“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A Realização da Vida Una Integrativa

Desejo mostrar que embora a individualidade, o ego, tenha que se dissolver e desaparecer, permaneceu uma continuidade dessa essência eterna que é Vida. Embora o corpo, sentimentos específicos, pensamentos limitados, devam consumir-se, podeis, contudo, realizar essa Vida que não tem divisão, nem distinção entre “teu” e “meu”, a qual é a completude. A individualidade é esforço. O esforço cria a eu-consciência. Tornai-vos acautelados pelo esforço, apercebidos de vós mesmos como executores do esforço. Pelo esforço, pela seleção, pela luta, sois autoconscientes e esse esforço, vos transmite a impressão de viver. A luta entre os opostos vos dá o sentimento de que estais despertos, vivos, cheios de energia e criais a ilusão da individualidade, da separatividade. Na individualidade incluo a personalidade, particularidade, ego, eu-consciência. Só há esforço enquanto houver separatividade. Dir-me-eis: “Se eliminardes o esforço, o que é que fica? Removei os opostos e onde fico? Tirais-me a eu-consciência e o que resta? Se o meu corpo, se as minhas emoções, se meus pensamentos desaparecem, o que restará?”

Tal pergunta, se me é permitido dizer, provém da ideia de que o que é transitório pode tornar-se eterno. Isto é, quereis que o vosso corpo, a vossa mente, os vossos pensamentos, sejam eternos.

Ora, digo que a compreensão do Eterno reside no transitório. O ego tem que desaparecer e, no processo da dissolução, a Verdade, a completude, é realizada. A realidade, a Verdade, se encontra através desse portal da eu-consciência; é livre de todas as qualidades, dos opostos, sendo ainda, apesar disso, a resultante da compreensão das qualidades e dos opostos. No vos libertardes dos opostos, há harmonia, e dessa harmonia provém um novo entendimento que é o começo do apercebimento, o qual não é eu-consciência. O apercebimento em si, nada tem personalidade; ao passo que a eu-consciência é o resumo da personalidade. Pela compreensão dos opostos e com o libertar-vos deles a realização da Vida vem ao Ser.

A Vida é a harmonia da mente e do coração. Pensamento, vontade, desejo, opinião, paixão, sensação, sentimento, gosto e desgosto, nada mais são que o começo da consciência. Quando há harmonia, a mente não está mais aprisionada na opinião, porque as opiniões pertencem à eu-consciência e toda eu-consciência é limitada. A ideia, a vontade e a imaginação pertencem à individualidade. Estou descrevendo a Verdade Ultérrima que só pode ser realizada por meio da vossa plena eu-consciência e pela libertação dessa eu-consciência. Não penseis que tendes livres a vontade, a ideia, a imaginação, enquanto estiverdes nos grilhões da eu-consciência.

A mente, ainda que circunscrita à personalidade, deve continuamente procurar tornar-se livre de esforço, libertando-se da limitação. A Vida é inteligência, isto é, o resumo de tudo que é essencial. É a mente que corrompe o amor, e é pelo tornar a mente perfeita — por meio da inteligência —, que libertais o amor. Pois que o amor não tem distinção entre “tu” e “eu”, é completo em si mesmo e não depende para sua expressão, para seu crescimento, para sua felicidade, de outrem. É simultaneamente seu próprio sujeito e objeto. Está livre de repulsão e atração. Esse amor só pode ser realizado não pela supressão da emoção, mas somente pelo entendimento. Pela intensidade desse contínuo entendimento, a personalidade desaparece. Só pela intensidade podeis perder as vossas limitações, não pela supressão. Quanto mais fortes as vossas emoções, tanto mais rapidamente desaparece todo o sentimento de egoísmo e de eu-consciência, cedendo lugar ao amor. Esse amor não tem sensação nem emotividade; a sensação é a atração e a repulsão, a emotividade é o estímulo vindo do exterior. Esse amor é completo, é a sua própria eternidade. Quando a mente é consumida pelo coração, há harmonia; somente então vem a plena realização da Vida. Essa Vida é felicidade; não felicidade como coisa oposta à tristeza, não a felicidade da emoção da sua altitude, mas a felicidade da completude que não se distingue entre “tu” e “eu”, que se mantém por si própria, que está além do tempo, do nascimento e da morte. É essa a imperturbável tranquilidade interna que está sempre se renovando a si própria. Essa Vida é ação pura, livre de toda eu-consciência.

Por meio da plena eu-consciência que é o verdadeiro desprendimento, no êxtase da solidão, o homem realiza a Realidade Ultérrima. Ainda que dela alcance um vislumbre só pode ser permanente quando existir a inteira libertação de toda eu-consciência, a total dissolução da individualidade que é a plenitude da Vida.

O esforço é a eu-consciência e, enquanto há esforço, a ação é limitada. Existe ação que não despertou para a eu-consciência, que nasce do não-essencial, da ignorância; e existe ação sugerida por uma mistura do essencial e do não essencial, do entendimento da ignorância. Esta última prende; é o começo da eu-consciência. A seguir vem a ação pura, o essencial, liberto de toda eu-consciência, de toda ignorância. Tal ação é entendimento da própria Vida e por isso não tem qualidade que a aprisione, é isenta de karma.

Considerai a ação nascida da ignorância. Não tem conhecimento dos opostos e refere-se somente ao não essencial. O homem apanhado por essa ação, sofre dentro do círculo do cativeiro sem saber o meio de libertar-se. Isto é, rodeia-se com o não-essencial, e posto que sofre nesse círculo de ignorância e de coisas não essenciais, não alimenta desejo pela liberdade.

Tomai como exemplo o homem que acumula riquezas. Durante o processo de acumulo ele sofre, é cruel, busca o gozo do que não é essencial. Continuamente armazenando riquezas, a elas se apega sem aprender qual o verdadeiro valor do dinheiro, o que é o desprendimento dele. Ainda que ativo no acumulo de riqueza, esta ação nada mais faz do que encaminhá-lo para a ignorância. Não aprendeu a distinguir o essencial do não essencial. Portanto, sua ação o escraviza à ignorância.

Um outro exemplo, é a adoração. O culto, quando se dirige a um outro ser, nada mais é do que a ação conducente ao não essencial, à ignorância. Ao ter em vista a outrem, — e é isto o culto, — confiais em outrem. O olhar para o outrem em busca de salvação e de esperança nada mais faz do que encaminhar para a ignorância, pois que o indivíduo vai em busca do não essencial, vivendo ainda sem discernir a ação.

Novamente, o sentimento de posse, não com vistas a dinheiro, porém o desejo de possuir a outrem. Por esse desejo, sofreis, sois zelosos, cruéis e insensatos; e, se não compreenderdes o amor, o qual é desapego sem indiferença, somente ireis em direção da ação que conduz à ignorância e estareis, ainda, prisioneiros do não essencial.

A maioria das pessoas acham-se colhidas nesta tristeza sem lhe compreender a causa. Rodeiam-se do não essencial, criam um muro de irrealidades que os limita e sofrem encerrados neste cubículo. Posto que imersos em grande tristeza não estão se libertando e ficam sempre colhidos pela escravização interior sem o êxtase da libertação. A ação, porém, não é em si mesma, integrativa, pois que nasce da ignorância inconsciente. A ação integra somente quando existem de mistura a ignorância e a compreensão, a confusão do essencial e do não essencial. É este o despertar da eu-consciência, quando há discernimento entre o que é essencial e o que não é essencial, quando há esforço, quando há seleção. O despertar da eu-consciência é a compreensão da diferença existente entre o essencial e o não essencial, entre os verdadeiros e os falsos valores. A ação torna-se então cativeiro, porém, somente por meio desta ação é que vos podereis libertar. Isto não é tão difícil quanto parece. Tão depressa começais a tentar descobrir os verdadeiros valores, dá-se o esforço da seleção, que causa sofrimento. Quando o desejo está escravizado pelo temor e pelo conforto, o esforço de discernir cria a ilusão. E por meio deste esforço vos aproximais da plena eu-consciência.

A maioria das pessoas acha-se presa entre estes dois elementos — a ação que conduz à ignorância e a ação na qual existe a confusão entre o essencial e o não essencial. A ação proveniente da ignorância é aquela na qual não há discernimento de qualquer espécie que seja, na qual há tristeza, porém não o entendimento da causa respectiva. Há depois a ação que inclui tanto o essencial como o não essencial. Por outras palavras: enquanto não possuirdes entendimento real de vossa ação, não haverá dissipação da ignorância. Tornando-vos apercebidos da diferença existente entre o essencial e o não essencial chegareis a conhecer a eu-consciência. Enquanto houver esforço e seleção, haverá tristeza; e é preciso que haja tristeza enquanto o homem estiver empenhado na escolha entre o essencial e o não essencial. Contemplai a vós próprios. Se possuirdes desejos secretos que não tenhais compreendido e se vossa ação nascer desses desejos, então haveis de verificar que, em lugar de vos libertardes da ação, ela vos ligará cada vez mais às garras da tristeza. Tornando-vos, porém, agudamente conscientes, isto é, examinando-vos, tornando-vos recolhidos, apercebidos interiormente, e considerados, começareis a selecionar, a discernir o essencial do não essencial. É essa escolha a descoberta continua da Verdade. No verdadeiro discernimento está a liberdade, a realização do Eterno, o êxtase que a si mesmo se renova. A felicidade consiste no indivíduo se basear no que é essencial.

A Verdade é sua própria eternidade; nela não há divisão; nela não há opostos, posto que seja ela a resultante de todos os opostos. Essa completude que sobrepuja o tempo manifesta-se a todo momento e em tudo. Tal Realidade, somente pode ser percebida por meio da individualidade, ainda mesmo que a individualidade tenha que se dissolver.

Toda ação deve conduzir a esta Realidade Ultérrima, pois que sem a completude que lhe é inerente, haverá tristeza. A ação nascida da eu-consciência é uma limitação, cativa, e, portanto, não conduz à Felicidade; representa apenas um esforço incessante. Sereis em tais casos, semelhantes a um esquilo que volteia incessantemente dentro da gaiola. Antes que vos seja dado compreender esta pura ação, que é a própria Vida, toda a ação tem que se libertar da eu-consciência. O aperceber-se desta pura ação que é espontânea demanda a pesquisa de todas as vossas ações para saber se se acham no cativeiro da ignorância ou se estão colhidas entre o essencial e o não essencial.


Krishnamurti, Ommen, reunião de verão, 1931
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)