“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

O que torna a mente verdadeiramente silenciosa?

Religião não são as crenças, os dogmas, os rituais, as seitas, a propaganda que se faz há dois mil ou dez mil anos; isso, em absoluto, não é religião. Somos escravos da propaganda — não só do comerciante, mas também do sacerdote. A religião é uma coisa de todo diferente. Para descobrir o verdadeiro, descobrir se existe isso a que o homem chama seu Deus — o Desconhecido — temos de morrer para o conhecido, pois, do contrário, não poderemos encontrar-nos com essa coisa inefável que o homem busca há milhares e milhares de anos. O homem, o pensamento inventou um conceito sobre o que Deus é ou não é. Acredita e desacredita, conforme seu condicionamento. O comunista, o autêntico comunista, não acredita. Para ele, só existe o Estado. provavelmente, com o tempo, venha a endeusar Lênine ou outro E há os que foram condicionados para acreditar. Ambos são iguais, o crente e o não-crente. A fim de descobrirmos se existe alguma coisa além daquilo que o pensamento construiu, temos de negar tudo — dogma, crença, esperanças, temores. Isso afinal não é muito difícil, porque, quando queremos aprender, colocamos de lado todos os absurdos que o homem criou com o seu medo. 

Quando termina efetivamente o pensamento, quando morremos para o pensamento, surge então algo inteiramente diferente, uma dimensão diferente, dimensão que não pode ser explicada, colocada em palavras, que nada tem em comum com a crença, o dogma, o medo. Não é uma palavra. Aquele verbo não pode tornar-se carne e, para ser descoberto, deve deixar de existir o experimentador, o observador, o censor. Foi por isso que dissemos, no começo, que temos de compreender o conflito, e que haverá conflito enquanto existir observador e objeto observado; pois esta é a raiz do conflito. Quando digo "precisamos compreender", ou "Tenho medo", o EU julga-se separado do próprio medo. Em verdade não está separado dele. O medo é o EU; os dois são inseparáveis. Quando o observador é o objeto observado, quando o pensador, a fonte do pensamento, deixa de existir, verifica-se, então, que o medo, em qualquer forma, deixou também de existir. 

Nisso há uma concentração de energia. Essa energia explode e surge o novo — o novo irreconhecível. Quando reconhecemos uma coisa, essa coisa não é nova. É uma experiência que já tivemos. Por conseguinte, não é nova. As maravilhosas experiências e visões dos santos e das pessoas religiosas são projeções de coisas velhas, projeções de suas mentes condicionadas. O cristão vê o seu Cristo, porque foi condicionado pela sociedade em que vive, em que cresceu. 

Enquanto houver "experimentador" e a coisa que ele vai "experimentar", nesse estado não existirá nenhuma realidade, porém, somente conflito. Só quando deixa de existir o experimentador, pode surgir aquela coisa que o homem sempre buscou. Em nossa própria vida, estamos sempre a buscar — a buscar a Felicidade, a buscar Deus, a buscar a Verdade. Não podemos achá-lo por meio de busca, porém, tão-só, quando cessa a busca, quando a pessoa é a luz de si própria. Para se ser a luz de si próprio, deve haver paixão e intensidades ardentes. Essa paixão não é uma coisa mansa. Com ela nasce — de toda esta agitação, aflição, confusão e desespero — a revolução, a mutação interior. Só uma mente nova pode encontrar-se com aquilo a que se chama Deus, a Verdade, ou o nome que vocês preferirem. Mas, o conhecido não pode conhecer o desconhecido. Tudo o que o conhecido  — o pensamento — fizer afastará para mais longe ainda o desconhecido. Só quando o pensamento compreendeu a si próprio e se tornou quieto, pode haver a compreensão de todo esse processo de pensamento, prazer e medo. Isso é meditação. Não é a prática, a disciplina ou o ajustamento que torna a mente quieta. O que a torna verdadeiramente silenciosa é a compreensão de si própria, de seus pensamentos, seus desejos, suas contradições, seus prazeres, seus apegos, sua solidão, seu desespero, sua brutalidade e violência. Dessa compreensão nasce o silêncio, e só a mente silenciosa pode perceber, pode ver realmente o que é

Krishnamurti em, Encontro com o Eterno — 10 de maio de 1966

Somos entes humanos solitários

Interrogante: Há em mim alguma coisa que tem medo de fazer, de seguir, de pensar ou de ver claramente o que você está dizendo. 

Krishnamurti: Aí está! Acho que é bem claro o que digo, não? É algo de positivamente revolucionário. Fazê-lo é extremamente perigoso, porquanto você terá, talvez, de alterar toda a estrutura de sua vida. Intelectualmente, você diz: "Sim, compreendo perfeitamente o que você está dizendo". Inconscientemente, porém, você percebe o perigo que encerra; e, assim sendo, você fica nervoso, apreensivo, assustado, porque deseja viver com muita segurança, conforto, facilidade, bem fechado e protegido em seu isolamento. O que estou dizendo poderá destruir tudo isso. Destruirá! Você deixará de ser cristão, inglês, indiano, etc. Não pertencerá a nenhum grupo ou seita. Estará completamente — "só", não no sentido de "estar isolado". 

O que está só é sempre belo. Uma árvore solitária, no meio de um campo, oferece-nos um belíssimo espetáculo. Temos medo de estar sós, e antes de estar sós tememos o isolamento. Somos entes humanos solitários. Todas as nossas atividades conduzem à solidão, que é isolamento. Embora sejamos casados, tenhamos filhos, empregos, sejamos membros de determinados grupos e seitas, em nosso íntimo profundo existe aquele isolamento, aquele medo da solidão, da privação de relações. Apelamos para diversões de todo gênero, inclusive a missa, a igreja, o culto — qualquer coisa que nos livre da solidão. Não poderemos compreendê-la se não compreendermos as atividades egocêntricas de nossas vidas, causadoras desse isolamento; mas, após tê-las compreendido, penetrado, ultrapassado, alcançaremos aquele estado em que estaremos completamente sós, incontaminados pela sociedade. Se não estamos sós, não temos possibilidade de ir mais longe.

Krishnamurti em, Encontro com o Eterno

O ideal é uma maneira hipócrita de olhar a vida

Observar, ver — essa é a coisa principal; ver o que realmente somos e não o que achamos que deveríamos ser; observar nossa avidez, inveja, ambição, ansiedade, medo, TAIS COMO EXISTEM REALMENTE, E SEM INTERPRETAÇÃO, NEM JULGAMENTO. Nesse estado de observação não há esforço algum. Temos que compreender isso claramente, porque estamos condicionados para fazer esforço. Tudo o que fazemos envolve esforço, luta. Se desejo mudar, se por exemplo, desejo deixar de fumar, tenho de lutar, de forçar-me, de manter minha resolução e, assim, talvez eu acabe deixando de fumar, mas minha energia terá se esgotado nessa batalha. 

Pode-se abandonar alguma coisa sem esforço? O fumar é uma coisa muito trivial. Abandonar o prazer, em todas as suas formas, porque o prazer sempre produz dor, eis um problema exteriormente complexo, que iremos considerar numa destas palestras. O que no momento nos interessa é isto: Se temos de possibilidade de abandonar alguma coisa, de agir sem esforço. Porque paz é isso, vocês não acham? A paz alcançada por meio de uma batalha interior não é paz, porém, exaustão, pois a paz de modo nenhum pode ser um resultado de esforço. Só vem quando há COMPREENSÃO. Esta é uma palavra um pouco difícil. Compreensão não significa "compreensão intelectual". Quando dizemos que compreendemos alguma coisa, em geral entendemos uma apreensão intelectual, conceitual. Só pode verificar-se a percepção, quando há atenção total. A atenção total só é possível quando "NOS ENTREGAMOS" completamente. A mente, o corpo, os nervos, todo o nosso ser fica então sobremodo ativo. Só então há compreensão. 

temos de compreender nossa vida de entes humanos. Para nós, a vida é uma caótica contradição. Não a estamos descrevendo sentimental, emocionalmente ou noutro sentido qualquer, porém, tão só, em sua realidade. Vemo-nos confusos, aflitos, ansiosos, aterrorizados, desesperados. Esse medo e sofrimento estão sempre a inquietar-nos. Tal é a nossa vida, e, no final de tudo e inevitavelmente, a morte. Só isso sabemos. Podemos imaginar coisas, ter muitos ideais, fórmulas e fugas, mas, quanto mais fugimos, tanto maior a contradição, tanto mais profundo o conflito. 

Podemos observar nossa vida, tal como realmente é e não como deveria ser? Os ideais são de todo em todo fúteis. Não têm nenhuma significação. São como o ideal dos que acreditam na não-violência e, na realidade, são violentos. Isso é um fato. Os entes humanos SÃO violentos. Demonstram-no em suas palavras, em seus gestos, em seus atos e sentimentos. Cultivaram o IDEAL de "não ser violento" — que representa um estado de paz, de ausência da violência. Há o FATO e o que "deveria ser". Entre O QUE É e o "desejável", entre o fato e a ideia, a utopia, "o que deveria ser", acha-se o intervalo de tempo. No esforço para alcançar "o que deveria ser", estamos sempre a semear violência. O ideal é uma maneira hipócrita de olhar a vida. Certamente, não há nenhuma necessidade de ideal, se sabemos olhar o fato e dele libertar-nos. Porque não sabemos olhar os fatos e LIBERTAR-NOS deles, pensamos que com um ideal os resolveremos. Em verdade, o ideal, a utopia é uma fuga da realidade. Sabendo-se olhar a violência, talvez se torne possível uma ação de espécie diferente. 

Sou violento e percebo que qualquer forma de fuga à realidade, ao fato de que sou violento, TODA E QUALQUER FUGA — bebida, ideais, etc. — DIMINUI A ENERGIA de que necessito para olhar o fato. Preciso dessa energia para olhar, para manter-me completamente ATENTO. Isso também é um fato simples. Se vocês desejam OLHAR qualquer coisa que seja, necessitam de muita energia. Se só estão incompletamente atentos, porque possuem ideais que não deviam ter, então estão dissipando a energia de vocês e, por conseguinte, são incapazes de olhar. Olhar é uma operação que requer TODA atenção de vocês. Só se pode OLHAR quando não se está querendo alcançar nenhum ideal, nem desejando alterar O QUE É. 

Só aparece o desejo de alterar O QUE É, quando o fato é desagradável. Quando agradável, não desejamos alterá-lo. Nossa preocupação é perseguir o ideal e evitar a dor. Nosso maior interesse é o prazer e não a violência ou a não-violência, a bondade, etc. Queremos prazer, e para alcançá-lo estamos dispostos a tudo. Enquanto estivermos a olhar o fato com a intenção de alterá-lo, não teremos possibilidade de alterá-lo, porquanto nosso principal interesse é modificar o fato, para termos prazer — ainda que seja um prazer muito nobre. Devemos perceber isso muito claramente, porque os nossos valores morais, éticos e religiosos estão todos baseados no prazer. Eis o fato verdadeiro. Não é um fato imaginário, como veremos, se NOS SONDARMOS MUITO PROFUNDAMENTE e OLHARMOS TODOS OS VALORES QUE ESTABELECEMOS. Quando existe esse princípio do prazer, tem de haver inevitavelmente dor. Olhamos a violência com o fim de transformá-la num prazer e passarmos deste a um prazer maior; por isso, somos incapazes de alterar o fato de que somos violentos. Consideramos a vida com a mira no prazer. 

No fundo, os entes humanos são violentos, por várias razões. Uma das razões fundamentais é que todas as suas atividades se concentram em perpetuar o EU, o EGO. A atividade egocêntrica é uma das causas da violência. Por outro lado, a fim de realizar uma revolução radical, tenho de compreender o princípio do prazer. Amos os meus desuses; isso me proporciona enorme satisfação. Vocês amam os seus deuses, suas fórmulas, a nacionalidade e a bandeira de vocês. O mesmo faço eu. Tudo isso se baseia no prazer. Posso dar-lhe diferentes nomes, mas não importa; este é o fato. Ora, é possível considerarmos a violência, sem procurarmos transformá-la em prazer; posso observar simplesmente o fato de que sou violento? 

(...) Quando podemos olhar a violência, sem termos a respeito dela nenhuma imagem, qual é o estado da mente ou do cérebro que está a olhar?(...) Para nos libertarmos da imagem, temos de investigar muito profundamente a questão da formação de imagens e, uma vez feito esse exame, com máximo de escrúpulo e atenção, o cérebro não fica "em branco", num estado de entorpecimento. Ao contrário, torna-se sumamente ativo, porém não estará em atividade o "formador de imagens". Com essa atenção pode-se OLHAR.

Krishnamurti em, Encontro com o Eterno  

O amor permite liberdade

O amor permite que qualquer coisa que o outro queira fazer, ele possa fazer. Tudo o que ele quiser - se o deixa em êxtase, a escolha é dele.

Se você ama a pessoa, então você não interfere na privacidade dela. Você deixa intocada a privacidade da pessoa.

Você não tenta invadir seu ser interior.

A exigência básica do amor é "Eu aceito a outra pessoa como ela é" e o amor nunca tenta mudar a pessoa em função da própria ideia que se tem do outro. Você não tenta cortar a pessoa aqui e ali e deixá-la do tamanho certo - o que tem sido feito em todos os lugares no mundo inteiro...

Se você ama, não existem condições. Se você ama, então impor condições não é o caso. Você o ama como ele é. Se você não o ama então também não há problema. Ele não é ninguém para você; impor condições não é o caso. Ele pode fazer tudo que quiser fazer.

Se o ciúme desaparece e o amor permanece, então você tem algo sólido em sua vida, o qual vale a pena possuir.

Quando você está compartilhando seu contentamento, você não cria uma prisão para ninguém, você simplesmente dá. Você nem mesmo espera gratidão ou agradecimento, porque você está dando não para conseguir alguma coisa, nem mesmo gratidão. Você está dando porque está tão repleto ... você precisa dar.
Assim, se alguém está grato, é você quem esta grato à pessoa que ACEITOU seu amor, que aceitou seu PRESENTE. Ela o aliviou, permitiu a você que a banhasse. E quanto mais você compartilha e mais você dá MAIS VOCÊ TEM.

Então isso não o torna um avarento, não cria um novo medo, o de que "eu posso perder isso". Na realidade, quanto mais você o perde, mais águas frescas fluem, vindas de nascentes sobre as quais você não estava consciente anteriormente.

Se a existência toda é una e se a existência toma conta das árvores, dos animais, das montanhas, dos oceanos - desde a menor folhinha de grama até a maior estrela - então ela também toma conta de você.

Porque ser possessivo? A possessividade mostra simplesmente uma coisa - que você não consegue confiar na existência. Você tem que conseguir uma segurança pessoal separada, uma proteção pessoal separada. Você não pode confiar na existência. A não possessividade é basicamente confiança na existência.

Não há necessidade de possuir, porque o todo já é nosso.

Abandone a ideia de que o apego e o amor são uma coisa só. Eles são inimigos. É o apego que destrói o amor.

Se você limita, se você nutre o apego, o amor será destruído, se você alimenta e nutre o amor, o apego desaparecerá por si mesmo.

O amor e o apego não são um; são duas entidades separadas e antagônicas entre si.

E lembre-se sempre da regra básica da vida: se você idolatra alguém, um dia você se vingará.

Você tem que estar alerta para não ser manipulado por ninguém, não importa quão boas sejam as intenções da pessoa.

Você tem de salvar a si mesmo de tantas pessoas "bem intencionadas", benfeitoras, que constantemente o aconselham a ser isso e a ser aquilo. Ouça-as e agradeça. Elas não querem fazer nenhum mal - mas mal é o que acontece. Simplesmente ouça a seu próprio coração. Esse é o seu único professor.

As pessoas o têm julgado e você aceitou a ideia dela sem um exame minucioso. Você está sofrendo todos os tipos de julgamentos das pessoas e está jogando esses julgamentos em outras pessoas. Esse jogo alcançou proporções incríveis e toda a humanidade está sofrendo isso.

Se você quer sair desse estado, a primeira coisa é: não julgue a si mesmo. Aceite humildemente sua imperfeição, seus fracassos, seus erros, suas fraquezas.

Não há necessidade de fingir o contrário, seja simplesmente você mesmo: É assim que eu sou - cheio de medo. Não consigo sair na noite escura, não consigo ir na floresta densa. O que há de errado nisso? É simplesmente humano.

Quando você aceita, você é capaz de aceitar os outros, porque você terá um insight claro de que eles estão sofrendo da mesma doença. E aceitando-os, você irá ajudá-los a aceitar a si mesmos.

Podemos reverter todo o processo: você se aceita e isso o torna capaz de aceitar os outros. E porque alguém os aceita, eles aprendem a beleza da aceitação pela primeira vez - QUANTA PAZ SE SENTE - e eles começam a aceitar os outros.

Dar amor é a linda e verdadeira experiência, porque com ela você é um mestre de si mesmo. Receber amor é uma experiência muito pequena, é a experiência de um mendigo.

Não seja um mendigo, pelo menos tratando-se de amor, seja um imperador, porque o amor é uma qualidade inesgotável em você. Você pode dar tanto quanto quiser. Não tenha preocupação que ele esgotará. O amor não é uma quantidade, mas uma qualidade e qualidade de um certa categoria que cresce ao se dar e morre se você a segura. Seja realmente esbanjador!!

Não se importe para quem. Esta é na verdade a ideia de uma mente mesquinha: Eu darei amor a determinadas pessoas que tenham determinadas qualidades ... Você não entende que tem em abundância, que é uma nuvem de chuva. A nuvem de chuva não se importa onde chove - nas pedras, nos jardins, nos oceanos - não importa. Ela quer descarregar-se e essa descarga é um tremendo alívio.

Assim o primeiro segredo é: não peça amor. Não espere, pensando que você dará se alguém lhe pedir - Dê!!

Tudo passa, mas você permanece - você é a realidade.

OSHO

É benéfico ou nocivo o controle do pensamento?


O pensar e o sentir são uma só coisa: uma só unidade

Interrogante: Por que razão dividiu o homem a sua existência em compartimentos diferentes — o intelecto e as emoções?(...)

Krishnamurti: (...) Esta é uma situação verdadeiramente complexa: o interior a dividir-se em compartimentos e, além disso, a separar-se do ambiente. E, mais ainda, a dividir o ambiente, a que chama "sociedade", em classes, raças e grupos econômicos, nacionais, geográficos. É isto, de fato, o que se observa no mundo; e chamamos isso "viver". Não tendo possibilidade de resolver este problema, inventamos uma superentidade, uma força atuante que, assim esperamos, criará harmonia, a coesão, dentro em nós e entre nós. Esse fator de coesão, a que chamamos religião, cria, por sua vez, mais um fator de divisão. Por conseguinte, a questão se torna esta: o que poderá criar uma harmonia completa no viver, na qual não haja divisões, mas, sim, um estado em que o intelecto e o coração sejam, juntos, a expressão de uma entidade total? Essa entidade não é um fragmento. 

Interrogante: Concordo com você, mas como realizar isso? Essa é a harmonia a que o homem sempre aspirou e que sempre buscou em todas as religiões e todas as utopias políticas e sociais. 

Krishnamurti: Você está perguntado "como"? O "como" é o grande erro. É o fator segregador. Existe o meu "como", o seu "como", e o "como" de outros. Assim, se nunca empregássemos essa palavra, estaríamos investigando verdadeiramente e não a buscar por um método para alcançarmos determinado resultado. Você pode, pois, afastar de todo essa ideia de "receita" e de resultado? Se você pode definir um resultado, já o conhece e, por conseguinte, ele é condicionado e não livre. Se jogarmos fora a "receita", seremos então capazes de investigar se há alguma possibilidade de estabelecer-se um todo harmônico, sem inventarmos nenhum agente exterior, porque todos os agentes exteriores, existentes no ambiente ou acima do ambiente, só servem para aumentar o problema.

Em primeiro lugar, é a mente que se divide em sentimento, intelecto e ambiente; é a mente que inventa o agente exterior; é a mente que cria o problema.

Interrogante: Essa divisão não se encontra apenas na mente. Ela é mais forte ainda nos sentimentos. Os muçulmanos e os hinduístas não se creem separados: sentem-se separados — e é esse sentimento que, com efeito, os separa e os faz destruir-se uns aos outros.

Krishnamurti: Exatamente: o pensar e o sentir são uma só coisa; sempre, desde o começo, foram uma só coisa, e é isso, precisamente, o que estou dizendo. Nosso problema, por conseguinte, não é a integração dos diferentes fragmentos, mas, sim, a compreensão da mente e deste coração que são uma só coisa. Nosso problema não é o de como acabarmos com as classes, ou como construir melhores utopias, ou formar melhores líderes políticos ou novos instrutores religiosos. Nosso problema é a mente. Chegar a este ponto, não teoricamente, porém vê-lo realmente, é a maior forma de inteligência. Porque, então, você não pertence a nenhuma classe ou grupo religioso; não é então muçulmano, hinduísta, judeu ou cristão. Temos, portanto, agora, um só problema: Porque a mente divide? Ela não só divide suas próprias funções em sentimentos e pensamentos, mas também separa a si própria como "eu", do "você", e separa o "nós" do "eles". A mente e o coração são uma só unidade. Não o esqueçamos.  Lembre-se disso, sempre que usar a palavra "mente". Nosso problema é: "Por que a mente divide?"

Interrogante: Sim, é este.

Krishnamurti: A mente é pensamento. Toda atividade do pensamento é de separação, fragmentação. O pensamento é reação da memória, que é o cérebro. O cérebro tem de "reagir" quando percebe um perigo. Isso é inteligência; mas esse mesmo cérebro foi, de alguma maneira, condicionado para não perceber o perigo da divisão. Suas ações são válidas e necessárias no domínio dos fatos. Do mesmo modo, ele atuará quando perceber o fato de que a divisão e a fragmentação lhe são perigosas. isto não é uma ideia, ideologia, princípio ou conceito — coisas absurdas e "separativas": é um fato. Para ver o perigo, o cérebro deve ser muito desperto e vigilante — todo ele, e não apenas um segmento dele.

Interrogante: Como manter desperto o cérebro inteiro?

Krishnamurti: Já dissemos que não há "como", porém, tão só, ver o perigo; é este o ponto que precisa ser compreendido. O ver não é um resultado do condicionamento ou de propaganda; o ver se verifica com o cérebro inteiro. Quando o cérebro está completamente desperto, a mente se torna silenciosa. Se o cérebro está completamente desperto, não há fragmentação, nem separação, nem dualidade. A natureza desse silêncio e sobremodo importante. Pode-se silenciar a mente por meio de drogas e artifícios de toda espécie, mas tais artifícios geram várias outras formas de ilusão e de contradição. Esse silêncio é a mais alta forma de inteligência, que não é pessoal, nem interpessoal, nem sua, nem minha. Anônimo, é ele integral, imaculado. Não pode ser descrito porque não tem nenhuma qualidade. Ele é percebimento, ele é atenção, ele é amor, ele é o Supremo. O cérebro deve estar de todo desperto; só isso. Assim, como um homem perdido na floresta deve conserva-se alertado a fim de sobreviver, assim também o homem que se vê perdido na floresta do mundo deve manter-se sumamente vigilante, para viver completamente.

Jiddu Krishnamurti em, A Luz Que Não Se Apaga

O baque inicial diante da constatação do falso

Um paradigma que nos arranca do falso

Carregamos em nossas células cerebrais a história do mundo

Somos o que nunca morre

Seu nascimento foi o começo de sua morte. Desde então você não tem feito nada além de morrer - todos os dias, de forma contínua - embora o processo seja muito lento.

Isso pode levar 70 anos ou 80 anos para chegar ao seu túmulo, mas você vem caminhando para isso desde que você deixou seu berço ... sempre ... sem tirar um único feriado, nunca se desviando.

Não há nenhuma maneira de se perder! Faça o que fizer, onde quer que vá, você está indo para o cemitério. Um dia você não vai mais estar aqui ... um dia você de novo não vai estar no corpo - embora você exista há 70 anos."

Se você puder ter um só vislumbre de si mesmo, você vai saber que você nunca nasceu e que nunca morreu.

Sim, o nascimento e a morte estão acontecendo ao seu redor, mas não para você que está aí dentro.

O corpo estava morrendo, a mente estava morrendo; o corpo estava nascendo, a mente estava nascendo de novo, mas você dentro permaneceu eternamente o mesmo.

No momento da morte todo o seu conhecimento do mundo será perdido no ar. Só uma coisa continua com você e essa é uma coisa que é constantemente ignorada - ela é o seu auto-conhecimento, a sua auto-realização. Na verdade, esta é a única ignorância - ignorar a si mesmo.

Conhecer a vida em sua insegurança é conhecer a vida na sua imensa beleza é conhecer a vida em sua autenticidade.

Conhecer a vida em sua insegurança, sem qualquer medo é transcender a morte, porque a vida nunca morre.

OSHO

A importância do compartilhar na fase inicial do autoconhecimento

Meditação não é concentração, mas relaxamento

As meditações podem estar erradas. Por exemplo, qualquer meditação que leve você a uma concentração profunda está errada. Você ficará cada vez mais fechado, em vez de se abrir. Se estreitar a sua consciência, concentrar-se em algo e excluir o todo da existência, focando em uma única coisa, isso só irá criar mais tensão. Daí a palavra “atenção”. Nesse contexto ela significa “a-tensão”. O próprio sentido da palavra concentração passa uma idéia de tensão.

A concentração tem os seus usos, mas não é o mesmo que meditação. No trabalho científico, na pesquisa científica, no laboratório, você precisa de concentração. Precisa se concentrar em uma questão e excluir todo o resto, a ponto de mal se dar conta do mundo fora do seu campo de interesse. O seu mundo é exclusivamente a questão em que você está concentrado. É por isso que os cientistas se tornam pessoas ausentes, distantes. As pessoas que se concentram muito acabam se tornando distantes porque não sabem permanecer abertas ao mundo como um todo.

Outro dia eu li uma anedota.
- Eu trouxe uma rã que acabei de coletar da lagoa - disse o cientista, professor de zoologia, sorrindo para sua turma. - Primeiro vamos estudar a aparência externa dela e depois dissecá-la.
O professor desembrulhou cuidadosamente o pacote que trazia e dentro havia um sanduíche de presunto muito bem preparado. O professor olhou para o sanduíche com surpresa.
- Estranho! - exclamou. - Eu me lembro claramente de ter comido o meu almoço.

Isso costuma acontecer com os cientistas. Eles se tornam introvertidos por terem o costume de se concentrar, de estreitar a mente. É claro que estreitar a mente tem o seu proveito: ela se torna mais penetrante, fica afiada como uma agulha; ela atinge exatamente o ponto desejado, mas perde toda a vida que a rodeia.

O Buda não é um homem de concentração, é um homem de percepção. Ele não tenta estreitar a consciência - pelo contrário, tenta eliminar todas as barreiras para ficar inteiramente disponível para a existência. Observe... A existência é simultânea. Enquanto falo, o ruído do trânsito pode ser ouvido. O trem, os pássaros, o vento que sopra entre as árvores - neste momento converge o todo da existência. Você me escuta, eu falo com você e milhões de coisas estão acontecendo - isso é imensamente enriquecedor.

A concentração torna você focado a um custo muito grande: 90% da vida é descartada. Se estiver resolvendo um problema matemático, não pode escutar os pássaros, pois será uma distração. As crianças que brincam por perto, os cachorros latindo na rua, tudo será uma distração.

Por causa da concentração, as pessoas tentam fugir da vida: sobem o Himalaia, refugiam-se em uma caverna, permanecem isoladas para poder se concentrar em Deus. Mas Deus não é um objeto, Deus é esse todo, o conjunto da existência, este momento. Deus é a totalidade. É por isso que a ciência jamais poderá conhecer Deus. O método básico da ciência é a concentração e, por causa desse método, a ciência nunca chegará a conhecer Deus.

Então, o que fazer? Repetir um mantra, ao fazer a meditação transcendental, não vai ajudar. A meditação transcendental tornou-se muito importante nos Estados Unidos por causa da visão objetiva, por causa da mente científica - é a única meditação em que o trabalho científico pode ser feito.

É exatamente concentração e não meditação, portanto é compreensível para mentes científicas. Nas universidades, nos laboratórios científicos, em trabalhos de pesquisa psicológica, muito se tem estudado a meditação transcendental, porque ela não é uma meditação. É um método de concentração. Ela pode ser classificada na mesma categoria da concentração científica: há uma ligação entre as duas. Mas não tem nada a ver com meditação.

A meditação é tão vasta, tão imensamente infinita, que não possibilita nenhum tipo de pesquisa científica. Só se um homem se tornar compaixão poderemos saber se ele conseguiu ou não. As ondas alfa não serão de muita ajuda porque elas pertencem à mente e a meditação não é da mente, é alguma coisa além.

Portanto, deixe-me dizer algumas coisas básicas. Em primeiro lugar, meditação não é concentração, mas relaxamento - basta relaxar dentro de si mesmo. Quanto mais você relaxa, mais se sente aberto, vulnerável, e menos rígido. Você fica mais flexível e, de repente, a existência começa a penetrar em você. Você não é mais como uma pedra, agora tem aberturas.

Relaxamento significa permitir-se entrar em um estado em que não se faz nada, porque, se algo estiver sendo feito, a tensão continuará. É um estado de não-fazer: simplesmente relaxar e apreciar a sensação de relaxamento. Relaxe sozinho, feche os olhos e escute tudo o que está acontecendo ao seu redor. Não procure sentir nada como uma distração. No momento em que você sentir que algo é uma distração, estará negando Deus.

Nesse momento Deus veio a você como um pássaro - não o negue. Ele bateu à sua porta como um pássaro. No momento seguinte veio como um cachorro latindo, ou como uma criança chorando e se lamentando, ou como um louco rindo. Não negue, não rejeite: aceite, porque, se você negar, ficará tenso. Todas as negações criam tensão, por isso aceite.

Se quiser relaxar, a única maneira é aceitar. Aceite tudo o que está acontecendo ao seu redor, deixe que se torne um todo orgânico. Tudo está relacionado, quer você saiba disso ou não. Esses pássaros, essas árvores, esse céu, esse sol, essa terra, você, eu - tudo está relacionado. É uma unidade orgânica.

Se o sol desaparecer, as árvores desaparecerão; se as árvores desaparecerem, os pássaros desaparecerão; se os pássaros e as árvores desaparecerem, você não poderá estar aqui. É a ecologia. Tudo está profundamente relacionado entre si.

Portanto, não negue nada, porque, no momento em que negar, estará negando alguma coisa em si mesmo. Se negar esses pássaros cantando, então alguma coisa em você também será negada.

Quando você relaxa, aceita; a aceitação da existência é a única maneira de relaxar. Se as coisas pequenas o perturbam, então é a sua atitude que o está perturbando. Sente em silêncio; escute tudo o que está acontecendo ao seu redor e relaxe. Aceite, relaxe e de repente sentirá a imensa energia que surge dentro de você.

E quando eu digo observe, não tente observar, caso contrário ficará tenso novamente e começará a se concentrar. Relaxe, permaneça relaxado, com o corpo solto, e olhe... O que mais pode fazer? Você está aí, não há nada a fazer, tudo foi aceito, não há nada a ser negado, rejeitado. Não há luta, briga ou conflito. Você simplesmente observa. Lembre-se: apenas observe.

Osho, em "Meditação: A Primeira e Última Liberdade"

O inerente medo do conhecimento de si mesmo por si mesmo

Parecemos não perceber a extraordinária importância do aprender sobre a nossa pessoa (não o que os outros disseram, por maiores que sejam esses especialistas): o aprender realmente acerca de nós mesmos. Não parecemos muito ardentemente interessados nisso e nos mostramos mais dispostos a aceitar prontamente "informações" de segunda mão, a respeito de nós mesmos. Como sabem, há iogues, swamis, mararishis, — todo esse bando que anda a percorrer a Índia, este país, a Europa, a América. Em geral somos tão crédulos que estamos prontos a seguir qualquer um, desde que nos prometa alguma coisa! Mas, para aprender sobre mim, torna-se necessária a total negação do passado, a negação de tudo o que aprendi a meu respeito, porquanto sou um ente vivo, em movimento, uma coisa que está constantemente a modificar-se, por força das tensões e pressões da vida diária, da propaganda — da constante pressão do mundo e da vida de relação. 

Queremos traduzir este ente vivo em termos do passado, examiná-lo por meio do passado, e por essa razão é que nos parece difícil aprender acerca de nós mesmos, isto é, porque temos o padrão do passado, o padrão do "correto" e do "errado", do "bom" e do "mau"; não estou dizendo que não existe "bom" e "mau", mas temos essa imagem, firmemente arraigada no passado, e ela impede a compreensão do presente, do "eu" vivo. 

Apresenta-se, assim, a questão de saber se não há possibilidade de rejeitarmos a autoridade externa dos sistemas espirituais, dos livros, dos guias religiosos, dos teólogos, etc. Tratemos de recusá-la, bem como a autoridade interna do processo psicológico das experiências acumuladas, do conhecimento, do saber, a fim de termos uma base para começarmos a aprender. Isso, com efeito, significa: Pode a mente — ao observar tudo isso com muita simplicidade e clareza, se é uma mente são, e não neurótica, emocional — pode a mente perguntar então a si própria se é capaz de enfrentar o medo que vem, inevitavelmente, quando uma pessoa se vê completamente só? Porque, quando se rejeita toda autoridade, tanto externa como interna, e sabendo-se que se está sujeito a errar, que não existe nenhum guia, nenhum filósofo, nenhum amigo para mostrar-nos a direção, se estamos aprendendo a respeito de nós mesmos — esse medo se apresenta inevitavelmente. Ele nasce, invariavelmente, por causa da comparação: alguém alcançou o esclarecimento e eu não alcancei. Desejo alcançá-lo. Há também o temor de cometer algum erro, de perder tempo. E ainda o de ficar sem amparo, completamente só. Afinal de contas, nós temos de estar sós — estamos sós. Ao negarmos totalmente a estrutura psicológica da sociedade — o que equivale a estar fora da sociedade, como, psicologicamente, devemos estar — então, evidentemente, estamos sós. Mas não se trata, de certo da solidão do monge, que é isolamento. Tampouco se trata da solidão da pessoa que se consagrou a uma determinada atividade; nem da solidão da pessoa que ficou abandonada, que não tem lugar na sociedade. Quando se repudia, por inteiro, a estrutura psicológica da sociedade, fica-se inteiramente só e isso, por sua vez, gera um grande medo. Porque a maioria de nós é o passado e vive com o passado; quanto mais velho ficamos, tanto mais significativo se torna o passado; o passado se torna nosso guia. 

É necessário rejeitar tudo isso, porque desejo aprender sobre mim. E quando o rejeito, existe alguma coisa para aprender a respeito de mim?  aprendi; nada mais há que aprender. Não sei se vocês estão percebendo. Pois, o que estou aprendendo acerca de mim mesmo? Desejo conhecer-me, mas percebo que, para aprender, necessito de estar livre de toda espécie de autoridade, não apenas verbalmente, porém em cada segundo, em cada minuto do dia. E noto, assim, em mim próprio, a inclinação para seguir, porque sinto medo. E percebo a existência, em mim mesmo, do perigo, do medo de me ver inteiramente só. W percebo, também, o temor de errar, de não atingir a meta, de não realizar, não conseguir aquela certa coisa existente além de todo pensamento e de toda experiência. 

E, após esse exame, o que resta para aprender a respeito de mim? Já aprendi tudo; já conheço a natureza total de "mim mesmo". Entretanto, resta essa coisa chamada "medo". E, se me permitem, vamos examiná-la. Porque a mente que se vê presa na rede do medo, em qualquer de suas formas, conscientes ou inconscientes, tem de necessariamente viver num mundo sombrio e de ver as coisas deformadas; jamais compreenderá o que significa ser verdadeiramente livre. E, porque tememos, criamos, natural e inevitavelmente, toda uma rede de vias de fuga — o estádio de futebol, a igreja, o bar, etc.

Mas há possibilidade de nos libertarmos do medo?... Temos a possibilidade de libertar-nos total e completamente dessa coisa chamada "medo"?

Krishnamurti em, A Essência da Maturidade

Sobre os desvios criados pela mente desejante



Desejo de liberação: a trave do Ser que somos


Para observar é preciso meditar?

Observar é meditação, e isso não significa que para observar temos de meditar. Observar é uma das coisas mais difíceis que há. Observar, por exemplo, uma árvore, é dificílimo, porque temos ideias, imagens relativas à arvore e essas ideias — conhecimentos botânicos, etc. — nos impedem e olhar a árvore. Observar sua esposa ou marido é mais difícil ainda, porque você também tem uma imagem relativa de sua esposa e ela tem uma imagem a seu respeito, e a relação existente é entre essas duas imagens. É o que em geral se chama "relações": dois conjuntos de lembranças, de imagens, em relação entre si. Veja quanto isso é absurdo. As relações que em geral temos são uma coisa morta. Observar significa, com efeito, estar consciente da interferência do pensamento; perceber como a imagem que você tem da árvore, da pessoa, do que quer que seja, intervém no ato de olhar. Observe como você se esquece do objeto que está olhando — a árvore, a pessoa; e veja porque o pensamento interfere, porque você tem uma imagem de tal pessoa. Por que você tem uma imagem de quem quer que seja? Aqui estamos, você e eu, a nos olhar — eu, o orador, e você, o ouvinte. Você tem uma imagem relativa do orador, infelizmente; mas eu, não lhe conheço, nenhuma imagem tenho de você e, por conseguinte, posso olhá-lo. Mas não posso olhá-lo se digo para mim: Vou servir-me desse ouvinte para alcançar poder, posição, explorá-lo, tornar-me um homem famoso — você sabe o resto — de todas as futilidades que os entes humanos cultivam. Assim, observar significa: observar sem a interferência de nosso fundo. Entende? Todo o nosso ser, que está a olhar, é o nosso fundo — cristão, francês, intelectual. Pela observação, descobre-se esse fundo; e observá-lo sem nenhuma escolha, nenhuma inclinação, é uma disciplina tremenda — não a absurda disciplina de ajustamento, de imitação. Essa observação torna a mente sobremodo ativa, sobremodo sensível. Isso em seu todo é meditação. Não se entenda, pois, que "para observar é preciso meditar", porém, antes, que é quando observamos, que todas as coisas sucedem. Isso, em seu todo, é meditação, e não um certo método de controle do pensamento, assunto que trataremos noutra ocasião.

Krishnamurti em, A essência da Maturidade

A transformação do homem

Diálogos realizados entre David Bohm (Físico), David Shainberg (Psiquiatra), e J.Krishamurti. São 7 Diálogos com duração de aproximadamente 1 hora realizados em Brockwood Park em Maio de 1976, abordando vários tema. Aconselhamos que vejam também o vídeo introdutório de 10 minutos onde David Bohm e David Shainberg fazem suas apresentações ao público que não os conhece e falam sobre a forma que chegaram a conhecer os ensinamentos de Jiddu Krsihnamurti, falam sobre a importância da discussão, as suas curiosidades e os motivos que os levaram a pensar e questionar alguns temas.

Vídeo 1

Vídeo 2

Vídeo 3

Vídeo 4

Vídeo 5

Vídeo 6

Vídeo 7

Não se pode confiar em bem intencionados iludidos

Nós, entes humanos, aceitamos a violência e o sofrimento como norma da vida e, já que os aceitamos, tratamos de tirar deles o melhor proveito possível. Rendemos culto ao sofrimento, o idealizamos e com ele vamos vivendo — como se faz no mundo cristão. No mundo oriental o traduzem de outras maneiras, sem tampouco encontrar a solução para ele. Como tenho dito, essa violência, nós a herdamos do animal: nossa agressividade, nosso espírito de domínio, desejo de poder, ânsia de preenchimento. Nossa estrutura cerebral, herdada do animal, é também produto da evolução e tem não só a função de proteger, mas também de ser agressiva, violenta, de dominar, de pensar em termos de posição, prestígio; vocês bem sabem disso. 

O sofrimento e a autopiedade, que também faz parte do sofrimento, a solidão, a total inexpressividade da vida, o tédio, a rotina, despojam a vida de toda finalidade e, por isso, tratamos de inventar uma finalidade; os intelectuais criam uma finalidade ideológica, de acordo com a qual procuramos viver. E, na impossibilidade de resolvermos esses problemas, nos revertemos ao passado; voltamos à juventude ou à cultura tradicional, conforme a raça, o país, etc. Quanto mais urgente se torna o problema, tanto mais tratamos de fugir para uma certa explicação ideológica, relativa ao futuro; e nessa armadilha ficamos aprisionados. Tanto no Oriente como no Ocidente, observa-se a fuga para toda espécie de entretenimento — a igreja, o futebol, o cinema, etc. A necessidade de entretenimento assume todas as formas possíveis: visitar museus, conversar interminavelmente sobre música, sobre os últimos livros publicados, ou escrever sobre coisas passadas e mortas e enterradas, sem valor de espécie alguma. 

Ao que parece, só há muito pouca gente verdadeiramente séria. Pela palavra "sério" entendo ter a capacidade de examinar o problema até o fim e resolvê-lo. Resolvê-lo, não conforme as inclinações pessoais ou o temperamento de cada um, ou sob a pressão do ambiente, porém deixando tudo isso de lado e investigando até o fim a verdade relativa a uma dada questão. Essa seriedade parecer ser rara. Para que possam ser resolvidos esses dois problemas fundamentais, a violência e o sofrimento, temos de ser sérios e possuir também uma certa capacidade de percebimento, de atenção, porquanto ninguém pode resolvê-los para nós. Evidentemente, nem as velhas religiões, nem organizações bem planejadas e aperfeiçoadas por uma certa autoridade ou sacerdote — nada, nem ninguém dessa categoria pode ajudar-nos; são coisas obviamente sem significação alguma. Pode-se observar em todo o mundo que a chamada nova geração está atirando aos ventos todas essas futilidades — igrejas, deuses, templos, rituais. Para o homem sério as autoridades perderam toda a importância. É claro que não tem sentido dependermos de qualquer espécie de autoridade quando o mundo se acha em tal estado de confusão e de aflição; principalmente da autoridade organizada num plano religioso, com as respectivas sanções. 

Não se pode confiar em ninguém, nem em Salvadores, nem em Mestres — em ninguém, inclusive neste orador. E, após termos rejeitado totalmente todos os livros, filosofias, santos, anarquistas, nos vemos frente a frente com nós mesmos, tais como somos. Isto é um tanto assustador e desanimador: o nos vermos tais como realmente somos. Não há filosofia, literatura, dogmas, rituais, capazes de colocar fim à violência e ao sofrimento. Precisamos perceber isso, antes de passarmos adiante. Quanto mais séria a pessoa e quanto mais urgente o problema, essa própria urgência recusa a autoridade que tão facilmente aceitamos. 

Outro problema é: como examinar, como observar a violência e o sofrimento, tais como em nós existem. Como dissemos, os entes humanos, individualmente, são o produto da sociedade, da cultura em que vivem, e essa sociedade e cultura foram construídas por cada um de nós. A sociedade é o produto dos entes humanos, e nós fazemos parte desse produto; eis a nossa situação. Estamos aprisionados nessa armadilha de nossas inclinações, tendências e prazeres pessoais, sendo que tudo isso constitui a estrutura social. Temos a tendência de considerar o indivíduo e a sociedade como duas coisas diferentes e, por conseguinte, perguntamos: Que valor tem um ente humano que se transformou, em relação à estrutura total da sociedade? Tal pergunta me parece absurda. 

Jiddu Krishnamurti em, A Essência da Maturidade Humana

A transformação e a suprema felicidade fora do tempo


A transformação não está no futuro, nunca pode dar-se no futuro, ela só pode dar-se agora, de momento em momento. Mas, o que entendemos por transformação? Ora, é muito simples: é ver o falso como falso, o verdadeiro como verdadeiro. É ver a verdade que está contida no falso, e ver o falso naquilo que se aceitou como verdade. Ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro, é transformação. Porque, no momento em que você vê claramente uma coisa como verdadeira, essa verdade liberta. Ao ver que uma coisa é falsa, essa coisa falsa se desvanece. Senhor, ao ver que as cerimônias são puras e vãs repetições, ao perceber a verdade que há nisso, e não o justificar, dá-se uma transformação — não é verdade? — porque você ficou livre de mais uma prisão. Ao ver que a distinção de classe é coisa falsa, que ela cria conflito, sofrimento, divisão entre as pessoas — ao perceber essa verdade, ela própria o liberta. A percepção da dessa mesma verdade é transformação, não é? E como estamos rodeados de coisas falsas, a percepção da falsidade, momento por momento, é transformação. A verdade não é acumulativa. Ela está presente momento por momento. O que é acumulativo, o que se acumula, é a memória, e pela memória nunca se pode achar a verdade; porque a memória é produto do tempo — do passado, do presente e do futuro. O tempo, que é continuidade, nunca pode achar o que é eterno; a eternidade não é continuidade. O que tem duração não é eterno. A eternidade está no momento presente. A eternidade está no agora. O agora não é reflexo do passado, através do presente, rumo ao futuro. 

A mente desejo de transformação futura, ou que visa à transformação como resultado final, nunca poderá achar a verdade. Porque a verdade é uma coisa que deve vir momento por momento, que precisa sempre ser descoberta de novo; e, naturalmente, não pode haver descobrimento mediante acumulação. Como é possível você descobrir o que é novo, com a carga do que é velho? É só pelo desaparecimento dessa carga que se descobre o novo. Assim, pois, para descobrir-se o novo, o eterno, no presente, momento por momento, necessita-se de uma mente extraordinariamente alerta, uma mente que não visa a um resultado, uma mente não interessada em "vir a ser". A mente empenhada em "vir a ser" não conhecerá jamais a perfeita e suprema felicidade do contentamento que é pura satisfação, não o contentamento derivado da consecução de um resultado, mas o contentamento que se manifesta quando a mente percebe a verdade no "que é", e o falso no "que é". A percepção dessa verdade é de cada momento; e essa percepção é retardada pela "verbalização" do momento. 

Assim, pois, a transformação não é um resultado final. A transformação não é um resultado. Todo resultado implica resíduo, implica uma causa e um efeito. Onde há causalidade, há necessariamente efeito. O efeito é meramente o resultado do seu desejo de ser transformado. Quando você deseja ser transformado, você está pensando em "vir a ser", e aquilo que está no "vir a ser", nunca poderá conhecer o que é o ser. A verdade é o ser, momento por momento; e a felicidade que tem continuidade não é a felicidade. A felicidade é aquele estado que está fora do tempo. Esse estado atemporal só pode manifestar-se quando há extraordinária insatisfação — não a insatisfação que descobriu uma via de fuga, mas a insatisfação que não tem saída alguma, que não tem possibilidade de fuga, que já não busca preenchimento. Só então, em tal estado de suprema insatisfação, pode despontar a Realidade. Essa realidade não pode comprar-se, vender-se, repetir-se, e não pode ser colhida nos livros. Ela tem de ser achada momento por momento, no sorriso, na lágrima, sob a folha morta, nos pensamentos erradios, na plenitude do amor. Porque o amor não é diferente da verdade. O amor é aquele estado no qual o processo do pensamento, como tempo, desapareceu de todo. E onde está o amor, há transformação. Sem amor, nada significa a revolução, porque em tal caso a revolução é só destruição, decomposição, desgraça cada vez maior e cada vez mais geral. Onde há amor há revolução, porque o amor é transformação, momento por momento. 

Jiddu Krishnamurti, 20 de fevereiro de 1949 - O Que Te Fará Feliz?

O que é o pensamento e como controlá-lo?

Agora, o interrogante deseja saber como se controla o pensamento. Primeiramente, para que você possa controlá-lo, você precisa saber o que é o pensamento e quem é o agente que controlador. Eles dois representam, processos distintos ou um fenômeno único? Você precisa, primeiro, compreender o que é o pensamento, para poder dizer "quero controlar o pensamento", e precisa, também, conhecer o "controlador. Existe controlador sem o pensamento? Se você não tem pensamento, existe pensante? O pensante é o pensamento; o pensamento não está separado do pensante; ambos constituem um processo único. 

Assim, pois, restam-nos apenas pensamentos, tendo desaparecido o pensante. Embora você pronuncie as palavras "eu penso", isso representa apenas uma forma de comunicação. O que há realmente é apenas um estado, no qual existe pensamento. E o pensamento cria o pensante, o qual, então, comunica o seu pensamento. O pensante é, meramente, a "verbalização" do pensamento. 

Cabe a nós, pois, verificar o que é pensamento. Saberemos, então, se é ou não possível controlá-lo, e porque você deseja controlá-lo. Pode existir um critério inteiramente diferente para se colocar fim ao processo do pensamento, mas não é por meio de controle. Porque, no momento em que você exerce controle, em que faz um esforço de vontade, você não compreende o pensamento. Está, então, simplesmente, a condenar um pensamento e a justificar outro. Aquele que justificou, você deseja conservar, e aquele que condenou, deseja rejeitar. Vejamos, pois, o que se entende por pensamento. 

O que é pensamento? Sem memória não há pensamento, há? O pensamento é o resultado de experiência acumulada, que é o passado, não é? Sem o passado não pode haver pensamento no presente, ou pode? O pensamento, pois, é uma reação do passado ao desejo do presente. Isto é, o pensamento, indubitavelmente, é reação da memória. Mas, o que é a memória? A memória, a conservação da lembrança, é a verbalização da experiência, não é verdade? Há desafio e reação — o que significa experiência —  e essa experiência é verbalizada. Essa verbalização cria a memória; e a reação da memória ao desafio é o pensamento. Portanto, o pensamento é verbalização, não é? 

Não sei se você já tentou pensar sem palavras. No momento em que você pensa, necessita de palavras. Não quero dizer que não haja um estado no qual não exista verbalização. Não estamos discorrendo a esse respeito. O pensamento é a palavra. Sem a verbalização, sem a palavra, o pensamento — o pensamento que nós conhecemos — não existe. Se você perceber, pois, que a palavra — a verbalização — é o processo do pensamento, não se trata então de controlar o pensamento, mas sim de fazer desaparecer o pensamento como "verbalização". Sempre que há verbalização de uma experiência, existe, forçosamente, pensamento. Pensar é verbalizar. Nosso problema, pois, não é o de saber como controlar o pensamento, mas, sim, de saber se é possível deixarmos de verbalizar, de colocar tudo em palavras. Por que colocamos em palavras as nossas respostas e reações? Por que fazemos isso? Por uma razão muito óbvia: para comunicarmos, para contarmos a outro o nosso sentimento. Verbalizamos, também, com o fim de fixá-lo, de contemplá-lo, de recaptar o sentimento quenos fugiu. A palavra tomou o lugar do sentimento que se foi. A palavra assume, desse modo, toda a importância, em lugar do próprio sentimento, da reação, da experiência. A palavra tonou o lugar da experiência. Dessa forma, a palavra se torna o pensamento, o qual impede ao "experimentar". 

Nosso problema, pois, é o seguinte: é possível deixarmos de "verbalizar", de dar nome, de determinar? Isso é possível, evidentemente. Você o faz com frequência, porém, inconscientemente. Quando se defronta com uma crise, com um súbito desafio, não há verbalização. Você a enfrenta por maneira completa. Isso é possível, portanto, mas somente quando a palavra deixa de ser importante, o que significa: quando o pensamento, a ideia, deixa de ser importante. Quando uma ideia se torna importante, torna-se então importante o padrão, a ideologia, e a revolução, é somente a continuação, a continuidade modificada, de uma velha ideia, de uma ideia de ontem. 

Nessas condições, a palavra só se torna importante quando não é importante o experimentar, quando não há o "estado de experimentar", que é enfrentar o desafio sem verbalização, sem a cortina protetora das palavras. Você dá vida à palavra, que é memória, quando é essa memória que enfrenta o desafio; porque a memória, em si, não tem vida, não é verdade? A palavra, por si só, não tem significação. Ela só ganha vitalidade, força, ímpeto, plenitude, quando é o passado, a memória, que enfrenta o desafio. Por consequência, pela ação do vivente, o que está morto volta à vida. E visto que ganha mais vida, daquilo em si que está morto, o pensamento se torna sumamente importante. O pensamento, por si só, não tem significado algum, a não ser em relação como passado, que é verbal. E não se trata de controlar o pensamento. Pelo contrário, uma mente controlada é incapaz de receber a verdade. Mente controlada é mente ansiosa, mente que resiste, que reprime, que substitui, e uma mente em tais condições está cheia de medo; e como pode estar tranquila a mente uma mente cheia de ansiedade? Só pode haver tranquilidade quando a mente não está presa na rede das palavras. Quando a mente não está mais a verbalizar toda experiência, acha-se ela, então, num "estado de experimentar". 

Quando há "experimentar", não há o que experimenta nem a coisa experimentada. Nesse "estado de experimentar" que é sempre novo, que sempre é ser — embora se possa comunicar esse ser mediante o uso de palavras — o indivíduo sabe que a palavra não é a experiência, que a palavra não é a coisa, que ela nenhum conteúdo tem; só a própria "experiência" é repleta de conteúdo. O "experimentar" não é, pois, verbalização. "Experimentar" é a mais elevada forma de compreensão, porquanto é a negação do pensar. A forma negativa de pensar é a mais elevada forma de compreensão; e não pode haver pensar negativo, quando há verbalização do pensamento. Não se trata, pois, absolutamente, de controlar o pensamento, mas de se ficar livre do pensamento. E só quando a mente fica livre do pensamento, que há percepção daquilo "que é", do que é eterno, do que é Verdade. 

Jiddu Krishnamurti em, "O Que Te Fará Feliz?"



A divisão entre mestre e discípulo é anti-espiritual

Senhor, não siga autoridade alguma. Toda autoridade é perniciosa. A autoridade destrói, a autoridade perverte, a autoridade corrompe; e o homem que segue a autoridade está destruindo a si próprio e destruindo igualmente aquilo que se fez de autoridade. O seguidor destrói o mestre, assim como o mestre destrói o seguidor. O guru destrói o discípulo, assim como o discípulo destrói o guru. Através da autoridade você nunca descobrirá coisa alguma. É preciso que você esteja livre da autoridade, para achar a realidade. É uma das coisas mais difíceis ficar-se livre da autoridade, tanto exterior como interior. A autoridade interior é a consciência da experiência, a consciência do conhecimento. E a autoridade exterior é o Estado, o partido, o grupo, a comunidade. O homem que deseja encontrar a realidade deve evitar toda autoridade, seja externa ou interna. Não deixe, pois, que lhe digam o que deve pensar. Essa é a maldição da leitura: a palavra de outro se torna de máxima importância.

O autor da pergunta começa dizendo "Disseram-nos". Quem é que pode dizer-lhe alguma coisa? Não vê, senhor, que os guias e os santos e os grandes instrutores falharam, porque você é o que é? Deixe-os, pois, sossegados. Você os fez mal-sucedidos, porque você não está à procura da Verdade; você quer satisfação. Não siga pessoa alguma, nem a mim próprio. Não faça de outra pessoa sua autoridade. Você mesmo tem de ser mestre e discípulo. No momento em que você reconhece outro como seu mestre, e a si mesmo como seu discípulo, você está negando a Verdade. Na busca da Verdade, não há mestre nem discípulo. A busca da Verdade é que é importante, e não você ou o mestre que se propõe a ajudar-lhe a achá-la. Evidentemente, a educação moderna, bem como a antiga, tem-lhe ensinado O QUE PENSAR e não A PENSAR. Puseram-lhe num molde, e esse molde lhe destruiu; porque você só procura um guru, um instrutor, um guia, seja político ou de outra espécie, somente quando você se acha confuso. Do contrário, nunca segue pessoa alguma. Se você está esclarecido, se, interiormente, você é uma luz para si mesmo, não seguirá ninguém. Mas como não o é, você segue, segue por causa da sua confusão; e aquilo, que você segue fica também, necessariamente, confuso. Seus guias, assim como você mesmo, estão confusos, política ou religiosamente. Por conseguinte, trate em primeiro lugar de dissipar a sua própria confusão, tornando-se uma luz para si mesmo, e então desaparecerá o problema. A divisão entre mestre e discípulo é anti-espiritual.

Krishnamurti em, O Que Te Fará Feliz?

Quando a busca da verdade se transforma em nossa droga de escolha


Só a mente que está desesperada pode encontrar a Realidade

Compreender as relações significa estar vigilante, não fugir, para que se veja tudo quanto nelas se contém. A verdade não está longe de nós, a verdade está perto; a verdade se encontra debaixo de cada folha, em cada sorriso, em cada lágrima, nas palavras, nos sentimentos e nos pensamentos de cada um. Mas, ela está tão encoberta, que precisamos desencobri-la, para a vermos. E desencobri-la significa descobrir o que é falso; no momento em que reconhecemos o que é falso e este desaparece, a Verdade mostra-se para nós. 

A Verdade, pois, é uma coisa viva, de todos os momentos, que precisamos descobrir, e não somente acreditar nela, falar dela, colocá-la numa fórmula. Mas, para perceberem essa Verdade, vocês precisam de uma mente e de um coração extremamente flexíveis e vigilantes. Entretanto, por infelicidade, a maioria de nós não quer uma mente vigilante e flexível, uma mente ágil; queremos ser colocados a dormir, sob efeito de mantras e pujas — Santo Deus! de quantas maneiras nos colocamos a dormir!

Necessitamos, evidentemente, de um certo ambiente, de uma certa atmosfera, de solidão — o que não significa procurar ou evitar o isolamento — mas necessitamos de uma certa solidão, na qual haja atenção plena; e essa solidão, essa atenção plena, só existe quando há perturbação, quando os seus problemas são realmente intensos; e, se possuem um amigo, se possuem alguém que lhes possa ajudar, podem procurá-lo; mas, francamente, tratar essa pessoa como um guru é, obviamente, falta de maturidade, é infantilidade. É como querer agarrar-se às saias maternas. 

Bem sei que, quando nos achamos em dificuldade, apelamos instintivamente para alguém — para a mãe, para o pai, ou para um pai glorificado, que vocês chamam Mestre ou guru. Mas, se o guru for pessoa de merecimento, lhes dirá, por certo, que vocês devem compreender a si mesmos em ação, isto é, nas suas relações. Por certo, vocês são muito mais importante do que o guru; são muito mais importante do que eu; porque se trata da vida de vocês, seus sofrimentos, seus esforços e suas lutas. O guru, o eu, ou outro qualquer, poderá ser livre, mas o que isso adiante para vocês? Por conseguinte, a veneração de um guru é prejudicial para a compreensão de vocês mesmos. E existe aí, um fator peculiar: quanto mais respeito demonstrai por uma determinada pessoa, tanto menos respeitam os outros. Vocês fazem uma profunda reverência ao guru e dão um pontapé no empregado de vocês. Por conseguinte, o respeito de vocês tem pouquíssima significação. Tudo isso são fatos verdadeiros, e o que acabo de dizer provavelmente não agradou a maioria de vocês, porque a mente de vocês quer ser confortada e não magoada como foi. A mente de vocês está presa em tantas perturbações e aflições, que roga: "Pelo amor de Deus, dê-me uma esperança, de-me um refúgio". Senhores, só a mente que está em desespero pode encontrar a Realidade. Uma mente totalmente insatisfeita pode saltar para dentro da Realidade; mas não o pode uma mente satisfeita, uma mente respeitável e cercada de crenças. 

Assim, pois, vocês só podem florir na vida de relação, só podem florir no amor, e não no disputar. Mas nossos corações estão ressecados; nós os enchemos com as coisas da mente, e por isso vamos pedir aos outros que encham as nossas mentes com as suas criações. Como não temos amor, o procuramos no instrutor, o procuramos noutra pessoa. O amor é coisa que não se pode achar. Vocês não podem comprá-lo e não podem se imolar a ele. O amor só vem à existência quando o "ego" está ausente; mas, enquanto vocês andam à busca de satisfação e de refúgios, enquanto se recusam a compreender a confusão de vocês nas relações com os outros, estão somente dando mais força ao "ego" e, portanto, negando o amor.

(...) tudo isso deve ter produzido deve ter produzido, em vocês, um efeito muito perturbador, não é verdade? Esse efeito tem de ser perturbador, pois, se não o for, então há algo que está errado em vocês.  Isso, porque está sendo atacada toda a estrutura do processo de pensamento de vocês, estão sendo atacados os seus confortáveis hábitos, e uma tal perturbação tem de ser cansativa. E se vocês não se sente cansados, se não se sentem perturbados, o que buscam então aqui? Senhores, vejamos bem claramente o que estamos tentando fazer, vocês e eu. A maioria de vocês dirá, provavelmente: "Conheço tudo isso; Shankara, Buda, ou um outro qualquer já o disse". Tal alegação indica que, tendo lido tanta coisa, superficialmente, vocês relegam o que está sendo dito para um dos compartimentos da mente de vocês e, por conseguinte, o colocam de lado. Essa é uma maneira muito cômoda de se desfazerem do que ouviram, o que significa que estão escutando somente no nível verbal, em vez de absorver o sentido do que se está dizendo, que gera perturbação. Senhores, não se pode ganhar a paz, senão à custa de muita busca; e o que vocês e eu estamos fazendo é uma busca completa em nossas mentes e em nossos corações, com o fim de descobrirmos o que é verdadeiro e o que é falso; e esse rebuscar, naturalmente, exige dispêndio de energia e de vitalidade; é fisicamente exaustivo, tão exaustivo talvez como cavar a terra. Mas, por infelicidade, vocês estão habituados a escutar; são meros expectadores a apreciar e a observar o jogo do outro; por isso, não ficam cansados. Os expectadores nunca ficam cansados, o que indica que não tomam realmente parte no jogo. Mas, como já tenho dito e redito, vocês não são expectadores, e eu não estou representado para vocês. Não estão aqui para ouvir uma canção. O que vocês e eu estamos tentando é encontrar uma canção em nossos próprios corações, e não ouvir a canção do outro. Vocês estão acostumados  a ouvir a canção de outro, e por isso seus corações estão vazios, e vazios ficarão para sempre, porque vocês o enchem com a canção do outro. Esta não é a canção de vocês e são meros gramofones, mudando os discos segundo o capricho de vocês; não são músicos. E, principalmente nas épocas de grande aflição e perturbação, precisamos de ser músicos, cada um de nós, precisamos nos renovar com canções, o que significa livrar, esvaziar o coração daquelas coisas com que a mente o encheu. Por consequência, precisamos compreender as criações da mente, e perceber a falsidade dessas criações. Porque, então, não mais encheremos o coração com essas criações. E, aí, com o coração vazio — e não, como no caso de vocês, cheio de cinzas — com o coração vazio e a mente quieta, se ouvirá uma canção, uma canção indestrutível e incorruptível, porque não foi composta pela mente. 

Jiddu Krishnamurti, em "O Que Te Fará Feliz?"
29 de janeiro de 1949

O que buscamos de fato: verdade, felicidade ou satisfação?

Presumivelmente, a maioria de vocês tem um instrutor de alguma espécie, não é verdade? Alguma espécie de "guru", lá no Himalaia, ou por aqui mesmo. Não é verdade isso? Alguma espécie de guia. Ora, por que precisam dele? Naturalmente, não necessitam dele para fins materiais, a não ser que lhes prometa um bom emprego para depois de amanhã. Assim sendo, presumo que o necessitam para fins psicológicos, não é mesmo? Pois bem, por que necessitam dele? Fundamentalmente, é claro que dele necessitam, porque dizem: "Estou confuso; não sei como viver neste mundo; as coisas são muito contraditórias. Há confusão, há sofrimento, há morte, decadência, degradação, desintegração, e preciso de alguém para me aconselhar no que fazer". Não é esta a razão pela qual necessitam de um guru, por que se dirigem a um guru?

Vocês dizem: "Confuso como estou, necessito de um instrutor para me ajudar a esclarecer a confusão, ou, melhor, para me ajudar a dissolver a confusão". Não é isso? A necessidade de vocês, portanto, é psicológica. Vocês não consideram o Primeiro Ministro como o guru de vocês, visto que ele se ocupa, meramente, da existência material da sociedade. Vocês apelam para ele a fim de que atenda às suas necessidades físicas; enquanto, aqui, vocês procuram um instrutor par atender às suas necessidades psicológicas. 

Mas, o que é que vocês entendem pela palavra "necessidade"? Preciso de um pouco de sol, preciso de alimento, de roupas, e de moradia; preciso, da mesma forma, de um instrutor? Para responder a essa pergunta, devo descobrir quem criou essa terrível confusão que me rodeia e que também está em mim. Se sou responsável pela confusão, sou eu, então, a única pessoa que poderá dissipar a confusão, o que significa que preciso compreender a confusão; mas vocês, em geral, procuram um instrutor para que ele os liberte da confusão, ou lhes mostre o caminho, ou lhes dê instruções sobre a maneira de proceder em face da confusão. Ou dizem: ""Este mundo é falso, e preciso achar a Verdade". E o guru, instrutor diz: "Eu achei a verdade" — e por isso vocês vão a ele para compartilhar aquela verdade. 

Pode a confusão ser dissipada por outra pessoa, por maior que seja tal pessoa? É bem certo que essa confusão existe nas nossas relações, e que, portanto, precisamos compreender as nossas relações recíprocas, as nossas relações com a sociedade, com a propriedade, as ideias, etc.; e pode alguém nos dar a compreensão dessas relações? Alguém pode nos apontar ou mostrar isso ou aquilo, mas é a mim que compete compreender as minhas relações, a minha posição. Senhor, isso lhe interessa? Encontro dificuldade, porque sinto que você não está interessado: está observando outra pessoa fazendo alguma coisa. Quando vocês fazem uma pergunta, não compreendem a importância de prestar atenção à resposta. Por conseguinte, estão fazendo pouco caso de seu guru e da confusão de vocês. Em verdade, pouco lhes importa o que diz o seu guru e só o procuram por hábito. Consequentemente, a vida não tem importância para vocês, ela não é energia, não é criação, não é algo que precisa ser compreendido. E, posso ler isso na fisionomia de vocês, não estão seriamente interessados nesta questão. Vocês escutam, ou para se justificarem na sua busca de gurus, ou para fortalecer a própria convicção de que os gurus são necessários. Mas, dessa maneira não encontraremos a verdade que esta questão encerra. Vocês só podem encontrar a verdade contida nesta questão, se esquadrinharem o seu coração para acharem a razão do por que necessitam de um guru. 

Há, pois, muitas coisas contidas nesta questão. Parece que julgam que a verdade é estática, e que, por isso, um guru pode levá-los aonde está. Assim como um homem pode indicar o caminho da estação, assim também julgam que um guru pode mostrar-lhes o caminho da Verdade. Significaria isso que a Verdade é estática; mas, será estática a Verdade? Bem gostariam que o fosse, porquanto tudo o que é estático satisfaz, pois, pelo menos, sabem o que é e podem conservá-lo em suas mãos. De sorte que o que buscam, em verdade, é só satisfação. Desejam segurança, desejam a garantia de um guru, desejam que ele lhes diga: "Você está indo muito bem, continue" — desejam que ele lhes dê conforto mental, que lhes anime, emocionalmente. Assim sendo, procuram, invariavelmente, um guru que de fato lhes satisfaça. Essa é a razão de haver tantos gurus e tantos discípulos; o que significa que realmente não buscam a verdade, mas somente satisfação; e o homem que lhes der o máximo de satisfação, esse homem chamaram de o guru de vocês. Tal satisfação, ou é neurológica, isto é, física, ou psicológica; e, na presença do guru, pensam sentir uma paz profunda, uma grande tranquilidade, uma impressão de ser compreendido. Por outras palavras, querem um pai ou uma mãe glorificados, para ajudar-lhes a vencer a dificuldade. Senhor, você já este sentado tranquilamente à sombra de uma árvore? Aí também se encontra uma paz profunda. Aí também nos sentimos compreendidos. Por outras palavras, na presença de uma pessoa muito tranquila, ficamos igualmente tranquilos; e atribuem essa tranquilidade ao instrutor e o rodeiam de grinaldas, enquanto tratam a pontapés o empregado de vocês. Assim, pois, quando dizem que necessitam de um guru, nisso estão implicadas todas essas coisas, não é verdade? E o guru que lhes garante a fuga, torna-se para vocês uma necessidade.

A confusão só existe nas relações entre indivíduos; mas, porque necessitamos de alguém para nos ajudar a compreender esta confusão? Dirão, agora, porventura: "O que você está fazendo? Não está agindo como nosso guru? — Certamente, não estou procedendo como guru de vocês, primeiro, porque não estou dando-lhes satisfação alguma, e, depois, porque não estou dizendo-lhes o que devem fazer, momento por momento, dia por dia. Estou apenas a apontar-lhes uma coisa; vocês a podem levar ou deixar ficar — e isso depende de vocês e não de mim. Nada peço de vocês: nem adoração, nem adulação, nem insultos, nem os seus deuses. Eu só digo: "isso é um fato; levem ou o deixem ficar". Mas a maioria de vocês o deixará ficar, pela razão muito clara de não encontrar nele satisfação. Mas o homem que é realente sincero, verdadeiramente ardoroso na sua intenção de descobrir, encontrará nutrição suficiente no que estamos dizendo, ou seja, que a confusão só existe nas relações de vocês. Tratemos, por conseguinte, de compreender essas relações. 

Jiddu Krishnamurti em, O Que Te Fará Feliz?

É possível que a mente habite ou viva em grande profundidade?

Achyut: Senhor, que profundidade podemos atingir?

Krishnamurti: Poderíamos fazer a pergunta de outra forma? A maior parte de nossas vidas é muito superficial, e é possível viver em grande profundidade e agir superficialmente? É possível que a mente habite ou viva em grande profundidade? Não sei não se não estamos perguntando e mesma coisa. Vivemos superficialmente, e a maioria de nós está satisfeita com isso.

Pupul: Nós não estamos satisfeitos. Porém, não sabemos como nos aprofundar.

K: A maioria de nós suporta a vida. Agora, como a mente pode penetrar em profundidades maiores? Estamos discutindo a profundidade em termos de avaliação? A profundidade envolve uma avaliação, mas quero deixar bem claro que não estamos usando a palavra no sentindo de meditação, ou no sentido de tempo, mas como algo mais profundo. O sentido dessas palavras está ligado ao tempo, mas tiraremos dela todo o sentido de tempo e de medição. Estamos perguntando se a mente que, em geral, vive na superfície, pode descer a uma grande profundidade. Essa é a pergunta. Eu afirmo que ela precisa de uma reserva de energia, de um impulso, e pergunto: como deve ser desenvolvida essa energia?

Pupul: Eu não conheço outra dimensão. É preciso uma reserva de energia que dê um impulso. Como a energia deve ser desenvolvida, ou está pergunta está errada?

K: Vamos esquecer a palavra "energia", por enquanto. Eu levo uma vida muito superficial, e vejo a beleza, intelectual ou verbal, de uma vida, de uma mente que tenha penetrado em si mesma de um modo realmente profundo. Agora, eu digo a mim mesmo que eu percebo a beleza disso, que eu vejo a qualidade disso, e pergunto: Como isso pode ser conseguido? Falemos a respeito, em vez de falar sobre a energia e tudo o mais. Como isso deve ser feito? O pensamento pode ser aprofundar? O pensamento pode se tornar profundo?

Por favor, senhores, ouçam. Eu levo uma vida superficial. Quero levar outro tipo de vida, com profundidade. Eu entendo a profundidade, não com o sentido de avaliação ou de tempo para me aprofundar, mas entendo-a como algo incompreensível, como algo que não se pode entender, e quero entender e viver assim. Agora, digam-me o que devo fazer? Eu não sei. Estou perguntando se o pensamento, que é tempo, que é o passado, pode chegar a essa profundidade?

Apenas ouçam o que eu estou dizendo. Eu vejo muito claramente que qualquer profundidade mensurável ainda constitui um tipo de avaliação. Eu vejo esse aprofundamento como se ele dependesse do tempo; pode levar anos e, portanto, eu o vejo intelectualmente, raciocinando; vejo que a profundidade significa uma qualidade atemporal, incomensurável, um infinito cujo fundo não pode ser alcançado. Não se trata, para mim, de um conceito verbal. Eu apenas o coloquei em palavras para vocês. portanto, ele se transforma num conceito.

Maurice Frydman: O senhor está me perguntando ou eu estou fazendo a pergunta para mim mesmo?

K: Eu estou fazendo a pergunta para mim mesmo e, portanto, pedindo a vocês que façam a mesma coisa. Vejo que a minha vida é uma vida superficial. Isso é óbvio. Portanto, eu digo a mim mesmo: o pensamento pode chegar a essa profundidade, já que ele é o único instrumento que tenho?

Questionador: Nesse caso, nós não podemos usar esse instrumento.

Radha Burnier: Como alguém chega a essa profundidade sem usar esse instrumento?

K: Eu levo uma vida muito superficial, e quero descobrir por mim mesmo se há alguma profundidade que não seja mensurável, e constato que o pensamento não pode alcançá-la, porque o pensamento é um tipo de medida, o pensamento é tempo, o pensamento é a resposta do passado; portanto, o pensamento provavelmente não pode entendê-la. Então, o que isso causará? Se o pensamento não pode entendê-la e este é o único instrumento que o homem tem, então, o que ele deve fazer? O pensamento, na sua atividade, na sua função, criou este mundo superficial no qual vivo, do qual faço parte. Isso é óbvio. Ora, é possível para a mente, sem o uso do pensamento, compreender algo que seja incompreensível?

Krishnamurti em, Diálogos sobre a Visão Intuitiva
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill