“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Anormal é o homem que tem muitas extravagâncias

Pergunta: Podemos ver nas mais fundamentais emoções humanas, fome, sede, sexo, amor, algo que nos sentimos envergonhados; ou antes reconhece-las como expressões da vida e ao mesmo tempo procurar extrair-lhes todo egoísmo?

Krishnamurti: Não podeis beneficiar, limpar, o que é a verdadeira expressão da Vida. Só podeis limpar o que é a expressão do egoísmo. A verdadeira expressão da Vida é livre, não limitada pela eu-consciência. Por conseguinte, ela é, e nada existe ali para ser purificado. É parte da candura essencial que é a Vida. É completa; não conhece separação, não brota da tristeza, da dor, do medo dos opostos. O Amor, que é a sua própria eternidade, é Vida. Na plenitude, o amor a ninguém conhece, nem meu, nem teu, nem divisão, nem atração ou repulsão. O mesmo acontece com a inteligência, a pura percepção interna, que é o verdadeiro atributo da Vida, sua verdadeira expressão externa.

Enquanto o homem se apega à eu-consciência, há luta entre os opostos, prazer e desgosto, atração e repulsão. O homem que deseja libertar-se da eu-consciência, deve ser normal, não deve eliminar desejo algum pelo medo, mas deve conhecer o conflito, o amor, o sexo. Este entendimento o libertará da eu-consciência. No homem reside a todo o instante essa Vida em sua plenitude; mas, enquanto perdurar a eu-consciência com todas as suas qualidades, opostos, virtudes, medos, apegos, ele se acha cativo da ilusão. Ele se imagina incompleto e dessa imperfeição brota a opressão, a expressão de autoridade, o sentido de posse, de poder. Quando um homem realmente deseja ser livre, quando em verdade aspira alcançar essa plenitude, usa tudo isso como pedras-degrau: por meio dos conflitos, colhe o valor da experiência.

Pergunta: Não há o perigo de que os que vos rodeiam, sendo seres humanos normais com emoções normais, compreendendo que considerais o celibato mais próximo da Verdade do que o casamento, possam ocasionar os mesmos males que sempre sucederam à acusação religiosa das normais relações humanas? Não acusais, mas tacitamente condenais, de modo que os vossos irmãos se acham até envergonhados de vos dizer que estão apaixonados e querem se casar! Eles sentem que, aos vossos olhos, de algum modo “desmerecem a graça”; não porque as relações entre sexos sejam indignas, mas porque representam apego. O mesmo acontece com o ter filhos. Devemos aspirar uma vida normal como a vossa, não estando ainda preparados? Devemos considerar a vossa vida como o ideal a atingir? É o desprendimento completo de relações humanas uma sequência da verdadeira busca da Verdade? Caso contrário, deveríamos então viver anormalmente vidas normais, isto é, diferentemente da maioria? Significa isto um novo padrão? O desenvolvimento pleno do indivíduo, ou o maior bem do maior número pela subordinação do indivíduo tal como se dá no Comunismo, no Fascismo, ou no chamado patriotismo?

Krishnamurti: Pela minha resposta à pergunta precedente e de acordo com a minha palestra de outro dia, vereis que não acuso o casamento nem patrocino o celibato. Deveis ser normais; porém, a maioria das pessoas são anormais, doentias. São doentias porque têm medo; têm medo tanto de casar como de permanecer solteiras. A normalidade não é positivamente encontrada no casamento e nem no celibato. A maioria das pessoas do mundo, que não renunciaram à religião, agem pelo medo; e os que renunciaram à religião, não se preocupam, apenas desejam boa vida. Os que se apegam à idolatria, que procuram tornar-se no mundo àquilo que imaginam ser espiritual, pela repressão, amoldando-se ao padrão de outrem, são a meu ver doentios e anormais. Não importa que sejam ou não religiosos; quem quer que tente conseguir a Verdade pela imitação, pelo seguir a outrem ou pela idolatria, por meio de instituições, de cerimonias, é uma criatura doentia. E sendo doentios, deveis antes de tudo sanar-vos, e, só por meio dessa normalidade, podereis compreender a Verdade. Perguntareis: “Qual a vantagem de falar da Verdade a pessoas anormalmente doentias?” Dir-vos-ei: Se nelas tiver despertado o desejo de buscar a Verdade a todo o tempo, então, mesmo quando doentias, não mais se adaptarão às circunstâncias imediatas que os não levarão nem à saúde nem à ultérrima plenitude.

Para mim, nesse caso, é uma questão de pleno desenvolvimento do indivíduo ou de sua subordinação. Falo da verdade como plenitude no homem, que ele só pode alcançar pela libertação da eu-consciência. Falo da Verdade, e para consegui-la, precisais de ser normais, impávidos, livres do desejo de apoiar-se em outrem, de idolatrar, livres da cobiça, de poder, de crueldade, de malícia e de todos os opostos.

Isto não quer dizer que não devais casar, que não vos apaixoneis ou que não tenhais filhos. Tendes a ideia de que, se casardes, tereis desmerecido a graça. De quem? Não a minha, por certo! Nada tenho para vos oferecer, nem céu nem inferno, nem recompensa nem castigo. Não desmerecereis a minha graça porque não desejo seguidores, não quero discípulos, não aspiro à vossa adoração ou a qualquer outra coisa. Consegui a plenitude em mim próprio e por isto nada pretendo. Por favor, abstende-vos da ideia de seguir-me, de desmerecer a minha graça, imaginando que por mim ou por qualquer outro alcançareis a Verdade. Tendes que encontrar essa plenitude em vós mesmos, pelos vossos próprios esforços. Quando conhecerdes o verdadeiro valor das coisas, não mais estareis nas garras do conflito e adotareis um padrão de acordo com o vosso entendimento da plenitude.

A consecução se faz pelo entendimento das experiências da vida e não pelo evita-las. O modo como vos conduzis, se tendes medo ou se vos apoiais em algo, se tendes ânsia de idolatria ou de autoridade, isso é da máxima importância. É na vida humana normal que encontrareis a Verdade, a Felicidade, a plenitude e não na anormalidade.

Assim, anormal é o homem que tem muitas extravagâncias. A meu ver, anormal é o indivíduo que teme, que se esquivou da existência, que se retirou da vida, que se recolhe em um mosteiro ou igreja, que adora ou se senta à beira de um rio entregando-se à abstração, ou ainda o homem que a outro considera completamente, que é cruel e continuamente se entrega aos inúmeros anseios de poder, pompa, riqueza, sensualidade e cobiça. Estes são os tipos que chamo anormais.

Desde o começo que mantenho diante de mim a ideia de plenitude, de Verdade, e a desejei intensa e continuadamente. Não a plenitude em oposição à humanidade, mas a plenitude pelo entendimento da humanidade, que é eu mesmo; pela compreensão de meus próprios conflitos, de meus próprios desejos, paixões, vaidades, supressões, temores, apegos, sensações. Quando percebi tudo isso em mim mesmo, libertei a minha eu-consciência, minha energia concentrou-se em profunda contemplação. Essa consumação é a Verdade ultérrima e todos chegarão a alcançar isto. Mas, não o alcançareis se vos não for possível caminhar sós, se receardes, se tiverdes apegos. Para ir longe, tendes que começar perto. Porque sois cobiçosos, gerais a concorrência no mundo, ajudando a contribuir para o caos; porque sois apaixonados, há crueldade no mundo; porque tendes ódio e aversão, há guerras; porque vos apegais a posses, há nacionalismo, o obstáculo das fronteiras. Com tudo isso, com as vossas verdades, desejos, ambições, quereis compreender qual a flor, a consumação de toda a vida e esforço. Buscai, primeiro, ser criaturas normais, com alegrias normais. Pesai o vosso próprio sofrimento e as vossas alegrias. Compreendei que tendes medo e por conseguinte, que andai em busca de conforto. Quando isto tiverdes compreendido, poreis de lado o desejo de consolo, concentrando-vos na libertação do medo, em vez de o ocultar profundamente em vós mesmos. De momento, o concentrais em achar consolo em vossos deuses, em vossas idolatrias, em vossas fugas. Deveis ficar inteiramente sós; não por meio de qualquer gesto trágico, não porque exista qualquer coisa que deva ser evitada. Procurai ver se ostentais vaidade, atraindo as pessoas com o vosso corpo, com as vossas ideias. Observai-vos. Desenvolveis em vós próprios um espelho que possa refletir fielmente o que sois no momento e assim vos tornareis acuradamente cônscios. Tal o começo da normalidade e de se tornar sadiamente normal. Não tendes precisão de saber, por meio de outrem, como vos tornar normais. Se o desejais, consegui-lo-eis; não observando o passado ou o futuro, mas pelo esforço normal, pelo conflito normal, pelo ajuste diário. Necessitais de desejo, não de força. Não combatais os opostos só para vos tornardes escravos de um deles.

Krishnamurti, palestra em Ommen, verão de 1931
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill