“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Não se encontra liberdade na troca de gaiola


A vida é um processo de desenvolvimento por meio da seleção; e é assim, quer se seja jovem ou velho. Tanto a juventude como a velhice têm suas ilusões. Os velhos têm as ilusões das superstições ocultas nas quais buscam refúgio para o conflito com a vida. Os jovens de hoje, frequentemente, não têm crença alguma; acham-se em revolta contra todas as ortodoxias. Porém, esta revolta, pode, ela própria, ser uma ilusão pelo fato de ser, muito frequentemente, somente uma oculta auto-indulgência. A ortodoxia de qualquer espécie que seja implica disciplina e a revolta contra a autoridade pode ser a revolta contra isto. De modo que tantos os jovens como os velhos possuem suas peculiares ilusões — encontrando-se as dos velhos no conforto da superstição, e as dos jovens na descrença confortável. Nos velhos isto induz à estagnação, nos jovens à revolta sem sentido. Quando ferirdes a raiz da ilusão por meio da seleção e por meio do esforço, estareis libertando essa vida que é verdade. Não se trata de atingir alguma coisa; trata-se simplesmente de libertar algo que já existe. Pelo libertar a vida de ilusões vós a capacitais a funcionar livremente através de vós e assim a vós próprios firmais nessa perfeita serenidade de pensamento e pureza de emoção que faz parte da liberdade da vida. Para ferirdes a raiz da ilusão precisais primeiro saber qual é a sua raiz. É o desejo. Averiguai quais são os vossos secretos desejos e sabereis o que é que está criando as vossas ilusões. Não procureis, porém, matar o desejo, pois o desejo é vida. Buscai simplesmente desejar com verdade — isto é, desejar do ponto de vista da Vida Universal, não da vida separada. Quando puderdes fazer isto tereis atingido a espécie de desejo, que não acalenta ilusões.

Buscar alcançar a verdade pela destruição do desejo é como destruir as raízes da árvore e ao mesmo tempo esperar que ela proporcione frescas sombras, fragrância e folhas verdes. Se destruirdes o desejo, até mesmo o vosso crescimento como seres humanos ficará destruído. O problema é manter e intensificar o desejo, ao mesmo tempo que impedi-lo de buscar satisfação na ilusão. Uma vez que possais efetuar isto, então vosso desejo será livre. Na maioria das pessoas há conflito entre o desejo e os meios de auto-realização que a ele se impõem e assim, em lugar do desejo finalizar pela felicidade — como o deveria — termina pela tristeza. E quando isto acontece, o desejo busca imediatamente conforto. Isto é, ferido pelo seu próprio resultado, busca refúgio em si mesmo e por esta maneira estabelece um padrão ilusório de espiritualidade. Quase todos se satisfazem com este padrão, não reparando que ele não colabora para os fins do preenchimento da vida, porém antes para a negação desse preenchimento. A espiritualidade que flui da vida evidencia-se espontaneamente a si mesma na conduta. Quando a espiritualidade for uma simples fuga da vida, dá-se sempre o conflito entre ela e a conduta.  

Há três estágios na evolução do desejo. No primeiro, pensa o homem que será feliz de possuir uma casa, automóvel, livros ou dinheiro. Não estou condenando este estágio; é uma primeira tentativa natural para formular o anseio verdadeiro que a pessoa que dele é objeto não compreende ainda. O que ela realmente está buscando é uma beleza e uma felicidade que são impessoais; porém não se apercebe perfeitamente disto e muito naturalmente interpreta-o como uma busca de bens pessoais. Porém, uma tal busca, implica inveja, cobiça, ódio e exploração dos outros, pois que tem de ser alcançada as custas de outrem e, sendo esta a sua natureza, tem que, cedo ou tarde, produzir a desilusão.  

Tempo virá em que o homem descubra que por meio das posses a felicidade jamais pode ser atingida; e quando ele verifica isso, vulgarmente entra no segundo estágio do desejo, a transferência do anseio pelas posses para o reino das coisas sutis. Aí o desejo toma o caráter de apegar-se aos confortos espirituais para que o protejam contra o conflito com a vida. Exatamente como alimentará a ânsia pela riqueza e outras coisas mais, afim de proteger-se contra a luta da existência física, assim agora procura os guias, os gurus, as autoridades de modo a estas pouparem-lhe o conflito em um nível superior. Porém, mais uma vez, isto tem que demonstrar-se ilusório, pois que a maneira única de escapar ao conflito é a vitória. E assim, o segundo estágio do desejo é abandonado e entra ele no terceiro (por favor lembrai-vos de que estes estágios não constituem divisões reais. A vida, em si, não pode ser subdividida por esta maneira. É por mera conveniência que deles falo).

O terceiro estágio parece a princípio semelhante à pura negação pois que representa o abandono de todas as tentativas para encontrar a felicidade em algo externo — seja nos confortos físicos externos, seja nos confortos espirituais tais como os Mestres e os instrutores. Se, porém, tivermos a coragem de realmente entrar nele, verificaremos ser positivo, não negativo. O eliminar todo o desejo de auxílio externo é libertar o verdadeiro desejo o qual se refere ao desejo que somente pode ser encontrado dentro de si próprio. Isto é o que realmente estamos buscando a todo o instante, porém sem o sabermos. É o significado real da busca do auxilio exterior. Quando o desejo é assim liberto, a própria vida fica livre. Pois um tal desejo nada mais é que vida.

O verdadeiro desejo é puro ser, é a mais alta verdade, a mais alta espiritualidade, o absoluto. É a ligação do amor com a intuição, é Deus, é tudo.

Para libertardes, portanto, os vossos desejos, tendes primeiro que verificar a espécie de satisfação que eles buscam, e depois colocar à prova essa satisfação à luz da intuição; isto é, ver qual o valor que eles têm em relação ao puro ser. Então, seguramente, haveis de verificar que não pode existir verdadeira interpretação para o desejo, que torna a sua satisfação dependente de outrem. Somente dentro de vós e por intermédio de vós mesmos, podereis realizar o puro ser, de modo que somente pelos vossos próprios esforços, pela vossa seleção continuada e constante consecução, podeis alcançar o preenchimento, podeis chegar à consumação do desejo — essa consumação pela qual a vida manifestando-se como desejo, realmente anseia.

Existe somente uma prova para todas as vossas ideias e emoções, e esta é saber se elas pertencem ao mundo do que é perdurável; porém o aplicar esta prova subentende a necessidade de pensar e sentir por vós mesmos, coisa que é a última coisa a ser desejada pela maioria das pessoas. Tendes que possuir uma visão independente da vida; vosso pensamento deve ser original, não meramente mecânico. A chave para a mais alta das realidades é a independência — independência de pensamentos, de ação e sentimento. Por muito difícil que seja isto, deveis praticá-lo sem restrição. 

Crescer é lutar, e aquilo pelo qual tendes que lutar não é algo para o vosso eu separado, nem é assunto de cultivar esta ou aquela qualidade especial. É simplesmente o libertar a vida. A pergunta a ser feita é: Flui ela espontaneamente provindo de um impulso interior, sem depender de nada de exterior fora dela mesma? Somente por esta maneira é que a mais alta realidade é atingida. Tudo mais fomenta a desordem, confusão e tristeza. É confinar a vida dentro de gaiolas ou pelo menos, substituir uma gaiola por outra.

Assim, pois, homem feliz é aquele que encontrou sua própria verdade — não a verdade de outrem — o homem que segue a voz de sua própria intuição a qual é a voz do Eterno dentro dele existente.   
   

 Jiddu Krishnamurti, 1930 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill