O dia estava nublado, carregado de nuvens escuras. Chovera pela manhã e, de repente, esfriara. Após uma caminhada, conversáramos, mas admirávamos, sobretudo, a beleza do lugar, as casas, as árvores.
Inesperadamente, prorrompeu um relâmpago, uma faísca dessa força, desse poder inacessível que abala fisicamente. O corpo tornou-se gelado e tivemos de fechar os olhos para não desmaiar. Provocou, realmente, um abalo, e tudo que existia pareceu não existir. E a imobilidade dessa força, aliada à energia destrutiva que a acompanhava, aboliu os limites da visão e dos sons. Era algo indescritivelmente grande, cuja altura e profundidade não podem ser conhecidas.
Nesta manhã, bem cedo, assim que despontou a aurora, sem uma nuvem no céu e apenas visíveis as montanhas cobertas de neve, acordei com aquela sensação de impenetrável força nos olhos e na garganta; parecia um estado palpável, algo sempre ali presente. Esse estado durou uma hora e durante todo esse tempo o cérebro permaneceu vazio. Não era uma coisa que pudesse ser captada pelo pensamento e armazenada na memória para ser relembrada. Estava ali e todo pensamento morto. O pensamento é uma coisa funcional, útil somente nesse reino; O pensamento não poderia pensar a respeito porque pensamento é tempo e aquele estado situava-se além do tempo, além do limitado. O pensamento, a vontade não poderiam desejar sua continuação ou sua repetição, porque tanto o pensamento como a vontade estavam totalmente ausentes. Então, o que é que restou para que isso possa ser escrito? Apenas um registro mecânico, mas o registro, a palavra, não é a coisa.
Krishnamurti - O Diário de Krishnamurti - 18 de agosto de 1961