“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

É difícil e doloroso conhecer-se como se é


Talvez exista na mente de algumas pessoas a convicção de haver eu estado tratando especialmente de metafisica e de filosofia. Não me preocupo com metafisica. Todos os problemas da vida virão a ser respondidos quando houverdes realizado a Verdade em sua completude dentro de vós mesmos. Não encareis o que digo do ponto de vista da filosofia ou da metafisica, porém, sim, antes do ponto de vista da conduta de todos os dias, a vida, a alegria e a aflição.

Todos vos preocupais com o entendimento da tristeza que vos empolga. Por meio da busca da compreensão, descobrireis um modo de vida que vos liberte desse conflito que cria em vós tristeza e ilusão. A causa fundamental da tristeza é a ação — a ação é pensamento e emoção — que brota da consciência do eu, do ego. Se as obras, pensamentos e sentimentos nascerem do egoísmo, do ego, então, por grandes, por generosas ou nobres que sejam, ligam sempre e, nessa limitação, nesse cativeiro, haverá tristeza. A ação torna-se cativeiro quando um indivíduo é propelido a ela pela cobiça, pelos desejos egoístas, pelo ódio, pelo desprazer, pela crueldade, pela inveja, pelas qualidades de toda a espécie. É essencial o compreender isto. Vosso incessante esforço para vos ajustardes entre os opostos é a causa do conflito, porém a libertação é a liberdade dos opostos.

A luta e a aflição vêm à existência quando o ego, pela emoção, pelo pensamento, cria a divisão dos opostos. A completude existe em todos, posto que esteja colida pela vossa eu-consciência, por vós mesmos criada. Na libertação da eu-consciência está a realização da completude. Enquanto a eu-consciência, isto é, o ego, existir, tem que haver esforço e por conseguinte, tristeza.

Quando estiverdes libertos dos opostos, dos extremos, a harmonia virá à existência. Isto é consumação da sabedoria; porém não podereis realizar isto se houver um único pensamento do “eu”, do “meu” e do “teu”, isto é, do ego que é separatividade. Na Realidade, na Verdade, na Vida, não há nem separação nem unidade.

A Verdade é completa; em todos os opostos cessa de existir. A completude não tem aspectos, nem divisões, nem opostos. É essa completude que eu denomino perfeição e que existe a todos os instantes em todas as coisas, em todo o ser humano; porém, em virtude de sua eu-consciência o homem cria divisões entre a Realidade e si próprio. O ego pertence ao tempo, está sempre buscando orientação, seja pelos opostos, adquirindo qualidade, criando separatividade, conflitos, esforços.

Haveis de perguntar: “Que acontecerá quando minha eu-consciência ficar liberta? O que é, então, que sente, o que é que, então é consciente?” Quando estiverdes livres da eu-consciência, isto é, quando tiverdes passado pela chama da eu-consciência, essa eu-consciência cederá lugar à realização da Verdade, na qual não mais existe perceptor e percebido, ator e ação, na qual não há dualidade. Entendereis isto quando estiverdes libertos da eu-consciência. Portanto, vosso imediato esforço deve orientar-se no sentido desta libertação.

Enquanto o homem estiver preso na eu-consciência, na ilusão da separação haverá transitoriedade, ele será escravo do tempo e, portanto, da tristeza. Por consequência, deveis vos tornar conscientes de vossa tristeza, isto é, apercebidos de sua causa; não a tristeza que provém da imaginação, porém a tristeza do conflito da ação na vida diária. Quando estiverdes plenamente conscientes dessa tristeza, estareis começando a vos libertar a vós próprios, estareis começando a ficar sãos e normais.

Pelo fato de serdes eu-conscientes, desejais os opostos. Se fordes ricos, temereis perder vosso dinheiro. Pensais encontrar na riqueza a vossa felicidade, o conforto, a consolação e por isso vos apegais aos bens terrenos. Se fordes pobres, quereis ser ricos, pois que a pobreza priva de muitas coisas — da educação, do conforto físico, dos prazeres e de tudo quanto a riqueza pode dar. Os opostos estão sempre em vossa mente e, portanto, ficais cada vez mais aprisionados na eu-consciência. Esta eu-consciência cria continuamente distinções, divisões de classe, de posição e de poder. Ficais presos pela ilusão e por essa ilusão buscais os opostos e, assim, criais ao redor de vós um mundo caótico. O ponto não é ser rico ou ser pobre, porém sim o estar completamente desprendido tanto da pobreza como da riqueza. O estar plenamente desprendido dos opostos produz a verdadeira harmonia: então não mais evitareis a pobreza nem tampouco evitareis ou solicitareis a riqueza.

Há sempre no homem a completude. Esta completude ultrapassa o tempo, a duração; dela nos aproximamos por uma direção seja ela qual for. Pelo fato de o homem estar preso na ilusão dos opostos, há o positivo e o negativo. Ele imagina que por não ser completo é que não pode realizar a completude a não ser por meio da experiência dos opostos. A paixão existirá enquanto o homem e a mulher estiverem presos na tristeza da incompletude. Tenho visto gente ao redor de mim aprisionados pela paixão, nos opostos. Eu desejei realizar a completude, isto é, quis libertar-me dos opostos, quis libertar minha eu-consciência. Verifiquei que em mim existiam tanto o positivo como o negativo; que, porém, enquanto dependesse de um oposto para minha felicidade, não poderia haver harmonia e a realização da completude. Porque se casam as pessoas? Buscam-se pelo matrimônio, vencer o isolamento, vencer a incompletude. Uma força externa os propele à completude, isto é, a libertarem-se da eu-consciência. Essa força os propele ao ajustamento, à harmonia.

Por favor, não penseis do que eu digo, que entendo ser o casamento caminho fácil, ou um caminho que em absoluto não conduz à completude. Não é preciso, porém, passar pela experiência do casamento para realizar a completude. Pode-se realiza-la sem esse incidente, mas tal, exige grande esforço e concentração, grande determinação e coragem. Não digo que seja isto coisa superior ao casamento, pois que a completude pode ser realizada em todas e quaisquer circunstâncias desde que no homem exista intensidade de desejo por essa completude, que é a libertação da eu-consciência. O essencial para a realização da Verdade não são as circunstâncias externas, os sistemas, os caminhos, os métodos, porém, sim, o intenso desejo o qual, por si mesmo, cria a verdadeira inteligência para a compreensão.

Tomais o gosto e o desgosto como exemplo. O ser humano é dominado pelos seus gostos e desgostos. Enquanto existir eu-consciência tem que haver estes opostos. Quando a eu-consciência se libertar, então há o amor que é livre de limitações, de peculiaridades, de particularidades. Isto não implica a vacuidade da indiferença, pois que o amor, sendo completo em si mesmo, não admite distinção de gosto e desgosto. Tomai também o poder. O homem, pelo fato de estar limitado pela eu-consciência, fica preso na ilusão do poder e da humildade. O homem, em sua fraqueza, busca a força e debate-se na ilusão desses opostos. Nem pela humildade e fraqueza, nem tampouco pelo poder realizará ele a completude.

Repito, analisai o medo e o conforto. O temor exige o conforto mental, emocional e físico, e exige a salvação por intermédio de outrem, isto é, o auxílio exterior.

Enquanto o homem estiver colhido pela rede da sua eu-consciência, será um joguete de opostos e, portanto, sofrerá. O sofrimento é devido à natureza transitória de todos os opostos, de sua incompletude, de sua incerteza. Enquanto existir essa distinção causada pelos opostos, existirá a escravidão do tempo e, portanto, a incompletude. Para realizardes esta completude que existe em tudo, tendes que possuir essa quietação interna, essa contemplação sem esforço, que a si própria está se renovando. Não é isto uma condição estagnante. A primeira coisa essencial para a compreensão desta Realidade é a de vos tornardes normais. A maioria dentre vós é composta de anormais, de insanos. O que eu chamo ser normal é conhecer a si próprio mediante a eu-consciência, é ser destemido, estar liberto de enganos, de anseios, de cobiças; o conhecer-se como se é, não como se pretende ser, não como se espera ser ou como já se foi no passado. Tendes que por completo vos libertar do passado e do futuro para vos tornardes normais.

Precisais ser normais, não vos é permitido ter qualquer particular idiossincrasia ou alimentar falsas esperanças. Para mim, tais esperanças constituem um embaraço pois que vos conduzem a evitar o presente. Para mim, o presente é o conjunto do tempo. É agora que projetais vossa sombra; é agora que sofreis; é portanto agora, que podeis vos libertar da tristeza. Por consequência, deveis vos tornar conscientes do presente, o que corresponde a vos tornardes normais e não incidir em indulgências no que respeita a certas esperanças no futuro, a sonhos agradáveis, filhos da imaginação. Isto, porém, exige grande determinação e o desejo de ser completo no presente.

Assim, o vos tornardes cônscios daquilo que sois no presente é o primeiro refúgio, a primeira pedra alicerce dessa permanência que é a realização da completude. O vos conhecerdes a vós próprios com todas as vossas fraquezas, com todas as vossas dificuldades, com todas as vossas paixões, com todas as cossas invejas, com todas as vossas crueldades, eis o primeiro passo. Tristeza haverá enquanto houver eu-consciência e somente na realização da completude reside a felicidade. Pelo fato de desejardes compreender essa completude, tornai-vos-eis normais e a vós próprios disciplinareis com a verdadeira disciplina.


Krishnamurti, verão de 1931      
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)