“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Auto-harmonia: a mais elevada forma de espiritualidade

A mais alta consecução da espiritualidade é o viver em harmonia no presente. O viver em harmonia é um contínuo ajuste, um contínuo julgar equilibrado, entre o caminho certo e o caminho errado, entre o essencial e o não essencial. O viver em harmonia é sensitividade, isto é, tornar-se sensível às reações de outras pessoas sobre nós mesmos; e isto exige tato e também esse contínuo apercebimento das coisas que ocorrem ao vosso redor nas quais se acha implícita a manifestação da vida. Esse instinto expresso sob a forma de gostos e desgostos, o qual existe em cada um de nós, deveria ser um último turno amoldado à razão e deveria funcionar de acordo com os seus ditames. É esta a mais elevada forma de inteligência

A inteligência é a consumação da experiência e, se mantiverdes essa inteligência altamente desperta, plenamente ativa, então dela decorrerá a intuição a qual é razão. Este, para mim, é o viver harmonioso que é a mais elevada forma de espiritualidade, pois que é auto-harmonia, perfeito equilíbrio da razão e do amor. Se de contínuo não estiverdes fazendo isto, incessantemente e intensamente, a vida virá ensinar-vos pela tristeza. Se a tristeza não for compreendida e o propósito da tristeza não for entendido, continuareis a sofre e, portanto, a viver na morte. Dado que vos encontrais lutando, ainda que sejam colhidos pela tristeza, se não tiverdes a compreensão dela, haverá discórdia. E a discórdia é o processo contínuo mediante o qual o equilíbrio é atingido.

Se não entenderdes à finalidade dessa luta entre a razão e o instinto, a luta torna-se meramente um movimento de pêndulo sem propósito determinado e quando esse movimento pendular começar a desenrolar-se, estareis vivendo na morte. Isto é o que acontece à maioria das pessoas que se encontram prisioneiras da tristeza. É tão mortificante isto, tão cansativo que elas perdem o propósito, o entendimento da tristeza. Pouquíssimos, são felizes na luta, pois que não compreendem seu propósito, o qual é o de atingir o equilíbrio, o qual é ainda auto-harmonia. Portanto, necessitais, em primeiro lugar, de compreender o objetivo da luta. Na luta, em si mesma considerada, não há muito valor, porém, há valor naquilo que é produzido por meio da luta. Assim como um jardineiro coloca sementes na terra para produzir flores e frutos que hão de vir a dar alimento, assim também no terreno da luta tendes que produzir o equilíbrio e a auto-harmonia. Ninguém pode executar isto para vós, tendes que ser vós mesmos.

A moral vigente é a admissão do medo para a vida. Se vos amedrontardes da vida e, portanto, da luta, naturalmente inventareis uma moral inflexível e direis, “isto é certo” e “isto é errado”; “isto é o céu, isto é o inferno”. Nessa estreita limitação da moral haveis de seguir cegamente, sem entendimento, pois que vos amedrontareis de lutar e de assim, produzir a harmonia e o equilíbrio. Uma lagoa nos bosques, pelo fato de ser tranquila, acumula à superfície espuma verde e por isso não reflete a pureza dos céus, as folhas movediças, as brilhantes estrelas; ao passo que a lagoa que é continuamente encrespada pelos ventos, pode, quando tranquila, refletir a verdade. Assim acontece à vida. A partir do momento que, por causa do medo, encerreis a vida na moral inflexível, vem a estagnação, dar-se-á essa luta surda e interna que não produz clareza de pensamento nem equilíbrio e daí, o “eu” no homem, não poderá refletir a pureza do propósito da vida. Se, entretanto, expulsardes essa moral que cega, que sufoca, sabereis da tranquilidade que não é estagnação nem putrefação.

Assim acontece com o Karma. Karma é o restabelecimento do equilíbrio. Isto é, pela luta contínua; produz-se um equilíbrio entre o essencial e o não essencial; pelo discernimento contínuo, pelo ajuste, pelo julgar e contrabalançar as coisas, criais cada vez menos Karma. Explicarei o que pretendo dizer. Todos admitem que somos o resultado do passado. Porém, o passado não tem valor. Isso é coisa encerrada. Se criardes barreiras, embaraços entre vós e o vosso presente, tereis a tendência a criar Karma, pelo fato de estrades destruindo o equilíbrio. Não importa o que haveis sido ontem, importa o que sois no momento presente;  e o momento presente somente pode ser vital, ativo, de pleno entendimento, se alcançardes o significado da vida do futuro no presente e viverdes essa vida na atualidade. Isto significa um equilíbrio constante do presente com o futuro, um contínuo ajuste, um insistente e incessante apercebimento, achando-vos, por assim dizer, suspensos entre o futuro e o presente.

Mais uma vez vos digo que a saúde moral e emocional dependem do equilíbrio. Assim como uma pessoa, fisicamente doente se acha desarmonizada, dependendo continuamente dos outros, assim também uma pessoa que esteja moral e emocionalmente doente necessita de médicos espirituais. É um estado não-natural o haver um mundo de pessoas não saudáveis que para seu bem estar dependem de médicos. O que é mais importante: produzir uma condição que capacite as pessoas a serem saudáveis, íntegras, bastando-se a si mesmas, ou que meramente tenham por missão cuidar das não saudáveis? Para mim, é muito mais importante o prevenir a falta de saúde, pois que então as pessoas podem viver uma vida natural, equilibrada, sã e harmoniosa. Talvez seja este um ideal irrealizável, porém um ideal facilmente realizável, torna-se em cinzas na boca. Um ideal que seja apenas um estímulo, não possui valor por si mesmo; porém, um ideal que seja belo, intrinsecamente reto e valioso em si mesmo, não é apenas um estímulo. A coisa essencial, portanto, é impedir os homens de se tornarem insanos, de dependerem psicologicamente dos outros, de médicos espirituais, e torna-los psicologicamente autossuficientes, confiantes em si próprios, constantemente apercebidos, afim de a si mesmos se ajustarem de contínuo, de se equilibrarem entre as formas externas, sejam as do vício, sejam as da virtude.

Para serdes saudáveis no presente, necessitais de continuamente encontrar o equilíbrio entre o futuro preenchimento do eu e o presente; e isto exige apercebimento, exige exame contínuo da espécie correta, não a introspecção que, por fim, destrói o ser. Se examinardes o ser sem propósito definido em vista, sem riqueza de entendimento, somente estareis amesquinhando esse ser. Sem a compreensão do propósito da vida, tornai-vos meramente introspectivos e por essa maneira continuamente diminuis o ser e, por esse modo, viveis na morte. Se, porém, compreenderdes o propósito da vida, e à luz desse propósito examinardes o ser, enriquecê-lo-eis. Tornar-vos-eis um ser humano perfeito, consumado na finalidade da vida, o que para mim é coisa muito maior do que tornar-se um deus.

Um outro ponto que quisera trazer ao vosso conhecimento, é este: a vida não se acha laborando na produção de uma padronização; a vida não está criando imagens esculpidas. A Vida pretende ser inteiramente diferente de um para outro ser, na diversidade, é que deve ter lugar vosso preenchimento e não na produção de uma padronização. Contemplai o que está acontecendo no presente. Vós adorais os muitos no uno, adorais o conjunto da vida personificada em um ser. Isto é cultuar a um padrão, a uma imagem de escultura, e por essa maneira vos tornais de um só padrão, vos tornais uma imagem; esta imagem é uma limitação e daí advém a tristeza. Ao passo que, se adorardes o uno nos muitos, não vos tornareis em um padrão. Isto não é, em absoluto, ideia filosófica ou metafísica. O homem por ter medo de ser amável, afetuoso para com os muitos, proporciona todo o seu respeito, os seus cultos, suas preces ao uno — isto é, cria uma imagem. A vida, porém, não cria padrões, ela nada tem que ver com imagens. O adorar o uno nos muitos, exige constante apercebimento de pensar, constante apreensão do que é impessoal, constante ajuste do ponto de vista do indivíduo ao dos muitos, que é vida. Se criardes um padrão e meramente ajustardes o equilíbrio entre vós e esse padrão, não será isto verdadeiro ajuste e sim um intuito meramente pessoal.  Ao passo que, se procederdes a um ajuste entre vós e o uno nos muitos, então já não estareis criando uma imagem nem um padrão, porém, ao contrário disso, ireis sendo modelados pela própria vida.


Jiddu Krishnamurti em 1 de janeiro de 1930                    
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)