“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

É preciso que nos vejamos tal como realmente somos


[...]Nos países ocidentais sempre foi possível a qualquer um iniciar os estudos filosóficos, mas na Ásia o candidato era obrigado a exibir previamente uma certa capacidade para a tarefa. Até que a sua aptidão e atitude se tornassem aceitáveis, lamentavelmente, ele não podia iniciar o aprendizado. Pouco importava aos guardiães da sabedoria que ele tivesse ou não alguma fé religiosa, que fosse ateu, cristão ou muçulmano; o que importava é que do ponto de vista psicológico estivesse apto. [...] Fichte, no entanto, deve ter entrevisto a necessidade desse preparo disciplinador, ao dizer certa vez: "O tipo de filosofia que um homem escolhe depende, em última análise, do tipo de homem que ele é". 

A assimilação da verdade mais elevada estará em rigorosa proporção com a qualificação pessoal do indivíduo. 

Depois de ler o presente capítulo o estudante deveria fazer um exame consciencioso de si mesmo e determinar de maneira objetiva até que ponto as características desejadas estão presentes em seu equipamento mental. O exame deverá ser procedido à base da maior honestidade. Os resultados desse levantamento poderão ser espantosos para o estudante compenetrado, vexatórios para o sensível, ou esclarecedores para aquele que tem sede de autoconhecimento. Uma das primeiras coisas que ficarão patenteadas é até onde a pessoa é influenciada pelos maus instintos, pelos preconceitos correntes, pelas inclinações desconhecidas, pelos temores ocultos, pelas esperanças tolas, pelas atitudes injustas, pelas disposições do momento, pelas alucinações violentas ou pelas ilusões arraigadas; e como ela se conduz em meio a uma névoa de motivos conflitantes e poderosa influência subconsciente. Dessa forma se descobre o que se é realmente! A revelação decerto não será agradável. Se a pessoa não tiver pendores para a filosofia esse momento tornar-se-á crucial, e ela irá atirar raivosamente o livro para um canto e abandonar por inteiro o assunto. Mas, se a pessoa tiver a têmpera ideal, irá adotar a disciplina necessária e aos poucos começarão a surgir as modificações desejadas.

A primeira preocupação do instrutor de filosofia é derrubar os ídolos de pés de barro do estudante ou explicar-lhe com franqueza aquilo que ele na realidade faz ao adorá-los. Pois o instrutor ocupa aquela mesma e desagradável posição do diretor de um hospital psiquiátrico que muitas vezes é obrigado a concordar com os doentes que julgam ser aquilo que não são — um Napoleão, por exemplo — mas que num dado momento se vê forçado a dizer intempestivamente àquelas pobres criaturas que elas não são o que julgam ser! Naquele momento detestável o médico, sem a menor dúvida, tornar-se-á a pessoa mais odiada de toda a instituição!

A consciência de encontrarem-se numa posição análoga — pois pouquíssimas pessoas gostam de ouvir que não estão aptas a receber a verdade — é uma razão a mais para que os instrutores da filosofia oculta se tivessem mantido à sombra durante tanto séculos. Na verdade, do ponto de vista da filosofia poucas pessoas apresentam o equilíbrio requerido e, consequentemente, cria-se o axioma de que o candidato deve ser tratado e curado desse desequilíbrio comum a milhões de seres humanos. Pois a filosofia busca colocar os seus estudantes no ângulo exato para que veja o préstito da existência cósmica tal qual ele realmente é, despojado de fascínio e embustes. Isso não poderá ser conseguido enquanto o intelecto não for bem esclarecido e a força dos seus complexos ocultos não desaparecer. A tarefa de reordenar a mente pode ser um processo assaz doloroso. O trabalho de afastar as falsidades e tolices que a dominam pode deixar para trás algum vácuo.

É essencial descobrir quais as forças que estão atuando na mente e influenciando o raciocínio e as perspectivas mentais. Uma vez que o estudante tenha desenterrado a base real de suas ações e atitudes, ele poderá filosofar livremente, mas não antes. Por meio de uma crítica rigorosa é preciso que desmascare impiedosamente os seus motivos ocultos, desejos inconscientes e tendências veladas. Os complexos que recamam a porção inferior da mente humana e não são reconhecidos nem nomeados respondem em parte pela incapacidade de apreender a verdade. Uma fase de maior importância durante essa atividade preliminar é, portanto, aquela em que se erradica esses parasitas mentais, expondo-os à poderosa luz da consciência.

Depois de aperceber-se dos processos secretos da sua mente e do funcionamento secreto dos seus desejos, o estudante irá descobrir que numerosas crenças falsas e distorções emocionais de há muito vinham atuando como poderosos empecilhos a uma conduta acertada e a uma nítida percepção da verdade. Descobrirá ser pesado o fardo das ilusões e racionalizações que carrega e que impedem a entrada do verdadeiro conhecimento. Somente através dessa compreensão plena daquilo que acontece nos bastidores da vida pessoal consciente poderá surgir a liberação a fim de preparar o advento de novos progressos no caminho derradeiro. As características mais íntimas deverão ser postas a nu, sem concessões de qualquer espécie, procurando-se com destemor compreender as mais amargas verdades a nosso próprio respeito. É preciso que nos vejamos tal como somos, expondo o eu ao eu. Essa é a delicada operação psicológica necessária para determinar, a fim de sejam suprimidas do processo do pensamento e da ação, todas as tendências, alucinações e racionalizações que impedem a entrada da verdade na mente ou que colocam a mente na trilha errada. Até que tais influências sejam determinadas através da análise e expostas através da perguntação não cessará a uma ação maléfica. Esses complexos surgem para dominar o homem e retardar o seu livre uso da razão. Compete-lhe humilhar-se desde o princípio, não hesitando em reconhecer que o seu caráter, tanto na fase franca como na oculta, é uma coisa deformada, aleijada e desequilibrada. Em suma, é preciso estudar um pouco de psicologia antes de abordar frutuosamente a filosofia. É preciso analisar as próprias emoções, examinar a interação entre sentimento e razão, perceber como são formados os conceitos das ideias e das coisas e atacar o problema da motivação inconsciente.

Quando, por exemplo, uma determinada ideia ressurge inapelavelmente a cada instante e acaba por converter-se numa obsessão, ela interfere com o livre curso do raciocínio e impossibilita com isso uma rigorosa reflexão filosófica. Ou quando um homem faz restrições mentais a determinados pontos de vista acerca de um assunto ou campo de interesse específico e não permite que suas faculdades ali operem em sua plenitude, sua mente ficará então dividida em dois ou mais compartimentos estanques, os quais jamais poderão interagir logicamente entre si. Poderemos ter então o espetáculo de uma credulidade completa num departamento e uma crítica racional no outro. A excelência deste último disfarçará os defeitos do primeiro. O problema não é a incapacidade de raciocinar adequadamente mas um complexo específico cuja interferência se faz sentir a uma dada altura. Uma vez mais, quando o auto-respeito ou o respeito humano exige que se façam concessões à razão, testemunhamos o curioso processo em que uma pessoa encontra para suas conclusões uma base em tudo diferente da real. Por essa forma ela ela se ilude a si própria e talvez aos outros através dessas racionalizações de desejos egoístas e preconceitos injustificáveis. Também constituem dificuldades as ilusões que assumem um caráter rígido a ponto de proporcionar à razão uma defesa inexpugnável. Sua persistência via de regra se registra no domínio das crenças políticas, religiosas, sociais ou econômicas.

Trata-se do que poderia ser chamado de moléstia da mente e, enquanto não forem curadas, impedirão o funcionamento normal daquelas faculdades que são chamadas a intervir quando nos empenhamos na procura da verdade. Pois determinam os processos do raciocínio e da ação.

Essa é a auto-revelação que aguarda o estudante. Ela não é agradável, mas se a pessoa tiver a coragem de aceitá-la como um remédio, mostrar-se-á purificadora. Não pode haver cura a menos que a pessoa se dê conta de que está enferma.

É difícil chegar a uma análise acurada por si mesmo, e aqui a ajuda — sempre que for possível — de um filósofo proficiente, vale dizer, um sábio, será de grande utilidade; mas tais homens são extremamente raros. O filósofo competente verifica, depois de um pouco de conversação, quais são os complexos atuantes numa pessoa, sem a necessidade de empregar os alentados e não raro fantásticos processos de psicanálise. Ademais, ele os verá com clareza muito maior que o analista, pois este decerto carrega uma carga de variados complexos desde que não se tenha submetido à disciplina filosófica! Um exame dessa natureza só pode ser eficazmente executado por alguém que do ponto de vista mental seja absolutamente livre

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)