“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

O ideal é uma maneira hipócrita de olhar a vida

Observar, ver — essa é a coisa principal; ver o que realmente somos e não o que achamos que deveríamos ser; observar nossa avidez, inveja, ambição, ansiedade, medo, TAIS COMO EXISTEM REALMENTE, E SEM INTERPRETAÇÃO, NEM JULGAMENTO. Nesse estado de observação não há esforço algum. Temos que compreender isso claramente, porque estamos condicionados para fazer esforço. Tudo o que fazemos envolve esforço, luta. Se desejo mudar, se por exemplo, desejo deixar de fumar, tenho de lutar, de forçar-me, de manter minha resolução e, assim, talvez eu acabe deixando de fumar, mas minha energia terá se esgotado nessa batalha. 

Pode-se abandonar alguma coisa sem esforço? O fumar é uma coisa muito trivial. Abandonar o prazer, em todas as suas formas, porque o prazer sempre produz dor, eis um problema exteriormente complexo, que iremos considerar numa destas palestras. O que no momento nos interessa é isto: Se temos de possibilidade de abandonar alguma coisa, de agir sem esforço. Porque paz é isso, vocês não acham? A paz alcançada por meio de uma batalha interior não é paz, porém, exaustão, pois a paz de modo nenhum pode ser um resultado de esforço. Só vem quando há COMPREENSÃO. Esta é uma palavra um pouco difícil. Compreensão não significa "compreensão intelectual". Quando dizemos que compreendemos alguma coisa, em geral entendemos uma apreensão intelectual, conceitual. Só pode verificar-se a percepção, quando há atenção total. A atenção total só é possível quando "NOS ENTREGAMOS" completamente. A mente, o corpo, os nervos, todo o nosso ser fica então sobremodo ativo. Só então há compreensão. 

temos de compreender nossa vida de entes humanos. Para nós, a vida é uma caótica contradição. Não a estamos descrevendo sentimental, emocionalmente ou noutro sentido qualquer, porém, tão só, em sua realidade. Vemo-nos confusos, aflitos, ansiosos, aterrorizados, desesperados. Esse medo e sofrimento estão sempre a inquietar-nos. Tal é a nossa vida, e, no final de tudo e inevitavelmente, a morte. Só isso sabemos. Podemos imaginar coisas, ter muitos ideais, fórmulas e fugas, mas, quanto mais fugimos, tanto maior a contradição, tanto mais profundo o conflito. 

Podemos observar nossa vida, tal como realmente é e não como deveria ser? Os ideais são de todo em todo fúteis. Não têm nenhuma significação. São como o ideal dos que acreditam na não-violência e, na realidade, são violentos. Isso é um fato. Os entes humanos SÃO violentos. Demonstram-no em suas palavras, em seus gestos, em seus atos e sentimentos. Cultivaram o IDEAL de "não ser violento" — que representa um estado de paz, de ausência da violência. Há o FATO e o que "deveria ser". Entre O QUE É e o "desejável", entre o fato e a ideia, a utopia, "o que deveria ser", acha-se o intervalo de tempo. No esforço para alcançar "o que deveria ser", estamos sempre a semear violência. O ideal é uma maneira hipócrita de olhar a vida. Certamente, não há nenhuma necessidade de ideal, se sabemos olhar o fato e dele libertar-nos. Porque não sabemos olhar os fatos e LIBERTAR-NOS deles, pensamos que com um ideal os resolveremos. Em verdade, o ideal, a utopia é uma fuga da realidade. Sabendo-se olhar a violência, talvez se torne possível uma ação de espécie diferente. 

Sou violento e percebo que qualquer forma de fuga à realidade, ao fato de que sou violento, TODA E QUALQUER FUGA — bebida, ideais, etc. — DIMINUI A ENERGIA de que necessito para olhar o fato. Preciso dessa energia para olhar, para manter-me completamente ATENTO. Isso também é um fato simples. Se vocês desejam OLHAR qualquer coisa que seja, necessitam de muita energia. Se só estão incompletamente atentos, porque possuem ideais que não deviam ter, então estão dissipando a energia de vocês e, por conseguinte, são incapazes de olhar. Olhar é uma operação que requer TODA atenção de vocês. Só se pode OLHAR quando não se está querendo alcançar nenhum ideal, nem desejando alterar O QUE É. 

Só aparece o desejo de alterar O QUE É, quando o fato é desagradável. Quando agradável, não desejamos alterá-lo. Nossa preocupação é perseguir o ideal e evitar a dor. Nosso maior interesse é o prazer e não a violência ou a não-violência, a bondade, etc. Queremos prazer, e para alcançá-lo estamos dispostos a tudo. Enquanto estivermos a olhar o fato com a intenção de alterá-lo, não teremos possibilidade de alterá-lo, porquanto nosso principal interesse é modificar o fato, para termos prazer — ainda que seja um prazer muito nobre. Devemos perceber isso muito claramente, porque os nossos valores morais, éticos e religiosos estão todos baseados no prazer. Eis o fato verdadeiro. Não é um fato imaginário, como veremos, se NOS SONDARMOS MUITO PROFUNDAMENTE e OLHARMOS TODOS OS VALORES QUE ESTABELECEMOS. Quando existe esse princípio do prazer, tem de haver inevitavelmente dor. Olhamos a violência com o fim de transformá-la num prazer e passarmos deste a um prazer maior; por isso, somos incapazes de alterar o fato de que somos violentos. Consideramos a vida com a mira no prazer. 

No fundo, os entes humanos são violentos, por várias razões. Uma das razões fundamentais é que todas as suas atividades se concentram em perpetuar o EU, o EGO. A atividade egocêntrica é uma das causas da violência. Por outro lado, a fim de realizar uma revolução radical, tenho de compreender o princípio do prazer. Amos os meus desuses; isso me proporciona enorme satisfação. Vocês amam os seus deuses, suas fórmulas, a nacionalidade e a bandeira de vocês. O mesmo faço eu. Tudo isso se baseia no prazer. Posso dar-lhe diferentes nomes, mas não importa; este é o fato. Ora, é possível considerarmos a violência, sem procurarmos transformá-la em prazer; posso observar simplesmente o fato de que sou violento? 

(...) Quando podemos olhar a violência, sem termos a respeito dela nenhuma imagem, qual é o estado da mente ou do cérebro que está a olhar?(...) Para nos libertarmos da imagem, temos de investigar muito profundamente a questão da formação de imagens e, uma vez feito esse exame, com máximo de escrúpulo e atenção, o cérebro não fica "em branco", num estado de entorpecimento. Ao contrário, torna-se sumamente ativo, porém não estará em atividade o "formador de imagens". Com essa atenção pode-se OLHAR.

Krishnamurti em, Encontro com o Eterno  
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)