“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Compreender o sofrimento é viver com ele

Compreender o sofrimento é viver com ele

[...] Se não há compreensão do sofrimento, não há sabedoria; o fim do sofrimento é o começo da sabedoria. Para se compreender o sofrimento e dele se ficar livre completamente, requer-se compreensão, não só do sofrimento individual, particular, mas também do imenso sofrer humano. Para mim, se não estamos totalmente livres do sofrimento, não pode haver sabedoria e tampouco terá a mente possibilidade de investigar deveras essa imensidade que se pode chamar Deus, ou outro nome qualquer.

A maioria de nós está sujeita ao sofrimento em diferentes formas: nas relações, quando ocorre a morte de alguém, quando não podemos preencher-nos e decaímos até nos reduzirmos a nada, ou quando tentamos realizar algo, tornar-nos importantes e tudo redunda em completo malogro. E temos também o "mecanismo" do sofrimento no plano físico: doença, cegueira, invalidez, paralisia, etc. Por toda a parte se encontra essa coisa extraordinária chamada "sofrimento" — com a morte à espreita em cada volta do caminho. E não sabemos enfrentar o sofrimento e, assim, ou o divinizamos ou o racionalizamos, ou, ainda, tratamos de evitá-lo. Ide a qualquer igreja cristã e vereis que lá se diviniza o sofrimento, tornam-no algo de grandioso, de sagrado, e diz-se que só pelo sofrimento, só pela mão de Cristo, o Crucificado, se pode encontrar Deus. No Oriente, há métodos próprios de fuga, outras maneiras de evitar o sofrimento; e é, para mim, um fato singular serem tão raros — tanto no Oriente como no Ocidente — os que estão verdadeiramente livres do sofrimento.

Seria maravilhoso se, no processo de nosso escutar — sem emocionalismo nem sentimentalismo — o que nesta manhã se está dizendo, pudéssemos, antes de sairmos daqui, compreender realmente o sofrimento e dele ficar completamente livres; porque, então, já não haveria automistificação, nem ilusões, nem ansiedades, nem medo, e o cérebro poderia funcionar clara, penetrante, logicamente. E, então, talvez chegássemos a conhecer o amor.

Ora, para se compreender o sofrimento é necessário investigar todo o "mecanismo" do tempo. Tempo é sofrimento, não só sofrimento do passado, mas também sofrimento que inclui o futuro — a ideia de chegar, a esperança de algum dia nos tornarmos algo, com sua inevitável sombra de frustração. Para mim, essa ideia de consecução, de "vir a ser" algo no futuro (e isso é tempo psicológico) representa o sofrer máximo — e não o fato de perder um filho, de ser abandonado pela mulher ou marido, ou de se não alcançar êxito na vida. Tudo isso me parece bastante trivial, se se me permite empregar esta palavra, que espero não seja mal compreendida. Há um sofrimento muito mais profundo, que é o tempo psicológico: o pensar que mudarei em anos futuros; que, se se me dá tempo, me transformarei, quebrarei as cadeias do hábito, alcançarei a liberdade, a sabedoria, Deus. Tudo isso exige tempo — e este, para mim, é o sofrimento máximo. Mas, para podermos aprofundar o problema, temos de descobrir porque há sofrimento dentro em nós — essa onda de sofrimento que nos envolve e aprisiona. Compreendendo, primeiramente, o sofrimento existente em nós, talvez possamos também compreender o sofrimento humano coletivo, o desespero da humanidade.

Porque sofremos? E tem fim o sofrimento? Há tantas maneiras de sofrermos! A doença é uma forma de sofrimento — a incapacidade de pensar, por debilidade do cérebro, e tantas outras variedades da dor física. Temos, depois, todo o campo do sofrimento psicológico — o sentimento de frustração, por não se poder realizar nada, ou a falta de capacidade, de compreensão, de inteligência, e também esta constante batalha dos desejos antagônicos, da autocontradição, com suas ânsias e desesperos. E há, ainda, a ideia de nos transformarmos através do tempo, de nos tornarmos melhores, mais nobres, mais sábios — ideia que também encerra infinito sofrimento. E, por último, o sofrimento ocasionado pela morte, o sofrimento da separação, do isolamento, o sofrimento de nos vermos completamente sós, isolados e sem relação com coisa alguma.

Todos conhecemos essas variadas formas de sofrimento. Os eruditos, os intelectuais, os virtuosos, os religiosos de todo o mundo, veem-se tão torturados como nós pelo sofrimento, e se dele existe alguma saída, ainda não a encontraram. Investigar bem profundamente em nós mesmos é saber que esta é a primeira coisa que desejamos: pôr fim ao sofrimento; mas não sabemos de que maneira começar. Estamos muito bem familiarizados com o sofrimento, vemo-lo em outros e em nós mesmos, e ele se acha no próprio ar que respiramos. Ide a qualquer parte, recolhei-vos a um mosteiro, caminhai pelas ruas apinhadas — o sofrimento está sempre presente, declarado ou oculto, expectante, vigilante.

Ora, de que maneira enfrentamos o sofrimento? Que fazemos em relação a ele? E como teremos possibilidade de nos libertarmos dele, não apenas superficialmente, porém totalmente, de modo que se torne completamente inexistente? Estar completamente livre de sofrimento não significa ausência de sentimento, de amor, de compaixão, falta de bondade, de compreensão de outrem. Pelo contrário, na completa liberdade, nesse estado livre de sofrimento, não há indiferença. E uma liberdade que traz grande sensibilidade, receptividade; e, como se alcança essa liberdade? Todos conheceis o sofrimento, não lhe sois estranhos. Ele está sempre presente. E como o enfrentais? Apenas superficialmente, verbalmente?

Tende a bondade de seguir isto. Passo a passo, caminhemos juntos, até o fim. Tentai, nesta manhã, escutar com atenção completa, estar bem apercebidos de vossas reações e penetrar profundamente, junto comigo, este problema do sofrimento. Mas, isto não significa seguir-me — coisa extremamente absurda. Mas se, juntos, pudermos compreender esta coisa, investigá-la ampla e profundamente, então, talvez, ao sairdes daqui, possais olhar para o céu e nunca mais serdes atingidos pelo sofrimento. Então, não mais haverá medo; e, uma vez livres de todo temor, aquela Imensidade poderá tornar-se vossa companheira.

Assim, como enfrentais o sofrimento? Parece-me que, em geral, o enfrentamos muito superficialmente. Nossa educação, nossa instrução, nosso conhecimento, as influências sociológicas a que estamos expostos — tudo isso nos torna muito superficiais. A mente superficial é aquela que se refugia na igreja, em alguma conclusão, conceito, crença ou ideia. Tudo isso são refúgios para a mente em sofrimento. E, quando nenhum refúgio encontrais, construís em torno de vós uma muralha e vos tornais acrimoniosos, duros, indiferentes, ou buscais a fuga em alguma reação neurótica, fácil. Todas essas fugas ao sofrimento impedem a investigação mais aprofundada. Espero me estejais acompanhando, porque é justamente isto o que faz a maioria de nós.

Pois bem; observai um cérebro superficial — ou mente; notai, por favor que, quando digo "mente" ou "cérebro", refiro-me à mesma coisa. Outro dia estivemos considerando a distinção entre "mente" e "cérebro", mas tal distinção é só verbal, sem importância. Empregarei a palavra "mente" e espero que sigais e compreendais o que se irá dizer.

A mente superficial não pode resolver este problema do sofrimento, porque sempre procura evitar o sofrimento. Foge ao fato — o sofrimento — por meio de uma reação fácil e imediata. Se tendes uma forte dor de dentes, naturalmente logo tratais de procurar o dentista, porque desejais livrar-vos dessa dor física; e isso é uma reação normal e correta. Mas, a dor psicológica é muito mais profunda e sutil, e não há médico, não há psicólogo, não há nada que vos possa extingui-la. No entanto, vossa reação instintiva é fugir dela. Tratais de ligar o rádio, de ver televisão, de ir ao cinema — sabeis quantas distrações a civilização moderna inventou. Qualquer espécie de entretenimento, seja uma cerimônia religiosa, seja uma partida de futebol, é essencialmente a mesma coisa. É mera fuga à vossa aflição, ao vosso vazio interior; e é isto o que estamos fazendo em toda a parte: buscando em diferentes formas de entretenimento o auto-esquecimento.

E, também, é a mente superficial que procura explicações. Diz: "Desejo saber porque sofro. Porque devo eu sofrer, e vós não?" Está apercebida de não ter praticado, na vida, nenhuma iniquidade e, assim, aceita a teoria de vidas passadas e a ideia disso que na Índia se chama karma — causa e efeito. Diz ela: "Pratiquei antes alguma ação injusta, e agora estou pagando por ela"; ou "Estou agora fazendo algo de bom, e colherei no futuro os correspondentes benefícios". E assim que a mente superficial se deixa enredar nas explicações.

Observai, por favor, vossa própria mente, observai como vos livrais de vossos sofrimentos com explicações, como vos absorveis no trabalho, em ideias, ou vos apegais à crença em Deus ou numa vida futura. E, se nenhuma explicação ou crença tiver sido satisfatória, recorreis à bebida, ao sexo, ou vos tornais mordaz, duro, acrimonioso, melindroso. Consciente ou inconscientemente, é isso o que de fato ocorre com cada um de nós. Mas, a ferida do sofrimento é muito profunda. Ela vem sendo transmitida de geração em geração, de pais a filhos, e a mente superficial nunca retira a atadura que cobre essa ferida: ela não sabe, em verdade, o que é o sofrimento, não o conhece intimamente. Tem apenas uma ideia a seu respeito. Tem uma imagem, um símbolo do sofrimento, mas nunca se encontra com ele próprio; só se encontra com a palavra "sofrimento". Compreendeis? Ela conhece a palavra "sofrimento", mas não estou certo se conhece o sofrimento.

Conhecer a palavra "fome" e sentir realmente fome, são duas coisas muito diferentes, não? Quando sentis fome, não vos satisfazeis com a palavra "comida". Quereis comida — o fato. Ora, quase todos nos satisfazemos com palavras, símbolos, ideias, e com as nossas reações a essas palavras, de modo que nunca estamos em intimidade com o fato. Quando subitamente nos vemos frente-a-frente com o fato do sofrimento, isso nos causa um choque, e nossa reação é a fuga a esse fato. Não sei se já notastes isso em vós mesmo. Tende a bondade de observar o estado de vossa própria mente, e não fiqueis meramente escutando as palavras que estão sendo proferidas. Nunca nos encontramos com o fato, nunca "vivemos com ele". Vivemos com uma imagem, com a memória do que foi, e não com o fato. Vivemos com uma reação.

Ora, se ao enfrentar o sofrimento a mente tem um motivo, isto é, se deseja fazer algo a respeito do sofrimento, não é possível compreendê-lo, assim como também não é possível haver amor, se há motivo para amar. Entendeis? Em geral, temos um motivo quando encaramos o sofrimento: desejamos fazer alguma coisa em relação a ele. Isto é, suponhamos que eu tenha perdido alguém, por morte; profundamente, psicologicamente, já não posso obter o que dessa pessoa desejava, e vejo-me a sofrer. Se nenhum motivo tenho, ao olhar o sofrimento, ele é ainda sofrimento, ou coisa totalmente diferente?

Estais seguindo?

Digamos que meu filho morre, e eu estou a sofrer porque me vejo só. Nele eu depositara todas as minhas esperanças e, agora, todo o meu mundo desabou. Desejara estabelecer para mim próprio uma certa espécie de imortalidade, uma continuidade, através de meu filho; ele deveria herdar meu nome, meus haveres, continuar com o meu negócio, e o acabar de tudo isso causou-me um choque. Ora, posso compreender o sofrimento em que me acho, se algum motivo existe, que me impele a olhá-lo? E, se existe, atrás do amor, algum motivo, isso é amor? Por favor, não concordeis comigo: observai-vos, apenas. Por certo, não deve haver motivo algum, se desejo compreender o sofrimento, se desejo descobrir a profundeza plena e a significação do sofrimento — ou do amor, pois os dois andam sempre juntos. A morte, o amor e o sofrimento são inseparáveis, estão sempre juntos, e também os acompanha a criação; mas, esta é outra questão, que examinaremos noutra oportunidade. Se desejo compreender profundamente, completamente, o fato do sofrimento, não posso ter um motivo a ditar minha reação ao fato. Só posso viver com o fato e compreendê-lo, quando nenhum motivo tenho. Entendeis? Se não, podeis fazer-me perguntas, depois, a respeito deste ponto.

Se vos "amo" porque podeis dar-me alguma coisa — vosso corpo, vosso dinheiro, vossa lisonja, vossa companhia, o que quer que seja — isso, por certo, não é amor, é? É claro que também vós obtendes algo de mim, e essa permuta, para a maioria de nós, se chama "amor". Sei que encobrimos isso com palavras bonitas, mas, atrás dessa fachada, está a ânsia de ter, possuir, ser dono.

Agora, sofrimento não é autopiedade? De certa maneira, fostes despojado de alguma coisa, vossas relações com outro redundaram em fracasso, não vos preenchestes no sentido de serdes reconhecido como pessoa importante, em atividades de reforma social, em atividades artísticas e tantas outras coisas mais — e todas as correspondentes frivolidades; assim, há sofrimento. Compreender o sofrimento é viver com ele, olhá-lo, conhecê-lo como realmente é; mas não tendes possibilidade de conhecê-lo quando o olhais com um motivo — que supõe o tempo. A mente superficial, incessantemente ocupada em melhorar-se, em lastimar-se, em torturar-se numa dada relação; desejosa de libertar-se do sofrimento sem enfrentar o fato — essa mente prosseguirá sofrendo indefinidamente. O fato é que estais sozinho. Em virtude de vossa educação, de vossas atividades, pensamentos e sentimentos, vos isolastes profundamente em vosso interior e não sois capaz de viver com esse extraordinário sentimento de solidão, não sabeis o que ele significa, porque dele sempre vos abeirais com uma palavra que desperta o medo.

Estais vendo, pois, a dificuldade — as maneiras sutis com que a mente preparou suas vias de fuga, tornando-se incapaz de viver com essa coisa extraordinária que chamamos "sofrimento". Para se ser livre do sofrimento, é necessário compreender, consciente e inconscientemente, todo o seu "mecanismo", e isso só é possível vivendo-se com o fato, olhando-o sem motivo. Deveis perceber as manhas de vossa mente, suas fugas, as coisas aprazíveis a que estais apegado e as coisas desagradáveis de que desejais livrar-vos com rapidez. Cumpre observar o vazio, o embotamento e a estupidez da mente que só trata de fugir. E pouca diferença faz, se se foge para Deus, para o sexo, ou para a bebida, porquanto todas as fugas são essencialmente a mesma coisa. Compreendeis?

Que sucede quando perdeis alguém, arrebatado pela morte? A reação imediata é uma sensação de paralisia, e ao sairdes desse estado vos encontrais com o sofrimento. Ora, que significa esta palavra — "sofrimento"? — A camaradagem, os colóquios ditosos, os passeios e tantas outras coisas agradáveis que fizestes e planejáveis fazer em companhia um do outro — tudo isso vos foi arrebatado num segundo, e ficastes vazio, desamparado, sozinho. E contra isso que estais protestando, é contra isto que vossa mente se revolta: ter ficado subitamente a sós consigo, isolada, vazia, sem amparo. Ora, o que verdadeiramente importa é viver com esse vazio, com ele viver sem reação alguma, sem racionalizá-lo, sem dele fugir com recorrer a médiuns espíritas, à doutrina da reencarnação, e outras futilidades que tais; viver com ele, com todo o vosso ser. E se, passo a passo, examinardes bem o fato, vereis que há um findar do sofrimento — um findar real, e não simplesmente verbal, não o findar superficial, resultante de fuga, de identificação com um conceito ou devotamento a uma ideia. Vereis que nada há para proteger, porquanto a mente está toda vazia e já não reage no sentido de preencher o seu vazio; e quando assim o sofrimento termina completamente, tereis encetado uma outra jornada — jornada sem fim e sem começo. Existe uma imensidade que ultrapassa todas as medidas, mas nesse mundo não ingressareis sem a prévia e total extinção do sofrimento.

PERGUNTA: O bom humor é uma fuga ao sofrimento?[...]

INTERROGANTE: E se sofremos, não por nós mesmos, mas por outro?

KRISHNAMURTI: Antes de examinar esta pergunta, consideremos a anterior: "O bom-humor é uma fuga ao sofrimento?". Se podeis rir-vos de vosso sofrimento, isso é fuga? Há essa coisa terrível que chamamos "sofrimento"; e percebeis a que a reduzistes com vossa pergunta? Quando em sofrimento, talvez possais rir-vos disso, mas o sofrimento continua existente. Vê-se sofrimento, tortura, por todo o mundo: o tormento de não ter o que comer, de temer a morte, de ver e invejar o rico que passa em seu luxuoso carro, a brutalidade, a tirania existente no Oriente, etc. etc. Podeis rir-vos disso? Quer-me parecer que não estais verdadeiramente apercebidos de vosso próprio sofrimento.

A segunda pergunta é: Que dizer do pesar que sentimos pelo sofrimento de outrem? Quando vedes alguém a sofrer, não sofreis também? Quando vedes um cego, um homem que não tem o que comer ou não tem quem o ame, todo envolvido em agonia, luta, confusão, não sofreis com ele? Sei que é coisa sancionada, tradicional, respeitável, o dizer: "Eu sofro juntamente convosco". Mas, porque deveis sofrer? Se tendes pouco, dais desse pouco. Dais vossa compaixão, vossa afeição, vosso amor. Mas, porque sofrer? Se meu filho contrai poliomielite e está à morte, porque devo sofrer? Sei que isso vos parecerá terrivelmente cruel. Se fiz todo o possível por alguém, se lhe dei meu amor, minha compaixão, trouxe-lhe o médico, forneci-lhe os remédios, se fiz sacrifícios (trata-se realmente de "sacrifício"? É esta a palavra justa?), se fiz tudo o que pude, porque devo sofrer? Quando sofro por alguém, isso é sofrimento? Refleti nisto, profundamente; não aceiteis simplesmente o que estou dizendo. Quem vai à Índia e a outros lugares do Oriente, vê imensa pobreza — pobreza de que não se faz a mais ligeira ideia no Ocidente. Quando anda pelas ruas, roça com pessoas cobertas de lepra ou portadoras de outras doenças. Pode uma pessoa fazer tudo o que estiver a seu alcance, mas que necessidade tem de sofrer? O amor sofre? Oh! deveis considerar bem tudo isso. O amor, decerto, nunca sofre.

PERGUNTA: Pode o sofrimento profundo transformar-se em profunda alegria?

KRISHNAMURTI: Podeis fazer uma tal pergunta, quando estais sofrendo? Dizei-me, por favor, de que estais falando?

INTERROGANTE: Falo de o sofrimento transformar-se, por si mesmo, em alegria.

KRISHNAMURTI: Se o sofrimento se transforma em alegria, em que ficais, no final de tudo? Senhor, certas pessoas — feliz ou infelizmente — me vêm ouvindo há quarenta anos, o conheço bem tais pessoas. Temo-nos encontrado aqui e ali, através dos anos. Eu sofro porque elas não têm compreensão? Continuam a fazer perguntas relativas à autoridade, à expressão pessoal, a respeito de Deus — sabeis quantas puerilidades se perguntam. E eu sofro por isso? Sofreria, se dessas pessoas esperasse alguma coisa; ver-me-ia desapontado se me tivesse colocado na situação de assim me sentir, isto é, de considerar-me um homem que está dando algo a outro homem. Espero estejais compreendendo o que quero dizer. Notai, por favor, que o importante não é transformar sofrimento em alegria, ou se o sofrimento pode transformar-se em alegria, ou se devemos sofrer quando vemos outros sofrendo — todas estas questões nenhuma importância têm. O importante é compreenderdes vós mesmo o sofrimento, extinguindo-o assim. Só então, descobrireis o que existe além do sofrimento. De outro modo, ficareis como quem está deste lado da montanha a especular sobre o que existirá do outro lado. Estais apenas a falar, adivinhar. Não atacais o problema, não o enfrentais, não penetrais fundo em vós mesmo, para observar, investigar, compreender; e não o fazeis porque isso, em verdade, significaria que teríeis de abandonar muitas coisas — vossas ideias favoritas, vossas tradicionais, respeitáveis reações.

INTERROGANTE: A gente sofre com a impossibilidade de socorrer a outrem.

KRISHNAMURTI: Se podeis socorrer alguém, material ou economicamente, fazei-lo, e está acabado. Mas, porque sofreis, se não podeis fazê-lo? Se vós mesmo não resolvestes o problema básico, quem sois vós para "socorrer" a outrem? Os sacerdotes, em todo o mundo, estão "socorrendo" os outros — e isso significa o quê? Que estão ajudando a condicionar outros em conformidade com suas próprias crenças e dogmas. Dar de comer, desinteressadamente, aos que têm fome, criar uma comunidade melhor, um mundo melhor — isto é ajuda. Mas dizer-se a outro: "Eu te ajudarei psicologicamente" — que presunção! Quem sois, psicologicamente, para socorrer a outro? Deixai isso aos comunistas, que pensam ser a Providência e ter o poder de ditar a milhões de indivíduos o que devem fazer. Mas, porque deveis sofrer, se não podeis socorrer a outrem? Fazeis tudo o que podeis, que pode não ser muito, para ajudar ou socorrer; mas, porque passar pela tortura do sofrimento? Oh! não estais percebendo, não aprofundastes deveras o problema real.

PERGUNTA: Percebo que, para libertar-se completamente do sofrimento, a pessoa tem de estar totalmente vigilante, plenamente atenta, a todas as horas. Tenho raros momentos de lucidez total, mas no tempo restante vejo-me aprisionado num estado de desatenção: É este meu destino para o resto da vida e, portanto, nunca terei possibilidade de libertar-me do sofrimento?

KRISHNAMURTI: Como diz o interrogante, estar livre do sofrimento é estar totalmente atento. A atenção, em si mesma, é virtude. Mas, infelizmente, não posso estar sempre atento. Estou atento hoje, mas amanhã não estou, e torno a ficar atento depois de amanhã. Durante o período intermediário estou desatento, e ocorrem atividades de toda ordem, das quais não estou plenamente apercebido. Assim, o interrogante indaga: "Vejo-me aprisionado num estado de desatenção, e significa isso que estou condenado a nunca ficar livre do sofrimento?"

Ora, senhor, a ideia de ficar livre para sempre, supõe o tempo, não? Dizemos, "Não sou livre agora, mas, se me tornar atento, serei livre, e eu desejo que essa liberdade perdure até o fim de meus dias". Estamos, assim, interessados na continuidade da atenção. Dizemos: "De alguma maneira devo estar sempre atento, porque, do contrário, estarei sempre em sofrimento". Desejamos que esse estado de atenção prossiga, dia após dia.

Ora, que é que continua? Que é que tem continuidade? Não me respondais, por favor; escutai, apenas, por alguns minutos, e vereis algo extraordinário. Que é que tem continuidade? Por certo, é quando penso numa coisa, agradável ou dolorosa, que ela tem continuidade. Compreendeis? Quando penso num prazer ou numa dor, meu pensar a respeito disso lhe dá continuidade. Se gosto de vós, penso em vós, e meu pensar em vós dá continuidade à imagem aprazível que de vós formei; assim, pela continuidade do pensamento, da associação, da memória, minha reação relativa à vossa pessoa, se torna mecânica, não é verdade? É como a reação do computador, que responde na base da "memória", da associação, na base de uma imensa quantidade de dados armazenados.

Ora, com essa mesma mentalidade, dizemos: "Devo manter a continuidade da atenção". Estais seguindo, senhor? Mas, se vemos o que está implicado tanto na atenção como na continuidade, nunca juntaremos as duas coisas. Não sei se compreendestes o que estou tentando transmitir. O erro que estamos cometendo é o de relacionar a continuidade com a atenção. Desejamos que o estado de atenção tenha continuidade; mas o que terá continuidade será o nosso pensamento relativo a esse estado, e, por conseguinte, isso não será atenção. E o pensamento que dá continuidade a isso que chamamos "atenção"; mas, quando o pensamento dá continuidade à atenção, não há o estado de atenção. Se a isso aplicardes, por inteiro, a vossa mente, e o compreenderdes, descobrireis um peculiar estado de atenção sem continuidade, fora do tempo.

PERGUNTA: Até que ponto é atenuado o sofrimento pela aceitação dele?

KRISHNAMURTI: Porque devo aceitar o sofrimento? Isso é apenas uma outra atividade superficial da mente. Não desejo aceitar o sofrimento, nem atenuá-lo, nem fugir a ele. Quero compreendê-lo, ver o que significa, conhecer-lhe a beleza, a fealdade, a prodigiosa vitalidade. Não desejo convertê-lo numa coisa que ele não é. Aceitando o sofrimento ou dele fugindo, ou, ainda, dele me abeirando com um conceito, uma fórmula, não estou em contato com ele. Assim, a mente que deseja compreender o sofrimento, nada pode fazer em relação a ele; não pode transformar o sofrimento ou amenizá-lo. Para ficardes livre do sofrimento, nada deveis fazer em relação a ele. E porque sempre estamos fazendo alguma coisa, em relação ao sofrimento, que ainda nos encontramos neste estado.

Krishnamurti, Saanen, 18 de julho de 1963,
Experimente um novo caminho


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill