“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A busca de uma mente incorrupta, clara e sã

A busca de uma mente incorrupta, clara e sã

Estivemos falando sobre a necessidade da “emersão” do indivíduo. A sociedade, com suas complexas influências e seu condicionamento, molda o pensamento; e para que possa “emergir” o indivíduo — pois só o indivíduo tem a possibilidade de descobrir o Imenso — afigura-se-nos necessário compreender essa influência social, sua moralidade, seus perniciosos sistemas de ideias. Pode a mente, que de tal maneira foi condicionada — cada pensamento formado, moldado por influências de toda ordem — emergir, integral, pura, imaculada, completamente livre? Porque só a mente incorrupta —a mente não moldada pelas circunstâncias, pelas influências — pode ir muito longe na pesquisa da verdade, só ela pode descobrir se existe uma realidade transcendente às medidas mentais. E, como assinalamos em nossa reunião anterior, o poder e a posição, em qualquer forma, geram a autoridade.

Nesta tarde, acho que poderíamos examinar a questão do desejo, da ambição e do preenchimento, e indagar se a mente pode emergir completamente ilesa de tudo isso.

Como estivemos salientando em todas estas palestras, importa compreender o que é escutar — escutar, apenas, completa e naturalmente, sem esforço algum. Porque é o esforço, a luta, o que impede a clareza. É o esforço que perverte e desfigura. E é possível escutar alguma coisa sem luta, sem desfiguração? Ver uma flor, deixando de lado os conhecimentos de botânica e horticultura, vê-la realmente — que significa isso? É muito difícil verdes um amigo, verdes vossa esposa, vossos filhos, sem desfiguração, sem nenhuma opinião, sem o acompanhamento de numerosas ideias — observá-los, simplesmente. Dessa observação e desse escutar provém uma ação que traz consigo uma clareza que nenhum esforço exige.

E, parece-me, se cada um de nós fosse capaz de escutar assim, de ver simplesmente e sem esforço, então, todo o mecanismo do viver se transfiguraria sem luta alguma. E isso é possível, pois o homem tudo pode com sua mente, com seu cérebro. Ela já foi ou está para ir à Lua, construiu computadores e tem realizado coisas extraordinárias, exteriormente; entretanto, ainda não penetrou profundamente em si mesmo. A viagem à Lua é muito curta, em comparação com a viagem interior; e pouquíssimos têm vontade de empreender essa viagem interior, porquanto ela exige atenção, só atenção. Exige atenção total, para escutar, para ver exatamente, em cada minuto, sem desfiguração, cada pensamento, cada sentimento. Peço-vos encarecidamente que escuteis dessa maneira.

Em regra, somos ambiciosos, domina-nos o desejo de êxito, de fama, de notoriedade: é uma luta, um esforço, intermináveis. Aparentemente, cada um aceita o esforço como uma necessidade — esforço para aprender, para educar-se, para exercer um emprego, galgar os degraus do êxito, compreender o que é a Verdade; tudo se torna questão de luta, de esforço. Pensar, amar, ser bondoso, humilde — tudo se reduziu a uma fórmula de luta e esforço, controle e disciplina. Para mim, uma vida de disciplina, de controle, luta, subjugação, ajustamento, causa a destruição do indivíduo que deverá “emergir”; pois só o indivíduo poderá descobrir o Eterno, descobrir se o Eterno existe.

Cumpre-nos, pois, compreender a luta. Estou empregando a palavra “compreender”, não no sentido de considerar intelectualmente ou verbalmente, porém no sentido de observar realmente o fato do que sois, o, fato de que lutais da manha à noite, desde o momento de nascerdes até o momento de morrerdes — lutando, disputando, empenhados num esforço incessante, interminável. Ora, por certo, deve haver um diferente “caminho”, uma diferente maneira de viver. Mas nós aceitamos o caminho da luta; o colegial o aceita, nossos maiores o aceitaram; e todos os santos, todos os filósofos, todos os instrutores têm pregado que se deve lutar, que se deve forcejar. Eu estou assinalando, para quem quiser escutar, que há uma maneira de viver sem esforço — mas isso não significa tornar-se indolente, inerte, estacionário, senão ao contrário. Esse esforço, essa luta, é desperdício de energia; e quando a luta, o esforço cessa de todo, há uma maneira de viver completamente, com aquela energia. E, para se descobrir essa maneira de viver, cumpre investigar diligente, sensata e inteligentemente o problema da luta.

Nós estamos investigando; não se trata de aceitar ou de rejeitar o que se está dizendo. Não estamos fazendo propaganda; deixemos isso para os políticos e outros. Fazer propaganda é dar continuidade ao que não é fato e quem deseja compreender um fato deve vê-lo sem desfiguração, ver claramente todos os problemas relativos à ambição, ao desejo, à luta. E nós vamos investigar juntos. Por conseguinte, ides penetrar em vós mesmos e não simplesmente aceitar o que se está dizendo.

Por que lutamos? Qual é a essência da luta, qual a essência da ambição? Sem dúvida, é o conflito a essência da ambição. Por que somos tão perseverantemente ambiciosos em todos os níveis de nossa existência? O chamado “homem espiritual”, o monge hindu, “o homem de longas barbas”, os políticos, o negociante, o homem que está acumulando conhecimentos — todos são ambiciosos. Por quê? Por que esse conflito e essa luta? O conflito existe por causa da contradição. Se não houvesse contradição, não haveria luta.

Por favor, segui o que se está dizendo — não as palavras, porém observando-vos como que num espelho. Se não houvesse contradição, não haveria necessidade de nenhum esforço. Mas, nós somos uma verdadeira massa de contradições. Por que nos arrasta o desejo em diferentes direções? Vendo-nos arrastados em diversas direções, dizemos para nós mesmos: “Não devo ter desejo”. Psicologicamente, é impossível controlar o desejo; necessário é compreendê-lo, decifrá-lo, percorrê-lo em toda a extensão, e não na sua expressão, no seu preenchimento — compreender o inteiro significado do desejo, causador da contradição. Porque gera contradição, nós resistimos ao desejo, procuramos reprimi-lo, dizemos para nós mesmos: “Devemos ser isentos de desejo” — e isso é destruir a imensidade da vida. Porque o desejo faz parte da vida; e se tratamos meramente de reprimi-lo, de negá-lo, de controlá-lo, fechamo-nos à imensidade da vida.

Deste modo, existe luta porque há contradição, exterior e interiormente. Exteriormente, há a atração do poder, da posição, do prestígio, para o homem que busca uma situação na vida. Há um viver que é função. Temos de funcionar como seres humanos, exercer um emprego, aprender, fazer diferentes coisas — tudo isso função. Mas, com a função vem o desejo de ser mais do que “funcionário”; pois nos servimos da função como meio de adquirirmos poder, posição, prestígio; e, por isso, há contradição. A função produz contradição sempre que há o desejo de nos servirmos da função para alcançar nossos alvos, alcançar êxito, poder. Observai, por favor. Isso é um fato. Ser cozinheiro é considerado, não como função, porém como posição, uma situação, e, portanto, como posição, uma situação, e, portanto, como condição desprezível; há assim, contradição.

O ministro, o homem poderoso, o homem de posição, o homem rico — a qualquer desses tratais com respeito, com enorme consideração, porque pode dar-vos ou oferecer-vos favores. Ele, portanto, serve-se de sua função para ter posição — que é o que também desejais — e por isso há contradição. Assim, sempre que a função serve para dar posição, tem de haver contradição. E nisto se baseia a sociedade: a função não é importante, porém a posição é relevante e posição significa poder. Eis a contradição mantida pela sociedade. Quer se trate da função de Ministro, quer da “função” de santo, a ela está associado o prestígio. E o que vós desejais não é a função, porém a posição; por isso, há contradição.

O homem que se serve da função para ter posição nunca será eficiente. E nós temos de ser eficientes, neste mundo, porque a função é de enorme importância. O foguete que vai à Lua tem um milhão de peças — sem exagero: um milhão de peças — e se uma só dessas peças não funcionar adequadamente, o foguete também não funcionará satisfatoriamente. E o homem que planeja e desenha o foguete não pode fazê-lo com o fim de adquirir posição; deve amar o que está fazendo; do contrário, não fará trabalho perfeito. Só o homem que ama o que está fazendo — sem aspirar, com isso, a uma situação, uma posição psicológica — só esse pode ser eficiente e isento de crueldade. O homem que se serve da função como meio de alcançar posição, esse é que se torna cruel.

Ora, não há necessidade de luta para se aprender uma técnica. Mas o meio social em que cresceis vos força, pela educação, a não amar o que fazeis; força-vos a fazer o indispensável para atender a uma dada necessidade social. A sociedade necessita atualmente de engenheiros e cientistas, e todos estão-se tornando engenheiros ou cientistas, porque é mais lucrativo. Mas, mui poucos são verdadeiros cientistas, verdadeiros engenheiros, porque a maioria se está servindo da ciência e da engenharia como meios de adquirir dinheiro, posição, prestígio. Assim se gera a contradição. E, exteriormente, temos todas as “expressões” da sociedade — sua riqueza, seus confortos, seu progresso. Todos desejamos a riqueza, todos estamos dominados pela mania de alcançar sucesso, fama.

Por que esse intenso desejo por parte de cada um — por parte de quase todos — de adquirir fama? Por que existe esse desejo? Não sei se tendes considerado bem esta questão. Examinemo-la. Tratemos de descobrir porque desejais preencher-vos, porque desejais êxito na vida, porque essa incessante batalha com vós mesmos. Sem dúvida, para a maioria de nós existe algum momento em que, consciente ou inconscientemente, nos tornamos apercebidos de um grande vazio, uma grande solidão interior. Sabeis o que significa esta frase: “Sentir-se só”? Significa: Encontrar-se num estado de não relação com coisa alguma, um estado de isolamento, de solidão; significa sentir-se, de súbito, no íntimo, completamente só. E a todas as horas estamos lutando, psicologicamente, para preencher essa solidão, dela fugir. Não sei se estais apercebido de vossa própria solidão, se alguma vez já vos encontrastes com ela. E porque tememos tanto essa solidão, evitamo-la; por isso, há contradição. Procuramos fugir-lhe por meio do conhecimento, do bom êxito, do dinheiro, do sexo, da religião — por todos os meios. Mas o fato é que estais na solidão, e não quereis enfrentá-la; o fato é que estais fugindo dela; por isso, há contradição, geradora de conflito.

O que nos interessa aqui é o conflito. O homem livre do conflito não é ambicioso. E o homem ambicioso é incapaz de amar; não sabe o que significa amar, porque só está interessado em si próprio, suas ideias, seus ganhos. O homem que busca a fama — como pode esse homem amar, ser bondoso, generoso? E esse espírito de ganho só se manifesta quando há fuga ao fato — à solidão. Não importa o que fizerdes, enquanto não compreenderdes essa extraordinária solidão, vossos deuses, vosso saber, vosso poder ou posição, nenhum valor terão; nem o terá a virtude. Ora, como nasce essa solidão? Compreendeis o que entendo pela palavra “solidão”? Provavelmente, muitos de vós jamais a sentistes, porque nunca ficastes sós, sempre cercados que estais de vossos amigos, de vossas famílias; estais sempre fazendo alguma coisa: indo ao cinema, a um templo, praticando ritos — sempre em atividade e, portanto, jamais apercebidos de vós mesmos ou do que se está passando dentro de vós. Deste modo, são pouquíssimos os que conhecem esse sentimento de completa solidão. Já vos deveis ter encontrado com ele; talvez, em dada ocasião, viajando sozinho num ônibus, em conversa com vossa esposa ou marido, em companhia de vossos amigos — vos tornais subitamente apercebido de estar completamente só, isolado. Esse é um encontro bem assustador; e, sentindo medo e não tendo possibilidade de fazer coisa alguma contra a solidão, tratais de fugir dela, criando, assim, contradição. E onde há contradição, aí há conflito.

Por conseguinte, nossa vida, aonde quer que vamos, o que quer que toquemos, é toda de conflito. Há alguma maneira de viver sem conflito? Há uma maneira de viver sem conflito, sem luta — mas que não é tornar-se indolente, deixar a mente estagnar-se, embotar-se. Essa maneira de viver sem esforço só se tornará existente ao compreendermos por inteiro o processo do conflito. Existe contradição sempre que há algum ideal. O ideal da nobreza, o ideal da bondade, o ideal da “não-violência” — deveis ser "assim”, não deveis ser “assim” — todos geram contradição. Escutai; porque, se fordes capazes de escutar, podereis sair daqui livres de conflito para o resto da vida. A ambição, a luta e a J brutalidade da ambição — tudo desaparecerá. Tereis uma mente simples, clara, imaculada. Só a mente imaculada pode funcionar com clareza, sem desígnios errôneos, sem buscar posição; portanto, só ela é capaz de amar o que faz. Só o amor não é contraditório; e, para compreenderdes esse estado extraordinário, deveis compreender a contradição existente em vós. Existe, pois, contradição quando há a preocupação de evitar o fato -—- o fato de que estais só, o fato de sentirdes cólera, o fato de serdes violento. Sois violento, sentis cólera, sois ambicioso — tal é o fato. “Não deveis sentir cólera”, “Não deveis ser violento”, ou “Não deveis ser ambicioso” — são apenas idéias, não são fatos. Os ideais, pois, que são sem realidade, sem substância, geram a contradição, O homem que enfrenta o fato de cada dia, de cada minuto, sem desfigurá-lo — esse homem é livre de conflito. Mas, o viver sem conflito exige tremenda energia. Isso não significa que o homem sem conflito seja sem energia: ele está "esbanjando” energia. Não significa que o homem ambicioso seja sem energia: ele tem a energia gerada pela resistência e que é uma energia destrutiva. Mas, há a energia que nasce quando não há conflito, quando estais em presença do fato, a cada minuto. Com a palavra "fato”, estou-me referindo ao fato psicológico — o que sois interiormente. Ora, para poderdes compreender o fato psicológico, deveis compreender o movimento externo também — o movimento externo de expressão, desenho, cor, estrutura, função. Os dois movimentos estão mutuamente relacionados. Não podeis compreender o mundo interior se não compreenderdes o mundo exterior — isto é, se não compreenderdes a sociedade, que é relações. As relações entre duas pessoas constituem a sociedade, E esse estado de relação constituiu a estrutura social — que é de ambição, avidez, inveja, impiedade, crueldade, guerra, corrupção. É o que se vê, atualmente, na Índia, como bem sabeis. Se não compreenderdes todo esse movimento externo da vida, não podereis compreender o movimento interno. Os dois estão relacionados; são como a maré que “sai” e “entra”. Não podeis dividir a maré em “exterior” e “interior”: é um movimento único. E só a mente não corrompida pode “navegar” nesse movimento.

Eis, pois, o fato, e é necessário compreendê-lo. Nós não o compreendemos porque nossa consciência resulta de influências. Não podemos ver o fato por causa da influência que nos molda o pensamento, a influência que está moldando tanto a mente consciente como a inconsciente. Compreendeis? Os jornais, os discursos, os livros, o cinema, a alimentação, as roupas, o ambiente, os edifícios, o ar — tudo vos influencia, influencia vossa mente, consciente ou inconscientemente. Toda forma de propaganda, política ou religiosa, os chamados deuses tradicionais — tudo influencia e molda o pensamento. Estais escutando o que se diz sem vos deixardes influenciar. Não sois influenciados, porque não estais sendo dirigidos, compelidos, “pressionados”. O orador apenas vos diz: Olhai, observai, escutai, sede vigilantes! Por conseguinte, o que ele diz não vos influencia de modo nenhum, nem consciente, nem inconscientemente. Mas, vós tendes de compreender a influência social.

É possível a mente livrar-se de toda influência? Compreendeis, senhor, o que é influência? — a palavra, a família, vossa esposa, vosso marido, os livros que ledes, as coisas que, inconscientemente, vos assaltam a mente. Podeis estar apercebido de cada influência, apercebido sem escolha — simplesmente apercebido de cada influência que vos cerca? É possível isso? Porque, se fordes livre, se puderdes observar a influência, isso vos aguçará a mente, tornando-a capaz de libertar-se dela. Esta é uma matéria complexa, que exige atenção, que exige toda a vossa capacidade de pensar e descobrir, porque sois o resultado de influências. Ao crerdes ser o “Eu Superior”, etc., ao dizerdes que em vós habita Deus, a Divindade, o Atman — tudo isso representa influência. Quando o comunista diz não crer em Deus, está também influenciado.

Portanto, a vida de todos está sujeita a influências. E é possível libertarmo-nos totalmente delas? Do contrário, não importa o que penseis, o que negueis, o que façais — tudo resultará do passado, do vosso condicionamento; por conseguinte, em tais condições, não pode a mente, de modo nenhum, descobrir se existe a Realidade. Assim sendo, é possível ficar-se livre da influência? O que, com efeito, significa: É possível ficar-se livre da experiência? Chegaremos a este ponto mais adiante. Por certo, não é possível ficarmos livres de todas as influências. Só podeis ficar livre daquelas de que estais apercebido. Mas só podeis estar apercebido de um pequeno número de influências — pois o inconsciente está de contínuo a ser influenciado.

Tende a bondade de escutar. É possível estar-se livre de todas as influências? De outro modo, não se pode passar a investigar a questão da liberdade, e ser livre. Como disse, nunca poderemos estar livres de influências; mas poderemos manter-nos sempre vigilantes para observar cada influência que vem ao nosso encontro. Isso significa estarmos atentos, a cada minuto, ao que estamos fazendo, ao que estamos pensando, ao que estamos sentindo — não permitindo, com essa vigilância, nenhuma desfiguração, nenhuma opinião sobre nós mesmos, nem avaliações — resultado, tudo isso, de influências. Qualquer influência é má, assim como o é toda autoridade. Não há distinção de “influência boa” e “influência má”, porquanto todas as influências moldam a mente, corrompem a mente.

Assim, se compreendermos o fato de que qualquer forma de influência — não importa se “boa” ou “má” — perverte, mutila, corrompe a mente; se pudermos compreender esse fato, vê-lo, tornar-nos-emos totalmente apercebidos de cada influência que nos assalta a mente. Isto é: no negar, na negação, surge o fato, a verdade. Quando negais, quando dizeis “não”, vós o fazeis ou com motivo ou sem motivo. Provavelmente, nunca dissestes “não”. Porque em geral costumamos dizer “sim”; habituamo-nos a aceitar; nunca dizemos “não” a coisa alguma, sem termos algum motivo; e isto significa que, quando dizemos “não” sem motivo, estamos libertados da influência.

Por favor, procurai compreender isso. É uma coisa muito simples, uma vez compreendida. Ao dizerdes “não”, em relação ao poder, à fama, à ambição, à autoridade, vós o dizeis porque acontece que não tendes autoridade, que não tendes poder, posição — mas gostaríeis de tê-los. Evidentemente não tendes possibilidade de alcançá-los, e, por conseguinte, dizeis “não”; não posso obtê-los”. Assim procede a maioria das pessoas; mas que se lhes dê posição, ofereça-se-lhes autoridade, e as aceitarão. Dessa forma, há negação com motivo, dizer “não” com motivo. E há também a negação, o dizer “não” sem motivo — que significa: perceber o fato de que a ambição, em qualquer forma, espiritual ou não, mundana ou interior — destrói, corrompe. Se perceberdes isso como verdadeiro, estareis então apercebido de todas as formas de influência, tanto positivas como negativas. Então, só o fato vos interessará.

Assim, a negação — e não a mente positiva — é o fim da influência. Por “mente positiva” entendo a mente que se ajusta, a mente que imita, a mente que obedece, a mente que se tornou respeitável aos olhos da sociedade — ou seja, aquela que aceitou e está observando um certo padrão de viver ditado pela sociedade, pelo ambiente, pelo meio cultural. Essa mente se chama “mente positiva”; mas de modo nenhum é positiva: é uma mente morta. Por “mente negativa” entendo a que nega sem ter nenhum motivo. Ao negardes a atitude do político que se julga capaz de alterar a ordem das coisas, de alterar o homem; ao negardes essa atitude, estais totalmente livre desse tipo de influência. O político está interessado no “imediato”, projetado no futuro — que ele considera como o “prazo longo”, a “perspectiva longa”; mas essa “longa perspectiva” é, em verdade, uma “perspectiva curta”. Isto é, o político, como todo técnico, não está interessado no homem integral; só lhe interessa o exterior. E, se negais o exterior — a perspectiva curta — sem terdes nenhum motivo, estais então completamente fora dessa esfera; o que então vos interessa é o ser total do homem.

Importa, pois, compreender a mente que encara os fatos negativamente, e permanece “só com o fato”.

Espero não estar tornando isso muito difícil. O que estamos dizendo não é difícil. Se, por exemplo, sinto cólera, o fato é este: sinto cólera. Então, o negar que sinto cólera, o substituir, o alterar, o condenar esse estado, o buscar o ideal — tudo isso são negações do fato, distrações que me afastam do fato. E, quando nego totalmente todas as formas de fuga, todas as distrações, então, só então, minha mente está vazia de todas as influências e, portanto, apta a olhar o fato; então, eu olho o fato.

Por favor, procurai fazer isso enquanto me estais escutando. Em regra, sois ambiciosos; viveis, em maioria, uma vida contraditória e conheceis as agonias da contradição. Estais procurando preenchimento, seja por meio da família, do nome, do escrever um livro, dos filhos, seja tentando tornar-vos “homem importante” — estais sempre em busca de preenchimento. E, quando há essa ânsia de preenchimento, há também a frustração com suas agonias. Tentais preencher-vos porque vos vedes sós, interiormente vazios. Isso é um fato. Pois bem, olhai o fato de que sois ambicioso, sem procurar desculpas e sem dizer: “Que irei fazer para viver nesta sociedade corrompida, alicerçada que está na aquisição, no poder e na ambição?” Negando esta sociedade, estais fora dela; por conseguinte, podeis viver uma vida diferente e, entretanto, estar em sociedade. Assim, deveis olhar o fato de que sois ambicioso, de que sois invejoso, ávido, e tornar-vos apercebido das influências que vos impedem de olhá-lo — ou seja, os ideais, etc. Quando negais as influências, podeis mover-vos de fato para fato. Assim, da negação nasce a energia necessária para olhar o fato; e necessitais de extraordinária energia e de completa ausência de atrito.

Havendo conflito, há sempre dissipação de energia. Se há preenchimento, autopreenchimento, em qualquer sentido — em Deus, num livro, numa mulher, em vossos filhos — há dissipação de energia, porque o conflito gera frustração, contradição. O negar o preenchimento significa enfrentar o fato de serdes ambicioso. E esse fato vos revela por que ambicionais. Nada precisais fazer; observai, apenas, o fato, e ele se vos revelará. O que tendes de fazer é apenas observar sem comparação, sem julgamento, sem avaliação; podereis então ver quanto estais vazio. Tendes emprego, tendes esposa, tendes marido, tendes dinheiro, tendes saber, exteriormente. Mas, interiormente, é imensa a pobreza, há um vazio, uma solidão que nada pode preencher; e a fuga a esse estado é a essência da contradição. Ora, vós tendes de olhar essa solidão. Vou considerá-la por alguns momentos mais, considerar de que maneira podemos olhá-la.

Em primeiro lugar, o fato é que estais só; o fato é que vossa mente está de todo deformada por influência da sociedade; o fato é que estais procurando fugir à realidade, ao que sois — que nada é, absolutamente. Nada sois; mas isso não implica desespero, desgosto: é um fato. Ora, observar o fato significa negação, como estive explicando, sem comparação, julgamento, avaliação. Mas, também, o olhar o fato exige compreensão da palavra. Entendeis?

A palavra “cólera”, a palavra “Deus”, a palavra “comunista”, a palavra “Congresso”, a palavra “Índia” — de todas estas palavras somos escravos. E a mente escravizada a uma palavra não pode ver o fato. Quando pensamos na Índia, tornamo-nos emocionalmente agitados — trata-se de nossa venerável nação, etc. — e isso nos impede o olhar. Negar todo o passado, para ver o fato — disso somos incapazes, por causa da palavra, da importância que a palavra “Índia” nos confere — palavra com que estamos identificados, esquecendo a realidade. Qual a realidade, independente da palavra? Do mesmo modo, como é que olhamos a palavra “cólera”? A palavra “cólera” é, em si mesma, condenatória; e como poderemos livrar-nos dela, para olharmos aquilo que se chama “cólera”?

Dessa maneira, podeis começar a descobrir, por vós mesmo, o quanto o pensamento está escravizado à palavra. E vereis, se penetrardes fundo, que não há pensamento desacompanhado de palavra. Vereis também, se vos aprofundardes mais ainda, que onde há pensador e pensamento há contradição, e que toda forma de experiência só serve para dividir e fortalecer o pensador e o pensamento como processos separados. Assim só quando todo esse processo — que estive explicando desde o começo até agora — tiver sido compreendido, examinado, observado, poderá a mente “emergir” da estrutura social, ambiente e verbal, como uma mente incorrupta, clara, sã. Então ela já não está sujeita a nenhuma influência; está completamente vazia. Só essa mente pode transcender o Tempo e o Espaço. Só então desponta o Imensurável, o Incognoscível.

Krishnamurti, Bombaim, 28 de fevereiro de 1962, A mutação Interior


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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill