“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A consciência vem à existência quando há limitação


O que vos apresento todas as manhãs, não é deduzido de leitura superficial; não proveio do raciocínio sobre séries de acontecimentos que culminam na absoluta, serena, suprema tranquilidade do ser. Para mim isto é uma realidade viva, que eu entendo por uma realidade capaz de ser traduzida na ação de todos os dias na conduta. Por estar vivendo esta realidade é que vo-lo apresento; e se vos encontrais ansiosos por examinar uma realidade assim, viva, não somente lhe devereis prestar o vosso entendimento, vossa mera concordância, inclinando as vossas cabeças, como devereis verificar por vós mesmos se tendes a capacidade de traduzir o que eu digo em ações. De outro modo, não terá valor e constitui um vão esforço vossa vinda a este acampamento.

Para colocar à prova esta realidade de que falo, deveis colocar em prática — por pouco que seja — aquilo que houverdes entendido, não por amor a autoridade (esta, banimo-la completamente da nossa visão), não por meio do raciocínio intelectual, porém por vós, pessoalmente, haverdes analisado, criticado e a critica vos haver conduzido à ação. Se meramente aceitardes aquilo que digo ou o que é dito por outrem, tal coisa não será por vós, uma realidade viva e jamais pode ser posta em prática; pois que sempre existe em vós um fundo de temor não investigado e, enquanto o não houverdes analisado e desarraigado, não podereis encontrar por vós mesmo essa realidade viva que possais levar à prática. Portanto, o que importa não é a formação de centros nem a vossa reunião aqui (não entendais mal isto, ainda vamos continuar a ter acampamentos) porém sim, o viverdes nesta realidade. O viver, então, torna-se o assunto de vital importância — não as teorias, não as discussões metafisicas ou as disputas filosóficas, mas sim a maneira pela qual vos conduzis, vosso modo de ser para com aqueles que vos rodeiam afim de não mais criardes uma gaiola de ilusão. Para viverdes desta maneira necessitais coragem impessoal e a faculdade de examinar claramente, impessoalmente, aquilo que vos digo — não do vosso ponto de vista individual, porém do ponto de vista do todo. Isto exige determinação, exige constante vigilância, constante reflexão e ajustamento.

Nas vidas da maioria das pessoas há um contínuo tatear, uma certeza torturante, um aborrecimento contínuo para consigo mesmo, pois que na mente e no coração de cada um existe a tristeza do desespero, a tristeza da espera da morte, a tristeza da solidão, a tristeza que brota da falta do bem estar, da pobreza, dessa existência mecânica esmagadora, em que não existe o êxtase do viver, em que não existe o deleite da existência impessoal, nem o afeto, nem a alegria de ser. Ora, todos se estão esforçando por encontrar a causa dessa tristeza e o meio de atingir essa razão, esse amor que, em sua essência, são equilíbrio e harmonia. A tristeza existe por haver falta de harmonia em vós mesmos, desarmonia entre o que se pensa e o que se faz, entre o que se sente e a forma pela qual se age. Num homem verdadeiramente culto, não existe falha entre pensamentos, emoções e ações. Esta é a verdadeira prova segundo a qual se pode julgar um homem culto. Assim, a tristeza existe por causa das limitações. Quando não mais houver limitações, quando existir esse amor no qual há o completo desapego — não o amor pessoal nem a indiferença — esse amor que não conhece reações de prazer e desprazer, de separação, de distinção, no qual não mais existe o “tu” e o “eu”, a consciência de sujeito e objeto — quando houver perfeito equilíbrio, haverá libertação. Um homem liberto é verdadeiramente feliz porque a felicidade é o ser desimpedido, a vida não mais embaraçada, expressando-se sem resistência.

Assim, essa qualidade da libertação, — se assim me é dado denomina-la sem que lhe atribuais qualidades — é pura consciência, a libertação de toda a consciência e não a expansão da consciência. Vou explicar isto, porque senão, chegareis logo a conclusões acerca destas palavras, conclusões com que vos encontrais já familiarizados, que possuem um significado muito definido em vossas mentes. Estou servindo-me das palavras vulgares, porém dou-lhes uma interpretação completamente nova.
Consciência implica autoconsciência. Libertar-se da consciência não é aniquilamento, é puro ser, é esse extraordinário equilíbrio que se produz quando conheceis o verdadeiro valor das coisas; é iluminação. Então, não mais sereis perturbados por falsos juízos. O verdadeiro julgamento depende da experiência. A experiência deveria libertar e tem de libertar o homem de toda a consciência, pois que a consciência somente existe quando vos achais tolhidos. A limitação ocasiona a consciência. Isto é, vós vos apercebeis de algo que vos embaraça e por esse fato a consciência vem à existência. Portanto, a consciência surge dessa limitação que é também a causa de vossa tristezas e prazeres, de vossas satisfações e desgostos, de vossa cobiça, inveja, desejo de possuir, crueldade e medo. Quando isto reconheceis manifesta-se a consciência desperta da limitação. Quando removeis toda a limitação, estais livres da consciência. Isto não é condição de sono perpétuo; nem tampouco é condição de aniquilamento total. É liberdade de consciência, a qual, para mim, é o ser não tolhido, vida, pura ação. A totalidade de vida funciona sem limitações.

Como ego — o ego não é mais do que as vossas reações não vencidas — estais a todo o momento conscientes de limitações e, por isso sois conscientes. Desta limitação surge desejo de lutar e vencer. Por meio de vossa luta contra a limitação, despertais a autoconsciência. Ora, como vos disse anteriormente, os desígnios da Natureza preenchem-se quando ela se realiza a si mesma no indivíduo autoconsciente.

Porém, este homem autoconsciente é ainda sub-humano enquanto se encontrar nas garras da cobiça, da posse de bens, do desejo de arregimentar-se quando temer a solidão, enquanto tiver medo da morte. Seu preenchimento reside em libertar-se da consciência e não é este um estado de sono ou de aniquilamento, porém essa vida não tolhida na ação que é puro ser, sem nenhuns atributos especiais. Ela é a causa de si mesma, auto-existente e, portanto, funciona livremente e sem impedimento. O homem liberto não se encontra consciente de viver separadamente; isto é, ele, como indivíduo, cessa de projetar uma sombra. Ele é. Ele não mais se acha limitado, e, portanto, existe nele sempre a reta ação, a conduta reta, a reta percepção de todas as coisas, a diferenciação do especial e do particular. Ele é semelhante a um farol que está brilhando, que proporciona sua luz clara a todo o objeto que lhe é posto diante.

Quando vós, como indivíduos, houverdes preenchido a finalidade da existência individual nesta liberdade de consciência, e plenamente estiverdes conscientes de toda a vida, então em vós a vida operará livremente. Assim, pois, para o homem liberto não existe coisa que se pareça com consciência, pois, como o disse anteriormente, a consciência implica autoconsciência. Um tal homem será puro ser. Se vos apraz, chamai-lhe pura consciência de todas as coisas, distinguindo-a da consciência que é noção de limitação. A pura consciência não tem empecilhos. Atua sem limitações.

Para haver esta totalidade de vida é preciso que exista o puro ser, é preciso que haja a pura ação. Para traduzir esta pura ação em reta conduta — o que significa ser homem completo e não semi-homem — precisais possuir desapego no que se refere à opinião pública. Explicarei o que entendo por opinião pública. A opinião pública existe, não para que vós a copieis, porém sim, como algo por onde ajuizar de vossas próprias opiniões. Então, tereis transcendido a opinião pública, ultrapassando-a, e dela não sereis escravos. A maioria das pessoas que se libertam da opinião pública tornam-se excêntricas, dão grande valor a coisas que não têm importância alguma, — ora, isto não e desapego real. Quando um homem se acha liberto da opinião pública, geralmente, comporta-se de maneira diferente — com rudeza — veste-se por maneira excêntrica, cede sem freio algum a seus pendores, adora estranhos deuses, cultua estranhas ideias. A isto eu não chamo estar liberto da opinião pública. Isto é apenas uma outra maneira de iludir-se com a ideia de estar livre. Liberdade no que se refere à opinião pública, não se demonstra pelo garbo do porte, pelo trato rude, pelo fato de se tornar irresponsável, inconsiderado, auto-indulgente, porém, antes, pela conduta autoimposta, auto-realizada. Isto é, uma lei mais estrita de conduta, que é autodisciplina.

Depois, é preciso que haja desapego de bens. Podeis permitir que as coisas vos possuam ou podeis possuí-las, porém é exigência essencial para atingir o puro ser, a indiferença para com os bens. Tendes que colocar à prova este desapego e verificar que não estejais meramente auto-iludidos.

Deveis, ainda, estar liberto das opiniões. Quanto mais fortes forem vossas opiniões, mais iludidos podereis estar. Deveis, porém, possuir a capacidade de julgar impessoalmente, de analisar com clareza, desapegadamente, e então, as opiniões, não mais terão força sobre vós. O vosso princípio norteador deveria ser a própria finalidade e não os meios para a ela chegardes. E então, fareis dessa finalidade que é a meta da existência individual, o meio, e com a consciência contínua desse propósito encontrareis a maneira de realizá-lo.

Assim, a liberdade da consciência, no sentido que estou usando o termo, não é o estado de sono ou de aniquilamento. Para mim, na realidade, não existe coisa que se assemelhe à consciência, pois que a consciência vem à existência quando há empecilho, limitação. Não se trata, pois, da expansão da consciência individual, porém, sem, trata-se de libertar-se de toda a consciência-autoconsciente-limitada, liberdade essa à qual se chega por meio do contínuo esforço. É este ser sem empecilhos, sem embaraços, que é a própria vida, que é a realização da totalidade de todas as coisas, em que não existe tempo. É um mundo desprovido de tempo, um mundo sem caminhos, uma realidade por si mesma, à qual não podeis chegar por um caminho qualquer que seja, pois que todas as coisas estão contidas nessa realidade.                  
         

Krishnamurti em Acampamento da estrela de Ommen, 1 de agosto de 1930
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill