“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Sobre o pensamento

Podemos ver por nós mesmos, se observarmos com atenção, que foi o pensamento, ainda que de forma sutil, o criador desta extraordinária estrutura humana de relacionamento, de comportamento social, de divisão; e onde há divisão, terá que haver conflito, violência. Quer se trate de diferença lingüística ou diferença de classe, ou ainda da diferença produzida pelas ideologias e sistemas, essas divisões sempre geram violência. E enquanto a pessoa não estudar em profundidade a origem da violência — não apenas a causa da violência, mas ir além disso, muito além da causalidade — jamais conseguirá, pelo menos assim me parece, libertar-se da extraordinária desgraça, confusão e violência que andam à solta pelo mundo.
            Diante disso, eu me pergunto, e perguntaremos uns aos outros: o que é a liberdade em relação ao pensamento e ao comportamento humano? Sim, pois o nosso comportamento na vida diária produz o caos no mundo. Pode haver então a completa libertação, a libertação do pensamento? E, se é possível essa libertação, qual é então o lugar do pensamento? Por favor, isto não é filosofia intelectual. Filosofia significa amor à verdade, e não a opinião especulativa, o conceito teórico ou a percepção teórica. Seu verdadeiro sentido é o amor à verdade no nosso dia-a-dia e no nosso comportamento. Para abordar o assunto com seriedade — e espero que vocês façam isso — é preciso pesquisar, estudar, e não apenas memorizar algo que supomos ser verdadeiro ou sobre o que formamos algum conceito — porque não iremos formar conceito algum. Pelo contrário, a verdade não é um conceito: este ocorre apenas quando o pensamento produz opiniões, verdades dialéticas. Com seus conceitos o pensamento se torna um instrumento de separação.
            Sendo assim, precisamos tentar encontrar por nós mesmos e é, portanto, indispensável estudar o que é o pensar, e se o pensar, ainda que bastante racional, lógico, sadio, objetivo, é capaz de promover uma revolução psicológica no nosso comportamento. O pensamento sempre é condicionado, porque o pensamento é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento, da acumulação. O pensamento brota do condicionamento e, deste modo, jamais poderá produzir o comportamento correto. Percebem o que estou dizendo? E pergunto isso porque já tive oportunidade de encontrar inúmeros psicólogos no mundo todo que, vendo o que são os seres humanos na realidade, como é contraditório o seu comportamento, como eles são seres infelizes e miseráveis, afirmam que o procedimento adequado seria o de recompensá-los e, desse modo, condicioná-los de uma forma diferente. Ou seja, em vez de castigá-los pelo seu mau comportamento, recompensá-los pelo bom comportamento e esquecer o mau comportamento. Assim, por meio de recompensas dessa natureza, você é condicionado desde a infância a se comportar da maneira correta, ou que acreditam ser correta — não anti-social. Eles continuam a viver com o pensamento. Para eles, o pensamento é de suma importância e, a exemplo dos comunistas e de outros, eles afirmam que o pensamento precisa ser modelado, precisa ser condicionado de maneira diferente, e dessa estrutura diferente resultará um comportamento diferente. Mas vivem ainda dentro do padrão do pensar.
            Isso já foi tentado na Índia antiga pelos budistas; todas as religiões já tentaram isso. Mas o comportamento humano, com todas as suas contradições, com suas fragmentações, é o resultado do pensamento. E se pretendemos uma mudança radical no comportamento humano — não na superfície, nos limites externos da nossa existência, mas no verdadeiro âmago do nosso ser — precisamos então examinar a questão do pensamento. Você precisa ver isso, não eu. Você precisa enxergar a verdade disto: o pensamento precisa ser compreendido; é preciso saber tudo a respeito dele. Isso precisa ser de enorme importância para você, e não apenas porque o orador o afirma. O orador não tem nenhum valor. O valor está no que você aprende, e não no que memoriza. Limitando-se a repetir o que o orador diz, seja aceitando ou negando, você não terá penetrado a fundo no problema. Porém, se você quer mesmo resolver o problema humano de como viver em paz, com amor, sem medo, sem violência, precisa compreender isto profunda mente.
            Mas como se pode aprender o que é a libertação? Não a libertação da opressão, a libertação do medo, a libertação de todas as pequenas coisas que nos preocupam, mas a libertação da verdadeira causa do medo, da verdadeira causa do nosso antagonismo, da verdadeira raiz do nosso ser, na qual existe uma aterradora contradição, uma assustadora busca do prazer, e todos os deuses que criamos, com todas as igrejas e sacerdotes — você conhece toda a história. Assim, acredito, é preciso que cada um pergunte a si mesmo se quer se libertar na superfície ou no verdadeiro âmago do seu ser. E se você quer aprender o que é a libertação na verdadeira fonte de toda a existência, você então precisa estudar o pensamento. Se a questão ficou esclarecida — não em termos de explicação verbal, não a idéia que você forma a partir da explicação — mas se você sente a verdadeira necessidade, então podemos caminhar juntos. Porque, se pudermos compreender isso, teremos respondido a todas as nossas perguntas.
            É preciso, portanto, descobrir o que vem a ser aprender. Em primeiro lugar, quero aprender se é possível me libertar do pensamento — e não como utilizar o pensamento. Essa é a próxima pergunta. Mas poderá a mente chegar a ser livre do pensamento? E o que significa essa liberdade? Só conhecemos liberdade de alguma coisa — estar livre do medo, disto ou daquilo, da ansiedade, de uma dúzia de coisas. E existirá uma liberdade que não seja de alguma coisa, mas a liberdade per se, em si mesma? Mas, ao fazer a pergunta, não dependerá a resposta do pensamento? Ou será a liberdade a não-existência do pensamento? E aprender significa percepção instantânea e, portanto, não requer tempo. Não sei se vocês percebem isso. Por favor, isso é de uma importância fascinante!

Krishnamurti – Brockwood Park, 9 de Setembro de 1972

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)