“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

O homem vive empolgado com suas próprias ilusões


Um ato verdadeiro, na vida, nasce do pensamento refletido e equilibrado e da completa simplicidade da mente e do coração isentos de egoísmo. Se meramente tentardes obter o entendimento pelo repetir minhas frases, somente criareis em vós próprios a confusão. Minhas palavras se tornarão em pó se não compreenderdes o verdadeiro significado que elas tentam transmitir. Isto não pode ser aprendido em livros, nem tampouco a compreensão vos advirá da muita erudição. Não vos é possível compreender a vida por meio de um livro nem por meio de teorias, frases e crenças. Peço-vos que não interpreteis isto como significando que eu seja contra o estudo e a colheita de conhecimento. O verdadeiro entendimento da vida pode somente provir da ação, pois que a ação é conduta e é trabalho. O homem só pode realizar a Verdade, a imortalidade por meio de seu contínuo esforço e seleção e não pelas suas fantasias e peculiaridades.

Sustento eu que no próprio homem é que está a Realidade última e pelo seu próprio esforço, conduta e trabalho é que a Realidade última, a própria Vida, é realizada. Esta completude não existe fora dele e sim nele; e no buscar esta completude, eis como ele resolverá os inúmeros problemas sociais que o defrontam. Ele só compreenderá o significado do conflito e da tristeza, da dor e do prazer, por meio de seu próprio trabalho, de sua luta e de sua ilusão.

A Verdade, em si mesma, é completa em todos os instantes e, portanto, acha-se para além das divisões do tempo. Não pode ser realizada pela renúncia ou sacrifícios, pelo evitar os conflitos ou ainda, pelo postergar dos esforços no que diz respeito ao presente. O homem pode chegar a esta realização pela compreensão da luta e da tristeza, da alegria e da dor, sejam quais forem as circunstâncias que o rodeiam, o seu ambiente; pois através destas coisas, que representam o transitório, encontra-se o eterno, o último.  Pelo fato de dentro dele próprio estar a completude, a Verdade, não pode o homem realiza-la por intermédio de outrem, por grande, por magnífico, por glorioso que seja esse outrem. Enquanto ele próprio se conservar na esperança de compreender por intermédio de outrem, esse outrem lhe constituirá uma pedra de tropeço. Enquanto tiver a outrem como autoridade ou as palavras de outrem como uma crença, nem sequer para ele existirá a possibilidade de perceber a Verdade ou a Felicidade. Por esse modo, apenas estará se emaranhando a si mesmo na teia da confusão. A Verdade está livre de toda a particularidade, de toda a individualidade e, portanto, somente pode ser realizada em sua completude, pela liberdade da eu-consciência.

Não podeis chegar ao entendimento da Verdade por intermédio de nenhum sistema instituído pelo pensar nem por meio de nenhuma autoridade. A harmonia do pensamento e da ação exige um constante ajuste em direção à liberdade da inconsciência. Se buscardes vos ajustar a uma autoridade qualquer, a pensamentos sistematizados, somente estareis imitando a outrem e, por meio da imitação não vos é possível realizar a Verdade. O entendimento vem pelo esforço, no alcançar o pleno significado de uma experiência, a qual pertence sempre ao presente. As ideias sistematizadas de religião e as instituições espirituais retém o homem em suas estreitas gaiolas. O que é essencial para a realização é o vosso próprio esforço no sentido de ficardes livre de todas as gaiolas, gaiolas que exigem de vós imitação de um padrão antes do que a busca do entendimento por meio da experiência na tristeza, no prazer, na luta. Somente esse esforço pode criar em vós essa inteligência que é a capacidade de ajustar vossas ações à liberdade da eu-consciência. Só por meio da inteligência pode a mente ser tornada perfeita, isto é, liberta de toda a ilusão de individualidade, a qual é ignorância.
A realização da completude, que vem a ser a coroa da imortalidade, não está no futuro. O tempo é duração para o progresso. Vós desejais ver continuada a vossa existência particular e apegai-vos a essa ideia da individualidade; portanto, criais o tempo para o progresso, para a auto-expansão gloriosa. Para a mente liberta da individualidade, o tempo é uma ilusão. Por meio da ação, que é conduta e trabalho no presente, sem motivos criados pela eu-consciência, podeis dissipar a ilusão de tempo. Deveis libertar vossa inteligência de todo o sentimento de individualidade por meio da ação meramente, não pela meditação. A meditação nada mais é que a concentração da ação no pensamento, porém tem que dar-se a expressão desse pensamento em nossa vida.

Repito que a Realidade última está isenta de qualquer qualidades, as qualidades pertencem somente à individualidade, à eu-consciência. Enquanto andardes à cata da virtude, jamais entendereis aquilo que é infinito, pois que a virtude pertence ao infinito. Enquanto estiverdes colhidos na diferenciação e nas distinções dos opostos, continuareis no finito, na limitação da eu-consciência, da individualidade, de Maya. Se desejardes compreender essa Realidade última que é infinita, que pode ser realizada pelo homem, tendes que vos libertar até mesmo da ideia do atingimento, do crescimento em direção a qualquer coisa, de vos tornardes gloriosos, de vos tornardes perfeitos por meio do acúmulo de virtude. Na tentativa para compreender a Vida, não mais e pode estar escravizado pelos opostos. Por favor, compreendei — isto não quer dizer que vos deveis tornar licenciosos ou irresponsáveis; significa que no constante esforço para vos libertardes dos opostos, ireis libertando a vossa mente de toda a individualidade. Daí, vossa mente tornar-se-á esquisitamente plástica e só uma mente assim pode compreender a Verdade.

A maioria das pessoas aceitaram um padrão em face do qual pautam a sua conduta. Como disse, não podereis compreender a vida se estiverdes limitados por um padrão. Meu ponto de vista é o de que a Verdade pode ser realizada pelo homem seja qual for a situação na vida, desde que aplique seu pensamento e desejo a libertar-se de toda a particularidade do eu. Esta realização não constitui um privilégio especial daqueles que a si próprios tem como eleitos galardoados com oportunidades especiais.

Vós sois crentes ou descrente: crentes, pela imitação, pelo culto, pela autoridade de vós próprios através do tempo; ou então sois descrentes, baseando vossa conduta na descrença cientifica do aniquilamento após a morte, naquilo que se denomina materialismo. Neste caso, tanto o crente como o descrente, tanto o homem do espírito como o homem da matéria, estão ambos, sob meu ponto de vista, empolgados pelas suas próprias ilusões.

Podeis dizer que necessitais de uma vida reta, ou então que não necessitais de crença alguma. Porém, em qualquer dos casos, apegai-vos a vossa individualidade, a qual não vos pode proporcionar a compreensão de experiência alguma, nem o verdadeiro entendimento da vida. Tendes que vos libertar de todos os intuitos ou incentivos antes que a compreensão possa ser obtida, pois que eles criam e são criados pelo medo, pelo eu.

Repito, os homens criam divisões entre matéria e espírito; uns, buscam o espírito longe da matéria, outros dizem que somente a matéria existe. Há, desta maneira, o mundo do além e este mundo. Para mim, tal divisão é criação da eu-consciência, a qual deve a sua existência aos opostos. Matéria é espírito e espírito é matéria. Para a mente perfeita, isto é, liberta da eu-consciência, todas as coisas são reais; não existe maya, ilusão. O que cria ilusão, o que cria maya, é a limitação da mente na eu-consciência, a qual impede o pleno entendimento de toda a experiência. Portanto, para perceber esta Realidade última, não podeis ignorar a este mundo e busca-la num outro, ou ignorar o outro e busca-la neste, tendes que possuir um delicado equilíbrio na ação, o único que vos pode proporcionar a medida dos valores essenciais na vida, seja do homem, seja das coisas. Quando compreenderdes o valor essencial, não mais haverá renuncia nem sacrifício.

A busca de múltiplas experiências não proporciona, necessariamente, a justa compreensão dada por uma experiência única. Não vos é possível por meio do mero acumulo de incidentes e experiências, chegar à realização da Verdade. Este acumulo somente cria o hábito de pensar ou da conduta; porém, uma experiência única, proporcionar-vos-á a riqueza da compreensão, se vossa mente estiver desperta e livre de particularidades, de dogmas, de credos e de opostos, e se estiverdes buscando ardentemente libertar a vossa eu-consciência

O homem busca a felicidade por meio da posse de muitos bens. A felicidade não pode ser encontrada por meio do apego aos bens, ainda que o homem a si próprio tente iludir pelo transitório prazer oriundo do poder e do conforto que essas coisas trazem. Na busca da verdade, que é a felicidade que todos procuram, não podeis andar sobrecarregados pelo desejo dos bens sem ser joguete da sensação. O homem que busca o entendimento, poucas necessidades terá e a estas, mesmo, não ficará apegado. O minimum que exige, representa a solicitação do desejo, é a resultante do completo desprendimento. Para tal homem, esse minimum de necessidades nada mais é que um incidente natural da vida.

Alguns de vós hão de dizer que o que estou afirmando, não é mais que aniquilamento, nadidade. Quando a mente se torna perfeita pele inteligência, liberta da individualidade, uma mente tal não pode ser nadidade. Em mente assim não mais existe o perceptor e o percebido, o cativeiro dos opostos.

Portanto, senhores, com uma tal concepção da vida podereis verificar se é possível compreender todos os problemas da vida e se essa compreensão será a Realidade sem caminhos.      
        

Krishnamurti em Oak Grove, Ojai, 17 de janeiro de 1932
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)