“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Da necessidade de estar quieto, observando, passivamente vigilante

Qual a causa desta confusão, desta miséria? Como apareceu esta miséria, este sofrimento que nos aflige, tanto interiormente como exteriormente, este medo a esta expectativa de guerra, que ameaça explodir? Qual a sua causa? Sem dúvida, ela pode ser encontrada na derrocada de todos os valores morais e espirituais e na glorificação dos valores sensuais, do valor das coisas feitas pelas mãos ou pela mente. Que acontece, quando não possuímos nenhum outro valor, senão o das coisas dos sentidos, o dos produtos da mente, da mão ou da máquina? Quanto maior importância atribuímos ao valor sensorial das coisas, tanto maior a confusão, não é verdade? Mais uma vez, não é uma teoria minha. Não é preciso citar livros, para descobrir que vossos valores, vossas riquezas, vossa existência econômica e social, repousam nas coisas feitas pela mão ou pela mente. Vivemos e funcionamos com o nosso ser entranhado de valores sensoriais, o que significa que as coisas, as coisas da mente, as coisas da mão e da máquina, se tornaram importantes; e quando tal acontece, a crença se torna predominantemente significativa, como está ocorrendo atualmente, não é verdade? 

Assim, pois, atribuir significação cada vez maior aos valores dos sentidos, gera confusão; vendo-nos na confusão, procuramos fugir dela por vários meios — religiosos, econômicos, sociais — pela ambição, pelo poder, pela busca da realidade. Mas o real está perto, não precisamos procurá-lo; o homem que procura a verdade, nunca a encontrará. A verdade se acha no que é  e nisso consiste a sua beleza. Mas no momento em que a concebeis e começais a procurá-la, começais a lutar; e o homem que luta não pode compreender. Eis porque é necessário que estejamos quietos, observando, passivamente vigilantes. Vemos que nosso viver, nossa ação, se desenvolve dentro do campo da destruição, dentro do campo do sofrimento; qual uma onda, a confusão e o caos nos submergem constantemente; não há trégua na confusão da existência. 

Tudo o que fazemos atualmente parece levar-nos ao caos, ao sofrimento e à infelicidade. Observai vossa própria vida, e vereis que vosso viver está sempre na orla do sofrimento. Nosso trabalho, nossa atividade social, nossa política, os vários agrupamentos de nações destinados a colocar fim à guerra, tudo só produz mais guerra. A destruição vem sempre na esteira do viver; tudo o que fazemos leva à morte. É o que está acontecendo, inegavelmente. 

Pode-se colocar fim a esta miséria, imediatamente, e não mais continuarmos a ser colhidos pela onda de confusão e sofrimento? Grandes instrutores, como o Buda, como o Cristo, têm vindo ao mundo. Aceitaram a fé, libertando-se, talvez, de toda confusão e angústia. Mas não impediram que continuasse a existir a angústia, não colocaram fim à confusão. A confusão contínua, a angústia contínua. Se, reconhecendo tanta confusão social e econômica, tanto caos e sofrimento, vos retirais para o que se chama a vida religiosa e abandonais o mundo, podeis ter um sentimento de união com aqueles grandes Mestres; o mundo, porém, continuará com seu caos, com suas misérias, suas devastações, e o perene sofrimento dos seus ricos e pobres. Por conseguinte, nosso problema — vosso e meu — é de saber se podemos sair instantaneamente desta miséria. Se, vivendo no mundo, nos recusarmos a dele fazer parte, ajudaremos outros a sair deste caos, não no futuro, não no amanhã, mas agora. É este, sem dúvida, o nosso problema... Vós e eu podemos perceber imediatamente a confusão e o sofrimento, não podemos? Devemos percebê-lo, para nos tornarmos aptos a despertar em outrem igual compreensão da verdade. Em outras palavras: pode-se ser livre instantaneamente? — pois é a única maneira de sair desta tribulação. Só há percebimento no presente; mas mas se dizeis: "O farei amanhã", a onda de confusão vos colherá, e vivereis sempre envoltos em confusão. 

Ora, é possível alcançar aquele estado em que se pode perceber a verdade, instantaneamente, e colocar fim à confusão? Digo que é possível e que este é o único caminho. Digo que isso pode e deve ser feito, sem basear-se em suposição ou crença alguma. Produzir esta revolução extraordinária — que não é a revolução destinada a libertar-nos dos capitalistas e a instalar outro grupo no poder — produzir esta maravilhosa transformação, que constitui a única revolução verdadeira, eis o problema. O que geral se chama revolução, é apenas uma mudança ou continuação direta, de acordo com as ideias da esquerda. A esquerda, afinal de contas, é a continuação da direita, sob forma modificada. Se a direita tem seus fundamentos nos valores sensoriais, a esquerda não é mais do que uma continuação dos mesmos valores com diferença apenas de grau ou expressão. Por conseguinte, a verdadeira revolução só poderá realizar-se quando vós, o indivíduo, vos tornardes bem consciente das coisas, em vossas relações com outrem. Por certo, o que sois em vossas relações com outra pessoa, com vossa esposa, vosso filho, vosso patrão, vosso vizinho, é que forma a sociedade. A sociedade, por si só, não existe. A sociedade é aquilo que vós e eu criamos, em nossas relações, e é a projeção exterior de todos os nossos estados psicológicos interiores. Portanto, se vós e eu não nos compreendermos, a simples mudança do exterior, que é a projeção do interior, não tem significação, absolutamente; isto é, não pode haver alteração ou modificação significativa da sociedade, enquanto eu não compreender a mim mesmo, nas relações convosco. Se estou confuso, nas minhas relações, crio uma sociedade que é a réplica, a expressão exterior daquilo que sou. É um fato óbvio, susceptível de investigação. Podemos investigar se a sociedade, a expressão exterior, me produziram ou se eu produzi a sociedade.

Não é, pois, um fato evidente que aquilo que eu sou, nas relações com meus semelhantes, cria a sociedade e que, se eu não me transformar radicalmente, não pode haver transformação alguma da função essencial da sociedade? Quando dependemos de um sistema, para a transformação da sociedade, estamos simplesmente evitando o problema, porquanto sistema algum pode transformar o homem; o homem sempre transforma o sistema, como prova a História. Enquanto eu não compreender a mim mesmo, em minhas relações convosco, sou eu a causa do caos, da miséria, da destruição, do medo, da brutalidade. A compreensão de mim mesmo não depende do tempo; posso compreender-me neste exato momento. Se digo "compreender-me-ei amanhã", estou atraindo o caos e o sofrimento, minha ação é destrutiva... A transformação só se realiza imediatamente; a revolução só pode ser agora, e não amanhã. Quando ela acontece, vós vos libertais completamente dos problemas, porque então o "eu" já não está preocupado consigo mesmo e estais a salvo da onda de destruição.

Krishnamurti
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)