confessos. Quando irrefreadas, todas essas emoções são enganosos invasores que não obstante alegam propalar a verdade. Daí, aqueles que insistem em negar a razão no interesse dos seus sentimentos tornarem-se inaptos para esta busca, da mesma forma pela qual aqueles que preferem manter desvirtuada a sua mentalidade, descontrolada a sua paixão e irrefreada a sua repulsão instintiva jamais chegarão a uma verdadeira compreensão do significado da vida. Pois se entregarão ao esforço fútil e até mesmo impossível de acomodar a verdade num rijo leito de compulsões involuntárias e internas.[...] Chegamos assim à antiga sabedoria de que, se no reino dos homens a emoção impera momentaneamente, no final a razão deverá impor-se.[...]

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill