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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Há momentos em que a linguagem é impotente

Buda estava sentado embaixo de uma árvore falando aos seus discípulos. Um homem se aproximou e deu-lhe um tapa no rosto.

Buda esfregou o local e perguntou ao homem:

— E agora? O que vai querer dizer?

O homem ficou um tanto confuso, porque ele próprio não esperava que, depois de dar um tapa no rosto de alguém, essa pessoa perguntasse: "E agora?" Ele não passara por essa experiência antes. Ele insultava as pessoas e elas ficavam com raiva e reagiam. Ou, se fossem covardes, sorriam, tentando suborná-lo. Mas Buda não era num uma coisa nem outra; ele não ficara com raiva nem ofendido, nem tampouco fora covarde. Apenas fora sincero e perguntara: "E agora?" Não houve reação da sua parte.

Os discípulos de Buda ficaram com raiva, reagiram. O discípulo mais próximo, Ananda, disse:

— Isso foi demais: não podemos tolerar. Buda, guarde os seus ensinamentos para o senhor e nós vamos mostrar a este homem que ele não pode fazer o que fez. Ele tem de ser punido por isso. Ou então todo mundo vai começar a fazer dessas coisas.

— Fique quieto — interveio Buda — Ele não me ofendeu, mas você está me ofendendo. Ele é novo, um estranho. E pode ter ouvido alguma coisa sobre mim de alguém, pode ter formado uma ideia, uma noção a meu respeito. Ele não bateu em mim; ele bateu nessa noção, nessa ideia a meu respeito; porque ele não me conhece, como ele pode me ofender? As pessoas devem ter falado alguma coisa a meu respeito, que "aquele homem é um ateu, um homem perigoso, que tira as pessoas do bom caminho, um revolucionário, um corruptor". Ele deve ter ouvido algo sobre mim e formou um conceito, uma ideia. Ele bateu nessa ideia.

Se vocês refletirem profundamente, continuou Buda, ele bateu na própria mente. Eu não faço parte dela, e vejo que este pobre homem tem alguma coisa a dizer, porque essa é uma maneira de dizer alguma coisa: ofender é uma maneira de dizer alguma coisa. Há momentos em que você sente que a linguagem é insuficiente: no amor profundo, na raiva extrema, no ódio, na oração.

Há momentos de grande intensidade em que a linguagem é impotente; então você precisa fazer alguma coisa. Quando vocês estão apaixonados e beijam ou abraçam a pessoa amada, o que estão fazendo? Estão dizendo algo. Quando vocês estão com raiva, uma raiva intensa, vocês batem na pessoa, cospem nela, estão dizendo algo. Eu entendo esse homem. Ele deve ter mais alguma coisa a dizer; por isso pergunto: "E agora?"

O homem ficou ainda mais confuso! E buda disse aos seus discípulos:

— Estou mais ofendido com vocês porque vocês me conhecem, viveram anos comigo e ainda reagem.

Atordoado, confuso, o homem voltou para casa. Naquela noite não conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, o homem voltou lá e atirou-se aos pés de Buda. De novo, Buda lhe perguntou:

— E agora? Esse seu gesto também é uma maneira de dizer alguma coisa que não pode ser dita com a linguagem. Voltando-se para os discípulos, Buda falou:

— Olhe, Ananda, este homem aqui de novo. Ele está dizendo alguma coisa. Este homem é uma pessoa de emoções profundas.

O homem olhou para Buda e disse:

— Perdoe-me pelo que fiz ontem.

— Perdoar? — exclamou Buda. — Mas eu não sou o mesmo homem a quem você fez aquilo. O Ganges continua correndo, nunca é o mesmo Ganges de novo. Todo homem é um rio. O homem em quem você bateu não está mais aqui: eu apenas me pareço com ele, mas não sou mais o mesmo; aconteceu muita coisa nestas vinte e quatro horas! O rio correu bastante. Portanto, não posso perdoar você porque não tenho rancor contra você.

E você também é outro, continuou Buda. Posso ver que você não é o mesmo homem que veio aqui ontem, porque aquele homem estava com raiva; ele estava indignado. Ele me bateu e você está inclinado aos meus pés, tocando os meus pés; como pode ser o mesmo homem? Você não é o mesmo homem; portanto, vamos esquecer tudo. Essas duas pessoas: o homem que bateu e o homem em quem ele bateu não estão mais aqui. Venha cá. Vamos conversar.

Osho; Intimidade Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros

domingo, 2 de novembro de 2014

Quebrando o preconceito com o conceito de magia

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O autoconhecimento é a maior das rebeldias

Algumas coisas antes de introduzirmos estes sutras de Heráclito.

Primeiro: conhecer a si mesmo é a coisa mais difícil. Não deveria ser assim. Deveria ser exatamente o oposto — a coisa mais simples. Mas não é — por muitas razões. Tornou-se tão complicado, pois você investiu tanto na auto-ignorância que parece quase impossível retornar, voltar à fonte, encontrar a si mesmo.

Toda a sua vida, tal como ela é, como é aprovada pela sociedade, pelo Estado, pela Igreja, está baseada na auto-ignorância. Você vive sem se conhecer, porque a sociedade não quer que você se conheça. É perigoso para a sociedade. Um homem que conhece a si mesmo está destinado a ser rebelde.

O conhecimento é a maior das rebeldias — quer dizer, o autoconhecimento, não o conhecimento acumulado através de escrituras, não o conhecimento encontrado nas universidades, mas o conhecimento que acontece quando você encontra o seu próprio ser, quando chega a si mesmo na sua nudez total; quando você se vê como Deus o vê, não como a sociedade gostaria de vê-lo; quando você vê o seu ser natural, no seu florescimento total e selvagem — não o fenômeno civilizado, condicionado, educado, polido.

A sociedade está interessada em fazer de você um robô, não um revolucionário, porque o robô é mais útil. É fácil dominar um robô; é quase impossível dominar um homem de autoconhecimento. Como se pode dominar um Jesus? Como se pode dominar um Buda ou um Heráclito?

Ele não cederá, não obedecerá ordens. Ele se moverá. através de seu próprio ser. Será como o vento, como as nuvens; ele se moverá como os rios. Será selvagem — naturalmente belo, natural, mas perigoso para a falsa sociedade. Ele não se ajustará. A menos que criemos no mundo uma sociedade natural, um Buda continuará sendo sempre um desajustado, um Jesus certamente será crucificado.

A sociedade quer dominar; as classes privilegiadas querem dominar, oprimir, explorar. Gostaria que você permanecesse completamente inconsciente de si mesmo. Esta é a primeira dificuldade. E a pessoa tem de nascer numa sociedade. Os pais fazem parte da sociedade, os professores fazem parte da sociedade, os padres fazem parte da sociedade. A sociedade está em toda parte, à sua volta. Parece realmente impossível — como escapar? Como encontrar a porta que leva de volta à natureza? Você está cercado por todos os lados.

A segunda dificuldade vem do seu próprio ser — porque você também gostaria de oprimir, de dominar; você também gostaria de possuir, de ser poderoso. Um homem de autoconhecimento não pode ser escravizado, e também não pode escravizar ninguém. Não se pode oprimir um homem de conhecimento e um homem de conhecimento não pode oprimir ninguém. Ele não pode ser dominado e não domina. A dominação simplesmente desaparece nessa dimensão. Você não pode possuí-lo e ele não possui ninguém.

Ele é livre e ajuda os outros a serem livres.

Esta é uma dificuldade ainda maior do que a primeira. Você pode evitar a sociedade, mas como evitar o seu próprio ego? Você sente medo — porque um homem de conhecimento simplesmente não pensa em termos de posse, de domínio, de poder. É inocente como uma criança. Ele gostaria de viver totalmente livre, e gostaria que os outros também vivessem livres.

Esse homem será uma liberdade aqui neste seu mundo de escravidão. Você gostaria de não ser explorado? Sim, você responderá, você gostaria de não ser explorado. Gostaria de não ser um prisioneiro? Sim, você gostaria de não ser um prisioneiro. Mas gostaria também da outra coisa? — de não prender ninguém? Não dominar, não oprimir e explorar? Não matar o espírito, não transformar o outro num objeto? Isso é difícil.

E lembre-se: se você quiser dominar, você será dominado. Se você quiser explorar, você será explorado. Se você quiser que alguém seja seu escravo, você será escravizado. Os dois lados pertencem à mesma moeda. Esta é a dificuldade do autoconhecimento. Senão, o autoconhecimento
seria a coisa mais simples, a mais fácil. Não haveria nenhuma necessidade de se fazer qualquer esforço.

Os esforços são necessários para essas duas coisas, elas são as barreiras. Observe e veja essas duas barreiras, e comece abandonando a sua. Primeiro, pare de dominar, de possuir e explorar, e de repente será capaz de escapar da armadilha da sociedade.

Osho, em "A Harmonia Oculta - Discursos Sobre os Fragmentos de Heráclito"

Com a mente não pode haver nenhum encontro

(...)Os professores Zen estiveram dizendo continuamente que este mundo é nirvana, este mundo mesmo é moksha, liberação. É só uma questão de olhos. Com olhos falsos tudo fica falsificado; com olhos reais tudo é real. Sua entidade falsa cria um mundo falso em torno de ti. E não pense que todos vós vivem em um só mundo. Não podem! Cada um vive em seu próprio mundo, e há tantos mundos como mente, porque cada mente cria seu próprio mundo, seu próprio âmbito. Inclusive se está vivendo em uma família, o marido vive em seu próprio mundo e a mulher em seu próprio mundo, e há choques todos os dias entre estes dois mundos. Nunca se encontram; chocam. O encontro é impossível.

Com a mente não pode haver nenhum encontro; só choque, conflito. Quando não há mente, pode haver um encontro. A esposa vive em seu próprio mundo, em suas próprias expectativas. Para ela, o marido não é o marido real que há no mundo, a não ser só sua própria imagem. O marido vive em seu próprio mundo, e a esposa real não é sua esposa. Ele tem uma imagem de uma esposa, e cada vez que esta esposa não está à altura de sua imagem, há luta, conflito, ira, ódio. Ele ama a sua própria imagem de uma esposa, e a esposa ama a sua própria imagem de um marido, e ambas são ilusórias; não existem em nenhuma parte. Esta esposa real existe e este marido real existe, mas não se podem encontrar porque entre estas duas pessoas reais estão a esposa irreal e o marido irreal. Sempre estão aí; não permitirão um encontro das pessoas reais.

Todo mundo está vivendo em seu próprio mundo, em seus próprios sonhos, expectativas, projeções. Há tantos mundos como mente. Esses mundos são ilusórios, maia. Quando seu centro falso desaparece, o mundo inteiro troca. Então é um mundo real. Então vê pela primeira vez as coisas como são. Então não há desdita, porque com a ilusão desaparecem as expectativas, e com a realidade não pode haver desdita. Então a gente chega a perceber: «É assim! Os fatos são os fatos!». Com ficções há problemas, e as ficções nunca lhe permitem conhecer os fatos. Estas ficções da mente são maia.

OSHO em, O LIVRO DOS SEGREDOS

domingo, 21 de setembro de 2014

Vivemos a base de imagens criadas pela mente

PERGUNTA: Para que termine a formação de imagens, também deve cessar o pensamento? Um não implica necessariamente o outro? O final da formação das imagens é realmente a base sobre a qual se pode descobrir o que são o amor e a verdade? Ou esse final é a essência mesma da verdade e do amor?

KRISHNAMURTI: Vivemos a base de imagens criadas pela mente, pelo pensamento. Continuamente ajuntamos e eliminamos imagens. Você tem sua própria imagem a respeito de si mesmo; se você é um escritor, tem uma imagem de si mesmo como escritor, se é marido ou esposa, cada qual tem criado uma imagem de si mesmo ou de si mesma. Isto começa desde a infância, por causa da comparação, da sugestão, quando lhe dizem que você não é tão bom como o outro menino, ou que deve fazer tal coisa, ou que não deve fazê-la; assim, gradualmente, este processo se acumula. E, em nossas relações, pessoais ou de outro tipo, sempre há uma imagem. E esta imagem impede completamente que haja uma relação verdadeira com o outro.

Bem, agora, o interlocutor

PERGUNTA: Isto pode terminar alguma vez, ou é algo com o que temos que viver perpetuamente? E também pergunta: No termino mesmo dessa imagem, chega ao seu fim o pensamento? Ambas as coisas estão, a imagem e o pensamento, relacionadas entre si? Quando cessa o mecanismo pelo qual se forma a imagem, é isso a essência mesma do amor e da verdade?

Alguma vez terminaram de verdade com uma imagem, fazendo-o espontaneamente, facilmente, sem nenhuma compulsão, sem nenhum motivo? Não dizendo: “Devo terminar com a imagem que tenho de mim mesmo, assim não serei lastimado”. Tome uma imagem e examine-a; ao examiná-la descobre todo o movimento da formação de imagens. Nessa imagem começa a descobrir que existe temor, ansiedade, uma sensação de isolamento; e se sente temor, diz: “É muito melhor ficar com algo que conheço e não em algo que não conheço”. Porém, se a examina a fundo e com total seriedade, investiga quem é o fazedor da imagem, não de uma imagem, em particular, senão, de toda formação de imagens. É ele o pensamento? É essa a resposta, a reação natural para proteger-se a si mesmo física e psicologicamente? Pode-se entender que haja uma resposta natural para a proteção física: como ter alimento, roupas, um lugar onde viver, como evitar ser atropelado por um ônibus, etc. Essa é uma resposta natural, sadia, inteligente. Nela não há imagem; porém, psicologicamente, internamente temos criado esta imagem que é a conseqüência de uma série de incidentes, acidentes, ofensas, injúrias.

É esta formação psicológica de imagens o movimento do pensar? Sabemos que o pensamento não intervem, quem sabe para nada, na reação física auto-protetora. Porém, a formação psicológica das imagens é o resultado da constante falta de atenção, falta que é a essência mesma do pensamento. O pensamento é, em si mesmo, desatento. A atenção não tem um centro, não tem um ponto a partir do qual ir a outro ponto, como ocorre na concentração. Quando há atenção completa, não há movimento do pensar. Somente na mente que não está atenta surge o pensamento.

O pensamento é matéria; o pensamento é o resultado da memória; a memória é o resultado da experiência, a qual deve ser sempre limitada, parcial. A memória, o conhecimento, nunca podem ser completos, sempre parciais; portanto, neles não há atenção.

Assim pois, quando há atenção não há a formação de imagens, não há conflito; isso é um fato, veja-o. Se quando você me insulta ou me bajula, estou completamente atento, então, o insulto ou essa bajulação nada significam. Porém, no instante em que não presto atenção, o pensamento, que em si mesmo é desatento, toma a direção e cria a imagem.

O interlocutor também PERGUNTA: o final da formação de imagens, é a essência da verdade e do amor? De nenhum modo. O amor é desejo? O amor é prazer? Quase toda nossa vida tende ao prazer em diferentes formas, e quando tem lugar esse movimento de prazer, de sexo, etc., a isso chamamos amor. Pode haver amor quando há conflito, quando a mente está debilitada por problemas, o problema de Deus, o problema da meditação, dos problemas entre o homem e a mulher? Quando a mente vive submergida em problemas, como o está a maioria de nossas mentes, pode haver amor?

Pode haver amor quando há um grande sofrimento, seja fisiológico ou psicológico? É a verdade uma questão de conclusões, de opiniões, um assunto de filósofos, de teólogos, dessas pessoas que crêem tão profundamente em dogmas e rituais, que são toda criação do homem? Pode uma mente tão condicionada saber o que é a verdade? A verdade pode manifestar-se tão somente quando a mente está completamente livre de toda esta mistura. Os filósofos e outros nunca olham suas próprias vidas, se perdem em algum mundo metafísico ou psicológico a respeito do qual se colocar a escrever e publicar, e chegam a ser famosos. A verdade é algo que exige uma extraordinária claridade da mente, requer uma mente absolutamente livre de problemas físicos ou psicológicos, uma mente que não conheça o conflito. Ainda assim a recordação do conflito tem que terminar. Com a carga das recordações não podemos dar com a verdade. É impossível. A verdade somente pode manifestar-se para uma mente livre, assombrosamente livre de tudo o que tenha sido feito pelo homem.

Para mim, essas não são palavras, compreende? Se não fosse algo real, não falaria disso porque seria desonesto para comigo mesmo. Se não se tratasse de um fato, eu seria então um terrível hipócrita. Isto requer uma integridade tremenda.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Ojai, Califórnia, 13 de maio de 1980

domingo, 15 de setembro de 2013

A imagem é diferente de seu criador?

(...) Não nos interessam opiniões. Elas só podem servir para dissertações dialéticas. E nós estamos tratando de coisa inteiramente diferente. Estamos interessados no processo total do viver; esse processo, como se pode observar, está sempre criando imagens a respeito de nós mesmos e de outros — imagens que se formam através da experiência, através do conflito. A essa imagem ora se adiciona, ora se subtrai algo, mas o fator central daquela energia criadora das imagens é constante. Temos alguma possibilidade de superá-lo? Estamos conscientes da existência, dentro de cada um de nós, de uma imagem de nós mesmos, consciente ou inconsciente? Quer dizer, uma pessoa pode ter de si a imagem de uma entidade superior ou de um ente sem capacidade, ou de uma entidade agressiva, orgulhosa — enfim, todas as nuanças e sutilezas de que pode constituir-se tal imagem. Sem dúvida nenhuma, cada um possui essa imagem de si próprio. Nós a temos mesmo em plena juventude (pois a idade nada tem a ver com isso) e, com o passar dos anos, ela se vai consolidando e cristalizando cada vez mais... até não haver mais remédio.

Estamos conscientes dessa imagem? Se estamos, QUEM é a entidade que se torna consciente da imagem? Compreendem? A imagem é diferente de seu criador? (...) Entendem? Posso ver que tenho uma imagem de mim mesmo: sou isto e sou aquilo; um grande homem ou um homem insignificante; meu nome é conhecido ou desconhecido, enfim toda a estrutura verbal e não verbal que se ergue em torno de mim, consciente ou inconscientemente. Percebo que essa imagem existe, se presto atenção, se me ponho vigilante. E observador que a percebe sente-se diferente dela. Não é isso o que está ocorrendo? (...) E o observador começa então a dizer, de si para si, que a imagem é o fator responsável pela deterioração e que, portanto, terá de destruí-la a fim de alcançar um resultado superior — rejuvenescer a mente, etc. — Compreendendo que essa imagem é o fator de deterioração, faz um grande esforço para libertar-se dela.(...) Ele (o observador) luta, explica, justifica, acrescenta; esforça-se para transformá-la numa imagem melhor; transfere-a para uma dimensão diferente, uma diferente parte do campo a que chama "vida". O observador, pois, ou se empenha em destruir a imagem, ou em acrescentá-la, ou ultrapassá-la. É o que estamos fazendo a todas as horas. E nunca nos detemos para investigar se o observador não é o criador da imagem e, por conseguinte, ele próprio a imagem. Assim, uma vez compreendido esse fato, — não verbal porém realmente —isto é, que o observador é o criador da imagem e, com sua ação, não só destrói a imagem que então tem de si próprio, mas também cria outra imagem e continua a criar imagens, indefinidamente, lutando, esforçando-se, controlando, alterando, ajustando; uma vez claramente compreendido que o observador é a coisa observada, cessam todos os esforços para alterar ou transcender a imagem.

(...) Assim, ao perceber-se que o observador é o criador de imagens, todo o nosso processo de pensar passa por uma enorme mudança. E, portanto, a imagem é o conhecido, não? Podem não estar conscientes dela; podem não estar conscientes de seu conteúdo, de sua forma, de suas peculiares nuanças, sutilezas — mas essa imagem, quer dela estejamos conscientes, quer não, se encontra no campo do conhecido.

(...) Enquanto a mente, em seu todo — ou seja, a mente, o cérebro e o corpo — estiver funcionando no campo da imagem, que é o conhecido — do qual podemos estar conscientes ou não — nesse campo estará sempre o fator de deterioração.

(...) O problema é se a mente — que é o resultado do tempo, psicológico e cronológico, resultado de milhares de experiências, de inúmeras tensões e pressões, do conhecimento técnico, da esperança, do desespero, de tudo o que passa o ente humano, das inúmeras formas de medo — o problema é se a mente funciona sempre dentro desse campo, desse campo do conhecido. Emprego a palavra "conhecido" compreendendo, inclusivamente, o que pode existir dentro daquele campo e que ainda não observaram; isso também é conhecido. É esse o campo em que a mente funciona: sempre o campo do conhecido. O conhecido é a imagem criada pelo intelecto ou por pensamentos sentimentais, emocionais, românticos — pensamentos de toda espécie. Enquanto suas atividades, seus pensamentos, seus movimentos estiverem confinados no campo do conhecido (onde se processa a criação das imagens), é inevitável a deterioração, não importa o que se faça. Temos, assim, a questão: É possível esvaziar a mente do conhecido? (...) Essa pergunta — se é possível livrar-nos do conhecido — já deve ter sido feita, vagamente ou com um propósito definido, porque todos sofremos, temos ansiedades e vagos pressentimentos dessa possibilidade. Estamos agora a fazê-la como uma pergunta que tem de ser respondida, como um desafio a que se tem de reagir — não a um desafio exterior, porém um desafio interior, psicológico.

(...) pode-se ver muito claramente que só há compreensão, ação, quando a mente está totalmente quieta. Isto é, digo que compreendo ou que vejo uma coisa com muita clareza quando a mente está de todo silenciosa. Você diz-me algo que me agrada ou desagrada. Se me agrada, presto alguma atenção; se não, nenhuma atenção lhe dou. Ou eu ouço o que você está dizendo e traduzo-o de acordo com minha idiossincrasia, minha inclinação, justificando, etc. etc. Não o escuto, absolutamente. Ou me oponho ao que você diz, porque tenho uma imagem de mim mesmo, e essa imagem reage.(...) Desse modo, eu não ouço nem escuto. Oponho objeções; discordo; torno-me agressivo. Mas tudo isso, evidentemente, me impede de compreender. Eu desejo compreender-lhe. Entretanto, só posso compreender-lhe se nenhuma imagem tenho de você. E, se me é completamente desconhecido, um estranho, nenhum interesse tenho no que você diz; não quero, sequer, compreender-lhe, porquanto você está completamente fora da órbita de minha imagem: não estou em relação com você. Mas, se você é um amigo, um parente, meu marido, minha mulher, etc., tenho a respectiva imagem; e a imagem que de mim você tem e a que tenho de você — essas imagens estão em relação entre si. Todas as nossas relações se baseiam nisso. Vê-se muito claramente que é só quando a imagem não interfere — imagem na forma de conhecimento, pensamento, emoção, etc. — que posso olhar, que posso ouvir, que posso compreender. Isso ocorre com todos nós. Quando, após discutir, argumentar, demonstrar, etc., a sua mente se torna de súbito quieta e você percebe o fato, diz: "Agora sim, compreendi!" — Essa compreensão é ação, e não ideia.

(...) Quando o observador é a imagem e, por conseguinte, nenhum esforço faz para alterar ou aceitar a imagem, e só existe o fato — O QUE É —, então, a observação desse fato opera radical transformação do próprio fato. Isso só pode verificar-se quando o observador é a coisa observada. Não há nada de misterioso nisso. O mistério da vida está acima de tudo isso — da imagem, do esforço, da atividade centralizada, egocêntrica, subjetiva. Existe um imenso campo e, nele, uma certa coisa que jamais pode ser encontrada através do conhecido. E o "esvaziar" da mente só pode verificar-se não verbalmente, quando não há observador nem coisa observada. Tudo isso exige imensa atenção e percebimento, que não é concentração.

(...) Há percebimento quando a pessoa observa (e isso qualquer um pode fazer) não só as coisas exteriores, a árvore, o que os outros dizem, o que ela própria pensa, etc., mas também quando observa interiormente, sem escolha. Quando observa simplesmente, sem escolha alguma. Porque a pessoa só escolhe quando há confusão, e não quando há clareza.

Só há percebimento quando não há escolha; ou ao estarmos conscientes de todas as escolhas e desejos contraditórios e da tensão respectiva: no observarmos todos os movimentos da contradição. Quando se sabe que o observador é a coisa observada, não há nesse processo escolha alguma, porém, tão-só, observação do que É, e isso difere inteiramente da concentração. Esse percebimento produz uma atenção de tal qualidade que não há observador nem coisa observada... Nesse estado de atenção há silêncio. Produz essa atenção um extraordinário estado de renovação, de juvenilidade, estado em que a mente se torna vigorosa, completamente nova. Esse "esvaziar" da mente de todas as experiências que teve é meditação.

(...) A meditação é um processo que exige muita energia; não é simples ocupação para gente velha, que nada tem que fazer. Requer intensa e continuada atenção. Acharão então, por vocês mesmos... não, não acharão nada: não se está procurando nenhuma experiência, não há nada para achar. Quando a mente está totalmente quieta, não por qualquer espécie de sugestão, de hipnotismo ou qualquer outro método — nessa total quietação há um estado, uma dimensão diferente, que o pensamento jamais tem possibilidade de imaginar ou de experimentar. Ela se encontra acima de toda busca. Já não há buscar. A mente toda iluminada não busca. Só aquela que está na obscuridade, confusa, busca permanentemente e espera achar alguma coisa. E o que acha é sempre resultado de sua confusão.


Jiddu Krishnamurti — A importância da Transformação

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sobre o processo de imagens que impede o claro observar

(...)Nossas relações com os entes humanos se baseiam no mecanismo defensivo, formador de imagens. Em todas as nossas relações, formamos imagens uns dos outros, e são essas imagens que ficam em relação, e não os entes humanos... cada um tem uma imagem de sua pátria e uma imagem de si próprio. A essas imagens vamos fazendo mais e mais acréscimos, a fim de fortalecê-las. E, com profunda observação, pode-se ver que essas imagens têm relação umas com as outras. E, dessa maneira, por causa da formação das imagens, o verdadeiro estado de relação entre dois ou muitos entes humanos cessa completamente.

Cada um pode observar esse fato em si próprio; e, evidentemente, as relações baseadas em tais imagens jamais serão pacíficas, porquanto as imagens são fictícias e não se pode viver abstratamente. Todavia, é isso o que estamos fazendo: vivendo na esfera das ideias, das teorias, dos símbolos — tais como a nação, as imagens que criamos a respeito de nós mesmos e de outros, as quais são puros devaneios, irrealidades. Todas as nossas relações — com a propriedade, com as ideias, com pessoas — se baseiam essencialmente nessa formação de imagens e, por isso, há sempre conflito.

(...) Pode-se olhar sem nenhuma interferência do passado, do pensamento? Pode-se olhar o todo da consciência humana — que constitui a pessoa, o "eu" — sem interferência, juízo, avaliação, tudo isso essencialmente baseado no passado? Porque o importante é o ato de olhar e não aquilo que olhamos. Se sabemos olhar, então aquilo que olhamos muda completamente de natureza. Isso se pode observar em nossa vida de cada dia.

(...) O tempo é o intervalo entre o observador e a coisa observada... Pode-se enfrentar a chamada "morte" (ou o que quer que seja) sem esse intervalo de  espaço-tempo? Só é possível quando há atenta e profunda observação, na qual o observador não tem continuidade — o observador que é o criador de imagens, o observador que é a coleção de memórias, ideias, um feixe de devaneios. É possível enfrentar qualquer fato sem esse intervalo de tempo e, portanto, sem nenhuma contradição, vale dizer, sem conflito?

(...) Vários métodos já se experimentaram para eliminar o espaço entre o observador e a coisa observada: drogas, identificação, meditação, observância de sistemas e outros mais — tudo isso na esperança de eliminar esse intervalo de espaço entre o observador e a coisa observada e, desse modo, libertar-se da contradição e do conflito, criando-se assim a paz.

Não creio que algum sistema ou droga, alguma identificação, alguma forma de sublimação tenha o poder de eliminar o espaço. Mas, que é que pode eliminar o espaço e o tempo? É a maneira de olhar, de observar. A meu ver, esta é a chave: observar, realmente, sem nenhuma imagem. Eis porque cumpre haver muita simplicidade: observar uma flor sem nenhuma atividade mental, sem nenhuma interferência do pensamento; porque pensamento é tempo, e tempo é aflição. (...) Observar simplesmente!  

(...) se uma pessoa observa tudo isso dentro de si, e se penetrou suficientemente, junto comigo, nesta manhã — descobre ser possível viver sem conflito e sem contradição. Existe contradição quando há comparação, não apenas com alguma coisa, mas também a comparação com o que eu era  ontem. É assim que surge o conflito entre o que foi e o que é. Não havendo comparação, só há o que é. E viver completamente com o que é é ser pacífico. Porque então se pode dispensar toda atenção ao que é, sem distração alguma — a realidade interior, não importa o que seja: desespero, malevolência, brutalidade, medo, ansiedade, solidão — e viver plenamente com essa realidade. Não há então contradição e, por conseguinte, não existe conflito.
Essa compreensão que só pode nascer da observação de o que é — é paz. Isso não significa aceitar o que é; ao contrário, não se pode aceitar esta sociedade monstruosa e corrupta em que estamos vivendo, a qual entretanto é o que é. Significa, sim, observá-la, observar toda a sua estrutura psicológica, que sou eu — observá-la sem julgamento nem avaliação — observar realmente o que é e, observando-o, transformar-se completamente. Pode assim uma pessoa viver em paz com a esposa ou o marido, com o próximo, com a sociedade, porque ela própria está vivendo, dia a dia, uma vida pacifica.

(...) Pois bem; que é o sofrimento? E porque razão o homem jamais conseguiu livrar-se dele, acabar com ele, dentro em si mesmo? É possível colocar fim ao sofrimento, completamente, não teórica, porém realmente? Ele só pode cessar com a perfeita compreensão de nós mesmos. O autoconhecimento é o fim do sofrimento. Não queremos dar-nos ao trabalho de estudar-nos e ficamos inventando maneiras de fugir do sofrimento.

Enquanto existir o observador com todas as suas memórias, essa entidade separada criadora de um intervalo de tempo entre si e o que é, tem de haver sofrimento, que é conflito. E colocar fim ao sofrimento, de fato e não verbalmente, colocar-lhe fim todos os dias, é estar cônscio (o indivíduo) do movimento total da própria existência, a todas as horas.

(...) Só existe confusão quando não estou olhando diretamente o que é. E quando um homem está confuso, quanto mais tenta livrar-se da confusão, tanto mais confuso se torna. Assim, em primeiro lugar, que faz uma pessoa quando se vê confusa?

Eu estou confuso. Não sei o que fazer; há várias possibilidades de escolha. E compreendo que, havendo escolha, tem de haver confusão. E eu estou confuso; portanto, que devo fazer? Primeiro, tenho de parar, não? Detenho-me; não fico a procurar, a pedir, a perguntar, a olhar, a observar. Ao se perder numa floresta, você não se põe a correr a esmo; primeiro para e olha para todos os lados. Mas, quanto mais uma pessoa está confusa, tanto mais se põe a correr, a buscar, a interrogar, a exigir, a rogar. Portanto, a primeira coisa — se posso sugerir-lhe — é deter-se completamente em seu interior. E quando, interiormente, psicologicamente, você detém todo movimento de busca, de escolha, de indagação, a sua mente se torna muito plácida, muito clara. Pode então olhar. E só na claridade que se pode olhar, e não na confusão.  
   
(...) Eu lhe olho. Não lhe conheço e, por conseguinte, não tenho nenhuma imagem a seu respeito. Mas, se lhe conheço, olho-lhe com a imagem que tenho de você. Essa imagem foi formada, constituída pelo que você disse — insultando-me ou elogiando-me — e com essa imagem eu lhe olho. A imagem é uma distração que não me deixa olhá-lo. Só posso olhá-lo quando nenhuma imagem tenho de você; estou então em relação com você. É-me possível morrer para a imagem que construí, para as imagens que tenho de você que venho formando há tantos anos, vivendo com você como marido ou esposa ou vizinho — ou a imagem que tenho acerca dessas relações? Posso morrer para todas elas? Se não morro para elas, e visto que essas imagens constituem uma distração ou devaneio, não tenho a possibilidade de olhar.   Se tenho uma imagem relativa à arvore, não posso olhar a árvore.

(...) Assim, é possível morrer para tudo o que é conhecido, inclusive a imagem deste orador? De outro modo, a imagem se torna a autoridade, quer dizer, o devaneio se torna uma autoridade, em lugar do estado real. Estamos sempre fazendo isso, não?  

Jiddu krishnamurti — A essência da maturidade


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pode o pensamento, estabelecer corretos relacionamentos?

Como já observamos, a sociedade está nos fazendo, e nós estamos ficando cada vez mais mecânicos, superficiais, insensíveis, indiferentes. Uma horrível matança está ocorrendo no Extremo Oriente e nos mantemos relativamente despreocupados  Alcançamos grande prosperidade, mas essa prosperidade está nos destruindo, porque estamos nos tornando indiferentes e indolentes, porque nos mecanizamos, perdendo a estreita relação com todos os homens e todos os entes vivos; e parece-me importantíssimo fazermos esta pergunta: Que é relação — se de fato alguma relação existe — e que lugar compete, nessa relação, ao amor, ao pensamento e ao prazer?

(...) Consideremos esta questão da relação, questão realmente importantíssima, porque viver é estar em relação; e, considerando-a, indaguemos o que significa viver. Que é nossa vida, que exige relações profunda, seja com a esposa, o marido, os filhos, a família, seja com a comunidade ou outra entidade qualquer? Ao tratarmos desta questão, não podemos considerá-la fragmentariamente, porque, se tomamos uma única seção, uma única parte da totalidade da existência e procuramos resolver só essa parte, a questão não fica de modo nenhum resolvida. (...)Assim, pergunto se podemos, pelo menos por esta tarde (e espero por todo o resto de nossa vida) observar a vida sem estarmos fragmentados — como católicos, protestantes, especialistas do Zen, ou seguidores de determinado guru, determinado Mestre, coisa absurda e pueril. Temos um problema imenso, que é o de compreender a existência, de aprender a viver. E, como dissemos  viver é relação, não há viver se não estamos em relação. E, como a maioria de nós não se acha em relação, no sentido mais profundo da palavra, tentamos identificar-nos com alguma coisa — com a nação, com um dado sistema ou filosofia, ou certo dogma ou crença. É isto que se observa no mundo: a identificação de cada indivíduo com alguma coisa — com a família ou com sua própria pessoa — e eu não sei o que significa "identificar-se consigo mesmo".

Esta existência fragmentária, separativa, leva inevitavelmente a várias formas de violência. Assim, se pudéssemos dispensar atenção ao problema das relações, teríamos talvez a possibilidade de resolver as iniquidades sociais, as injustiças, a imoralidade e aquela coisa terrífica chamada "respeitabilidade", que o homem sempre cultivou. "Ser respeitável" é ser moral em conformidade com uma coisa verdadeiramente imoral. Em tais condições, há alguma espécie de relação? Relação significa estar em contato  profundamente, fundamentalmente, com a natureza, com outro ente humano — estar em relação, não de sangue, como membro de uma família, ou como marido e mulher, pois isso dificilmente pode chamar-se "estar em relação". Para compreender a natureza desta questão, temos de considerar outro ponto, ou seja o mecanismo da formação de imagens, da criação de uma ideia, de um símbolo. Quase todos nós temos imagens acerca de nós mesmos e a imagem de outrem; temos tais imagens, nas relações. Tendes vossa imagem do orador, e o orador, como não vos conhece, não tem imagem nenhuma de vós. Mas, quando conhecemos uma pessoa intimamente, dela já formamos uma imagem; a própria intimidade implica a imagem que tendes da pessoa — a esposa tem uma imagem do marido, e este tem uma imagem dela. E há a imagem da sociedade, e as imagens que temos acerca de Deus, da verdade, de tudo.

Como se origina essa imagem? E, se ela existe — e ela existe, pode-se dizer, em todas as pessoas — como é então possível haver qualquer relação real? Relação significa estar profundamente em contato um com outro. Dessa relação pode nascer a cooperação, o trabalhar juntos, fazer coisas juntos. Mas, se há alguma imagem — eu com uma imagem de vós, e vós com uma imagem de mim — que relação pode haver, a não ser a relação de uma ideia, de um símbolo, de uma certa memória, que se torna a imagem? Estão essas imagens em relação, e é nisso que consistem as relações? Pode haver amor, no verdadeiro sentido desta palavra (não em conformidade com os sacerdotes  ou em conformidade com os teólogos, ou em conformidade com os comunistas ou esta ou aquela pessoa), pode haver efetivamente esse sentimento de amor quando as relações são puramente conceituais, entre imagens, e não relações reais? Só pode haver relação entre os entes humanos quando aceitamos o que é, e não o que deveria ser. Estamos sempre vivendo no mundo das fórmulas, dos conceitos, que são imagens do pensamento. Pode, pois, o pensamento, o intelecto, estabelecer relações corretas  Pode a mente, o cérebro, com todos os seus instrumentos de autoproteção, formados através de milhões de anos — pode esse cérebro, que é inteiramente reação da memória e do pensamento  estabelecer relações corretas entre os seres humanos? Que lugar compete à imagem, ao pensamento, nas relações? Há realmente lugar para eles?

(...)Ora, que são relações? Temos, de fato, alguma espécie de relação? Vivemos tão fechados, tão absorvidos em proteger-nos, que nossas relações se tornaram apenas superficiais, sensuais, aprazíveis. Se nos examinarmos em silêncio (não de acordo com Freud ou Jung ou outro especialista), se observarmos a nós mesmos tais como realmente somos, talvez possamos descobrir o quanto estamos a isolar-nos todos os dias, a erguer em torno de nós muralhas de defesa, de medo. Olhar a nós mesmos é mais importante e de maior necessidade do que nos observarmos de acordo com um especialista. Se vos olhais de acordo com Jung ou Freud, ou Buda, ou outrem, estais a olhar-vos com olhos alheios. Isso estamos sempre fazendo; para olhar, já não dispomos de nossos próprios olhos, e eis porque estamos perdendo a beleza que há em olhar.

Pois bem; quando vos olhais diretamente, não descobris que vossas atividades diárias (vossos pensamentos, vossas ambições  vossa agressividade, vossa constante ânsia de ser amado e de amar, a constante tortura do medo, a agonia do isolamento), não descobris que essas coisas são fortemente separativas e causadoras de profundo isolamento? E, nesse profundo isolamento, que relação podeis ter com outro, com esse outro que também se isola com sua ambição, sua avidez, sua avareza, sua ânsia de domínio, de posse, de poder, etc.? Eis, pois, duas entidades chamadas entes humanos a viverem em seu próprio isolamento, a gerarem filhos, etc., mas sempre no isolamento. E a cooperação entre essas duas entidades isoladas torna-se mecânica; alguma cooperação, entretanto, é necessária entre eles, para que possam viver, ter família, trabalhar num escritório ou numa fábrica mas eles permanecem sempre entidades isoladas, com suas crenças e dogmas, suas nacionalidades — bem conheceis todas as coisas de que o homem se cerca para isolar-se dos demais  O isolamento, portanto, é, essencialmente, o fator do estado de "não relação". E nas pseudo-relações desse isolamento, o prazer se torna da máxima importância.

Pode-se ver como, em todo o mundo, o prazer se está tornando cada vez mais exigente, mais insistente, porque todo prazer — se o observais atentamente — é um processo de isolamento; e esta questão do prazer precisa ser examinada no contexto das relações. O prazer é produto do pensamento, não? Houve prazer numa coisa que ontem experimentastes, na beleza ou na percepção sensitiva, ou no excitamento dos sentidos ou do sexo. Pensais nessas coisas, formais uma imagem daquele prazer ontem experimentado  Eis como o pensamento sustenta e dá nutrição à coisa que ontem chamastes deleitável. E, assim, o pensamento exige, hoje, a continuação daquele prazer. Quanto mais pensais na experiência que tivestes e que por um momento vos deleitou, tanto mais o pensamento lhe dá continuidade, na forma de prazer e de desejo. E que relação tem isso com a questão fundamental da existência humana: Como estamos relacionados? Se nossa relação é produto do prazer sexual, ou do prazer derivado da família, da propriedade, do domínio, do controle, do medo de nos vermos desprotegidos, privados de segurança interior e, por conseguinte, sempre a buscar o prazer — então que lugar compete ao prazer nas relações? A exigência de prazer destrói todas as relações, sejam sexuais, sejam de outra espécie. E, se bem observarmos, veremos que todos os nossos chamados "valores morais" baseiam-se no prazer, embora o disfarcemos com a "virtuosa" moralidade de nossa respeitável sociedade.

Assim, quando nos interrogamos, quando olhamos fundo em nós mesmos, percebemos essa atividade de auto-isolamento, esse "eu", esse "ego", a erguer defesas em torno de si, e essas próprias defesas são o "eu". Este "eu" é isolamento, é ele que produz fragmentos, que produz o "olhar" que se fragmenta em pensador e pensamento. Assim, que lugar compete ao prazer, que é produto de uma lembrança sustentada e nutrida pelo pensamento — o pensamento que é sempre velho, e nunca livre? Que tem a ver esse pensamento, que concentrou sua existência no prazer, com as relações? Fazei a vós mesmos esta pergunta, não vos limiteis a ouvir as palavras deste orador — que amanhã já não estará aqui. Vós tendes de viver vossa própria vida e por conseguinte, o orador é inteiramente sem importância. O importante é fazerdes a vós mesmos estas perguntas, e, para fazê-las, deveis ser ardorosos, estar inteiramente dedicados à investigação. Porque só ao manifestardes esse ardor, essa determinação, estais vivendo, só quando sois profundamente aplicados, a vida desabrocha, tem significado, tem beleza. Deveis interrogar-vos: É ou não é um fato que estamos vivendo na dependência de uma imagem, de uma fórmula, de um fragmento que nos está isolando? Não foi por causa desse isolamento que o medo, com sua dor e prazer (produtos do pensamento), se tornou existente? Tenta então aquela imagem identificar-se com algo que seja permanente  com Deus, com a verdade, com a nação, a bandeira, etc.

Assim, se o pensamento é velho (e ele é sempre velho e, por conseguinte, nunca é livre), como pode ele compreender as relações? As relações estão sempre no presente, no presente vivo (não no passado morto, da memória, das lembranças, do prazer e da dor), as relações estão ativas agora; "estar em relação" significa justamente isso. Ao olhardes para outra pessoa com olhos cheios de afeição, de amor, estabelece-se uma relação imediata (...) Mas, se o pensamento se intromete, então essa relação se converte em imagem. Assim, pergunta-se: Que é o amor? O amor é prazer? O amor é desejo? É o amor a lembrança de uma multiplicidade de coisas que formastes e conservastes — a respeito de vossa esposa, de vosso marido, de vosso próximo, da sociedade  da comunidade, de vosso Deus? Pode-se chamar a isso amor?

Se o amor é produto do pensamento (como de fato é, na maioria dos casos), então esse amor está fechado entre cercas, emaranhado na rede do ciúme, da inveja, do desejo de dominar, de possuir e ser possuído, da ânsia de ser amado e de amar. Pode, então, haver amor a um e amor a todos? Se amo um, destruo o amor para com outros? E como, para a maioria de nós, o amor é prazer, companhia, conforto, segregação na família e o sentimento de segurança que nela se encontra — existe, aí, realmente amor? Pode um homem que está acorrentado à família amar o seu próximo? Podeis discorrer teoricamente acerca do amor, ir à igreja para amar a Deus (o que quer que isso signifique) e, no dia seguinte, ir para o trabalho e destruir o vosso próximo — porque estais em competição com ele, ambicionando o seu cargo, as suas posses, e desejando melhorar a vós mesmos, comparando-vos com ele. Assim, quando, dentro em vós existe essa atividade, da manhã à noite, e mesmo durante o sono, em sonhos, podeis estar em relação? Ou relação é coisa de todo diferente?

Só pode haver relação quando há total abandono do "eu", do "ego". Quando não existe "eu", estais então em relação; nesta, não há separação de espécie alguma. Provavelmente, nunca experimentamos esse estado de total negação (não intelectual, porém real), de total cessação do "eu". E talvez seja esse estado que a maioria de nós está buscando, sexualmente ou pela identificação com uma coisa superior. Todavia, esse processo de identificação com uma coisa superior deriva do pensamento; e o pensamento é sempre velho (como o "eu", o "ego", ele pertence ao passado). Apresenta-se, assim, a questão: Como é possível abandonar de todo esse processo isolante, esse processo que se centraliza no "eu"? Como é possível isso? (...)Como pode o "eu", cujas atividades diárias são motivadas pelo medo, pela ansiedade, pelo desespero, a tristeza, a confusão e a esperança — como pode esse "eu" que se separa de outro pela identificação com Deus, com seu condicionamento, sua sociedade, suas atividades morais e sociais, com o Estado — morrer, desaparecer, para que o ente humano possa estar em relação? Porque, se não estamos em relação, iremos viver em guerra uns com os outros. Poderá não haver matança mútua, porque isso se está tornando muito perigoso, a não ser, talvez, em terras muito longínquas. Como podemos viver de modo que não haja separação, de modo que possamos cooperar realmente?

Há tanta coisa por fazer neste mundo — acabar com a pobreza, viver com felicidade, viver deleitosamente em vez de viver na agonia e no medo, edificar uma sociedade de espécie completamente diferente, com uma moralidade superior. Isso, porém, só se tornará possível quando a moralidade da atual sociedade for totalmente negada. Há tanto que fazer, e que não poderá ser feito enquanto estiver em funcionamento o processo de isolamento  Falamos do "eu", do "meu", e do "outro"; "o outro" está do outro lado do muro, e o "eu" e o "meu" deste lado. Como pode, pois, essa essência da resistência, que é o "eu" ser totalmente abandonada? Porque esta é realmente a questão mais importante, em todas as relações — já que percebemos que a relação entre imagens não é relação nenhuma e que, quando existe tal qualidade de relação, há necessariamente conflito e estamos sempre em guerra uns com os outros.

(...)Não sei se já vistes o que significa ter uma mente totalmente vazia. Vós tendes vivido num espaço criado pelo "eu" (um espaço limitadíssimo). O espaço que o "eu" (o processo de isolamento) criou entre uma pessoa e outra, é esse o único espaço que conhecemos, o espaço entre ele próprio e a circunferência (a fronteira que o pensamento criou). Nesse espaço é que vivemos; nele há divisão. Dizeis: "Se abandono a mim mesmo, ou se abandono o centro que é o "eu", ficarei vivendo num vácuo." Mas, já alguma vez abandonastes o "eu", de fato, realmente  de modo que dele não tenha ficado nenhum resquício? Já vivestes neste mundo nesse estado de espírito — no vosso trabalho  com vossa esposa ou marido? Se alguma vez já vivestes assim, deveis saber que há um estado de relação em que o "eu" não existe, um estado que não é utópico, que não é coisa sonhada ou experiência mística, irracional, porém um estado possível: viver numa dimensão em que todos os entes humanos estejam relacionados.

Mas essa possibilidade só existe se compreendemos o que é o amor. E, para existirmos, para vivermos nesse estado, temos de compreender o prazer (sustentado pelo pensamento) e todo o seu mecanismo. Então, se poderá ver instantaneamente todo o complicado mecanismo que construímos para nós mesmos e em redor de nós. Não há necessidade de percorrermos todo o processo analítico, ponto por ponto. Toda análise é fragmentária e, por essa porta, não virá resposta nenhuma.

Existe este imenso e complexo problema da existência, com seus temores, ansiedades, esperanças, passageira felicidade e alegrias, mas a análise não pode resolvê-lo. O que o resolverá é abarcá-lo, no seu todo, num rápido lance de olhos. Só podemos compreender uma coisa quando a olhamos (não com o olhar prolongado  exercitado, do artista, do cientista ou do homem que se exercitou para "olhar"), só podemos compreender uma coisa quando a olhamos com toda a atenção, quando a vemos, em seu conjunto, num relance de olhos. E, assim, vos sentireis livres. Estareis então fora do tempo. O tempo se deterá e, por conseguinte, terá fim o sofrer. O homem entregue à amargura ou ao medo não está em relação. Como pode um homem ambicioso de poder estar em relação? Ele poderá ter família, dormir com sua mulher, mas não está em relação. Quem compete com outro não está em nenhuma relação. E toda a nossa estrutura social, com sua moralidade, se baseia na competição. Achar-se em relação, fundamental e essencialmente, significa a cessação do “eu”, gerador de separação e do sofrimento.

Krishnamurti — 25 de abril de 1968 – Onde está a Bem-aventurança

Não há estabilidade social sem estabilidade individual


Aldous Huxley-Admirável Mundo Novo

“Será admirável o nosso novo mundo? A quem serve esta civilização que se diz moderna e funcional e, ao aparato das técnicas, sacrifica o espírito?... O espírito, considerado realidade menor, o espírito tolerado, quando não reprimido... Qual, o lugar do homem, numa sociedade dominada pela máquina? Qual, o caminho para o Indivíduo que reivindique a liberdade interior e o direito à sua... individualidade, à sua singularidade? Para o Indivíduo que queira caminhar pelos próprios pés? Aldous Huxley, um dos maiores escritores contemporâneos, descreve, em «Admirável Mundo Novo», com fantasia e ironia implacável, a sociedade futura totalitarista. Simplesmente, o universo que o grande romancista inglês ainda pertence, de certo modo, aos nossos dias. Quase já não pode considerar-se uma ameaça: tomou corpo. O que empresta à leitura desta obra uma força trágica invulgar. Mundo novo? Mundo intolerável? Mundo inabitável? Mundo de onde se deve fugir, de qualquer maneira? Ou, mundo a reconstruir - pedra por pedra? Com uma pureza reconquistada? Aldous Huxley deixa-lhe este montinho de problemas que o leitor poderá - se quiser e souber... - resolver...”

Prefácio de Aldous Huxley:

(…) O remorso crônico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

E eis porque este atual Admirável Mundo Novo é o mesmo que o antigo. Os seus defeitos, como obra de arte, são consideráveis; mas para os corrigir ser-me-ia necessário escrever novamente o livro, e durante esse novo trabalho de redação, ao qual me entregaria na qualidade de pessoa mais velha e diferente, destruiria provavelmente não apenas alguns defeitos do romance, mas também os méritos que ele poderia ter possuído na origem. Por esta razão, resistindo à tentação de me rebolar no remorso artístico, prefiro considerar que o ótimo é inimigo do bom e depois pensar noutra coisa.

Verifico, não menos tristemente que outrora, que a saúde do espírito é um fenômeno muito raro, estou convencido de que pode ser conseguida e gostaria de a ver mais espalhada.

Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão. E no pórtico de entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras:

À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO
SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE

A revolução verdadeiramente revolucionária realizar-se-á não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos.

Admitindo, pois, que sejamos capazes de tirar de Hiroshima uma lição equivalente à que os nossos antepassados tiraram de Magdeburgo, podemos encarar um período não certamente de paz, mas de guerra limitada, que seja apenas parcialmente ruinosa. Durante esse período pode-se admitir que a energia nuclear seja aplicada a usos industriais. O resultado - e o facto é bastante evidente- será uma série de mudanças econômicas e sociais mais rápidas e mais completas que tudo que até agora foi visto. Todas as formas gerais existentes da vida humana serão quebradas e será necessário improvisar formas novas que se adaptem a esse facto não humano que é a energia atômica. Procusto moderno, o sábio de pesquisas nucleares prepara a cama em que a humanidade se deverá deitar; se a humanidade não se adaptar a ela, tanto pior para a humanidade. Será necessário proceder a algumas ampliações e a algumas amputações - o mesmo gênero de ampliações e amputações que se verificaram desde que a ciência aplicada se pôs realmente a caminhar com a sua própria cadência. Mas desta vez serão consideravelmente mais rigorosas que no passado. Estas operações, que estão longe de ser feitas sem dor, serão dirigidas por governos totalitários eminentemente centralizados. É uma coisa inevitável, pois o futuro imediato tem grandes probabilidades de se parecer com o passado imediato, e no passado imediato as mudanças tecnológicas rápidas, efetuando-se numa economia de produção em massa e entre uma população onde a grande maioria dos indivíduos nada possui, têm tido sempre a tendência para criar uma confusão econômica e social. A fim de reduzir essa confusão, o poder tem sido centralizado e o controle governamental aumentado. É provável que todos os governos do Mundo venham a ser mais ou menos totalitários, mesmo antes da utilização prática da energia atômica; que eles serão totalitários durante e após essa utilização prática, eis o que parece quase certo. Só um movimento popular em grande escala, tendo em vista a descentralização e o auxílio individual, poderá travar a atual tendência para o estatismo. E não existe presentemente nenhum sinal que permita pensar que tal movimento venha a ter lugar.

Não há nenhuma razão, bem entendido, para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos. O governo por meio de cacetes e de pelotões de execução, de fomes artificiais, de detenções e deportações em massa não é somente desumano (parece que isso não inquieta muitas pessoas, atualmente); é - pode demonstrar-se - ineficaz. E numa era de técnica avançada a ineficácia é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente «eficiente» será aquele em que o todo-poderoso comitê executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios de propaganda, aos redatores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas. Mas os seus métodos são ainda grosseiros e não científicos.

Os jesuítas gabavam-se, outrora, de poderem, se lhes fosse confiada a instrução da criança, responder pelas opiniões religiosas do homem. Mas aí tratava-se de um caso de desejos tomados por realidades. E o pedagogo moderno é provavelmente menos eficaz, no condicionamento dos reflexos dos seus alunos, do que o foram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo a que o Sr. Churchil chama uma «cortina de ferro» entre as massas e certos fatos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião de uma maneira bastante mais eficaz do que teriam podido fazê-lo. Por meio de denúncias eloquentes ou das mais convincentes e lógicas refutações. Mas o silêncio não basta. Para que sejam evitados a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atritos sociais, é necessário que o lado positivo da propaganda seja tão eficaz como o negativo. Os mais importantes Manhattan Projects do futuro serão vastos inquéritos instituídos pelo governo sobre aquilo a que os homens políticos e os homens de ciência que nele participarão chamarão o problema da felicidade - noutros termos: o problema que consiste em fazer os indivíduos amar a sua servidão. Sem segurança econômica, não tem o amor pela servidão nenhuma possibilidade de se desenvolver; admito, para resumir, que a todo-poderosa comissão executiva e os seus diretores conseguirão resolver o problema da segurança permanente. Mas a segurança tem tendência para ser muito rapidamente considerada como caminhando por si própria. A sua realização é simplesmente uma revolução superficial, - exterior. O amor à servidão não pode ser estabelecido senão como resultado de uma revolução profunda, pessoal, nos espíritos e nos corpos humanos. Para efetuar esta revolução necessitaremos, entre outras, das descobertas e invenções seguintes: 

Primo - uma técnica muito melhorada da sugestão, por meio do condicionamento na infância e, mais tarde, com a ajuda de drogas, tais como a escopolamina. 

Secundo - um conhecimento científico e perfeito das diferenças humanas que permita aos dirigentes governamentais destinar a todo o indivíduo determinado o seu lugar conveniente na hierarquia social e econômica - as cunhas redondas nos buracos quadrados (Expressão metafórica inglesa que designa um indivíduo que está num lugar que lhe não é próprio) possuem tendência para ter ideias perigosas acerca do sistema social e para contaminar os outros com o seu descontentamento. 

Tercio (pois a realidade, por mais utópica que seja, é uma coisa de que todos temos necessidade de nos evadir frequentemente) - um sucedâneo do álcool e de outros narcóticos, qualquer coisa que seja simultaneamente menos nociva e mais dispensadora de prazeres que a genebra ou a heroína. 

Quarto (isto será um projeto a longo prazo, que exigirá, para chegar a uma conclusão satisfatória, várias gerações de controle totalitário) - um sistema eugênico perfeito, concebido de maneira a estandardizar o produto humano e a facilitar, assim, a tarefa dos dirigentes. No Admirável Mundo Novo esta estandardização dos produtos humanos foi levada a extremos fantásticos, se bem que talvez não impossíveis. Técnica e ideologicamente, estamos ainda muito longe dos bebes em proveta e dos grupos Bokanovsky de semi-imbecis. Mas quando for ultrapassado o ano 600 de N. F., quem sabe o que poderá acontecer? Daqui até lá, as outras características desse mundo mais feliz e mais estável - os equivalentes do soma, da hipnopedia e do sistema científico das castas - não estão provavelmente afastadas mais de três ou quatro gerações. E a promiscuidade sexual do Admirável Mundo Novo também não parece estar muito afastada. Existem já certas cidades americanas onde o número de divórcios é igual ao número de casamentos. Dentro de alguns anos, sem dúvida, passar-se-ão licenças de casamento como se passam licenças de cães, válidas para um período de doze meses, sem nenhum regulamento que proíba a troca do cão ou a posse de mais de um animal de cada vez. À medida que a liberdade econômica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação. E o ditador (a não ser que tenha necessidade de carne para canhão e de famílias para colonizar os territórios desabitados ou conquistados) fará bem em encorajar esta liberdade juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de drogas, do cinema e da rádio, ela contribuirá para reconciliar os seus súbditos com a servidão que lhes estará destinada. Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar há apenas quinze anos. Nessa época coloquei-a à distância futura de seiscentos anos. Hoje parece praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos explodir em bocadinhos.

Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos livres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atômica e como consequência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atômica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher. 



(…) a divisa do Estado Mundial: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE

(…)Era conveniente, que a ideia fosse o mais resumida possível se se quisesse que, mais tarde, eles fossem membros disciplinados e felizes da sociedade, dado que os pormenores, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade, e as generalidades são, sob o ponto de vista intelectual, males inevitáveis.

Não são os filósofos, mas sim aqueles que se entregam às construções de madeira e às coleções de selos, que constituem a estrutura da sociedade.

Quando se não tem o hábito da história, os fatos relativos ao passado parecem quase sempre inacreditáveis.

Os extremos tocam-se, pela excelente razão de serem obrigados a tocarem-se.

(…) Por toda a parte o sentimento do exclusivo, por toda a parte a concentração de interesses sobre um único assunto, uma estreita canalização dos impulsos e da energia. "Porém cada um pertence a todos os outros".

(…) O mundo deles não lhes permitia tomar as coisas ligeiramente, não lhes permitia serem sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com as suas mães e os seus amantes, com as suas proibições, para as quais não estavam condicionados, com as suas tentações e os seus remorsos solitários, com todas as suas doenças e a sua dor, que os isolava infinitamente, com as suas incertezas e a sua pobreza, eram obrigados a sentir violentamente as coisas. E, sentindo-as violentamente (violentamente e, o que é pior, na solidão, no isolamento desesperadamente individual), como podiam ser estáveis?

Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade individual.

A máquina gira, gira e deve continuar a girar eternamente. Se ela pára, é a morte. Eram um bilião a esgravatar a terra. As engrenagens começaram a girar. Ao fim de cento e cinquenta anos eram dois biliões. Pararam todas as engrenagens. Ao fim de cento e cinquenta semanas apenas eram, novamente, um bilião: mil milhares de milhares de homens e mulheres tinham morrido de fome. É preciso que as engrenagens girem regularmente, mas elas não podem girar sem serem convenientemente cuidadas. É necessário que haja homens para tratar delas, tão eficazes como as próprias engrenagens nos seus eixos, homens sãos de espírito, estáveis na sua satisfação. Gritando: "Meu filho, meu filho, minha mãe, meu verdadeiro, meu único amor", gemendo -" «Meu pecado, meu Deus terrível", uivando de dor, delirando de febre, temendo a velhice e a pobreza, como podem eles cuidar das engrenagens? E, se não podem cuidar das engrenagens..., seria difícil enterrar ou queimar os cadáveres de mil milhares de homens e mulheres.

(…) o fato é que já há algum tempo que não sinto muita disposição para ser ... acessível a todos. Há momentos em que não estamos dispostos a isso... Nunca sentiste isso?

Reprimido, o impulso transborda e, espalhada a torrente, é o sentimento; espalhada a torrente é a paixão; espalhada a torrente, é a própria loucura: tudo isso depende da força da corrente, da altura e da resistência da barragem. O ribeiro sem obstáculos corre única e simplesmente ao longo dos canais que lhe foram destinados, em direção a uma calma euforia. (…) derrubem-se todas essas velhas e inúteis barragens.

ALDOUS HUXLEY

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Isto é loucura!


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sobre a solução dos problemas


sábado, 29 de dezembro de 2012

Encarando a atividade egocêntrica que cria divisões

Toda a nossa vida... é uma luta constante. Desde que nascemos até que morremos, a nossa vida é um campo de batalha. E nos perguntamos, não abstratamente mas realmente, se essa luta poderá acabar, se será possível viver completamente em paz, não só interior como exteriormente.

Embora de fato não haja divisão entre o interior e o exterior — na realidade o que há é um movimento — considera-se que essa divisão existe, não só quanto ao mundo dentro e fora da pele, mas também quanto à divisão entre “eu” e “tu”, “nós” e “eles”, o “amigo” e o “inimigo”, etc.

Traçamos um círculo à volta de nós próprios: um círculo em redor de “mim” e um círculo em redor de “ti”. Traçado o círculo — seja o do “eu” e do “tu”, seja da família, da nação, da fórmula, das crenças e dos dogmas religiosos, ou o círculo do conhecimento que se tece em redor de si mesmo — esses círculos separam-nos e existe assim esta constante divisão que invariavelmente produz conflito. Nunca passamos para lá do círculo, nunca olhamos para além dele. Temos medo de sair de nosso pequeno círculo e descobrir o círculo, a barreira à volta do outro. E penso que é aí que começa todo o processo, estrutura e natureza do medo. Ergue-se uma barreira em redor de si mesmo, encerrando um mundo privado cuidadosamente construído com fórmulas, conceitos, palavras e convicções. Então, vivendo dentro desses muros, fica-se com medo de sair para fora deles.

Esta divisão gera não só várias formas de comportamento neurótico, mas também muito conflito. E se porventura abandonamos um dos círculos, uma das barreiras, construímos outra, à volta de nós mesmo. Há assim esta constante e forte resistência feita de conceitos, e perguntamo-nos se é possível não ter nenhuma divisão: colocar fim a toda a divisão e desse modo eliminar todo o conflito.

As nossas mentes estão condicionadas por fórmulas: as minhas experiências, o meu conhecimento, a minha família, o meu país, o gostar e o não gostar, o antagonismo, o ciúme, a inveja, o sofrimento, o medo disto e o medo daquilo. Esse é o círculo, o muro por detrás do qual vivemos. E temos medo não só do que está do lado de dentro, mas muito mais do que está para lá do muro. Cada um, em si mesmo, pode observar este fato muito simplesmente, sem ter de ler muitos livros, sem ter que estudar filosofia, e tudo o mais. Pode muito bem ser que seja por se ler tanto do que outros têm dito que não se sabe nada acerca de si próprio, do que realmente se é, e do que de fato está se passando em si.

Se olhássemos para dentro de nós, colocando de lado o que pensamos que deveríamos ser, e vendo o que de fato somos, então, talvez descobríssemos a existência dessas fórmulas e conceitos — verdadeiros preconceitos e condicionamentos — que coloca o homem contra o homem. E assim, em todas as relações entre os homens, há medo e conflito — não só o conflito dos direitos territoriais, dos direitos sexuais, etc., mas também o conflito entre o que é e o que deveria ser.

Quando a pessoa observa esse fato em si própria — não como uma ideia, nem como uma coisa para que olha como estando de fora, mas olhando realmente para dentro de si — então pode descobrir se é de fato possível descondicionar a mente de todas as fórmulas e crenças, de todos os preconceitos e medos, e desse modo, talvez, viver em paz.

(...) Poderá o homem — vós e eu — viver completamente em paz — o que não significa levar uma existência monótona ou sem energia dinamizadora — poderemos nós descobrir se tal paz é possível? Tem de ser possível com certeza, de outro modo a nossa vida terá muito pouco sentido.

Por todo o mundo os intelectuais tentam encontrar um significado ou atribui um sentido à vida. As pessoas religiosas dizem que a existência é só um meio para atingir um fim, que é Deus — sendo Deus o verdadeiro significado. Se acontece de não se ser religioso, substitui-se então Deus pelo estado, ou inventa-se alguma outra teoria, nascida do desespero.

Assim, a nossa pesquisa consiste realmente em investigar se o homem pode viver em paz, de fato, não de maneira teórica, não como uma ideia, não como uma fórmula, de acordo com o qual se irá então viver pacificamente. Tais fórmulas, como dissemos, tornam-se muros — a minha fórmula e a tua fórmula, o meu conceito e o teu conceito — tendo como resultado divisão e constante batalha.

É possível viver sem fórmulas, sem divisão e portanto sem conflito? Não sei se alguma vez puseram a si mesmos esta pergunta, com toda a seriedade: se a mente poderá alguma vez ficar livre destas divisões do eu e do não-eu? Eu, a minha família, o meu país, o meu Deus; ou, se não tendo nenhum Deus, eu, a minha família, o Estado; e se não tenho Estado: eu, a minha família, e uma ideia, uma ideologia.

Será possível libertarmo-nos de tudo isso, não com o tempo, mas de um dia para o outro? Se aceitamos a teoria do eventual, não estamos a viver inteiramente: “eventualmente” seremos livres, ou “eventualmente” viveremos em paz. Isso, com toda a certeza, não serve: quando um homem tem fome, quer alimentar-se imediatamente. Qual é então o ato que libertará a mente de todo o condicionamento? O ato, não uma série de atos.

Reparemos na atividade egocêntrica que cria divisões: a atividade egocêntrica em redor de um princípio, de uma ideologia, de um país, de uma crença, em redor da família, etc. Essa atividade egocêntrica é separativa e portanto causa conflito. Ora, poderá esse movimento da fórmula — que é o “eu” com as suas memórias, o centro à volta do qual se constroem os muros — poderá esse “eu”, essa entidade separada com a sua atividade egocêntrica, terminar por completo, não por uma série de atos, mas por um só ato? Como sabem, tentamos eliminar os conflitos pouco a pouco, cortando a árvore em pequenos pedaços, sem nunca lhe atingirmos a raiz. Assim, pergunta-se se será de fato possível,  com um só ato, colocar fim a toda esta estrutura de divisão, colocar fim à separatividade, à atividade egocêntrica — todas elas geradoras de conflito, de guerra, de luta. Será possível?

(...) Portanto, supondo que se é suficientemente sério, qual é o nosso problema? Como viver a nossa vida aqui — não num mosteiro ou em algum mundo romântico de sonhos, não em algum mundo emocional, dogmático, regido pela droga — mas aqui e agora, todos os dias; como viver completamente em paz, com grande inteligência, sem qualquer frustração, sem medo: viver inteiramente, num estado de felicidade profunda — o que evidentemente implica meditação — este é na realidade o problema fundamental. E também se é possível compreender esta vida na sua totalidade: não em fragmentos, mas completamente — estar totalmente envolvido nela e não apenas empenhado numa parte; estar implicado no processo total de viver, sem conflito nenhum, sem angústia, sem confusão ou sofrimento. Este é o problema real. Porque só então se será capaz de criar um mundo diferente. É essa a verdadeira revolução, a revolução interior, psicológica, da qual nasce imediatamente uma revolução exterior.

(...) Vemos que estas divisões, estas fórmulas de “eu” e “não-eu”, “nós” e “eles”, por detrás das quais vivemos, originam medo. E se pudermos tomar consciência deste medo global, deste medo total, poderemos compreender estão qualquer medo particular. Ao passo que tentar compreender apenas um pequeno e limitado medo particular, embora muito ornamentado, não terá qualquer sentido até que se compreenda todo o problema do medo.

O medo destrói a liberdade. Podemos revoltar-nos, mas a liberdade não é isso. O medo perverte todo o pensamento, destrói toda a relação. Repare que não se trata só de palavras: é um fato evidente em toda a vida de cada um — existe medo do princípio ao fim. Medo da opinião pública, medo de não ser bem sucedido, medo da solidão, medo de não ser amado; e há ainda o comparar-nos a nós próprios com o herói do que “deveria ser”, originando assim mais medo. Além disso, o medo não reside apenas no nível observável da mente, estende-se também a zonas profundas. Queremos pois saber se este medo poderá acabar — não de modo gradual, não por partes, mas completamente.

Que é então este medo? Por que é que se tem medo? Será por causa do que está para lá do círculo, ou dentro do círculo — ou será por causa do próprio círculo? Compreendem o que queremos dizer? Não estamos a tentar descobrir a causa particular deste medo, porque, como ontem dissemos, a descoberta da causa, o processo analítico da compreensão da causa e efeito, não acaba necessariamente com o medo — tem-se jogado nisso há muito tempo. Mas quando se vê este medo — como se vê este microfone, o que ele realmente é — será que ele existe dentro do muro, ou do outro lado do muro, ou existe exatamente por causa do muro? Certamente que existe por causa do muro. Existe factualmente tal como é, quando o observamos, por causa do próprio muro. Como é então que surge o muro?

(...) Como é que surge então este muro de resistência, de divisão e de separação? Em tudo o que fazemos, em todas as nossas relações, por muito intimas que sejam, há essa divisão, a criar confusão, sofrimento e conflito. Como é que aparece esta barreira? Se somos realmente capazes de compreender isto — não verbalmente, não intelectualmente, mas capazes de vê-lo e de senti-lo de fato descobriremos que a barreira deixa então de existir.

(...) O muro surge por certo através do mecanismo do pensamento. Não? Antes de se pronunciarem, observem apenas, observem o pensamento. Se não houvesse pensamento acerca da morte, não se teria medo dela. Se não fossemos educados para sermos Cristãos, católicos, Protestantes, Hindus, Budistas ou sabe Deus que mais, se não estivéssemos condicionados pela propaganda, pelas palavras, pelo pensamento, não teríamos barreira alguma. E podemos ver de que maneira o pensamento, como “eu” e “tu”, origina isso. Com as suas atividades egocêntricas, o pensamento cria não só o muro, mas também a nossa própria atividade dentro do nosso muro.

É pois o pensamento, ao produzir divisão, que cria o medo. Pensamento é medo, tal como pensamento é prazer. Ontem vi algo muito belo: um belo rosto, um pôr de Sol maravilhoso, ou então aconteceu algo agradável; o pensamento pensa nisso: “como foi bom”. Observem isto, por favor: “que experiência tão agradável”, e o pensamento, pelo próprio ato de pensar, dá a essa experiência uma continuidade de prazer. Deste modo, o pensamento é o responsável não só pelo medo, mas também pelo prazer. Isto é bem claro, evidentemente: porque esta tarde se gostou de uma determinada refeição, quer-se que esse prazer se repita; ou teve-se uma experiência sexual, e o pensamento pensa nela, rumina-a, mastiga-a repetidamente, cria o quadro, a imagem, e quer tê-la outra vez. É a esse prazer repetido que chamam amor. E o pensamento, tendo criado o círculo, a barreira, a resistência, a crença, tem medo de que isso seja destruído, ao deixar entrar alguma coisa além do muro.

Assim, o pensamento gera tanto o prazer como o medo. Não se pode ter o prazer sem o medo; ambos andam juntos, porque são filhos do pensamento. E o pensamento é o filho estéril de uma mente que apenas se preocupa com o prazer e com o medo. Observem isto, por favor. Deixem-me lembrar-lhes outra vez que estamos a fazer a viagem juntos: estão a examinar-se, a observar-se a si mesmos no espelho das palavras.

Medo, sofrimento e prazer são assim resultado do pensamento. E todavia, o pensamento tem de funcionar logicamente, com sensatez de maneira sadia e objetiva, sempre que esse funcionamento é necessário, no mundo tecnológico — não na relação humana, porque no momento em que o pensamento ser intromete nesta relação há medo; então há nisso prazer e sofrimento. Não estou a dizer nenhuma insensatez: vós próprios podeis constatá-lo. O pensamento é a resposta da memória, da experiência e do conhecimento, e por isso é sempre velho e nunca é livre. Certamente que há “liberdade de pensamento”: ou seja, liberdade para dizer o que se quer. Mas o pensamento, em si, nunca é livre e nunca pode criar liberdade. O pensamento pode perpetuar quer o medo quer o prazer, mas não a liberdade. E onde há medo e prazer, o amor deixa de estar. O amor não é nem pensamento nem prazer. Mas para nós o amor é prazer e, portanto, medo.

Quando se toma consciência de toda esta questão da vida tal como é — não como gostaríamos que fosse, nem de acordo com algum filósofo ou algum sacerdote consagrado, mas como ela realmente é — pergunta-se se o pensamento pode ter o seu lugar adequado, e todavia não ter qualquer interferência em todo o relacionamento. Isto não significa uma divisão entre os dois estados de pensamento e não-pensamento. Como sabem, tem de se viver neste mundo, é preciso ganhar a vida, infelizmente, e ir para o emprego. Se alguma vez se conseguir que haja um governo capaz para o mundo inteiro, talvez então, não precisemos de trabalhar mais do que um dia por semana, deixando o resto aos computadores, o que nos permitirá ter tempo disponível. Mas enquanto isso não acontece, tem de se ganhar a vida, e ganha-la de maneira completa e eficiente. Contudo, no momento em que essa eficiência fica deformada, por exemplo pela avidez ou pelo terrível desejo de sucesso, e de ser “alguém”, surge a barreira do “eu” e do “não-eu” a originar competição e conflito.

Ao compreendermos tudo isto, como poderemos então viver com dignidade, com uma eficiência que não seja desumana, e ainda em completa relação, não só com a natureza, mas também com outro ser humano, uma relação em que não haja sombra do “eu” e do “tu” — essa barreira criada pelo pensamento?

Quando se compreende realmente tudo isto — não verbalmente mas de fato — o próprio ver, ver realmente, é o ato que destrói o muro da separação. Quando se vê o perigo de alguma coisa — um precipício, um animal perigoso, etc. — há ação. Pode bem ser que essa seja resultado de um condicionamento, mas não é um ato de medo: é um ato de inteligência.

Do mesmo modo, ver inteligentemente toda esta estrutura, a natureza desta divisão, o conflito, a luta, o sofrimento, o egocentrismo — ver realmente o seu perigo, significa o seu fim. E não há “como”. Assim, o que é importante é fazer a viagem por dentro de tudo isso — sem ser conduzido por outrem, porque não há guia — e ver o mundo tal como é: a extrema confusão, o infindável sofrimento do homem, vê-lo realmente. Então, o ver toda essa estrutura é o findar disso. 

Krishnamurti — extratos da conferência na Universidade de Stanford
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill