“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Inocência é não ter medo


Inocência é não ter medo

[...] é possível a mente libertar-se do medo? O medo, de qualquer natureza que seja, gera ilusão, torna a mente embotada, superficial. Onde há temor, não há, evidentemente, nenhuma liberdade, e sem liberdade não há amor. Quase todos nós temos alguma espécie de medo: medo do escuro, medo da opinião pública, medo de serpentes, medo da dor física, medo da velhice, medo à morte. Mas é possível estar-se completamente livre do medo?

Pode-se ver o que o temor nos faz a cada um. Ele nos leva a mentir, corrompe-nos de várias maneiras, torna a mente vazia, superficial. Há cantos escuros na mente que nunca podem ser investigados e trazidos à luz, enquanto tivermos medo. A autoproteção física — o impulso instintivo a guardarmos distância do reptil venenoso, a recuarmos ante o precipício, a evitarmos ser colhidos por um ônibus, etc. — é sã, normal, saudável. Mas eu estou falando da autoproteção psicológica que nos faz temer a doença, a morte, um inimigo. Quando buscamos preenchimento, na pintura, na música, nas relações, ou no que quer que seja, há sempre medo. Assim, o importante é estarmos conscientes de todo esse “mecanismo de nós mesmos”, que o observemos, aprendamos a seu respeito, e nunca perguntemos como se pode ficar livre do temor. Quando apenas desejais livrar-vos dele, encontrareis meios e modos de fugir-lhe, e dessa maneira nunca haverá liberdade, nunca estareis livre do temor.

Se refletirdes sobre o medo e a maneira como devemos considerá-lo, vereis que para a maioria de nós a palavra é muito mais importante do que o fato. Considere-se a palavra “solidão”. Com essa palavra, quero referir-me ao sentimento de isolamento que subitamente nos assalta, sem razão aparente. Não sei se isso já vos aconteceu alguma vez. Embora vos acheis rodeado de vossa família, de vossos semelhantes, embora estejais passeando em companhia de amigos ou viajando num ônibus repleto de passageiros, subitamente vos sentis completamente isolado. Dada a lembrança dessa experiência, há o medo ao isolamento, ao estar só. Ou tendes apego a alguém que morre, e vos vedes só, isolado. Em virtude desse sentimento de isolamento, buscais refúgio no rádio, no cinema, ou apelais para o sexo, a bebida, ou começais a frequentar a igreja, a adorar a Deus. Se ides à igreja ou se tomais uma pílula, trata-se de qualquer maneira de uma fuga, e todas as fugas são essencialmente a mesma coisa.

Ora, a palavra “solidão” impede-nos de adquirir perfeita compreensão desse estado. A palavra, associada à experiência do passado, evoca o sentimento de perigo e gera o medo; por essa razão procuramos fugir. Por favor, observai a vós mesmo como a um espelho, não vos limiteis a escutar-me, e vereis que a palavra tem extraordinária significação para a maioria de nós. Palavras como “Deus”, “Comunismo”, “Inferno”, “Céu”, “Solidão”, “Esposa”, “Família” — que espantosa influência elas exercem em nós! Somos escravos de tais palavras, e a mente que é escrava de palavras nunca está livre do medo.

Estarmos apercebidos do medo em nós existente, aprendermos a seu respeito, não significa interpretar esse sentimento por meio de palavras, porque as palavras estão associadas com o passado, com o conhecimento; e no próprio momento em que aprendemos a respeito do medo, sem verbalização — e isso não é adquirir conhecimento sobre ele — vereis como a mente se torna completamente vazia de todo temor. Isso significa que temos de penetrar em nós mui profundamente, pondo de parte todas as palavras; e quando a mente compreende todo o conteúdo do temor, tanto consciente como inconsciente e, por conseguinte, dele se liberta, apresenta-se então um “estado de inocência”. Para a maioria dos cristãos, a palavra “inocência” é meramente um símbolo; mas eu falo sobre o real estado de inocência, que significa “não ter medo”; nesse estado a mente se torna num instante amadurecida, sem passar pelo processo do tempo. E isso só é possível quando há atenção total, percebimento de cada pensamento, de cada palavra, de cada gesto. A mente está atenta, sem a barreira das palavras, sem interpretação, justificação ou condenação. Torna-se a luz de si própria; e a mente que é a luz de si própria não conhece temor.

PERGUNTA: Não existe nenhum “motivo” quando aprendemos sobre nós mesmos?

KRISHNAMURTI: Há motivo, no sentido de que desejo conhecer-me, porque, sem esse conhecimento, não tenho base para nenhuma coisa que faço, não tenho base para nenhuma coisa que penso ou sinto. O “eu” é tão complexo, tão célere, tão sutil, tão astuto, que preciso conhecer a mim mesmo completamente, tanto o consciente como o inconsciente, se desejo descobrir se existe, ou não, algo real, além de minha imaginação, além de meus anseios, além de meus desejos, além da propaganda da igreja e da sociedade. Para descobrir o que é verdadeiro, minha mente deve estar clara, não devo achar-me num estado de conflito, não devo ter nenhuma espécie de medo e nenhuma autoridade. Isso é bem óbvio, não achais? Não deve haver dependência, nem ansiar, nem frustração — devo estar totalmente vazio de tudo isso.

Ora, como posso aprender a meu respeito? Eu não posso afirmar que sou o resultado de determinada sociedade ou cultura (civilização), ou que sou a alma, entidade espiritual eterna, porquanto tudo isso são apenas coisas que outras pessoas me disseram. Para aprender sobre mim, tenho de desfazer-me de todos os absurdos religiosos que a sociedade me ensinou. Isso significa que não devo temer a opinião pública, e devo saber o que é “estar completamente só”. Se cuido meramente de adicionar ou de subtrair daquilo que penso saber, dizendo que há Deus ou que não há Deus, que há isto e não há aquilo — nesse caso não estou aprendendo.

Percebei este fato tão simples. Nada podeis aprender acerca de vossa pessoa, se estais tentando fugir ou se desejais tornar-vos um admirável santo, porque isso é absurdo em extremo. Podeis tornar-vos isso a que chamam “um santo”, mediante ajustamento a um padrão, mediante disciplina, renúncia, extrema frugalidade, etc. etc.; mas por esse caminho jamais descobrireis o que é verdadeiro. Para o descobrirdes, deveis livrar-vos do desejo de santificar-vos.

Se amais vosso filho, vós o observais, procurais compreendê-lo, não é assim? Nada pressupondes sobre a criança. Não lhe dizeis que deverá ser como seu irmão mais velho, que é tão inteligente. Quando comparais uma criança com outra, estais destruindo essa criança.

Do mesmo modo, para poderdes compreender-vos não deve haver comparação. Não deveis sentir-vos nem deprimido nem exultante a respeito de vós mesmo. Não deveis pressupor coisa alguma; porque todo pressuposto se baseia na autoridade; e a rejeição da autoridade é o começo do aprender.

O importante é que a pessoa se sinta curiosa acerca de si própria. Não me refiro à mera curiosidade intelectual, nem vos estou estimulando verbalmente a vos examinardes, com a promessa de que, no fim, obtereis determinado resultado. Estar realmente “curioso acerca de si mesmo” é perceber todos os meandros, todas as pressões e tensões, todos os movimentos sutis e ocultos de nossa mente; e a mente que está amarrada ao conhecimento não pode acompanhar com presteza os seus próprios e sempre variados movimentos.

“Aprender sobre si mesmo” é não ter motivo algum, e essa é a beleza do autoconhecimento. Não desejais, então, tornar-vos importante personalidade ou famoso santo; o que desejais é simplesmente realizar esse aprendizado, assim como estudaríeis uma flor de singular beleza que achásseis no deserto. Nós estamos num deserto, e somos flores verdadeiramente maravilhosas. Para olharmos a flor, aspirar-lhe o perfume, compreendê-la, precisamos amá-la.

PERGUNTA: A mente imatura não é aquela que está enredada nos hábitos?

KRISHNAMURTI: Eu gostaria de saber se realmente exerceis a vossa atenção, ou se esperais que eu vos desperte a inteligência, o percebimento. Estais trabalhando intensamente, apesar do calor, ou mantende-vos num estado de relativa inércia?

Vossa pergunta foi: A mente imatura não é aquela que está enredada nos hábitos? Ora, por que será que fizestes esta pergunta? Percebeis que sois imaturo, que vos achais envolvido nos hábitos, ou estais meramente mencionando algo já explicado? Notai, por favor, que não estou fazendo pouco caso do interrogante. Se observais que sois imaturo, que o hábito vos domina, — como acontece com a maioria das pessoas — então a questão seguinte é de como vos tornardes “amadurecido”, isto é, de como vos libertardes do hábito completamente, não numa certa data futura, porém . É essa a questão?

Vejo que estou emaranhado nos hábitos. Política ou religiosamente, como escritor, como pintor, como homem ou mulher, estou preso a uma determinada maneira de pensar. Como inglês, tenho uma certa tradição e uma atitude fixa perante a vida; ou fui educado no catolicismo, nisto ou naquilo, e isso se tornou hábito. Esse hábito pode ser quebrado de imediato, ou deverá ser gradualmente eliminado através dos anos? Se digo que isso “levará tempo”, que o hábito tem de ser eliminado gradualmente, através dos anos, qual é, nesse caso, o estado de minha mente? Evidentemente, ela está num estado de letargia, embotamento, irreflexão, não percebimento.

O nacionalismo, por exemplo, é um hábito, e esse hábito pode ser quebrado instantaneamente. Mas dá-nos prazer, dá-nos um sentimento de importância, estarmos identificados com determinado país, principalmente se esse país é poderoso. Em geral, gostamos de estar identificados com um dado governo, uma bandeira, e outros absurdos que tais, e, por conseguinte, não desejamos quebrar o hábito do nacionalismo e, assim, não há problema nenhum. Mas, se pretendemos extinguir esse hábito — e ele só pode ser extinto imediatamente, e não através dos anos — como fazê-lo?

Existe um “método de quebrar o hábito”? Ora, método implica tempo, movimento de um ponto de partida para um ponto de chegada. Se virdes por vós mesmo que o tempo não vos liberta do hábito e que, por conseguinte, os métodos e sistemas para nada servem, ficareis então frente a frente com a realidade: o fato de que vossa mente está enredada no hábito. Vedes o fato, não através de palavras ou de ideias; vedes diretamente o fato de que vossa mente está tolhida pelo hábito. Assim é, inapelavelmente. E, então, que acontece? Não estais procurando modificar o hábito, não estais tentando quebrá-lo. Estais simplesmente em presença do fato de que vossa mente funciona na rotina habitual. E que acontece quando vos achais diante de um fato? Que acontece quando verificais que sois mentiroso, ciumento? Se não tentardes alterá-lo, o próprio fato vos dará uma extraordinária energia, com a qual podeis quebrá-lo completamente. Compreendeis? Quando vos achais frente a frente com o fato, diretamente, vossa mente já não se entrega a fugas, renúncias, esforços para modificá-lo através do tempo, etc. etc.; por conseguinte, vossa atenção é completa, toda a vossa energia se concentrou, e essa energia destrói totalmente o fato.

PERGUNTA: Pode-se eliminar o medo com o descobrir-lhe a causa?

KRISHNAMURTI: Ora, estivestes prestando atenção completa durante esta hora inteira, empregada numa palestra desta natureza; por conseguinte, vossa mente deve estar cansada e vosso corpo também. “Escutar com atenção total” é algo que a maioria de nós nunca fez antes, algo penoso.

Pergunta essa senhora: O medo se dissolve com o conhecimento da causa do medo? Em geral, nós conhecemos a causa do medo: a morte, a opinião pública, coisas que praticamos e não desejamos sejam descobertas, etc. A maioria das pessoas conhece a causa de seus temores, mas esse conhecimento, evidentemente, não os extingue. Mediante análise é possível descobrir-se uma certa causa oculta do medo, mas isso também não liberta a mente do temor. O que traz a libertação do medo — e garanto-vos que é uma libertação completa — é estar ciente do medo sem a palavra, sem procurar negar ou fugir ao medo, sem se desejar ingressar num outro estado. Se, com plena, atenção, estais inteirado do fato — a existência do temor — vereis então que o observador e a coisa observada são um todo único, que não há separação entre os dois. Não há observador que diz “tenho medo”; só há medo, sem a palavra indicativa desse estado. A mente já não foge, não tenta livrar-se do medo, não lhe procura a causa e, por conseguinte, não está escravizada às palavras. Só há, então, um “movimento de aprender”, proveniente da sanidade — e a mente sã, ilesa, não teme.

Krishnamurti, Saanen, 2 de agosto de 1962,
O homem e seus desejos em conflito


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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill