“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

O intelecto e a Consciência Fundamental e Derradeira

Pode o intelecto penetrar de verdade em regiões que até aqui lhe estavam vedadas? Pode ajudar-nos a penetrar na consciência fundamental e derradeira? Oculta ele um poder de percepção desconhecido? Problema algum é obscuro a ponto de não poder ser esclarecido ou resolvido pela luz de uma concentração persistente em torno dele. O problema do eu do homem também pode ser solucionado em função de uma persistente concentração da mente em torno dele — e é o que acontece. Já disse que esse caminho começa por uma busca intelectual dirigida para dentro, pelo emprego de um intelecto aguçado mas auto-absorvido. Reflexões analíticas como as aqui citadas não apenas fornecem uma prova genuína da natureza espiritual do ego, como também propiciam um caminho que levará a mente reflexiva à compreensão da sua realidade oculta.

Devemos primeiro situar corretamente o intelecto na nossa natureza; ele é a ferramenta do eu, o meio através do qual o eu entra em contato com o mundo da matéria. O olho seria incapaz de ver se a mente não estivesse por detrás dele para vitalizar o seu funcionamento. O intelecto é a fase mais baixa e a razão a fase mais elevada de uma mesma mente. A matéria mental é na verdade um meio, o ele intermediário entre o eu e o corpo material, e, através deste elo do eu com o mundo material.  

Essa posição central entre ambas as esferas confere-lhe a sua importância e mostra o valor de se poder dominá-la por completo. Sem a matéria mental não poderíamos tomar consciência do meio ambiente, pois nesse caso o nosso corpo seria um cadáver inerte e inconsciente com todos os cinco sentidos fora de funcionamento.

Se, por essa razão, o poder do intelecto de propensão espiritual de conduzir o homem rumo à verdade é aqui louvado, deve-se compreender que o que se quer dizer é que tal poder pode indicar ao homem a direção certa no caminho da verdade.

Um pensamento dessa ordem não cairá num circulo vicioso mas ajudará verdadeiramente o estudante a chegar às fronteiras do Eu Superior, da mesma forma pela qual o roçar de uma corda acabará por sulcar a face de um parapeito de pedra. É preciso uma mente bem treinada e vigorosa para alcançar estas verdades. Os adolescentes mentais não poderão fazê-lo, mas há caminhos religiosos mais fáceis à sua disposição.

A mente, tal qual a conhecemos, isto é, a mente que cuida da existência rotineira, que nos capacita a calcular, organizar, dispor, escrever, trabalhar num escritório, ler os jornais e expressar nossos pontos de vista, ou até mesmo analisar compostos químicos, é capaz de atender a esses assuntos cotidianos com relativa eficiência, mas sai das suas profundezas quando tenta resolver problemas fora de seu âmbito. Contudo, em virtude do seu orgulho e arrogância inatos, ela se recusa a reconhecer suas limitações e exara opiniões sobre problemas espirituais e psíquicos (vale dizer extraordinários) que são inteiramente destituídos de fundamento e valor. Se tivesse humildade suficiente, compreenderia que se faz necessária uma certa dose de atividade mental para enfrentar devidamente esses problemas transcendentais, e se dedicaria primeiro a encontrar e desenvolver tal capacitação para depois atrever-se a opinar. Para tingir essa capacitação é preciso usar corajosamente a razão, não deter-se senão diante da Verdade Derradeira e seguir a trilha dos pensamentos desconhecidos até o extremo de suas conclusões desconhecidas. Mais do que isso, exige-se uma isenção de preconceitos e um desinteresse mundano difíceis de encontrar. E, por fim, exige-se uma capacidade de concentração e agudez intelectual que permitam lidar com as mais sutis abstrações. O valor das técnicas da Ioga convencional é que elas nos ajudam a desenvolver parte dessas qualidades, incrementando a impessoalidade, a tranquilidade mental, o poder de concentração e a capacidade de manter à distância as ideias, emoções e distrações aleatórias de todo tipo, de modo que a verdade acerca do assunto meditado se mostre com maior clareza. Mas tais técnicas não desenvolvem uma razão mais atilada e arguta nem a capacidade de uma reflexão analítica prolongada, e aqui um adestramento científico, matemático ou filosófico assume o valor máximo. É na junção dos métodos de aquietação e apuro da mente que florescem as qualidades certas para a descoberta da Verdade. Cada qual desses métodos é incompleto sem o outro, e, por isso, só pode levar à verdade parcial. O sistema aqui apresentado objetiva combinar a ambos.  

Assim, através de um processo de descasque e despojamento, por assim dizer, a análise do eu chegou ao ponto de reconhecer a existência do ego como uma entidade cujas manifestações encerram misteriosa transitoriedade, e como uma entidade capaz de viver, mover-se e SER independentemente do corpo físico, das emoções e do intelecto, quando estes são encarados do ponto de vista do eu destituído de qualquer conteúdo ou expressão. Ainda que a investigação o tenha eliminado das suas supostas moradas, ainda que o eu pesquisado continue a nos enganar, ainda assim sabemos que ele existe; SENTIMOS QUE NOSSA EXISTÊNCIA É REAL, muito mais real do que qualquer outra coisa.

É preciso agora levar o nosso pensamento ainda além do âmbito das experiências costumeiras e começar a encarar a possibilidade de examinar esse ego tal qual ele realmente é, desembaraçado dos pensamentos e sentimentos e sem as peias do invólucro carnal. Poucos, se é que alguém o faz, chegam a tentar essa possibilidade, e, no entanto, é esse o caminho ao longo do qual podemos encontrar a verdade real acerca de um homem, bem como o alívio para numerosos fardos que nos afligem a alma em decorrência da ignorância da nossa verdadeira natureza íntima.

O efeito de tais reflexões analíticas, quando trazidas a este plano e amplamente compreendidas, é criar uma espécie de amanhecimento revolucionário na mente, promover a passagem da noite escura para a luminosa alvorada. Pois o mistério do eu principia agora a estender-se até horizontes ilimitados. As possibilidades de uma vida mais espaçosa que parecem abrir-se produzem uma sensação semelhante a um frêmito de medo e expectativa. Via de regra a mente está presa ao corpo e somente quando libertada de seu cativeiro pode esperar a aurora de uma vida mais elevada.   

Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior     
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)