“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A verdadeira simplicidade está no desapego


Pergunta: É claramente observável que vossas palavras rapidamente estão se tornando um ditado absoluto para a conduta diária. Vós próprios não desejais isto. Dizeis que não tendes seguidores, que não tendes discípulos; não será, porém, está insistência sobre o que Krishnamurti diz, o que Krishnamurti faz, o que Krishnamurti pensa, uma tendência a que tal se torne um dogma escravizante para nós? Não é bastante, ao que parece, meramente declarar que não tendes discípulos, desde que ao redor de vós, a mentalidade e o emocionalismo do discipulado se arrastam.
Como na verdade, havemos de nos libertar disso? Dar-se-á o caso que jamais, no futuro, venhais a ter discípulos inteligentes? Porque, então, haveis dito que mudaríeis a face do mundo com o auxílio apenas de um ou dois que vos compreendessem? Seria isto mero entusiasmo ou haveria nisso significação?

Krishnamurti: Se um homem, na verdade, estiver buscando a plenitude da Vida, jamais pode ter guia, não pode ter mestre, não pode se tornar discípulo de ninguém, nem seguir sistema algum. O que chamais unidade, nada mais é do que uniformidade, pondo a vós próprios no centro e toda a gente ao redor. Todo o discipulado e proselitismo tende a produzir isto, esta padronização da Verdade, que é um erro inconcebível; no entanto, é isto que vos esforçais por fazer. Tenho insistido repetidamente em dizer que não deveis aceitar o que eu digo. Não deveis seguir a Krishnamurti, porque Krishnamurti não existe. Podeis é certo compreender o significado do que vos estou dizendo e, se o quiserdes, traduzi-lo por vós mesmos na vida prática. Não digais, porém, “Krishnamurti diz isto, Krishnamurti diz aquilo”. Não vedes que assim estais estabelecendo um outro molde? Tendes vos liberto de outros moldes, tendes posto de lado outros instrutores e estais agora elegendo a Krishnamurti em outro guia, em outro salvador. Quisera que averiguásseis a vital importância disto, isto é, perceber que o seguir a outrem é completa negação daquilo que vos estais esforçando para realizar. Aceitar qualquer coisa inconsideradamente, ainda que seja eu que a diga uma centena de vezes, é a completa traição da Verdade.

Porque seguis, porque criais imagens para adorar? Porque não ousais fazer face à vossa solidão? Não ousais vos tornar inteligentes e por esse meio destruir a pobreza da vacuidade. Encontrareis, portanto, uma centena de desculpas para vos tornardes discípulo, para apaziguar o conflito, o único que vos proporciona entendimento. A Verdade está em vós próprios, está em todas as coisas e não somente em mim. Eu penetrei essa Realidade, conheço o êxtase dela, sei o que ela significa. Ela é ilimitável, não pode ser transmitida por meio de palavras, e eu quero que vós a realizeis, não me copiando, porém, atravessando as muitas camadas do eu-consciência, coisa que somente vós podereis fazer. Quando houverdes realizado isto, então não mais haverá “tu” nem “eu”, não mais haverá mestre nem discípulo; então o meditador é a meditação.

Se apanhardes qualquer revista, se ponderardes sobre as pessoas que vos rodeiam, haveis de verificar que o pensamento e a emoção estão padronizados. A civilização tem a tendência de vos modelar segundo um molde particular. Tendes que vos libertar completamente da vontade coletiva e esta é uma das coisas mais difíceis de se fazer. Enquanto não houverdes liberto a vós mesmos deste embaraço, não podereis realizar em vós mesmos aquilo que é eterno. Tendes que vos tornar uma luz para vós mesmos e então não haverá temor de fracasso, nem esperança de êxito. Não mais haverá coisa parecida com engano ou falência. Quando tiverdes um padrão, então haverá falência; se, porém, estiverdes vivendo com intensidade, não haverá falência e sim o contínuo ajustamento; portanto, não há autoridade, não há distinção, não há mestre, nem discípulo. O eterno é isento de distinções entre “tu” e “eu”.

Ora, vós estais justamente fazendo o oposto. Estais perpetuando as distinções nas quais se encontra o mestre, sempre alguns passos diante de vós e vós seguindo-o, indo atrás dele. A sabedoria não tem diferenciações; vós, porém, pensais que, para vos tornardes sábios, precisais de seguir a outrem que esteja mais avançado que vós. Podeis adquirir ciência de outrem, ou conhecimento, porém, isto não é sabedoria. Sabedoria é a percepção imediata que liberta a mente de toda a individualidade por meio da inteligência e da vigilância constante. Tornar-se discípulo, mais não é do que desejo; seguir um instrutor, nada mais é do que criar uma nova camada de ignorância.

Sei que muitos dentre vós são bastante instruídos e temo, digo-o, ser isto um embaraço. Haveis lido tanto, adestrado a tal ponto a vossa mente, que haveis perdido a vitalidade do pensar. Tendes meditado, amoldado a vossa mente tão completamente que perdestes de vista ao modelador que é o vosso próprio desejo. Para realizar aquilo que é verdadeiro tendes que vos libertar da carga da erudição; não quer isto dizer que não leiais, porém, deveis vos libertar do desejo de seguir a outrem ou de amoldar o que estou dizendo a uma concepção intelectual; a qual destrói a vossa compreensão da plenitude da Vida. Portanto, por favor, não façais de mim vosso destruidor. É isto que fareis toda vez que disserdes “Krishnamurti diz”. Eu quero que vivais, que conheçais o êxtase da Vida o qual não é estímulo, que não é uma auto-decepção, porém sim, essa alegria que surge por meio da penetração das camadas do eu-consciência.

“Não haverá possibilidade de terdes discípulos inteligentes no futuro?” Espero nunca vir a ter discípulos, sejam eles inteligentes ou estúpidos. Pois não vedes? Estou falando acerca de algo muito maior do que o se tornar meu discípulo, de algo que por vós próprios podeis realizar, afim de vos libertardes desta ideia destrutiva de um guia, um mestre um seguidor; algo que podeis viver e do qual não podeis duvidar, que é o vosso verdadeiro ser, no qual não existe distinção de “tu” e “eu”, de corpo, mente e emoções, onde o manifesto e o imanifesto são um.


“Porque, pois, haveis dito que mudaríeis a face do mundo com a ajuda ainda que não fosse senão de um ou dois que vos compreendessem?” Se os poucos dentre vós que me escutam realmente compreendessem; se rompêsseis com as vossas tradições, os vossos cativeiros, a vossa vontade coletiva e pessoal; se estivésseis vigilantes, apercebidos, plenamente responsáveis pelas vossas ações — não modificaríeis o ambiente que vos rodeia? A política, a economia, a sociologia, todos os múltiplos departamentos do esforço humano são semelhantes a ramos de uma árvore. Se olhardes para a raiz da árvore, se vigiardes para que estejam bem nutridas, então os ramos serão perfeitos. Isto, porém, só acontecerá se vós, os poucos que escutais, operardes uma modificação em vossa mente e coração. Isto significa que tendes que estar fortemente desapegados, sabiamente desprendidos tanto das coisas como das pessoas. A verdadeira simplicidade não se preocupa com que tenhais muito ou pouco. Acha-se completamente livre da ideia de posse. 

Krishnamurti, Acampamento de Ojai, 3 de julho de 1932
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)