“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Precisais libertar-vos de todas as gaiolas

Em minhas palestras anteriores, dividi o “Eu” em eterno e progressivo, porém isto foi feito, não para inaugurar uma nova teoria ou filosofia, porém puramente pela conveniência de vos tornar isto absolutamente claro para vós como o é para mim. Assim, peço-vos que não sistematizeis. Por favor, não elaboreis disto uma nova filosofia. Cada qual deve ver distintamente por si mesmo, não à maneira congregacional, isto é, coletivamente. A libertação é o atingimento do indivíduo, é tarefa do indivíduo. Se vos esforçardes por fazer daqui uma filosofia, um sistema, ou um dogma, torná-lo-eis aplicável ao todo quanto não o é; é questão de percepção individual, de luta individual e individual esforço para entender claramente.

A libertação é para ser atingida por toda a humanidade e, por conseguinte, por todo indivíduo separadamente. Precisais libertar-vos de todas as gaiolas. Precisais vos libertar da gaiola que vierdes a fazer daquilo que eu vos estou dizendo. Fareis disto uma muleta ou uma gaiola que vos permita fugir a certas coisas que vos causam dor? Se, fizerdes do que vos estou dizendo uma muleta ou uma gaiola, ficareis tão escravizados, tão longe da libertação como o estáveis antes. Esforçai-vos para tornar isto perfeitamente claro por vós mesmos e, mediante a vossa percepção interna, animai a vós mesmos a fazer este esforço que há de esclarecer vossa visão e proporcionar-vos entendimento e reta compreensão.

Como estava dizendo, a vida, que é tudo, livre e incondicionada, na qual existe a semente de todas as coisas, é o “Eu” eterno, universal. Estou me esforçando para reduzir a palavras algo que jamais pode ser posto em termos, porém não façais disto um dogma.

Para chegar à vida, que é livre, que é incondicionada, que é todo conservadora e, no entanto, não pode admitir em si mesma nada que seja impuro, corruptível, imperfeito, vós, como indivíduos, como eus separados dessa vida, precisais criar a harmonia dentro de vós mesmos e, assim, tornar-vos unidos com a vida que é livre. Por outras palavras: Vós, individualmente — se como “Eu” progressivo se como “Eu” universal é coisa que não nos deve preocupar de momento — precisais ser incorruptíveis; vós, como indivíduos necessitais ser livres, pois que em vós essa vida universal deve estar centralizada. Assim como a verdade não pode ser rebaixada, como não pode ser limitada por sistemas de moral, por cultos, por deuses, por santuários, vós, como “Eu” individual, tendes que abandonar essas limitações do medo, do conforto, e, pela eliminação, estabelecer a harmonia dentro de vós.

Tendes que vos tornar vosso legislador único, e manter-vos libertos de todas as autoridades exteriores, libertos de todo o medo. Dado que sois plenamente responsáveis por vós próprios, tendes primeiro que perceber esta visão de toda a vida, tomando a esta, que eu digo ser liberdade, estabelecer vossa lei de acordo convosco próprio e não de acordo com outrem. No final das contas, não me podereis dizer a mim o que é que eu devo fazer e o que não devo; e eu também, por minha vez, não vos irei dizer o que deveis e o que não deveis fazer. Porém, todos vós sabeis, se houverdes sofrido, se houverdes observado, se estiverdes presa da dor, em grande isolamento e solidão ou em grande companhia, que toda a vida — individualmente, bem como a vida toda que vos rodeia — deve culminar, finalmente, nessa vida que é, que não tem começo nem fim. Sabendo ser esta a meta final — se me é dado usar esta palavra sem estabelecer nisto limitação — podereis, então, desenvolver uma certa qualidade interna de verdadeira e apropriada percepção, que atuará como vosso legislador.
Esta é a modalidade única pela qual vos podeis tornar livres, de modo a vos não atemorizardes com as circunstâncias, com os convencionalismos, quanto ao que outras pessoas dizem e pensam. Se por vós mesmos estiverdes certificados com a certeza nascida da reta compreensão, que tem sua semente na imortalidade, da liberdade à qual toda a vida tem de chegar, dela derivareis vossa força para caminhar retamente. Então não mais precisais vos atemorizar, não mais vos preocupareis com a criação de dogmas e filosofias.

Para chegar a esta percepção da liberdade, tendes que passar pelo processo de eliminação. Quando digo “tendes que passar”, por favor, não o façais pelo fato de eu vo-lo haver solicitado. Estais aqui porque desejais compreender, por julgardes que eu atingi e que vos posso auxiliar. Na realidade, não vos posso ajudar, porém posso vos tornar clara a percepção disto, de modo a poderdes, pela vossa própria força, lutar pela sua conquista e vos tornardes homens livres e incondicionados. Não podeis perceber essa visão da vida com todos os vossos emaranhados, e sem essa percepção nada podeis executar. Eu não sei o que é que vos impede de eliminar todas as coisas inúteis e não-essenciais. Tendes que pensar, por vós próprios, individualmente, no modo pelo qual haveis de fazer isto, pois de outra maneira o que vos estou dizendo terá sido totalmente inútil; somente virá criar uma outra muleta. Em vez da antiga, tereis uma nova.

No fim de tudo, isto exige uma certa determinação de propósito. Quando buscais dinheiro, amor ou diversões, estais continuamente a pensar nisso, ficais excitados e enxergais os meios e modos de obter essas coisas. Porém, seguramente, aquilo de que vos estou falando é maior que todos os divertimentos, maior do que o amor, maior do que todo dinheiro. E, se é digno de ser possuído, deveis também enxergar meios e modos de atingi-lo, deveis estar constantemente vigilantes, apercebidos em tudo quanto fizerdes. 
         

Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)