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domingo, 22 de abril de 2018

Pode a mente estar totalmente livre?

Para se compreender completamente uma coisa, trivial ou importante, tem de se lhe dar uma atenção total, desbloqueada e livre. De outro modo não é possível compreender — especialmente aquelas coisas que requerem cuidadoso estudo e intimo conhecimento. Para se prestar atenção tem de haver liberdade; se assim não for a atenção não é possível. Não podemos dar-nos completamente a uma determinada coisa se não estamos livres. E para compreender essa coisa extraordinária a que se chama Verdade — simples e ao mesmo tempo complexa — temos de dar-lhe essa atenção sem bloqueios. E, como disse, a liberdade é essencial. Porque a Verdade não pertence a nenhuma religião, a nenhum sistema, nem pode ser encontrada em livro algum. Não podemos aprendê-la de outro, nem a ela ser levados por outro. Temos de compreendê-la inteiramente e de entregar-nos a ela assim, temos de chegar à Verdade livres, descondicionados e num estado em que a mente se compreende a si mesma, libertando-se de toda a ilusão.

A liberdade — ser livre — está a tornar-se cada vez mais difícil. À medida que a sociedade vai sendo mais complexa, e a industrialização se torna mais vasta, mais profunda e mais organizada, há cada vez menos liberdade para o homem. Como se pode observar, quando o Estado se torna todo-poderoso ou quando ele alcança bem-estar social, preocupação desse Estado com os cidadãos é tão completa que há cada vez menos liberdade exterior. E exteriormente a pessoa torna-se escrava da sociedade, da pressão da sociedade; nesta pressão da existência organizada, a existência tribal deu lugar ao controlo centralizado, organizado, industrializado. Há cada vez menos liberdade exterior. Onde há mais “progresso” há menos liberdade. Isto é evidente, é um fato observável em toda a sociedade que se torna mais complexa, mais organizada.

Assim, exteriormente há a pressão do controle, a moldagem da mente do indivíduo — tecnologicamente, industrialmente. Sendo exteriormente tão constrangida, a pessoa tende naturalmente a entrincheirar-se psicologicamente, interiormente, cada vez mais, num determinado padrão de existência. Isto é também um fato evidente.

Assim, para quem é bastante sério para investigar se há, de fato, uma Realidade, para descobrir o que é a Verdade — a Verdade não construída pelo homem; com o seu medo, o seu desespero; a Verdade que não é uma tradição, uma repetição, um instrumento de propaganda — para se descobrir isso, tem de haver completa liberdade. Exteriormente, poderá não existir liberdade, mas interiormente, tem de haver absoluta liberdade.

Compreender esta questão da liberdade é das coisas mais difíceis. Não sei se já refletistes profundamente sobre isso. Ainda que já tenhais pensado no assunto, sabeis o que significa ser livre? Por liberdade não entendo uma libertação abstrata, ideal — isso é demasiado teórico e distante, pode não ter qualquer realidade; pode ser uma invenção de uma mente cheia de desespero, de medo, de agonia, que construiu verbalmente, intelectualmente, um modelo, na esperança de alcançar um determinado estado verbal, mas isso não é uma realidade. Não estamos a falar de liberdade como uma abstração mas como uma realidade; falamos da liberdade cotidiana, interior, em que psicologicamente não há sujeição a coisa alguma. Será isso possível? Teoricamente, idealmente, talvez seja possível. Mas aqui não nos interessam ideias, nem teorias, nem esperanças de tipo religioso e especulativo; só nos interessam fatos.

Psicologicamente, interiormente será possível a mente estar totalmente livre? Exteriormente, pode-se ir para o emprego todos os dias, pertencer a uma certa categoria de pessoas, a uma determinada sociedade, etc. — isso é inevitável, é absolutamente necessário para ganhar a vida. Mas deverão as tensões e as pressões do condicionamento exterior, do ajustamento externo ao padrão de uma determinada sociedade — deverá isso dominar a psique, todo o mecanismo do nosso pensamento? E haverá realmente completa liberdade psicológica? Porque sem liberdade, sem absoluta liberdade psicológica, nenhuma possibilidade existe de descobrir a Realidade, de descobrir o que é Deus — se tal ser existe. A liberdade é absolutamente necessária mas a maioria de nós não deseja ser livre — esta é a primeira coisa que temos de reconhecer.

Assim, será possível estarmos psicologicamente livres, de modo a podermos descobrir, por nós mesmos, o que é a Verdade? Porque no próprio mecanismo ou no próprio ato de compreender o que é a Verdade, ficamos capazes de ajudar o nosso semelhante; de outro modo, não podemos ajudar; de outro modo criamos mais confusão, mais sofrimento para o homem — o que, aliás, é óbvio, como mostram todas as coisas que estão a acontecer.

A verdade que é comunicada por outro, que é descrita ou ensinada por outro — por muito sábio ou inteligente que seja — não é Verdade. Somos nós que temos de ir descobri-la, de compreendê-la. Retiro a expressão “ir descobri-la” — não podemos “ir descobrir” a Verdade; não podemos pôr-nos à procura, consciente e deliberadamente, para a encontrar. Temos de encontrar inesperadamente a Verdade “no escuro”, desprevenidamente. Mas não podemos assim encontrá-la se, no íntimo, a nossa mente, a nossa psique, não estiver completa e totalmente livre.

Para descobrir qualquer coisa, mesmo no campo científico, a mente tem de estar livre. Tem de estar descondicionada para ver o que é novo. Mas, em geral, infelizmente, a nossa mente não é fresca, nova, inocente — para ver, observar, compreender. Estamos cheios de experiências, não só das experiências que acumulamos recentemente — com “recentemente” quero dizer nos últimos cinquenta ou cem anos — mas também da experiência humana imemorial. Estamos confusos e bloqueados por tudo isso, que constitui o nosso conhecimento, consciente ou inconsciente; o conhecimento consciente é o que adquirimos através da instrução que recebemos neste mundo moderno, no nosso tempo.

Ora, é importante, quando estais a ouvir estas palavras, que escuteis realmente. Penso que há diferença entre escutar e ouvir. Podemos ouvir palavras e interpretá-las, dando-lhes o nosso próprio significado ou o significado segundo um certo dicionário, e ficar ao nível da comunicação puramente verbal. E quando se ouvem palavras dessa maneira, intelectualmente, há concordância ou discordância. Prestemos um pouco de atenção a isto, por favor. Não estamos a trocar opiniões. Não estamos a investigar dialeticamente a verdade de opiniões. Estamos a investigar, a tentar compreender a Verdade — não a verdade de opiniões, não a verdade do que outros disseram. Se escutarmos — o que é inteiramente diferente de ouvir, apenas — então não há nem concordância nem discordância. Estamos realmente a escutar, para descobrir o que é verdadeiro e o que é falso — e isso não depende do nosso julgamento ou opinião, do nosso conhecimento, ou do nosso condicionamento.

Temos assim de escutar, se queremos ser verdadeiramente sérios. Se se deseja ser superficial, estar apenas entretido com um passatempo intelectual, também está certo. Mas se somos realmente sérios e sentimos a urgência de descobrir o que é a Verdade, temos de escutar. O ato de escutar não implica concordância ou discordância. E é essa a beleza do escutar. Então compreendemos totalmente. Se escutarmos aquele corvo, veremos que estamos a dar atenção tão completamente que não comparamos, que não interpretamos o som, como o som produzido por um corvo. Estaremos a escutar puramente o som, sem interpretação, sem identificação e, portanto, sem comparar. E assim o ato de escutar.

Ora, se estamos a comunicar verbalmente — e isso é o que nos é possível fazer — então temos não apenas de ouvir a palavra — isto é, a natureza e o significado dessa palavra — mas também de escutar, sem concordar ou discordar, sem comparar, sem interpretar, temos realmente de dar toda a atenção. Então, veremos, por nós mesmos, imediatamente, o significado de tudo o que a palavra liberdade implica. Pode-se compreendê-lo instantaneamente. A compreensão, o ato de compreender é imediato, quer aconteça amanhã ou hoje. O estado de compreensão é, portanto, intemporal; não é um mecanismo gradual, um mecanismo acumulativo.

Assim, não estamos só a comunicar verbalmente uns com os outros, mas estamos também, realmente, a escutar-nos uns aos outros. Estais a escutar-vos a vós mesmos, ao mesmo tempo que estais a ouvir este que vos está a falar. O que ele está a dizer não é importante, mas o que escutais é importante — vede, por favor, que isto não é um jogo intelectual. Porque é o ouvinte, cada um de vós, que tem de descobrir o que é a Verdade; é o ouvinte que tem de compreender toda a estrutura, toda a anatomia, toda a profundeza e plenitude da liberdade. O “orador” está apenas a comunicar verbalmente. E se estais só a ouvir as palavras e dizeis: “Essa é a sua opinião”, “Esta é a minha opinião”, “Concordo”, “Discordo”, “Foi isso que Buda ou Shankara disse” — então, vós e eu não estamos a comunicar. Então, estamos apenas a entreter-nos com opiniões — pelo menos vós estais. Assim, temos de ver com muita clareza, logo desde o começo, para que não estejamos só a ouvir a comunicação verbal — a palavra, o significado e a natureza da palavra — mas também a escutar.

Tendes assim uma dupla tarefa — ouvir as palavras e escutar. Naturalmente, a palavra que ouvis tem um significado e esse significado evoca certas respostas, certas lembranças, certas reações. Mas, ao mesmo tempo, tendes de escutar sem reação, sem opiniões, sem julgamento, sem comparação. A vossa tarefa é assim muito maior que a do “orador”, e não o contrário, que é aquilo a que geralmente se está habituado: o orador faz o trabalho todo e fica-se apenas a ouvir, a concordar ou discordar, e depois cada um vai-se embora muito animado e satisfeito, intelectualmente estimulado. Mas tal estado não tem qualquer valor — para isso também se pode ir a um cinema.

Mas, quando uma pessoa é verdadeiramente séria, essa seriedade exige uma atenção completa, uma atenção aprofundada, que vai até ao fim. Essa pessoa sabe certamente a arte de escutar. E se sabeis esta arte, não é preciso dizer mais nada. Então escutareis a voz do corvo, do pássaro, o sussurrar da brisa entre a folhagem; e escutar-vos-eis também a vós mesmos, os murmúrios da vossa mente, o vosso coração, e os sinais vindos do vosso inconsciente. Estareis então num estado de penetrante e intensa escuta e, portanto, já não andareis entretidos com opiniões.

Assim, se somos realmente sérios, escutamos dessa maneira; e precisamos de escutar assim. Porque, como disse, a liberdade é absolutamente necessária para a compreensão do que é a Verdade. Sem essa compreensão, a vida torna-se muito superficial, vazia, tornamo-nos meros autômatos. E no ato de compreender o que é verdadeiro — ou seja, no ato de escutar — a vida começa de maneira nova.

A nossa mente não tem frescura. A nossa mente já viveu milhares de anos — por favor não metamos nisto a reencarnação; se o fizermos não estaremos a escutar. Ao usar as palavras “milhares de anos” não me estou a referir só a “nós”, mas ao homem. Somos o resultado da existência milenar do homem. Somos uma consciência vastíssima; só que nos apropriamos de uma parte dela, construímos um muro à sua volta, confinamo-la, e agora dizemos “Isto é a minha individualidade”. E ao dizer “milhares de anos”, não estou a falar dessa clausura — essa clausura de arame farpado que, na maioria dos casos, cada um de nós é. Estou a falar daquele estado de consciência que é imenso, vasto, que tem passado por milhares de experiências e que está debaixo da crosta, do fardo, do peso da tradição, do conhecimento acumulado, de toda a espécie de esperança, de medo, desespero, ansiedade, agonia, avidez, ambição — não só a ambição dos que estão enclausurados, mas também a ambição do homem. Assim, as nossas mentes estão embotadas pelo passado — isto é, aliás, um fato psicológico; não se trata de uma opinião contra outra opinião.

Assim, com essa mente, com essa psique que tem passado por tantas experiências, que conserva todas as cicatrizes, todas as lembranças, todos os movimentos do pensamento, como memória — com essa mente é que vamos ao encontro da vida. E é com tudo isso que queremos ir ao encontro daquilo que desejamos descobrir — a Verdade. E não podemos, evidentemente.

Como em relação a qualquer outra coisa, temos de ter uma mente fresca, nova. Para olhar uma flor, ainda que a tenhamos visto muitíssimas vezes, para olhar essa flor de maneira nova, como se a estivéssemos a ver pela primeira vez na vida, temos de ter uma mente nova uma mente fresca, inocente, extremamente acordada. De outro modo, não a podemos ver — só vemos as lembranças que projetamos nessa flor, e não vemos lealmente a flor. Por favor, compreendamos isto.

Uma vez que tenhamos compreendido o ato de ver como um ato de escutar, teremos aprendido uma coisa extraordinária na vida, algo que nunca mais nos deixará. Mas a nossa mente está tão gasta, tão embotada, pela sociedade, pelas circunstâncias, pelos nossos medos e desesperos, por todas as desumanidades, pelos insultos e as pressões, que se tornou mecânica, insensível, entorpecida, indolente. E com essa mente queremos compreender; é evidente que não podemos.

Assim, a questão é: Será possível ficarmos livres de tudo isso? De outro modo, nem a flor seremos capazes de ver. Não sei se, quando vos levantais, de manhã cedo, vedes o Cruzeiro do Sul, o céu estrelado. Se já contemplastes realmente o céu — do que duvido — talvez tenhais olhado os astros, talvez conheçais os seus nomes e as posições. E depois de os terdes olhado alguns anos, alguns dias ou semanas, já vos esquecestes de as ver e apenas dizeis: “Aquele ali é Júpiter, Marte”, etc... Mas acordar de madrugada, olhar pela janela ou ir à rua para ver o céu como uma coisa nova, com olhos desnevoados, com uma mente desobstruída — só assim se pode compreender aquela beleza, aquela profundidade, e o silêncio que existe entre nós e aquilo. Só assim somos capazes de ver. E, para isso, temos de estar livres; não podemos trazer toda a carga da nossa experiência, para olhar.

A nossa pergunta é, então: Será possível estarmos libertos do conhecimento? Conhecimento é o que no passado se foi acumulando. Toda a experiência que se tem é imediatamente traduzida, guardada, registrada; e com esse registro vamos fazer face à experiência seguinte. Portanto, nunca compreendemos uma experiência; ficamos só a traduzir cada desafio de acordo com a resposta do passado e, assim, a fortalecer o registro. E o que acontece no cérebro eletrônico, no computador. Só que somos apenas uma pobre imitação desse maravilhoso instrumento mecânico chamado computador. Será possível sermos livres? De outro modo não poderemos descobrir o que é a Verdade — pode-se falar acerca dela incessantemente como os políticos citam o Gita.

Temos pois de investigar. E essa investigação não é meramente verbal, intelectual: é o estado da mente que está a escutar.

O conhecimento acumulado torna-se a nossa autoridade — sob a forma de tradição, de experiência, daquilo que se leu, daquilo que se aprendeu, e da autoridade reivindicada por aqueles que dizem que sabem. No momento em que uma pessoa diz que sabe, não sabe! A Verdade não é algo acerca do qual se possa ter conhecimento acumulado. Tem de ser percebida, de momento a momento — como a beleza de uma árvore, do céu, do pôr do sol.

Assim, o conhecimento torna-se a autoridade que guia, que molda, que encoraja, que dá força para continuar. Por favor, prestemos atenção a tudo isto, porque temos de compreender a anatomia da autoridade — a autoridade do governo, a autoridade da lei, a autoridade do polícia, a autoridade psicológica que é constituída pelas nossas próprias experiências e pelas tradições que nos foram transmitidas, consciente ou inconscientemente; tudo isso se torna o nosso guia, se torna um sinal de advertência quanto ao que “se deve fazer” e o que “não se deve fazer”. Tudo isso se encontra nos domínios da memória. E isso é realmente aquilo que somos. A nossa mente é o resultado de milhares de experiências com as suas lembranças e as suas cicatrizes, o resultado das tradições transmitidas pela sociedade e pela religião, e das tradições educativas. Com essa mente tão carregada de memória, tentamos compreender o que não pode ser compreendido por meio da memória. Precisamos, pois, de libertar-nos da autoridade.

Não sei se compreendeis o significado dessa palavra “autoridade”. O significado da palavra, em si, é o “originador”, aquele que origina algo novo. Reparai na vossa própria religião. Não sei se sois verdadeiramente religiosos — provavelmente não. Vai-se ao templo, murmura-se uma série de palavras, repetem-se certas frases — é a isso que se chama “ser religioso”. Vede que enorme peso de tradição os chamados “guias espirituais” e “homens santos” implantaram nas vossas mentes — tal como o Gitá e os Upanishads; Shankara e outros intérpretes do Gitá. Estes baseiam-se no Gitá, para o interpretar, e vós continuais a interpretar. Considerais essa interpretação uma coisa muito extraordinária e chamais religioso ao homem que interpreta. Mas essa pessoa está condicionada pelos seus próprios medos; presta culto a uma imagem esculpida pela mão ou pela mente. Essa tradição é inculcada em cada um, não por uma propaganda recente, mas por uma propaganda de milênio — as pessoas aceitam-na, e isso molda o seu modo de pensar.

Sendo assim, se desejamos ser livres, temos de pôr de lado tudo isso — pôr de lado os “Shankaras”, os “Budas”, todos os livros e instrutores religiosos — para sermos nós mesmos, para podermos investigar. De outro modo, não poderemos saber a extraordinária beleza e significado da Verdade, e nunca saberemos o que é o Amor.

Assim, podereis vós, que fostes moldados por Shankara, por tantos “homens santos”, pelos templos, apagá-los a todas da vossa mente? Tendes de fazê-lo. Tendes de ficar completamente sós, desajudados, sem desesperar e sem nada temer; só então sereis capazes de investigar. Mas para apagar, para negar totalmente — em vez de dizer negativamente “Deixemos isso” — para negar completamente — temos de compreender toda a anatomia e estrutura, toda a essência de autoridade: temos de compreender o homem que procura a autoridade. Não podemos afastar da autoridade o homem que a deseja porque isso é o seu único refúgio, o seu pão de cada dia — como também o é do político, do sacerdote ou do “filósofo”.

Mas se queremos compreender essa coisa extraordinária chamada Verdade, não devemos aceitar a autoridade psicológica. Porque só a mente fresca, inocente, que é jovem e vibrante, pode compreender estas coisas, e não a mente que se deixa guiar pelo passado, que é moldada, enfraquecida e subjugada por ele. Ou uma coisa ou outra. Ou dizemos “Não é possível ficar-se livre do passado, deste conhecimento, desta autoridade que a mente procura, na sua pobreza, no seu desespero, para se apoiar; a mente nunca poderá ficar livre da autoridade, do passado, das coisas que aprendeu, adquiriu, acumulou”. Ou então dizemos que a mente e capaz de se libertar do passado. Mas temos de investigar; não podemos apenas dizer que a mente pode, ou não pode, ser livre; isso é apenas entretermo-nos com uma opinião, o que não tem nenhum valor temos de deixar isso aos “filósofos”. Se queremos descobrir, temos de investigar se isso é possível ou não; não podemos apenas aceitar ou negar.

Temos, pois, de aprender acerca do conhecimento e da autoridade. Quando estamos a aprender não há contradição, exatamente porque estamos a aprender. Mas se estamos só a adquirir conhecimentos, então não há contradição. Reparemos, nisto, por favor. Se estamos apenas a acumular conhecimentos, ficaremos em conflito, porque a coisa sobre a qual estamos a adquirir conhecimentos é uma coisa viva, que se move, que muda; e, portanto, entre o que acumulamos e a realidade, há contradição. Mas se estamos a aprender sobre ela, então a contradição não existe, portanto não há conflito. Assim, a mente que está a aprender está a enriquecer-se de energia, porque não a dissipa num estado de conflito. Mas quando a mente está a acumular e a adicionar, olhando e observando com base no conhecimento acumulado, então há contradição, então há conflito e, portanto, dissipação de energia.

Assim, o homem que aprende não tem conflito, mas o homem que está apenas a acumular informação, para viver segundo um determinado padrão, estabelecido por ele próprio ou pela sociedade a que pertence, ou por alguma personalidade religiosa, seja ela quem for — esse homem está em contradição e, portanto, em conflito.

E, como dissemos noutro dia, o conflito é a própria essência da desintegração. O conflito não surge apenas do passado, mas também em relação ao presente. Surge também quando temos ideias — que devemos ser isto ou aquilo, que devemos estar em tal ou tal estado — ideais “maravilhosos”, “nobilitantes”. É muito importante compreender a natureza de um ideal. O ideal não é a realidade. Uma ideia projetada pela mente que está em conflito torna-se um ideal, segundo o qual essa mente “deveria” viver; e, portanto, a mente continua em conflito, em contradição. Mas a mente que está a escutar um fato, não um ideal — essa mente não está em conflito, está a mover-se de fato para fato. Portanto, uma mente assim encontra-se num estado de energia. E sem essa energia não podemos ir muito longe; estamos a dissipá-la em contradições, na luta para nos tornarmos “aquilo” e não “isto”.

Temos assim de observar, de escutar, de ver o fato — o que é — e de ficarmos com o fato. E isto é extraordinariamente difícil.

E claro que nunca refletistes sobre tudo isto, ou então nada disto vos acontece naturalmente, tal como as chuvas caem do céu. Provavelmente estais a ouvir estas coisas pela primeira vez, ou lestes alguma coisa a este respeito. Como este “orador” tem falado sobre isto muitas vezes, direis: “Lá volta ele às mesmas coisas”. Mas se estais a escutar, se percebeis a intenção do “orador”, vereis então o fato, isto é, que o que tendes é conhecimento acumulado, e ficareis com esse fato, não fugireis dele. O fato é que sois o passado em relação com o presente; o passado poderá ser modificado, alterado, mas estais ainda a mover-vos, a existir, sempre no passado.

Então, que entendemos por “ficar com o fato”? Ficar, ou viver, com o fato, não é aceitá-lo, nem é negá-lo, mas escutá-lo — escutar todos os seus subtis movimentos, as indicações que diretamente nos dá, as perguntas, as respostas a que ele leva; não é negá-lo, porque não se pode negar um fato — se o fizermos poderemos acabar num hospital de alienados. É isto, pois, o que realmente significa observar o fato e viver com ele.

Ora, quando vivemos com alguma coisa ou pessoa — com a nossa mulher, com os nossos filhos, com uma árvore, com uma ideia que temos — ou nos acostumamos tanto a ela que ela “deixa de existir”, ou vivemos realmente com ela, dando-lhe inteira atenção. No momento em que nos acostumamos a uma coisa, tornamo-nos insensíveis. Se me acostumo àquela árvore, sou insensível a ela. Se sou insensível à árvore, sou também insensível à sujidade, insensível às pessoas, insensível a tudo.

Pelo contrário, estar atento a uma coisa é não ficar habituado a ela, não ficar acostumado, insensível — à sujidade, à miséria, à família, à mulher, aos filhos. Para não nos habituarmos a uma coisa é preciso ter muita atenção e, portanto, muita energia. Espero que estejais a entender isto.

Assim, a mente que quer compreender o que é verdadeiro tem de compreender, mas não de modo idealista, todo o significado do que é a liberdade. A liberdade não é uma libertação a alcançar em algum mundo celestial, mas sim a liberdade cotidiana, que é estar livre do ciúme, do apego, da competição, da ambição — que significa o mais: “Tenho de ser melhor”; “sou isto e tenho de me tornar aquilo”. Mas quando observamos o que somos, não há então o tornarmo-nos alguma coisa mais, além daquilo que somos; então, há uma transformação imediata de aquilo que é.

Sendo assim, a mente que deseja ir muito longe tem de começar pelo que está muito perto. E não podemos ir muito longe se ficamos meramente a verbalizar acerca de algo que o homem cria e a que chama Verdade ou Deus. Temos de começar pelo que está muito perto, para lançar a base correta. E, precisamente, para lançar essa base tem de haver liberdade. Temos pois de ter a nossa base na liberdade, e em plena liberdade — e então já não será uma “base”; será um movimento, e não uma coisa estática.

Só quando a mente compreende a extraordinária natureza do conhecimento, da liberdade e do aprender, é que o conflito cessa; só então a mente se torna perfeitamente lúcida e precisa. Não fica presa em opiniões e pareceres; encontra-se num estado de atenção e, portanto, num estado de completa energia e completo aprender. Só quando a mente está tranquila é capaz de aprender — que não significa “aprender a respeito de quê?”. Só essa mente serena pode aprender, e o importante não é “a respeito de quê” ela aprende, mas sim o estado de aprender; o estado de silêncio em que ela está a aprender.

Krishnamurti, Madrasta, 15 de janeiro de 1964,
O despertar da sensibilidade

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Enquanto há apego, não há liberdade


Enquanto há apego, não há liberdade

[...] Penso que todos nós estamos cientes das extraordinárias transformações exteriores ocorrentes no mundo, mas são bem poucos os que se transformam intimamente. Ou seguimos um certo padrão de pensamento estabelecido por outrem, ou criamos nossa própria estrutura ideológica, dentro da qual ficamos funcionando. E a maioria de nós acha dificílimo libertar-se desse padrão “conceitual”. Vivemos passando de conceito para conceito, de ideia para ideia, e pensamos que esse movimento é transformação; mas, como qualquer um pode ver se o observar atentamente, isso, em verdade, não é transformação nenhuma. O pensamento não pode produzir transformações profundas. O pensamento pode ser a causa de certos ajustamentos superficiais, poderá criar um novo padrão e a ele se ajustar, mas interiormente não se verifica nenhuma transformação significativa: somos, e provavelmente continuaremos a ser, o que sempre fomos. Esses ajustamentos exteriores correspondem sempre à nossa instabilidade interior, nossa interior incerteza, nosso interior sentimento de medo, e à nossa ânsia de fugir dos recantos escuros e inexplorados de nossa mente.

[...] Nesta manhã desejo examinar uma coisa que sinto ser muito importante, mas penso que primeiramente devemos compreender que o movimento exterior e o movimento interior da vida são essencialmente a mesma coisa. Importa não dividirmos esse movimento em “mundo exterior” e “mundo interior”. Ele é idêntico à maré, que vai para muito longe e retorna, sempre profunda. É quando dividimos esse movimento da vida em “exterior” e “interior”, “material” e “espiritual”, que começam todos os conflitos e contradições. Mas, se experimentamos verdadeiramente esse movimento como um processo unitário, incluindo tanto o “interior” como o “exterior”, então não há conflito. O movimento interior já não é, então, uma reação ao “exterior”, uma fuga ao mundo e, portanto, não precisamos retirar-nos para um mosteiro ou para o isolamento de uma torre de marfim. A o compreendermos o significado do “exterior”, o movimento interior deixa de ser o oposto do exterior; não é então, uma reação e, portanto, pode penetrar mais profundamente. Julgo, pois, ser esta a primeira coisa que cumpre compreender: que não podemos separar o interior do exterior. Trata-se de um processo unitário, e há grande beleza no perceber a sua indivisibilidade. Mas, para penetrarmos mais amplamente nesse mecanismo, precisamos compreender a natureza da humildade.

Em geral, não sabemos realmente o que significa ser humilde, ter o sentimento de humildade completa. A humildade não é uma virtude cultivável. No momento em que se cultiva a humildade, já não há humildade. Ou sois humilde, ou não sois. Para terdes o sentimento de completa humildade, deveis perceber esse movimento interior e exterior como um mecanismo único. Deveis compreender o significado da vida como um todo — a vida de sofrimento, de prazer, de dor, a vida que busca perpetuamente um pouso, que busca algo a que chama “Deus” ou por outro nome qualquer. Tendes de compreender tudo isso, e não rejeitar uma de suas partes para aceitar outra. Compreender é achar-se num estado de pleno percebimento. Significa escutar, passivamente, vossa esposa, vosso marido, o vento entre as árvores, o murmúrio das águas que passam, significa ver as montanhas, estar inteirado de tudo. Nesse estado de percebimento objetivo, há uma compreensão do exterior e do interior como um movimento total, unitário, e com essa compreensão se apresenta o senso de humildade. A humildade é importante, porque a mente sem humildade não pode aprender. Poderá acumular conhecimentos, reunir mais e mais informações, mas conhecimento e informações são coisas superficiais. Não sei porque tanto nos orgulhamos de nosso saber. Tudo se encontra em qualquer enciclopédia, e é estultícia acumular conhecimentos para satisfação de nosso orgulho e arrogância pessoal.

A humildade, pois, não é uma coisa que se deve alcançar com esforço. Alcançá-la-eis naturalmente, facilmente, “graciosamente”, uma vez percebido como um mecanismo total esse movimento do exterior e do interior. Então, começareis a aprender. Aprender é o estado da mente que jamais acumula experiência como memória, por mais agradável que seja a experiência; é o estado da mente que nunca evita um pesar, uma frustração. Ela se acha sempre num “estado de aprender”, de humildade. E vereis que da humildade provém a disciplina. Em maioria, não somos disciplinados. Submetemo-nos, ajustamo-nos, imitamos, reprimimos, sublimamos, mas nada disso é disciplina. Submissão não é disciplina e, sim, meramente, um produto do medo; por conseguinte, torna a mente estreita, estulta, embotada. Refiro-me a uma disciplina que existe espontaneamente quando há esse extraordinário senso de humildade e, por conseguinte, nos achamos num “estado de aprender”. Não é então necessário impor à mente nenhuma disciplina, porquanto o “estado de aprender” é, em si mesmo, uma disciplina.

Espero estar explicando isso bem claramente. Não falo da disciplina mecânica do soldado, que é exercitado para matar ou ser morto, nem da disciplina da técnica. Os escritórios, oficinas, fábricas, laboratórios e as diversas profissões técnicas requerem eficiência e, a fim de funcionar eficientemente num dado trabalho, a pessoa se disciplina, para corresponder ao padrão estabelecido. Não me refiro a nada disso. Refiro-me a uma disciplina completamente diferente, uma disciplina que nasce espontaneamente quando se compreende esse extraordinário mecanismo da vida, não em fragmentos, mas como um todo indiviso. Quando vos compreendeis, não “especializado” como músico, artista, orador, iogue, etc., mas como ser humano total, então, como resultado dessa autocompreensão, há um “estado de aprender”, e ele constitui uma disciplina isenta de ajustamento, imitação. A mente não está sendo moldada de acordo com nenhum padrão e, portanto, é livre, e nessa liberdade há um espontâneo senso de disciplina. Acho importante compreender isso, porquanto, para a maioria de nós, liberdade significa fazer tudo o que desejamos, ou obedecer aos nossos instintos, ou seguir o que, infelizmente, chamamos “nossa intuição”. Mas nada disso é liberdade.

Liberdade significa esvaziar a mente do conhecido. Não sei se já alguma vez o tentastes, vós mesmo. O relevante é libertarmos a mente do conhecido, ou, melhor, que a mente se liberte do conhecido. Isso não significa que a mente deva libertar-se do conhecimento “fatual”, pois em certo grau necessitamos desse conhecimento. É claro que não deveis libertar-vos do conhecimento do lugar onde residis, etc. Mas a mente pode libertar-se do seu fundo de tradição, de experiências acumuladas, e dos vários impulsos conscientes e inconscientes que representam reações daquele fundo; e ficar completamente livre desse fundo significa rejeitar, pôr de lado, morrer para o conhecido. Se assim fizerdes, descobrireis por vós mesmo quanto é realmente significativa a liberdade.

Falo de uma total liberdade interior em que não há dependência psicológica, nem apego de espécie alguma. Enquanto há apego, não há liberdade, porque o apego implica sentimento de íntima solidão, vazio interior, o qual exige um estado de relação exterior em que amparar-se. A mente livre não é apegada, embora possa ter relações. Mas não pode nascer a liberdade, se não há aquele “estado de aprender” que traz consigo uma profunda disciplina interior, não baseada em ideias nem em nenhum padrão “conceitual”. Quando a mente se liberta constantemente pelo morrer de instante em instante para o conhecido, daí provém uma disciplina espontânea, uma austeridade nascida da compreensão. A verdadeira austeridade é uma coisa maravilhosa; não é a seca disciplina, e sem nenhum valor, da renúncia destrutiva, que em geral imaginamos.

Não sei se já alguma vez experimentastes esse extraordinário sentimento de “ser completamente austero” — coisa que nada tem em comum com a disciplina de controle, ajustamento, submissão. E essa austeridade deve existir, porque, nela, há grande beleza e intenso amor. Nessa austeridade há paixão; ela só se apresenta ao existir solidão interior.

Agora, penso que é preciso perceber bem a diferença entre “isolamento” e “solidão”. Em regra, conhecemos a “solidão do isolamento” sempre que nos tornamos conscientes de nós mesmos. Talvez já tenhais conhecido a experiência de vos sentirdes subitamente isolado de tudo, de não estardes em relação com coisa alguma. Podeis achar-vos no meio de uma multidão, ou no círculo da família, ou numa reunião social, ou ainda passeando a sós pela margem de um rio, e subitamente vos vem um sentimento de completo isolamento. Esse sentimento de isolamento é essencialmente um “estado de medo”, e ele sempre existe, emboscado no segundo plano da mente. Desse medo procuramos fugir constantemente, fazendo coisas de todo gênero: lendo um livro, ouvindo o rádio, vendo televisão, bebendo, procurando mulheres, voltando-nos à busca de Deus, etc. É desse isolamento e por temermos isolar-nos que decorrem todas as nossas ações e reações. “Isolamento” é coisa completamente diferente de “solidão”.

A mente que se vê isolada, e com medo, está à mercê de inumeráveis influências; como um pedaço de barro, ela é maleável, pode ser modelada, ser forçada a ajustar-se a um molde. Mas, solidão é a mente livre de qualquer influência: influência da esposa, do marido, da tradição, da igreja, do Estado. Ela significa estar libertado da influência de leituras e das próprias e inconscientes exigências. Por outras palavras, solidão é a completa libertação do passado. É o “estado de aprender” que surge quando a mente compreende o mecanismo total da vida; daí vem uma disciplina que não é a disciplina da Igreja, ou do exército, ou do especialista, ou do atleta, ou do homem que cultiva o saber. É a disciplina nascida de um profundo senso de humildade; e não pode haver humildade, se a mente não está completamente só.

O que até agora se disse é razoável, lógico, são, saudável, e se compreendemos as palavras e lhes aprofundamos o sentido, não terá havido dificuldade em apreenderdes os dizeres do orador. Mas é necessário mais, muito mais do que isso. O exposto semelha o lançamento dos alicerces de uma casa — só os alicerces, e nada mais. Mas esses alicerces precisam ser lançados, e lançados com ardor, intensidade, beleza e, por conseguinte, com amor. Não podem ser lançados sob o impulso do desespero, do conflito, ou do desejo de alcançar um certo e estulto resultado, porque então a mente não se acha num estado livre do conhecido, do passado.

Não sei se já alguma vez notastes como acumulais, como vossa mente se aferra a inumeráveis e insignificantes experiências. A mente fornece o terreno no qual as experiências passageiras cravam raízes e continuam a moldá-la. Quase toda experiência deixa sua marca, e a experiência, por conseguinte, só pode perpetuar a limitação da mente. Mas, após lançar os alicerces corretos, pela percepção e compreensão de que esse mecanismo constitui sua própria limitação, a mente — com toda a facilidade, sem conflito algum — se liberta do “conhecido” e nasce, daí, um movimento que é criação.

Na maioria, buscamos Deus, e nosso Deus é uma mera questão de crença. A palavra God (Deus) escrita às avessas é dog (cachorro), e esta última serve tão bem como a primeira para designar aquilo que chamamos Deus. Mas, fomos educados, desde a meninice, para aceitar aquela palavra; e a religião organizada com sua milenária propaganda, condiciona a mente para crer naquilo que se supõe que a palavra representa. E aceitamos tal crença com tanta facilidade, exatamente como no mundo comunista aceitam a crença de que não há Deus, porque nessa crença foram eles educados. Esse é um outro gênero de propaganda. O crente e o não crente são iguais, porquanto ambos são escravos da propaganda.

Ora, para descobrirdes se há ou não há Deus, deveis destruir, em vós mesmos, tudo o que seja produto de propaganda. O que hoje chamamos “religião” foi organizado, formado durante séculos pelo homem, com seu medo, sua avidez, sua ambição, sua esperança e desespero. E para descobrir se há ou não há Deus, a mente deve destruir totalmente, sem nenhum motivo, todas as acumulações do passado; deve eliminar radicalmente todas as crenças e descrenças e desistir completamente de buscar. Deve a mente estar vazia do “conhecido”, vazia do Salvador, vazia de todos os deuses manufaturados pelo pensamento e esculpidos na madeira ou na pedra. Só quando livre do conhecido, pode a mente encontrar-se num estado de absoluta tranquilidade, não provocada por uma certa maneira de respirar, por exercícios, artifícios, drogas. E precisamos chegar até esse ponto — que na realidade não está longe, pois não há distância nenhuma para percorrer. Mas, para se abolir a distância, o tempo deve cessar; e só pode cessar o tempo, quando há o conhecimento de nós mesmos como realmente somos, fato por fato. Nesta extraordinária liberdade, que começa com a autocompreensão, há um movimento — um movimento imensurável, que supera todos os conceitos. Esse movimento é criação; e quando a mente chegar a esse movimento, descobrirá, por si própria, que o amor, a morte e a criação são a mesma coisa.

Krishnamurti, Saanen, 12 de agosto de 1962,
O homem e seus desejos em conflito

A liberdade do mecanismo formador de hábitos


A liberdade do mecanismo formador de hábitos

[...] Psicologicamente, não pode haver nenhuma liberdade se não for compreendido inteiramente o mecanismo defensivo do pensamento. E a liberdade — que não é reação a alguma coisa, nem tampouco significa o oposto de não-liberdade — é essencial, porque só em liberdade podemos fazer descobrimentos. Só a mente livre pode perceber o verdadeiro.

A verdade não é uma coisa que tem continuidade e que pode ser mantida pela prática ou a disciplina, porém algo perceptível num clarão. Esse percebimento da verdade não ocorre por meio de nenhuma forma de pensar condicionado e, por conseguinte, é impossível ao pensamento imaginar, conceber ou formular o verdadeiro.

Para se compreender integralmente o que é verdadeiro, necessita-se de liberdade. Para a maioria de nós, a liberdade é apenas uma palavra, ou uma reação, ou uma ideia intelectual de que nos servimos como fuga à nossa escravidão, nosso sofrimento, nossa entediante rotina diária; mas isso de modo nenhum é liberdade. A liberdade não se obtém por meio de busca, pois não se pode procurar a liberdade — ela não é para ser achada. Só vem a liberdade quando compreendemos a totalidade do mecanismo da mente que cria suas próprias barreiras, suas próprias limitações, suas próprias projeções, provindas de um fundo condicionado e condicionante. Muito importa à mente religiosa compreender o que se encontra além da palavra, além do pensamento, além de toda experiência; e para compreender o que transcende qualquer experiência, para “ficar com isso”, vê-lo com profundeza, num clarão, a mente deve ser livre. Sobre tudo isso já falamos e vimos como a ideia, o conceito, o padrão, a opinião, o juízo, ou qualquer disciplina formulada, impede a liberdade de espírito. E essa liberdade traz sua própria disciplina — que não é a disciplina do conformismo, da repressão ou ajustamento, porém uma disciplina não produzida pelo pensamento, por um motivo.

Decerto, num mundo confuso onde há tanto conflito e sofrimento, urge compreender que a liberdade é o requisito primordial da mente humana — e não o conforto, não o passageiro momento de prazer ou a continuidade desse prazer: uma liberdade total, pois só desta pode surgir a felicidade. Porque a felicidade não é um fim em si; como a virtude, ela deriva da liberdade. A pessoa livre é virtuosa; mas o homem que apenas pratica a virtude pelo ajustar-se ao padrão social nunca saberá o que é liberdade e, por conseguinte, jamais será virtuoso.

[...] liberdade não é uma coisa para ser buscada; não resulta de pensamento ou de anseios emocionais, histéricos. A liberdade vem sem ser buscada, quando há plena atenção. A atenção total é a qualidade própria de uma mente que não tem limites, não tem fronteiras e, por conseguinte, é capaz de receber toda e qualquer impressão, de ver e ouvir todas as coisas. E isso é possível, não é algo sobremodo difícil. Só é difícil porque nos achamos senhoreados pelos hábitos...

A maioria de nós tem hábitos inúmeros. Temos hábitos e idiossincrasias, de ordem física, e ao mesmo tempo hábitos de pensamento. Cremos nisto e não cremos naquilo; somos patriotas, nacionalistas; pertencemos a um certo grupo ou partido e observamos tenazmente o seu especial padrão de pensamento. Todas essas coisas se tornam hábitos; e a mente gosta de viver mergulhada nos hábitos, porquanto os hábitos dão-nos certeza, sentimento de segurança, sentimento de não temermos. Uma vez firmada numa série de hábitos, a mente parece funcionar um pouco mais livremente, mas na realidade ela é irrefletida, desatenta.

[...] observai, como num espelho, a vossa própria mente, para verdes quanto está enredada em seus hábitos. Os hábitos, que dão o sentimento de segurança, só podem tornar a mente embotada; por mais sutis que eles sejam, e quer estejamos cientes deles, quer não, eles invariavelmente obscurecem a mente. Isso é um fato psicológico; quer gosteis, quer não, é isso que acontece.

Em parte devido a nossa educação escolar, em parte devido ao condicionamento que a sociedade psicologicamente nos impõe, e também em virtude de nossa própria indolência, a nossa mente funciona numa série de hábitos. Se não aprovamos determinado hábito de que estamos conscientes, lutamos para quebrá-lo, e quando quebramos um hábito formamos outro. Parece não haver momento em que estejamos livres do hábito. Se vos observardes, vereis quanto vos é difícil não vos enredardes no hábito.

[...] mediante conflito ou resistência podeis eliminar um certo hábito, mas isso não liberta vossa mente do mecanismo formador de hábitos; o mecanismo que os cria não deixa de existir. E eu estou falando, não como livrar-nos de determinado hábito, porém sobre o deixarmos de criar hábitos.

[...] O importante é dar-vos conta de todo esse mecanismo, sem resistir-lhe, sem rejeitá-lo, sem desejardes ficar livre dele — estando, apenas, inteirado de cada movimento inerente a esse hábito.

[...] quando se introduz o fator tempo, não há possibilidade de libertação do hábito. Ou de pronto quebramos um hábito, ou ele continua existente, embotando de maneira gradual a própria mente, criando-se com isso novos hábitos.

Observai vossos próprios hábitos e vossa atitude em relação a eles.

Temos hábitos de pensamento, hábitos sexuais — oh, uma infinidade de hábitos, que tanto podem ser conscientes como inconscientes; e é sobretudo difícil percebermos os hábitos inconscientes. Socialmente e na escola e no colégio, somos educados nesse elemento do tempo. Toda a nossa psicologia baseia-se no tempo...

Ora, é possível a mente libertar-se instantaneamente dessa ideia de “chegar gradualmente a uma parte”, de gradualmente transcender uma coisa, gradualmente tornar-nos livres? Para mim, a liberdade não é uma questão de tempo; não há nenhum amanhã, no qual ficaremos livres de um hábito ou adquiriremos uma certa virtude. E se não há nenhum amanhã, também não há medo. Há só um “viver completo” agora; o tempo deixou de existir completamente e, por conseguinte, não há formação de hábito. Com a palavra “agora” refiro-me ao presente imediato, e esse estado “imediato” não é uma reação ao passado nem um evitar do futuro. Há só o momento de total percepção, toda a nossa atenção está aqui, no agora. Ora, por certo, toda existência se acha no agora; quer experimenteis imensa alegria, quer intenso sofrer, seja o que for, tudo isso só acontece no presente imediato. Entretanto, por meio da memória, a mente acumula a experiência do passado e a projeta no futuro.

Conscientizai-vos de vossa própria mente; observai como é que ela opera, pois, assim, podereis ir muito longe.

Poderemos libertar-nos do passado? O passado, na realidade, é a essência do hábito, constituído de todos os conhecimentos, sofrimentos, insultos, das inumeráveis experiências que tivestes, não só individualmente, mas também racial e coletivamente. Precisais sair dessa estrutura do passado, psicologicamente, realmente, porque, do contrário, não há liberdade. Mas não podeis fazê-lo se existe, na vossa mente, a ideia da continuidade. Para a maioria de nós, a continuidade importa muito; mas, afinal de contas, a continuidade, nas relações, é simples hábito. É a continuidade do pensamento que sustenta as limitações da mente; e é possível destruirmos, “numa explosão”, essa ideia da continuidade e ficarmos livres do passado?

Se não estamos livres do pretérito, não há liberdade nenhuma, porque, assim, a mente nunca está nova, fresca, ilesa. Só a mente nova, “inocente”, é livre. A liberdade nada tem que ver com a idade da pessoa, nada tem que ver com a experiência; e quer-me parecer que a própria essência da liberdade reside na compreensão de todo o mecanismo do hábito, consciente e inconsciente. A questão não é de acabar com o hábito, porém, antes, de ver-lhe totalmente a estrutura. Deveis observar como se formam os hábitos e como, pela rejeição de um hábito ou pela resistência a ele, outro hábito se forma. O relevante é estardes totalmente apercebido do hábito; porque então, como vós mesmos vereis, já não há formação de hábitos. O resistir ao hábito, o combatê-lo, ou rejeitá-lo, só pode dar-lhe continuidade. Quando lutais contra um hábito, dais vida a ele e, também, o próprio batalhar contra ele se torna um novo hábito. Mas, se ficais simplesmente apercebido de toda a estrutura do hábito, sem resistência nenhuma, verificais então que estareis livre dele e que, nessa liberdade, ocorre uma coisa nova.

É só a mente embotada, sonolenta, que cria o hábito e a ele se apega. A pessoa atenta de momento em momento — atenta para o que ela própria diz, atenta para o movimento de suas mãos, de seus pensamentos, de seus sentimentos — deixa de formar hábitos. É muito importante compreender isso, porque, evidentemente, enquanto a mente está empenhada em quebrar um hábito e, com esse próprio “mecanismo” criando outro hábito, ela nunca poderá ser livre; e só a mente livre pode perceber algo além de si própria. Essa mente é religiosa. Quem se limita a frequentar a igreja, a recitar orações, a apegar-se a dogmas, ou a abandonar uma seita para ingressar noutra, não tem uma mentalidade religiosa, mas, simplesmente, entorpecida. Religiosa é a mente livre, e a mente livre acha-se num estado de constante “explosão”; e nesse estado de constante explosão há o percebimento daquela verdade que ultrapassa as palavras, o pensamento, e toda experiência.

Krishnamurti, Saanen, 31 de julho de 1962,
O homem e seus desejos em conflito

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Compreendendo o mecanismo do buscar


Compreendendo o mecanismo do buscar

DESEJARIA, se me é permitido, discutir convosco o problema da busca e o que significa ser "sério". Que queremos significar, quando dizemos que estamos buscando? As pessoas ditas religiosas estão supostamente em busca da verdade, de Deus. Que significa esta palavra? Não queremos a definição do dicionário, mas qual a natureza interior do buscar, o mecanismo psicológico respectivo? Acho que seria importante aprofundarmos bem esta questão; e deixai-me, mais uma vez, lembrar a todos os presentes que devem, através da descrição ou explicação verbal, "experimentar" realmente o que se está discutindo, porque do contrário a discussão muito pouco significará. Se apenas considerais estas palestras como uma coisa para ser registrada, como uma nova série de ideias, para ser acrescentada à vossa antiga série de ideias, elas nenhum valor terão.

Vejamos, pois, se nos é possível examinar juntos este problema real da busca, o que significa buscar. Pela busca, é possível achar algo novo? Porque buscamos, e que é que buscamos? Qual o motivo, o mecanismo psicológico que nos impele a buscar? Desse mecanismo ou motivo depende o que achamos. Porque procuramos a verdade, a felicidade, a paz, ou algo existente além de todas as criações mentais? Qual o impulso, o estímulo que nos impele a buscar? Sem a compreensão desse estímulo, a mera busca será muito pouco significativa, porque a coisa que estamos realmente buscando pode ser alguma espécie de satisfação sem nenhuma relação com a realidade. Mas, se pudermos descobrir todo o mecanismo desse mecanismo de busca, então é bem possível cheguemos a um ponto onde não há mais busca — e talvez seja esse o estado necessário para o aparecimento de algo novo.

Enquanto a mente está a buscar, é inevitável a luta, o esforço, baseados invariavelmente na ação da vontade; e a vontade, por mais requintada, é produto do desejo. A vontade pode ser o produto de muitos desejos integrados, ou de um único desejo, e essa vontade se expressa por meio da ação, não é certo? Quando dizeis que estais em busca da Verdade, atrás de todas as meditações e devoções e disciplinas impostas por essa busca está certamente a ação da vontade, do desejo; e quando buscamos o preenchimento do desejo, quando tentamos alcançar um estado mental tranquilo, encontrar Deus, a Verdade, ou aquele extraordinário estado de criação, começa a "seriedade".

Pode uma pessoa buscar, mas se lhe falta "seriedade", sua busca será dispersa, esporádica, desconexa. A "seriedade" acompanha sempre a busca, e é bem evidente que vos achais aqui porque sois "sérios". Numa tarde de domingo é muito agradável dar um passeio de barco, entretanto preferistes o incômodo de vir aqui, para escutar — e isso, talvez, porque sois "sérios". Descontentes com as ideias tradicionais e o habitual ponto de vista, estais a buscar, e esperais, escutando, achar algo novo. Se vos achásseis completamente satisfeitos com o que tendes, não estaríeis aqui. Por conseguinte, vossa presença nestas conferências indica que estais insatisfeitos; estais buscando alguma coisa, e vossa busca se baseia evidentemente no desejo de vos satisfazerdes, num nível mais profundo. A satisfação que estais a buscar é mais nobre, mais requintada, mas a vossa busca é ainda uma busca de satisfação. Isto é, desejamos achar a integração total do nosso ser, porque temos lido, ou ouvido, ou imaginado que esse é o único estado em que é possível a felicidade livre de perturbações, a paz eterna. Assim, tornamo-nos muito sérios, lemos, saímos à procura de filósofos, analistas, psicólogos, iogues, na esperança de encontrarmos esse estado integrado; mas o impulso, o motivo é ainda o desejo de realizar, de achar alguma espécie de satisfação, um estado mental que nunca seja perturbado.

Ora bem, se desejamos realmente investigar esta questão, a nossa investigação tem de basear-se, por certo, no pensamento negativo, que é a forma suprema do pensar. Não podemos investigar, quando nossa mente está presa a alguma diretiva ou fórmula positiva. Se aceitamos ou supomos alguma coisa, nesse caso nossa investigação é inútil. Só se pode investigar, buscar, quando há pensamento negativo, quando não seguimos nenhuma linha positiva de pensamento. Em geral, estamos convencidos de ser necessário o pensamento positivo, para que se possa descobrir o Verdadeiro. Por pensamento positivo entendo a aceitação da experiência de outros, ou nossas próprias experiências, sem compreendermos a mente condicionada que pensa. Propriamente falando, todo o nosso pensar está atualmente baseado no nosso "fundo" — a tradição, a experiência, o saber que temos acumulado. Acho que isso é bastante claro. O saber dá uma direção positiva ao nosso pensar e, seguindo essa direção positiva, esperamos encontrar a Verdade, Deus, ou o que quiserdes; mas o que realmente encontramos está baseado na experiência e no mecanismo de reconhecimento. Por certo, aquilo que é novo não pode ser reconhecido. O reconhecimento só ocorre através da memória; da experiência acumulada a que denominamos saber. Se reconhecemos uma coisa, essa coisa não é nova, e enquanto a nossa busca se basear no reconhecimento, tudo o que achamos é coisa já experimentada, procedendo portanto do "fundo", da memória. Reconheço-vos, porque já me encontrei convosco antes. Uma coisa totalmente nova não pode ser reconhecida. Deus, a Verdade, ou o que quer que seja que resulte da integração total de toda a nossa consciência, não é reconhecível, deve ser algo totalmente novo; e a própria busca desse estado implica um processo de reconhecimento, não achais?

Acho que o que estou dizendo não é tão difícil como parece. De fato, é muito simples. Quase todos desejamos achar alguma coisa — chamemo-la, por ora, Deus ou a Verdade — o que quer que isso signifique. Como podemos saber o que é a Verdade ou Deus? Sabemo-lo, ou porque temos lido a seu respeito, ou porque o experimentamos; e, quando essa experiência se apresenta, somos capazes de reconhecê-la como a Verdade, ou Deus. Esse reconhecimento só pode provir de nosso "fundo" de reconhecimento prévio, e portanto a coisa que foi reconhecida não é nova; consequentemente, não pode ser a Verdade, Deus. A coisa é o que pensamos que ela seja.

Assim, pois, estou a perguntar a mim próprio e espero estejais perguntando a vós mesmos, que coisa é essa que chamamos "busca". Já expliquei o que implica esse problema do buscar. Quando andamos de guru para guru, quando praticamos variadas disciplinas, quando sacrificamos, meditamos ou exercitamos a mente de alguma maneira, o impulso existente atrás de todo esse esforço, é o estímulo a encontrarmos alguma coisa, e o que se encontra tem de ser reconhecível, senão não poderia ser encontrado. Nessas condições, o que a mente acha só pode ser produto de seu próprio fundo, seu próprio condicionamento; e uma vez compreendido esse fato pela mente, a busca pode não ter tal significação, pode ter então um significado totalmente diferente. A mente pode então cessar de buscar, de todo — o que não significa que está aceitando o seu condicionamento, suas tribulações e misérias. Afinal de contas, foi a própria mente que criou essas misérias e quando a mente começa a compreender o seu próprio processo, é então possível realizar-se o outro estado, o que quer que ele seja, sem aquele esforço perene para "encontrar".

Agora, senhores, vamos discutir a questão. Ela representa um problema para vós, ou eu vos estou impondo este problema? Deveis ter observado quantos milhões de pessoas andam buscando, cada um seguindo determinado guru ou praticando determinado sistema de meditação; ou, ainda, andando de instrutor para instrutor, ingressando numa Sociedade, saindo dela e passando para outra, buscando incessantemente, buscando, buscando, buscando, o que naturalmente pode, afinal, tornar-se um jogo. Assim, pois, talvez já perguntastes a vós mesmos o que significa tudo isso. Ledes o Upanishads, ou o Gita, ou escutais uma palestra em que se dão certas explicações, em que se descrevem certos estados, e todos vos dizem: "Fazei isso, abandonai aquilo, e descobrireis o Eterno". Todos, num certo grau, estamos a buscar, intensamente ou de maneira moderada, e julgo importante averiguar o que significa essa busca. Podemos perguntar a nós mesmos, com toda a simplicidade e diretamente, se estamos a buscar, e, se estamos buscando, qual o móvel dessa busca?

INTERPELANTE: É a insatisfação.

KRISHNAMURTI: Estais bem certo de que isso é uma experiência vossa, e não de outra pessoa? Se for vossa própria experiência, então vossa busca está baseada no impulso dado pela insatisfação e, assim, o que fazeis, senhor?

INTERPELANTE: Andamos de guru em guru, até encontrarmos a satisfação. Mas, mesmo quando isso acontece, não sabemos o que irá acontecer no futuro. A insatisfação é nossa força propulsora, o estado em que passamos a nossa vida.

KRISHNAMURTI: E à medida que ides envelhecendo, vos ides tornando cada vez mais sério nessa busca; mas nunca investigastes se existe realmente uma coisa tal, como seja a satisfação.

INTERPELANTE: O homem está sempre sedento e deseja desalterar-se.

KRISHNAMURTI: Senhor, se continuásseis sedento depois de beber, não procuraríeis saber se é possível satisfazer a sede? E se a satisfação é apenas momentânea, porque então atribuir tanta importância aos gurus, aos sacrifícios, disciplinas, sandhanas, e tudo o mais? Porque vos fragmentais em seitas, criando conflito com vosso próximo e com a sociedade, só por causa de um efêmero conforto? Porque vos entregais ao hinduísmo, ao cristianismo, se isso só vos dá um alívio temporário? Podeis dizer: "Sei que tudo isso só dá alívio temporário, e não lhe atribuo muita importância". Mas, é verdade que, ao irdes ao vosso guru, lhe dizeis que só estais buscando um alívio temporário? Não deveis investigar a este respeito? E pode haver investigação quando o coração é obstinado? A obstinação do coração impede a investigação, não é verdade?

Comecemos daí. Se for obstinado em minha maneira de pensar — o que significa "ser positivo" — se minha mente está entregue a alguma forma de conclusão, opinião ou julgamento, estou realmente em condições de investigar? Dizeis que não. Todos concordamos, mas não está a nossa mente dominada por uma certa conclusão, uma certa experiência? A investigação, nessas condições, não só é tendenciosa mas também impossível.

Senhores, podemos conversar um pouquinho precisamente a respeito disso, devassando a nossa mente, rebuscando-lhe as profundezas, despertando, assim o autoconhecimento. Podemos averiguar se estamos dominados por alguma fórmula, conclusão ou experiência, a que nossa mente está apegada?

INTERPELANTE: Há sempre a esperança de acharmos a satisfação final.

KRISHNAMURTI: Vejamos, antes de tudo o mais, se nossa mente está entregue a uma dada experiência, uma dada conclusão ou crença, que nos está tornando obstinados, inflexíveis, no sentido profundo. Só quero começar daí, porque, como pode haver investigação, quando a mente é incapaz de ceder? Lemos o Gaita, a Bíblia, o Upanishads, tal ou tal livro, o qual deu uma certa tendência à nossa mente, uma certa conclusão a que ela ficou amarrada. Uma mente em tais condições é capaz de investigar? Não é isso que acontece com a maioria de nós, e não deve nossa mente ficar livre de todos os compromissos decorrentes de sermos hinduístas, teosofistas, católicos, ou o que mais seja, antes de podermos investigar? E porque não estamos livres dessas coisas? Quando temos compromissos e queremos investigar, não pode haver verdadeira investigação, mas tão somente uma repetição de opiniões, juízos, conclusões. Assim, nesta nossa palestra desta tarde, podemos largar todas essas conclusões?

Certamente, até os maiores cientistas têm de abandonar todo o seu saber, antes de poderem descobrir qualquer coisa nova; e se vós sois sérios, esse abandono do conhecimento, da crença, da experiência tem de efetuar-se realmente. Os mais de nós somos um tanto "sérios", quando se trata de nossas próprias conclusões, mas eu acho que isso de modo nenhum é seriedade. Não tem valor nenhum. O homem sério, sem dúvida, é aquele que é capaz de abandonar as suas conclusões porque percebe que só assim está capacitado para investigar.

INTERPELANTE: Podemos dizer que abandonamos as nossas conclusões; entretanto, elas tornam a surgir.

KRISHNAMURTI: Sabemos que nossas mentes estão ancoradas numa conclusão? Está a mente apercebida de que se acha dominada por determinada crença? Deixai-me, senhor, expressá-lo de maneira muito simples. Morre meu filho e me sinto desolado — e eis que se me apresenta a crença na reencarnação. Esta crença encerra muitas esperanças e promessas e, portanto, a minha mente a ela se apega. Ora, essa mente é agora capaz de investigar o problema da morte, em vez de investigar, apenas, a questão da vida no além-túmulo? Pode minha mente abandonar essa conclusão? E não deve abandoná-la, se quer descobrir o que é verdadeiro — abandoná-la, mas não sob compulsão de qualquer espécie, nem esperança de recompensa, mas porque a própria investigação exige o seu abandono? Se não a abandono, não sou "sério".

Senhores e senhoras, não vos deixeis desalentar pelas minhas perguntas, que parecem tão óbvias. Se minha mente está atada à estaca da crença, da experiência ou do conhecimento, ela não pode ir muito longe; e a investigação implica que se esteja livre da estaca, não achais? Se realmente estou a buscar, então esse estado em que me acho, amarrado a uma estaca, esse estado tem de acabar-se — preciso romper as amarras, cortar a corda. Não existe, então, nenhuma questão de como cortar a corda. Quando há a percepção de que a investigação só é possível quando estamos livres de nossa obstinação, de nosso apego a uma crença, então esse próprio percebimento liberta-nos a mente.

Ora, porque não sucede isso a cada um de nós?

INTERPELANTE: É porque nos sentimos mais seguros com a corda.

KRISHNAMURTI: Exatamente, pois não? Sentis-vos mais seguros quando vossa mente está condicionada, e eis porque não há aventurar, ousar — e toda a nossa estrutura social está construída dessa maneira. Conheço todas essas respostas. Mas porque não abandonais a vossa crença? Se não o fazeis, não sois sério. Se estais realmente investigando, não dizeis: "Estou investigando, numa determinada direção e devo ser tolerante a respeito de qualquer direção diferente da que estou seguindo" — pois, quando estais realmente investigando, essa maneira de pensar desaparece completamente. Não existe então a divisão de "vosso caminho" e "meu caminho", acaba-se o místico e o oculto, são afastadas definitivamente todas as estúpidas explicações do homem que quer explorar outros homens.

INTERPELANTE: E a própria busca é afastada definitivamente? Busca de quê?

KRISHNAMURTI: Não é este o nosso problema, no momento. Estou dizendo que não pode haver investigação quando a mente tem algum apego. Quase todos dizemos que estamos buscando, e buscar significa realmente investigar; e eu estou perguntando: "podeis investigar, enquanto a vossa mente está apegada a alguma conclusão?" Obviamente, quando se vos faz tal pergunta, respondeis: "Não, naturalmente".

INTERPELANTE: Podeis imaginar o dia em que não haverá mais templos nem igrejas? E enquanto existirem igrejas e templos, podem as pessoas conservar a mente livre de peias?

KRISHNAMURTI: "As pessoas" são sempre vós e eu. Estamos falando a respeito de nós mesmos, e não "das pessoas".

INTERPELANTE: Mas podemos conservar nossa mente livre, enquanto houver igrejas?

KRISHNAMURTI: Porque não, senhor? Permitis-me dizer uma coisa? Esquecei "as pessoas", as igrejas, e os templos. Eu estou perguntando: vossa mente está agrilhoada? Vossa mente é obstinada, está apegada a alguma experiência, a alguma forma de conhecimento ou crença? Se está, neste caso é incapaz de investigação. Direis, porventura: "Estou buscando" — mas é bem evidente que não estais buscando, senhor. Como pode a mente ter liberdade de movimentos, se está presa? Dizemos que estamos a buscar, mas, na realidade, não há busca. Buscar implica estar livre de apego a qualquer fórmula, qualquer experiência, qualquer espécie de conhecimento, porque só então a mente é capaz de mover-se amplamente. É isto um fato, não? Se desejo ir a Banaras, não posso estar amarrado, preso num quarto; preciso sair do quarto e dirigir-me para lá. De maneira semelhante, vossa mente está agora presa e dizeis que estais a buscar; mas eu digo que não podeis buscar nem investigar, com a mente presa — e isso é um fato que todos reconheceis. Porque então não se liberta a mente? Se ela não o fizer, como poderemos, vós e eu, investigar juntos? E esta é a nossa dificuldade, não achais, senhores?

INTERPELANTE: Enquanto existirem igrejas e templos, será difícil nos libertarmos.

KRISHNAMURTI: Senhor, quem foi que criou as igrejas e os templos? Homens iguais a vós e a mim.

INTERPELANTE: Eles eram diferentes de mim, diferentes de nós.

KRISHNAMURTI: Vós e eu podemos não ter criado um templo externo, mas temos nossos templos interiores.

INTERPELANTE: Esta é uma concepção alta demais. É possível a qualquer ente humano buscar o "eu" interior?

KRISHNAMURTI: Parece que não nos estamos entendendo bem, infelizmente. Não se trata de buscar o "eu" interior. Estou dizendo que não há busca nenhuma, quando há apego a qualquer fórmula, qualquer experiência, qualquer espécie de conhecimento. Isto é tão óbvio! Se pensais de acordo com o catolicismo, o protestantismo, o budismo ou o hinduísmo, vossa mente, é claro, é incapaz de investigação. Ao perceberdes tal fato, porque é tão difícil à mente abandonar o seu apego e começar a investigar? Estais aqui a escutar, tentando descobrir, tentando investigar, e eu vos digo que não podeis investigar se existe qualquer espécie de apego, isto é, se a mente se acha escravizada a qualquer conclusão, qualquer fórmula, qualquer espécie de conhecimento ou experiência. Concordais que isso é perfeitamente verdadeiro e no entanto não dizeis: "Vou abandonar todo apego" — e isso indica, realmente, que não sois sérios, não é verdade? Podeis dizer que sois sérios, mas eu vos digo que esta palavra não tem valor nem significação enquanto a mente se acha atada. Podeis erguer-vos às quatro horas da madrugada, para meditar; podeis controlar vossas palavras, vossos gestos, executar todos os preceitos disciplinares, pensando serdes muito sério — mas eu digo que tudo isso são meras práticas superficiais. A mente séria é aquela que, apercebida de sua escravidão, dela se liberta e começa a investigar.

INTERPELANTE: Qual o meio de quebrar o apego a uma conclusão?

KRISHNAMURTI: Senhor, existe algum meio? Se existe, ficais apegado ao meio (risos). Vejo-vos rir, e esta é uma maneira de nos livrarmos de uma questão; mas isso não foi um simples dito espirituoso. Senhores, a liberdade não está implícita na investigação? Eis porque a liberdade está no começo, e não no fim. Quando dizeis: "Preciso submeter-me a todas estas disciplinas, a fim de me tornar livre", isso é o mesmo que dizer: "Conhecerei o estado de sobriedade, depois de me embebedar". Certo, a investigação só é possível em liberdade. A liberdade, portanto, deve estar no começo, e enquanto ela não existir, embora o que fizerdes possa ser, social e convencionalmente, uma coisa satisfatória, essa coisa é destituída de significação. Terá um certo valor para as pessoas que desejam sentir-se em segurança, mas não tem o valor do descobrimento. Ainda que tais pessoas se levantem muito cedo para submeter-se a todos os rigores da disciplina, eu digo que essas pessoas não são sérias. A seriedade está no percebimento de que a mente está amarrada a uma experiência, uma crença, e no libertar-se dessa experiência ou crença coisa que não desejais fazer. Não importa, pois, investigar isso? Do contrário, vireis aqui diariamente, todos os anos, e ficareis apenas escutando palavras, que terão muito pouca significação.

INTERPELANTE: Dizeis que a liberdade precede à investigação, mas desejamos investigar o que é liberdade.

KRISHNAMURTI: Senhor, como se pode investigar com a mente presa? Isto é um simples enunciado de razão comum, senso comum. Se vosso guru diz: "este é o caminho", e ficais preso a isso, como podeis olhar mais longe? Procurais o guru com o fim de investigar — e vos deixais prender pelas suas palavras, hipnotizar pela sua personalidade, e acabais emaranhado nas coisas que ele preconiza. Vosso impulso primitivo é de investigar, mas esse impulso está baseado no desejo de achardes uma esperança ou satisfação, ou seja o que for. Por isso, digo que, para investigar há necessidade, em primeiro lugar, de liberdade. Estou mudando a direção do vosso processo de pensar, que é evidentemente falso, ainda que os livros sagrados digam o contrário.

INTERPELANTE: Que virá após a investigação?

KRISHNAMURTI: Aí está uma pergunta puramente intelectual, se me permitis dizê-lo. Não estais vendo? Desejais saber o que acontecerá "depois", e isso é de ordem teórica. A mente se apraz em fabricar palavras, especular. Eu respondo: vós o descobrireis. — É o mesmo que um prisioneiro perguntar: "Como há de ser, depois que eu sair da prisão?" Para sabê-lo, ele terá de deixar a prisão.

INTERPELANTE: Os que estamos sentados aqui, neste salão, somos aderentes de vários cultos, credos e crenças, e estamos escutando o que estais dizendo, muito embora não o estejamos compreendendo realmente. O que dizeis é novo para a maioria de nós, nunca o ouvimos antes, e conquanto sejam sons agradáveis aos nossos ouvidos, somos incapazes de compreendê-lo. Que é que faz as pessoas ficarem sentadas e quietas durante uma hora inteira, a escutar com toda a seriedade coisas que estão fora de seu alcance? Isso, em si, não é uma forma de investigação, significando que a mente não se acha de fato presa a uma conclusão? Se a mente estivesse presa a uma conclusão, não haveria esse desejo de encontrar um modo de vida diferente, e estas pessoas não viriam aqui ou, pura e simplesmente, tapariam os ouvidos. No entanto, elas vêm e ficam a escutar-vos com muito interesse. Não indica isso uma certa liberdade, para investigar?

KRISHNAMURTI: Que é que vos está fazendo escutar, senhores? Que vos faz ouvir a alguém que diz coisas completamente contrárias a tudo o que credes e a tudo o que vos é caro? É sua personalidade, sua fama, a propaganda espalhafatosa, o barulho que se faz ao redor dele? É isso que vos faz escutar? Se é, então o vosso escutar tem muito pouca significação. Que é, pois, que vos está fazendo escutar? Talvez seja o fato de vos verdes em presença de algo que acontece ser verdadeiro, e apesar de vos achardes presos, não podeis deixar de escutá-lo; todavia, retornareis ao vosso estado condicionado. É isso que vos está fazendo escutar? Ou estais escutando realmente? Entendeis? Estais escutando realmente, ou acontece que já vos habituastes a ficar sentados e quietos, quando alguém fala, porque gostais de ser prelecionados?

Estas não são perguntas vãs. Eu estou realmente procurando averiguar por que razão, quando se diz uma coisa verdadeira, não há reação imediata. Esta é a verdadeira pergunta que estou fazendo. Dizeis, ou eu digo, que não pode haver investigação sem liberdade, o que, evidentemente, é verdadeiro; é um fato, não importa quem seja a pessoa que o enuncia. Ora, por que razão esse fato não produz uma reação imediata, incisiva? Ou tem esse fato uma certa ação misteriosa, peculiar, que não pode exteriorizar-se imediatamente? Alguém expressou o fato de que, para a investigação, é necessária a liberdade, não se pode estar amarrado — e vós escutastes esse fato. Ainda que o tenhais escutado parcialmente, apenas, o fato lançou raízes na vossa mente, porque tem uma certa vitalidade; a semente brotará, não dentro de um certo período, mas brotará, e talvez por isso seja importante prestar ouvidos aos fatos, não importa se voluntariamente, conscientemente, ou se apenas distraidamente. Mas tal é, justamente, o caráter da propaganda. Repete-se constantemente: "Compre tal sabonete"... e acabais comprando. É isto que está acontecendo aqui? Se ouvis repetir constantemente um certo fato e dentro de certo tempo começais a proceder de acordo com o fato, esse procedimento é completamente diferente da ação própria do fato.

Senhores, são horas de parar. Não vos pedirei refletir sobre estas coisas, porque apenas refletir sobre elas é sem significação; mas se desejais realmente investigar a fundo este problema do buscar e o que significa "ser sério", neste caso a mente terá de descobrir a maneira de investigar, e descobrir o que é investigação. Qualquer suposição, qualquer conclusão, qualquer apego ao conhecimento ou à experiência, é um empecilho à investigação. Enquanto a mente está presa a uma certa conclusão, toda investigação representa uma luta ingente, um processo de esforço, atrito, ruptura. Mas se a mente percebe que só pode haver investigação quando há liberdade, tem então a investigação um significado todo diferente. Se se percebe isso claramente, nunca mais se será escravo de nenhum guru, nenhuma fórmula, nenhuma crença. Então vós e eu podemos combinar as nossas investigações e, como resultado disso, cooperar, agir, viver. Mas enquanto a nossa mente estiver presa, terá de haver "vosso caminho" e "meu caminho", "vossa opinião" e "minha opinião", "vossa senda" e "minha senda", e todas as demais divisões e subdivisões que se põem entre um homem e outro homem.

Krishnamurti, Segunda Conferência em Benares, 18 de dezembro de 1955
Da Solidão à Plenitude Humana


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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill