“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A liberdade do mecanismo formador de hábitos


A liberdade do mecanismo formador de hábitos

[...] Psicologicamente, não pode haver nenhuma liberdade se não for compreendido inteiramente o mecanismo defensivo do pensamento. E a liberdade — que não é reação a alguma coisa, nem tampouco significa o oposto de não-liberdade — é essencial, porque só em liberdade podemos fazer descobrimentos. Só a mente livre pode perceber o verdadeiro.

A verdade não é uma coisa que tem continuidade e que pode ser mantida pela prática ou a disciplina, porém algo perceptível num clarão. Esse percebimento da verdade não ocorre por meio de nenhuma forma de pensar condicionado e, por conseguinte, é impossível ao pensamento imaginar, conceber ou formular o verdadeiro.

Para se compreender integralmente o que é verdadeiro, necessita-se de liberdade. Para a maioria de nós, a liberdade é apenas uma palavra, ou uma reação, ou uma ideia intelectual de que nos servimos como fuga à nossa escravidão, nosso sofrimento, nossa entediante rotina diária; mas isso de modo nenhum é liberdade. A liberdade não se obtém por meio de busca, pois não se pode procurar a liberdade — ela não é para ser achada. Só vem a liberdade quando compreendemos a totalidade do mecanismo da mente que cria suas próprias barreiras, suas próprias limitações, suas próprias projeções, provindas de um fundo condicionado e condicionante. Muito importa à mente religiosa compreender o que se encontra além da palavra, além do pensamento, além de toda experiência; e para compreender o que transcende qualquer experiência, para “ficar com isso”, vê-lo com profundeza, num clarão, a mente deve ser livre. Sobre tudo isso já falamos e vimos como a ideia, o conceito, o padrão, a opinião, o juízo, ou qualquer disciplina formulada, impede a liberdade de espírito. E essa liberdade traz sua própria disciplina — que não é a disciplina do conformismo, da repressão ou ajustamento, porém uma disciplina não produzida pelo pensamento, por um motivo.

Decerto, num mundo confuso onde há tanto conflito e sofrimento, urge compreender que a liberdade é o requisito primordial da mente humana — e não o conforto, não o passageiro momento de prazer ou a continuidade desse prazer: uma liberdade total, pois só desta pode surgir a felicidade. Porque a felicidade não é um fim em si; como a virtude, ela deriva da liberdade. A pessoa livre é virtuosa; mas o homem que apenas pratica a virtude pelo ajustar-se ao padrão social nunca saberá o que é liberdade e, por conseguinte, jamais será virtuoso.

[...] liberdade não é uma coisa para ser buscada; não resulta de pensamento ou de anseios emocionais, histéricos. A liberdade vem sem ser buscada, quando há plena atenção. A atenção total é a qualidade própria de uma mente que não tem limites, não tem fronteiras e, por conseguinte, é capaz de receber toda e qualquer impressão, de ver e ouvir todas as coisas. E isso é possível, não é algo sobremodo difícil. Só é difícil porque nos achamos senhoreados pelos hábitos...

A maioria de nós tem hábitos inúmeros. Temos hábitos e idiossincrasias, de ordem física, e ao mesmo tempo hábitos de pensamento. Cremos nisto e não cremos naquilo; somos patriotas, nacionalistas; pertencemos a um certo grupo ou partido e observamos tenazmente o seu especial padrão de pensamento. Todas essas coisas se tornam hábitos; e a mente gosta de viver mergulhada nos hábitos, porquanto os hábitos dão-nos certeza, sentimento de segurança, sentimento de não temermos. Uma vez firmada numa série de hábitos, a mente parece funcionar um pouco mais livremente, mas na realidade ela é irrefletida, desatenta.

[...] observai, como num espelho, a vossa própria mente, para verdes quanto está enredada em seus hábitos. Os hábitos, que dão o sentimento de segurança, só podem tornar a mente embotada; por mais sutis que eles sejam, e quer estejamos cientes deles, quer não, eles invariavelmente obscurecem a mente. Isso é um fato psicológico; quer gosteis, quer não, é isso que acontece.

Em parte devido a nossa educação escolar, em parte devido ao condicionamento que a sociedade psicologicamente nos impõe, e também em virtude de nossa própria indolência, a nossa mente funciona numa série de hábitos. Se não aprovamos determinado hábito de que estamos conscientes, lutamos para quebrá-lo, e quando quebramos um hábito formamos outro. Parece não haver momento em que estejamos livres do hábito. Se vos observardes, vereis quanto vos é difícil não vos enredardes no hábito.

[...] mediante conflito ou resistência podeis eliminar um certo hábito, mas isso não liberta vossa mente do mecanismo formador de hábitos; o mecanismo que os cria não deixa de existir. E eu estou falando, não como livrar-nos de determinado hábito, porém sobre o deixarmos de criar hábitos.

[...] O importante é dar-vos conta de todo esse mecanismo, sem resistir-lhe, sem rejeitá-lo, sem desejardes ficar livre dele — estando, apenas, inteirado de cada movimento inerente a esse hábito.

[...] quando se introduz o fator tempo, não há possibilidade de libertação do hábito. Ou de pronto quebramos um hábito, ou ele continua existente, embotando de maneira gradual a própria mente, criando-se com isso novos hábitos.

Observai vossos próprios hábitos e vossa atitude em relação a eles.

Temos hábitos de pensamento, hábitos sexuais — oh, uma infinidade de hábitos, que tanto podem ser conscientes como inconscientes; e é sobretudo difícil percebermos os hábitos inconscientes. Socialmente e na escola e no colégio, somos educados nesse elemento do tempo. Toda a nossa psicologia baseia-se no tempo...

Ora, é possível a mente libertar-se instantaneamente dessa ideia de “chegar gradualmente a uma parte”, de gradualmente transcender uma coisa, gradualmente tornar-nos livres? Para mim, a liberdade não é uma questão de tempo; não há nenhum amanhã, no qual ficaremos livres de um hábito ou adquiriremos uma certa virtude. E se não há nenhum amanhã, também não há medo. Há só um “viver completo” agora; o tempo deixou de existir completamente e, por conseguinte, não há formação de hábito. Com a palavra “agora” refiro-me ao presente imediato, e esse estado “imediato” não é uma reação ao passado nem um evitar do futuro. Há só o momento de total percepção, toda a nossa atenção está aqui, no agora. Ora, por certo, toda existência se acha no agora; quer experimenteis imensa alegria, quer intenso sofrer, seja o que for, tudo isso só acontece no presente imediato. Entretanto, por meio da memória, a mente acumula a experiência do passado e a projeta no futuro.

Conscientizai-vos de vossa própria mente; observai como é que ela opera, pois, assim, podereis ir muito longe.

Poderemos libertar-nos do passado? O passado, na realidade, é a essência do hábito, constituído de todos os conhecimentos, sofrimentos, insultos, das inumeráveis experiências que tivestes, não só individualmente, mas também racial e coletivamente. Precisais sair dessa estrutura do passado, psicologicamente, realmente, porque, do contrário, não há liberdade. Mas não podeis fazê-lo se existe, na vossa mente, a ideia da continuidade. Para a maioria de nós, a continuidade importa muito; mas, afinal de contas, a continuidade, nas relações, é simples hábito. É a continuidade do pensamento que sustenta as limitações da mente; e é possível destruirmos, “numa explosão”, essa ideia da continuidade e ficarmos livres do passado?

Se não estamos livres do pretérito, não há liberdade nenhuma, porque, assim, a mente nunca está nova, fresca, ilesa. Só a mente nova, “inocente”, é livre. A liberdade nada tem que ver com a idade da pessoa, nada tem que ver com a experiência; e quer-me parecer que a própria essência da liberdade reside na compreensão de todo o mecanismo do hábito, consciente e inconsciente. A questão não é de acabar com o hábito, porém, antes, de ver-lhe totalmente a estrutura. Deveis observar como se formam os hábitos e como, pela rejeição de um hábito ou pela resistência a ele, outro hábito se forma. O relevante é estardes totalmente apercebido do hábito; porque então, como vós mesmos vereis, já não há formação de hábitos. O resistir ao hábito, o combatê-lo, ou rejeitá-lo, só pode dar-lhe continuidade. Quando lutais contra um hábito, dais vida a ele e, também, o próprio batalhar contra ele se torna um novo hábito. Mas, se ficais simplesmente apercebido de toda a estrutura do hábito, sem resistência nenhuma, verificais então que estareis livre dele e que, nessa liberdade, ocorre uma coisa nova.

É só a mente embotada, sonolenta, que cria o hábito e a ele se apega. A pessoa atenta de momento em momento — atenta para o que ela própria diz, atenta para o movimento de suas mãos, de seus pensamentos, de seus sentimentos — deixa de formar hábitos. É muito importante compreender isso, porque, evidentemente, enquanto a mente está empenhada em quebrar um hábito e, com esse próprio “mecanismo” criando outro hábito, ela nunca poderá ser livre; e só a mente livre pode perceber algo além de si própria. Essa mente é religiosa. Quem se limita a frequentar a igreja, a recitar orações, a apegar-se a dogmas, ou a abandonar uma seita para ingressar noutra, não tem uma mentalidade religiosa, mas, simplesmente, entorpecida. Religiosa é a mente livre, e a mente livre acha-se num estado de constante “explosão”; e nesse estado de constante explosão há o percebimento daquela verdade que ultrapassa as palavras, o pensamento, e toda experiência.

Krishnamurti, Saanen, 31 de julho de 1962,
O homem e seus desejos em conflito

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill