“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

A vida, liberta a partir do interior, é eterna

A dificuldade para a maioria da humanidade está no encontrar-se incerta; e, na sua incerteza, os indivíduos, naturalmente, apegam-se às crenças, aos dogmas e aos credos. Imediatamente após vos haverdes assegurado de vossa integridade e do propósito da vida, não mais necessitareis de crenças, de dogmas para vos sustentarem em vossa fraqueza. Achando-vos seguros, naturalmente confiareis em vosso próprio entendimento. Portanto, a coisa que primordialmente é necessário ter em vista, é o vos assegurardes de vosso propósito e do significado de vossos desejos e lutas; e, quando assim vos houverdes sacrificado, começareis a criar dentro de vós um espelho que refletirá imparcialmente todos os vossos pensamentos e emoções.

Nada estou inventando de novo, pois sustento que em assuntos espirituais, nada existe de novo sob o Céu. Eu posso expressar a verdade por maneira diferente da vossa, porém ela é, essencialmente, a mesma verdade. Porém, toda a coisa se torna nova para o homem que descobre a verdade. Ela é vital, imensamente nova para mim; ela é ilimitada, isenta de esforço, pelo fato de havê-la eu encontrado em mim mesmo. Em virtude do processo da vida — gradualmente, não de um jato — tirei à cobertura àquilo que estava no interior e por esse modo libertei a vida. Isto não é nada de novo. A novidade consiste somente em vossa própria descoberta do que é antigo. Se levantardes uma pedra e olhardes o que está por debaixo dela, descobrireis o que ali se acha oculto. Do mesmo modo se removerdes todas as barreiras das circunstâncias, as estreitas limitações colocadas sobre vós pelas coisas exteriores, aquilo que descobrirdes será vosso e em relação a isso não pode haver dúvida. Então caminhareis em vossa própria integridade, em vossa própria firmeza de propósito; então estrareis seguros e certos.

Falo-vos dessas coisas que jazem ocultas dentro de vosso próprio coração, e no coração de todo o homem no mundo. Não é isto uma revelação nova. A maioria das religiões estão fundadas sobre a revelação, pois que as pessoas que buscam o misterioso sem entendimento daquilo que é sincero, simples, amável. Para descobrirdes por vós mesmos essa certeza, tendes que ter em conta aquilo que eu digo, imparcialmente, com completo desprendimento, sob um ponto de vista impessoal. Quando ides a uma representação, observais os atores, suas dores e prazeres, seu riso, sua linguagem, suas tragédias. Do mesmo modo vos deveis tornar um espectador de vós mesmos, um expectador que vigia e que discerne; e, por meio desse discernimento, deve nascer a certeza, de modo que as vossas preferências pessoais não venham a perverter o vosso entendimento. Vossas preferências individuais, vossos gostos e desgostos pessoais, nada têm a ver com a verdade.

Quando introduzirdes, o elemento pessoal em vosso julgamento, pervertereis inevitavelmente o vosso entendimento. Precisais distinguir entre o que é pessoal e o que é individual. Pessoal é o que é acidental, e por acidental significo eu as circunstâncias de nascimento, de ambiente nas quais sois criados, a vossa educação, as vossas tradições, as vossas superstições, as vossas distinções de nacionalidade, de classe, e todos os preconceitos que por esses meios se desenvolvem. O que é pessoal refere-se somente ao acidental, ao que é momentâneo, ainda que tal momento dure a extensão de toda uma vida. A educação moderna conduz à perversão do pensamento e o espírito de nacionalidade, de classe, de tradição, fortifica-se por meio do medo. Quando julgardes um fato, não o julgueis de um ponto de vista pessoal, porém sim do ponto de vista do indivíduo, que é o do ser.

O eu é o resíduo de toda a experiência; não apenas da experiência acidental, porém da de todo o instante; não a do momento, porém a da eternidade; não a dos sistemas férreos tradicionais, porém a da vida que se acha liberta. Este eu é a resultante do desenvolvimento de vossa própria uniquidade, de vosso próprio crescimento por intermédio do qual alcançais o entendimento. Isto é a individualidade. Não confundais o individual, com o pessoal. Na individualidade, se a puderdes levar até a sua origem, se a puderdes separar de vossa personalidade, encontrareis a verdade, essa intuição que é razão, que é a consumação da inteligência.

Por outro lado, há o eu que é eterno, que somente pode ser desenvolvido por meio de vossa própria uniquidade, que é o resíduo de toda a experiência, que é inteligência, intuição, razão; e por outro lado existe a personalidade que pertence ao momento, que é o resultado do nascimento, da nacionalidade, da classe e assim por diante. Por isto é que uma e outra vez tenho eu insistido em que precisais deixar de lado o que é pessoal, o que não é essencial e ajuizar de todas as coisas sob o ponto de vista do eterno, que é o indivíduo. E, para descobrirdes o indivíduo, tendes que colocar de lado todos os vossos pontos de vista pessoais. Isto exige constante equilíbrio, contínuo ajuste e pensamento.

Para compreender o significado da vida não vos deveis deixar colher pelo que é momentâneo, pelo que é pessoal, porém, antes, abandonar tudo isso completamente, disso vos dissociardes integralmente, e então olhais para todas as coisas do ponto de vista do eterno, isto é, do ego. Com isto em mente, perguntai a vós mesmos o que é o “Ser”, e esforçai-vos por obter êxito nesta tentativa de descoberta do que é a individualidade, desenvolvida por meio da uniquidade, por meio da experiência, esforçando-vos por buscar e atingir. E, tentando isto deixai de lado as limitações da personalidade, o que é momentâneo, o que é incidental, para assim libertardes a vida.

A individualidade — uso esta palavra em um sentido completamente diferente — é imperfeição. Isto é, enquanto o indivíduo está separado, a todo o instante adquirindo, assimilando experiência e crescendo, é imperfeito. Pelo contínuo ajuste no contato frutífero com a vida, a individualidade, que é separatividade, que é imperfeição do ego, vai gradualmente afrouxando sua separação. Isto é, o ego, a verdadeira individualidade, está a todo o instante buscando assimilar as experiências da vida; e se exercerdes compulsão sobre o que é pessoal, bloqueareis um dos canais por meio dos quais o ego pode assimilar a experiência; estareis colocando uma limitação sobre ele, estareis pervertendo-o, suprimindo-o. Enquanto o ego reagir aos estímulos do exterior será imperfeito. Enquanto as circunstâncias incidentais da vida puserem uma limitação a este ego, seus julgamentos serão pervertidos, haverá imperfeição; quando, porém, este ego que é vida age sem reagir, há perfeição — pela qual eu entendo um fluxo ininterrupto e incorruptível de pura vida.

Não estou condescendendo em gastar meras palavras. A flor dá seu perfume e nada pede em troca. Ela é bela, inconsciente de sua perfeição. O homem, porém, esse tem que atingir a perfeição consciente — isto é, a ação que não reage e por isso não cria Karma. Ela é a pleno saber, a verdadeira compreensão do Ser. Para atingir esta perfeição — isto é, para deixar a vida atuar a partir do interior, sem reação, a qual, naturalmente, cria barreiras, limitações, — para isso necessitais entrar em contato com a vida, com a experiência e, em primeiro lugar, passar por uma série de reações e de lutas, até que pela experiência elimineis vossas reações. Ninguém vos pode dirigir ou ajudar a atingir este estado de perfeição; ele pode somente ser alcançado por meio da experiência. Ele desafia — deve desafiar — todo o auxílio do exterior, pois que não depende de circunstância de momento. Esta é a consecução da vida. Voltarei a mesma coisa por maneira diferente. A vida, liberta a partir do interior, é eterna, sem começo e nem fim. A libertação é o entendimento dessa vida que é verdade e o estar em harmonia com ela. É esta a flor, a consumação, da vida individual.  

O desejo de possuir, de excluir, é comum a todo o homem. Este desejo está continuamente buscando preencher-se a si mesmo na experiência. O desejo é a fagulha que cria a grande chama que dá calor, que consome todas as escórias das coisas não-importantes, que queima as palhas do não-essencial. A partir do momento que pervertais, suprimais ou desviais o desejo, sem entender o seu propósito, estareis obstruindo um dos canais da vida. Haveis de perguntar: “E se eu quiser comprar um automóvel, é justo que o faça?” Se realmente o quiserdes, fazei-o. Não me pergunteis se é um bem ou um mal. Averiguai por vós mesmos e aprendei da experiência No entanto, sede honestos convosco próprios. A finalidade do desejo é derrubar as reações do ego, libertar a esse ego; e o desejo necessita de possuir a experiência. Se, porém, meramente condescenderdes com o desejo sem entender o seu propósito, não fareis mais que ser colhidos em outras gaiolas, em outras limitações; e daí, seguir-se-á a tristeza. Não torçais o desejo, compreendei o seu propósito. Se vos atemorizardes de vossos desejos e os suprimirdes sem entendimento, estareis torcendo o eu. Se, porém, por meio do entendimento, traduzirdes o desejo em ação propositada, estareis libertando a vós mesmos daquelas barreiras que reagem sobre o eu.

A verdadeira moral é tudo que labora no sentido da abundância e da riqueza da vida individual, e toda a coisa contraria a isto é imoral. Não busqueis tornar-vos de um padrão, pois que somente podeis enriquecer o eu por intermédio de seu crescimento, por sua própria uniquidade, sua própria experiência. Se vos tornardes uma máquina, uma mera personificação de funções, sereis, sob o meu ponto de vista, insanos e imorais. Uma máquina não se pode aproximar da verdade. A verdade não faz parte dos padrões. A verdade reside no processo de viver de cada dia, e não em uma súbita explosão de atingimento. A verdade não tem que ser atingida ao fim de nossa vida, porém sim assimilada através de todo o processo de viver. Ela é o crescimento que vai da perfeição inconsciente, passando pela imperfeição consciente, até chegar à perfeição consciente.

Qual a diferença entre um homem que se acha unido com a vida e um outro que o não está? Tudo quanto a Natureza cria está sendo inconscientemente aperfeiçoado. Desta perfeição inconsciente surge a imperfeição consciente, e da imperfeição consciente, por meio de uma série de experiências, atingis gradualmente a consciente perfeição. Nessa assimilação é que reside a verdade e em nada mais. O atingir desta verdade evidencia-se pela ação quando é isenta de reação. Aprendei a utilizar todos os incidentes da vida. Sede intensamente ativos em vosso interesse. Não vos torneis um ser humano mecanizado, um mero copista no escritório do mundo. Se vos encontrais descontentes com o vosso cargo, abandonai-o. Então, não mais vos estagnareis e não deixareis que as circunstâncias exteriores criem a tristeza dentro de vós.

Deveis encarar a tudo isto do ponto de vista do que deve ser e não do que é. Condições insanas exigem médicos, coisa fora do natural. Todos os médicos são anti-naturais. Não contempleis a vida sob este ponto de vista não-natural, porém sim do ponto de vista são da auto-confiança, da auto-suficiência e da naturalidade.

Para resumir: a riqueza, a suavidade, a franqueza dessa vida que está dentro de cada um de nós, precisa ser liberta por meio da experiência, não por meio de sistemas, dos credos e das religiões. A experiência não exige interpretes. Não permitais que pessoa alguma interprete vossa experiência da vida, exceto vós próprios. O viver na experiência que seja vossa, cria certeza de propósito e dessa certeza provém o êxtase da luta para compreender a vida. A luta é penosa para a maioria das pessoas, é tristonha; ela embota o gume do pensamento e do sentimento. Se, porém, tiverdes compreendido o propósito da vida, o qual é tornar o eu rico e harmonioso, então a luta tornar-se-á realmente sensacional. Para vos tornardes certos e viver nessa certeza, precisais deixar de lado as coisas do momento e julgar todas as coisas impessoalmente, do ponto de vista da razão, a qual é a casa de armazenagem de toda a experiência. Julgai, agi e vivei naquilo que é eterno. Somente desta maneira encontrareis o eu que é eterno, que não projeta sombras sobre o vosso caminho.                  


Jiddu Krishnamurti em 2 de janeiro de 1930 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)