“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Libertai-vos da gaiola da eu-consciência


Quisera dizer que estou fazendo experiências, por meio de palavras, esforçando-me por encontrar frases adequadas, mediante as quais possa expressar aquilo que não pode ser expresso, pois que precisa ser vivido. Se jamais vos houverdes deleitando pelo perfume do jasmim, este perfume, para vós será indescritível. Do mesmo modo, jamais minhas palavras transmitirão o pleno significado daquilo que desejo explicar.

Existe uma vida eterna, da qual vós, em momentos raros, haveis obtido um vislumbre. Cada qual deseja tornar permanente esse lampejo. Ora, a realização da verdade só pode ser permanente quando a mente perder as suas diferenciações. Os indivíduos alimentam a ilusão de que podem identificar-se com esta realidade eterna. Não há identificação. Se houvesse tal identificação, levaríeis vossa personalidade para o eterno, o que não é possível. Isto é, uma consciência limitada, que implica sempre um centro, uma dualidade, não pode tornar-se uma com o eterno. A realidade infinita, que não teve começo nem terá fim, que se acha liberta de todo o tempo, mora com o homem a todos os instantes. Ele pode realizar esta realidade, dando a isso sua mente e seu coração. Por haver eu encontrado esta vida eterna, quisera explicar como haveis de dissipar em vós próprios o centro da eu-consciência. A eu-consciência vela a realidade. No dissolver, no libertar a si mesmo desse centro de todo o egoísmo, está o êxtase dessa vida na qual não existe divisão. Isso somente pode ser realizado por meio de um grande esforço por parte do indivíduo. A maioria das pessoas deseja chegar a essa condição da mente isenta de esforço, que é a própria vida, sem fazer esforço algum. Libertar o pensamento da pessoalidade é o verdadeiro esforço. O esforço correto é essencial para libertar a mente de falsas ideias, de falsas crenças, de concepções erradas quanto àquilo que se supõem ser a realidade última. Vós é que tendes de fazer este esforço supremo para vos tornardes apercebidos. Vós é que tendes que vos tornar plenamente acautelados quanto às vossas ações, aos vossos pensamentos e sentimentos, e somente podeis operar isto vos tornando cônscios de vossas ações no presente, e não olhando para o passado. É assim que vos libertais da eu-consciência que é o passado. A mente só pode renovar a si própria quando está plenamente desapegada do conteúdo de ontem. Vós não podeis olhar para o passado para vos tornardes conscientes no presente, e só uma mente liberta do tempo, é que pode compreender a beatitude da Verdade.  

O esforço no presente cria cada vez mais confusão. Quanto mais esforços fazeis mais vos amarrais, mais a vossa mente fica sobrecarregada, nublada, entenebrecida. É colhida pelo seu próprio esforço, pela sua própria luta. Verdadeiro esforço é tornar-se consciente no presente, o que representa libertar a ação de todo o egoísmo. Este esforço consciente no presente, exclui o tempo, não acrescenta o fundo psicológico, o centro da eu-consciência. Portanto, o verdadeiro esforço, é essencial.

A eu-consciência é o centro do egoísmo, é formada de qualidades, atributos e de seus opostos. Em vosso esforço, tentais fugir de uma qualidade para outra e não vos esforçar por vos libertar de todas as qualidades, ficando, por esse modo, isentos de esforço. Vossa mente está sobrecarregada pelo medo e por isso vos esforçais por ser corajosos. A bravura encerra a qualidade do medo. Toda qualidade encerra o seu oposto. Se tendes medo, não busqueis o oposto do medo; buscai a causa do medo, que é divisão, a individualidade, a eu-consciência. Assim vos libertareis desta luta contínua, que se chama progresso. O esforço existirá sempre, a não ser que a própria semente do esforço esteja extirpada. A semente do esforço é a limitação causada pelo fundo, pelo centro do egoísmo que é a eu-consciência. Para dissolver a causa da tristeza, que é a eu-consciência, não podeis dar abrigo a motivos e incentivos. Para compreender a ação, a mente deve estar liberta de motivos, de crenças, de ideias. O entendimento reside na ação livre de crenças.

O homem vive pela ação, seja ela pensamento ou trabalho. Para mim, ambas as coisas são ação. Quando alcançardes o êxtase do pensamento, não haverá mais incentivo nem motivo. Quando estiverdes imersos nas profundezas de um grande sentimento, todas as crenças, todas as ideias e limitações estarão apagadas. O homem trabalha ativamente por causa da eu-consciência. Espera que, por meio de um incentivo, por meio de uma atração, se libertará de seu egoísmo. Eu digo, pelo contrário, que não podeis vos libertar desse fundo, desse centro de eu-consciência por meio de incentivos e crenças.

O incentivo embaraça a espontaneidade da ação. Nele não há alegria. Apenas vos modelais na conformidade de uma crença e todas as crenças são mortas. Para agir com plenitude precisais dissolver até esse mesmo centro que cria as crenças. Assim, sereis capazes de viver vida mais rica em lugar de estardes à espera de algo para vos guiar, para vos orientar. Esta plenitude de vida desafia as complicações da crença. Para compreender a experiência, para encontrara valores retos, não podeis ter crenças nem motivos.

Eu acentuo bem o que se refere à mente, porque para mim, o amor é a sua própria eternidade. É a mente que corrompe o amor. Não falarei a respeito do amor que é eterno. Ele desafia toda a descrição, não necessita de purificação, nem glorificação, está sempre livre do “eu” e do “tu”. Este amor se perverte pela mente com as pessoalidades, distinções e divisões que lhe são peculiares. O amor é eterno, sempre constante, porém, somente é possível realiza-lo quando houverdes libertado a mente da eu-consciência, que é o centro da individualidade.

Pensamento e sentimento estão em guerra contínua, combatendo e lutando para dominar um ao outro. Por isso abandonais a mente e tentais sobrepuja-la com o amor. Mas por esta maneira desviais a mente de sua finalidade. Quando a mente estiver completa — quando estiver liberta de sua própria criação, a eu-consciência — somente então existirá perfeita harmonia da mente e do coração. A mente deve perder, por meio da ação, por meio da plena eu-consciência, suas pessoalidades próprias. A mente deve perder sua objetividade sem ser mera pesquisadora do futuro. Se estiverdes, por pouco que seja, apercebidos de vós mesmos, sabereis que vossa mente está continuamente buscando; cria o objeto. Isto quer dizer que a mente cria a dualidade, o “tu” e o “não-tu”, os opostos. Enquanto a mente estiver colhida em sua própria eu-consciência, haverá sempre um sujeito e um objeto. A mente tem que perder o sentimento de seu próprio centro. Sereis mero observador enquanto o centro da eu-consciência existir, enquanto vossa em mente existir pensamento egoísta, dualidade; e este fundo, este centro só pode ser dissolvido por meio da plena eu-consciência. Uma mente imperfeita, por consumada que esteja em grande amor, permanecerá sempre imperfeita e esta imperfeição é causa de incessante conflito. Só quando a mente houver dissolvido seu próprio centro por meio da ação, haverá harmonia. Haverá, então, o êxtase que sempre se renovará a si mesmo, que zomba do tempo.

A vontade existirá enquanto houver seleção, a qual é esforço; enquanto tiverdes de escolher entre o que é essencial e o que não é essencial, entre o falso e o verdadeiro, haverá vontade. Quando não mais houver seleção, quando a mente estiver livre da eu-consciência que cria distinções, então a vontade desaparecerá. Quando o desejo, que é vontade, por causa do egoísmo estiver colhido em cativeiro, então a ação só conseguirá fortificar a eu-consciência. Para vos libertardes da gaiola da eu-consciência, tendes que vos tornar plenamente conscientes dos falsos valores que vos rodeiam e, em virtude disso, romper com eles. Para descobrir os verdadeiros valores, deve a ação estar liberta de crenças, de incentivos, de ideais.

Se um ideal ou um incentivo, por nobre e magnífico que seja, vos libertar de uma gaiola particular de falsos valores, continuareis a ter em vós o poder de criar outra gaiola. A mente que não houver compreendido os valores corretos está sempre criando uma ilusão, uma gaiola ao seu redor. Somente por meio do correto esforço para vos tornardes plenamente eu-conscientes no presente, o que é perceber os verdadeiros valores, podereis dissipar o centro da individualidade.

Para agir verdadeiramente, espontaneamente, com intensidade de vida de que falo, não necessitais de uma crença que vos compila à ação reta. A ação nascida da crença não é espontânea e nela não há alegria. A imitação exclui a felicidade. Para compreender a vida, que é todo-integrativa, a ação necessita libertar-se da eu-consciência.


Krishnamuri, 14 de fevereiro de 1932, Oak Grove, Ojai 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill