“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Krishnamurti e os dois tipos de inteligência

Sinto muito fortemente ser chegado o tempo em que cada qual de nós precisa mudar "drasticamente", isto é, separar-se integralmente de tudo quanto lhe veio do passado, dado o fato de haver compreendido. Em vós ainda não se deu um despertamento suficiente, não houve um corte bastante radical relativamente ao passado e um tal decepar somente se produz quando realmente estiverdes ansiosos de achar algo que vos dê uma satisfação perdurável, entendimento, consolação para substituir aquilo que de vós for retirado. 

Sem este cerceamento absoluto relativamente ao passado, jamais chegareis a criar coisa alguma quer em vós mesmos, quer no mundo externo. 

Aqui vos haveis reunido afim de me escutardes e para compreenderdes aquilo que vos vou dizer. O primeiro requisito para isto, o elemento mais essencial para esse entendimento vem a ser a destruição de todas as barreiras criadas pelo passado, todas as superstições, todas as ideias preconcebidas, tudo, afinal, que se venha interpor no caminho de um pensamento e exame claros. É absolutamente indispensável que haja esse rompimento e essa revolta. Se compreenderdes o que vos estou dizendo, a vós próprios entendereis, compreendereis a vossa edificação e o vosso crescimento em direção a essa perfeição que é liberdade e, por esse fato, presidireis a esse crescimento. Quando compreenderdes isto, compreendereis automaticamente a vós próprios e a todos os demais. Porém, para a vós mesmos entenderdes, precisais a todo o instante vos separar de vosso ambiente, de vossas tradições, daquilo que vos houveram ensinado, e daquilo que houverdes lido. Tudo isso precisa desaparecer. E, quando estiverdes absolutamente desapegados — física, mental e emocionalmente — sereis então capazes de entender a estrutura integral da evolução humana. 

Necessitais de ser fortes, pois que, de outra maneira, essa nova aurora, essa frescura de entendimento, romper-se-á, murchar-se-á, ficará perdida. 

Não sei porque há pessoas que temem destruir valores espirituais, valores mentais e morais. No fim de contas, a partir do momento que tenhais destruído algo seja mental ou emocionalmente, nesse mesmo lugar vireis a construir outra coisa. Por favor, entendei isto, e percebereis o que vos quero dizer. Quando deixardes de estar restringidos por qualquer moral exterior e não mais fordes escravos de qualquer superstição religiosa — seja ela do passado, seja do presente — automaticamente vireis a construir algo que se tornará parte integrante de vós próprios. 

Desejo encontrar pessoas que compreendam e que vivam física, emocional e mentalmente aquilo que estou dizendo — que o vivam sinteticamente, como um conjunto. Pouco importa que sejam duas mil ou duas pessoas apenas. Não me preocupo absolutamente com o número de pessoas ou a espécie de trabalho que há a fazer, se precisamos estar de posse destas terras ou do Castelo, ou ser detentores de propriedades inúmeras por todo o mundo: tudo isso de pouca importância virá a ser. O que temos a fazer — pelo menos é isto que eu quero e pretendo fazer — é destruir todas as velhas tradições, todas as velhas ideias, todos os velhos deuses, todas as velhas superstições criadas pelos homens — que sejam irreais ou falsas. E mediante esse mesmo processo de destruição, criar em cada qual uma nova tradição, que soerga, que crie o auto-governo nos homens, uma nova atitude da mente que, pelo continuo processo de pensamento, se torne tradição que jamais se separe do que é eterno. Quero estabelecer uma nova forma de pensar, um novo tipo de vida, que automaticamente se traduza em ação, no modo pelo qual viverdes, no modo pelo qual tratais aos outros. 

Para criardes este despedaçamento dentro de vós necessitais de coragem e determinação e não a haveis ainda obtido. Ides apenas até ao ponto que vos convém e não até ao fim último.

Há duas espécies de inteligência: uma que é a deste mundo e a outra pertencente ao mundo do real. Não estou falando da inteligência deste mundo; falo acerca da inteligência da realidade, isto é, da inteligência que possui a capacidade para escolher com discernimento culto aquilo que é real e o que é essencial dentre o que é falso e fútil. Esta é a verdadeira inteligência. 

Para vos poderdes revoltar com inteligência, necessitais de estar concentrados. Não por meio da meditação e de outras práticas semelhantes, mas através da persistência em vosso propósito — não pelo estado mental inerente aos débeis, porém com a concentração daqueles que são fortes. 

Vós vos atemorizais de coisas inúmeras, de convencionalismos, daquilo que os outros de vós possam dizer. Quereis conciliar o momento presente com tudo mais que vos cerca; quereis conciliar tudo quanto vos foi dito no passado com aquilo que vos é dito no presente, quereis continuar pela mesma velha senda, ter vossos Mestres, vossos Gurus, vossos ritos, vossas cerimônias e conciliar tudo isso com aquilo que vos estou dizendo. Não vos é possível, de maneira alguma, viver ao mesmo tempo com o passado e com o futuro. Podereis dizer: "Sou fraco, por isso necessito deste apoio, necessito de alguém que me encoraje". Isto, porém, não constitui real encorajamento. Se em outrem confiardes para a vossa felicidade, para o vosso crescimento, estareis vos tornando mais fracos em vez de mais fortes. 

Não espereis pela salvação vinda do exterior, venha ela sob que forma vier, pois do contrário somente adotareis novos convencionalismos no lugar dos antigos. O que necessitamos é de criar homens que se achem seguros de sua salvação, fortes, certos quanto ao seu propósito e que não busquem o conforto ou as autoridades exteriores, o encorajamento externo. O estar assim concentrado exige uma consideração continua. Estar desacautelado, não pensar claramente é o maior infortúnio que possivelmente vos pode atingir. O desapercebimento determina o conforto. Tendes que constantemente pensar em vosso propósito na vida — não artificialmente, entendei, porém cheios de equilíbrio e auto-vigilância. 

Que é, portanto, que pretendeis fazer a este respeito? De nada serve o virdes a estas reuniões, o me escutardes todos os dias, se ao mesmo tempo em vós não existir a vida genuinamente nascida do claro entendimento. 

Krishnamurti, 10 de julho de 1929, Reunião de verão no Castelo de Eerde
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)