“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A Verdade só é realizável por meio de auto-recolhimento

Tenho vindo a falar durante estes últimos anos e, dado o fato de haver muitos desapontamentos, tanto em resultado do que tenho dito como relativamente à minha pessoa, pretendo, durante estes poucos dias, que se vão seguir, tornar perfeitamente claro o que tenho em mente vos transmitir.

A realização da Verdade, da Vida, somente pode ser atingida pela vossa própria força, isto é, pelo vosso constante apercebimento no remover as muitas ilusões, as muitas distorções que circundam a Realidade. Assim, a primeira coisa a ser compreendida é que esta Vida pode ser realizada por meio da vossa força, da vossa compreensão, de vossa própria capacidade reflexiva; que em vós mesmo reside a inteira eternidade da Vida. No ponto central de Vida que existe em cada um de nós, está contido todo o Universo. A sustentação dessa realização em sua plenitude, a todos os instantes, representa a compreensão da Verdade, da Vida. Esta realização pode ser experimentada nesta mesma vida e nesta realização se encontra o todo do tempo.

O tempo, como estendendo-se para o futuro, é uma ilusão; a Realidade está no presente, nesta mesma vida. O experimentar isto e vive-lo continuamente, é que é a imortalidade a ser alcançada, não de futuro, mas no presente. Este ponto central que o todo da Vida, o todo da manifestação, o todo, tanto do espírito como da matéria, sem divisão, este ponto central que é o universo inteiro, que está para além do tempo, existe em toda a coisa. Para isto perceberdes, tendes que vos firmar em vossa própria força, tendes que vos tornar conscientes de vosso próprio sofrimento, saber que isto só pode ser verificado por meio de vosso esforço individual. Esta experiência não é nem mística, nem sentimental, nem emocional, nem oculta. Realiza-se por meio da razão, que gradualmente se vai despojando de toda a personalidade, de todas as inclinações pessoais. Uma tal razão é que conduz a essa percepção interior de que falo.

Esta Verdade, pois, somente pode ser realizada por meio de vossa inteligência e não pela transigência entre aquilo que eu digo e aquilo em que acreditais. A maioria de vós que aqui vos achais, pertence a várias sociedades, a várias instituições. Para mim, a Vida não é realizável por intermédio de instituição alguma. Desejo tornar isto absolutamente claro, de modo a não haver transigências acerca de tal. De nada serve o desperdiçarmos o nosso tempo a discutir coisas que não têm valor. E no entanto, é isto o que temos feito todos estes anos. Portanto, quero tornar o que tenho em vista exprimir, mais uma vez o digo, perfeitamente claro. Não podeis formar transigência no dizer que eu apenas apresento um lado da Verdade. A Verdade, para mim, somente é realizável por meio de vosso auto-recolhimento, por vossa força, pela vossa capacidade de contínuo apercebimento-próprio; em virtude deste fato, não podeis encontra-la mediante qualquer religião instituída, por intermédio de sacerdotes, de cerimoniais, ou por meio de deuses pessoais, de cultos, de instituições, de sociedades. Nem tão pouco vos é dado encontra-la pelas sensações, ou pelo emocionalismo, nem tão pouco, com o concurso de outrem, nem mesmo por meu intermédio. Dado o fato de a Verdade estar dentro de vós próprios em toda a sua plenitude, em sua totalidade, não a podeis realizar por meio de salvações externas.

Ora, os indivíduos vêm aqui por muitas razões. Certos entendem que é um lugar muito bom para umas férias; outros por causa da amizade que me votam, e alguns outros por indagar a maneira pela qual há de estabelecer transigência entre aquilo que eu digo e aquilo em que acreditam. Talvez uns poucos aqui estejam com o intento de compreender aquilo que digo. A maioria, porém, ainda mantém seu velho fundo de ideias, portanto desejam transigir entre o que acreditam e o que eu digo. Querem correr em ambas as direções ao mesmo tempo. Porém essas direções são diametralmente opostas. Por favor, compreendei isto. Desta transigência resulta desperdício de energia, luta que não conduz à finalidade alguma, angústia e ansiedade; busca de coração sem purifica-lo e vigilância mental sem a placidez da sabedoria. Se realmente desejais aquilo que vos exponho, se realmente quereis compreender o que digo, deveis vir com absoluto desapego, vossa mente deve estar plácida, porém não débil, e não ter desejo algum de transigir, seja por que forma for.

Sei que tenho estado a repetir isto por estes últimos três ou quatro largos anos, e pouquíssima gente há que tenha reconhecido quão oposto é o que eu digo, às suas crenças, àquilo que lhes foi ensinado em relação à vida em geral e em relação à minha pessoa em particular. Por favor, atentai nisto. Não podeis reunir num conjunto duas coisas diametralmente opostas. Podeis transigir com coisas da mesma espécie, porém não com aquelas que nada têm em comum entre si. Deixai que tome um exemplo, e compreendereis. É um exemplo antigo, porém não vos importeis com isso, pois que ele se encontra no coração e na mente de todos e por todo o mundo, em graus diferentes. Têm-me sido frequentemente perguntado se acredito em um Mestre, em um Deus pessoal. Por detrás desta pergunta está o desejo de buscar a salvação de outrem, de em outrem conseguir força, conforto, entusiasmo, ver o alvo. Adaptais vossas ideias de culto a diferentes objetos de adoração. Alguns dentre nós adoram o Cristo; outros a um Mestre; alguns seguem ao Buda, outros a profetas e sacerdotes. Outros substituem um objeto de culto por um outro diverso e imaginam estar crescendo na direção da felicidade. Porém isso sempre fica sendo um culto, o ter em vista a outrem, isto é, uma cerimonia, seja ela em um templo, seja às margens de um rio.

O que digo é inteiramente oposto a tudo isso. Deixai que tome um outro exemplo. Sustentam muitas pessoas que pelo ampliar sua autoconsciência, como indivíduos chegarão a realizar, por fim, a Verdade. Eu digo mais uma vez que isto é diametralmente oposto ao que sustento. Não pretendo que acrediteis no que digo, porém, por favor, examinai o que ponho diante de vós sem desejos de transigir. Tendes o desejo de ampliar a vossa eu-consciência para alcançar maior poder, mais autoridade, mais qualidades. A Verdade não pode ser realizada por meio de cultos, por apegar-se à eu-consciência. Não podeis honestamente sustentar que vossos cultos, vossas cerimônias; vossas ideias sobre caminhos e aspectos de Verdade; vosso anseio pela continuidade de vossa eu-consciência através do tempo, vossas ideias sobre a salvação e a renúncia de orientadores, de discipulado e de autoridades, de realização por intermédio de uma instituição, igreja ou sociedade, sejam na essência ou em parte o mesmo que eu asseguro ser a Verdade. Se compreenderdes isto, então não pode haver desilusão relativamente ao que digo e ao que sou. Se, porém, conservardes todas essas coisas, que para mim são ilusões, como o fundo para as vossas ideias, se mantiverdes vossa antiga atitude mental, não podeis esperar que eu condescenda com os vossos sistemas, com a vossa padronização, com as vossas imagens.

Assim, pois, mais uma vez quero tornar absolutamente claro que o que eu digo é diametralmente oposto a essas crenças que estimulam, seja por que forma for, o culto a outrem, a ampliação da nossa consciência através do tempo, a identificação de nossa personalidade após a morte. Todas essas crenças são integralmente opostas àquilo que para mim é a Verdade, a qual existe, em sua integralidade, em todo o ser humano e há todos os instantes. Esforçar-se por transigir, nada mais é do que desperdício de tempo, de energia e cria inquietações e ansiedades sem propósito algum. Sei que é muito difícil o vos dissociardes do passado; leva tempo, necessitais de ter paciência. Porém, por muita paciência que tenhais, se houver o desejo de transigir, ela não vos conduzirá à realização da Verdade. Tendes que ter paciência, não para transigir, mas para eliminar, para vos tornar livres, desapegados de todas as coisas. Para isto deveis ter paciência, porém, não para transigir. Portanto, o que tendes que ter em vista é o vosso desejo. Isto não significa que devais aceitar o que digo. Pois que então mais não será que uma nova autoridade. O que pretendo é tornar essa visão, a visão transitória da Vida eterna que advém em momentos, vaga e distante, — permanente; para, contudo, torna-la permanente, tendes de possuir uma base reta.  É meu propósito durante estas palestras, auxiliar-vos a lançar essa base, por vós mesmos, tornar essa visão permanente, e não uma coisa aleatória. Nos vislumbres transitórios dessa eternidade, não há felicidade, não existe paz. Porém existe constância, existe imortalidade na vida, se lançardes os alicerces com pureza extrema, quanto ao modo de viver diariamente.

Eu só me preocupo com esta base. Para isto, tendes que possuir honestidade e essa retidão da mente que conduz à simplicidade de pensamento. Vindes aqui somente para isto. Mais não é que desperdício de tempo para todos nós o aqui virdes com qualquer outro objetivo. O homem que deseja conforto, mental, emocional ou físico, não pode busca a Verdade, não pode encontra-la. O culto, a continuidade da identificação de nosso ego através do tempo    tudo isso, para mim, é ilusão. Eu vou vos mostrar, se é que tal pode ser mostrado, que por outra maneira, por libertar-se de toda a ilusão, e não por adorarem a outrem, e não pelo prolongamento de nossa individualidade através do tempo, é que a Verdade se realiza. Se por isto vos interessardes, então poderemos palestrar juntos. Eu darei todo o meu tempo, toda a minha vida a isto: pois que somente isto é que me interessa e não qualquer outra coisa. Se, porém, julgardes que só estou apresentando um aspecto da Verdade, permiti que eu vos replique que a Verdade não pode ser realizada com o dividi-la em dois aspectos e apresenta-la de acordo com as necessidades do momento; ela é completa em si mesma e não pode admitir divisão. Portanto, como disse, deve haver a determinação, filha do entendimento claro e o entusiasmo da honestidade para buscar a Realidade.


Assim, portanto, tornei perfeitamente claro que o que geralmente o cristão, o teosofista, o hindu e o budista acreditam ser a Verdade nada tem em comum com aquilo que eu digo. Portanto, se quiserdes compreender o meu ponto de vista tendes de arrazoar, examinar, refletir, porém, não desperdiceis tempo e energia em transigir. Não podeis reunir o lenho morto e a árvore viva em uma só coisa. O que é necessário, portanto, é estar interessado. O interesse não pertence a idade alguma, não pertence ao jovem ou ao velho, nem pertence somente a uns poucos. A partir do momento que sintais interesse, desejo, entusiasmo para buscar, então ficareis a todo instante vigilantes, a todo o momento estareis inspecionando, examinando, e por essa forma vos tornareis cada vez mais conscientes de vossos atos diários. Relativamente a esta Vida eterna, sabendo o que ela é, tornar-vos-eis conscientes dela em vossas ações, esforçando-vos por harmonizar vossas ações com ela e não olhando para o passado, isto é, para a vossa subconsciência.

Krishnamurti, Reunião de Verão, julho de 1931
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)