“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

No desgaste da individualidade, o findar do medo

Se não houver contato com a vida, no efetivar da ação que implica seleção e contínuo discernimento, não haverá possibilidade de plena realização. Tal realização somente pode provir do contínuo desgaste da individualidade. Se, porém, a ação nasce do temor, esta ação lutará para amoldar-se segundo o padrão estabelecido. O medo origina-se fundamentalmente, do fato de buscardes realização e entendimento fora de vós próprios, buscando a certo Ser super-humano que vos livre da treva que vos cerca em vossas ações. Havendo medo, a todo o instante estareis vos esforçando pelo vos tornardes; o tornar-se nada mais é que a imitação originada do medo. Toda a vez que a ação provier do medo, essa ação, em vez de vos libertar, vos embaraçará cada vez mais. Verdadeira ação é a contínua eliminação, o desfazer da autoconsciência que se apercebe de separação. Se, porém, a ação provier do medo, em virtude desse medo advém a formação de seitas, de grupos estreitos, de indivíduos que se unem em seu tornar-se.

Uma seita, como corporação, não se pode acercar à verdade, pelo fato de a verdade ser realização individual, um individual esforço interno. Não é pelo vos apegardes a uma corporação que ireis chegar à plena realização do ser. Por isso é que eu insisto em que somente por meio do indivíduo, se encontra a plena possibilidade de realização. Uma seita ou grupo vem à existência quando há muitos que se esforçam por imitar um padrão estabelecido — que é não a verdade completa, porém um fragmento da verdade. O medo acha-se implícito no tornar-se e o ceder ao medo não faz mais do que ampliá-lo e daí multiplicar-se o engano. Por este tornar-se, baseado no medo, manifesta-se sempre o desejo de ter, de tomar, de ser guiado. Assim, uma nova corporação se forma para a pesquisa da verdade; porém, jamais se chega à verdade por meio de grupos ou sociedades. A verdade somente se percebe por meio do esforço individual.

A verdade é o desapercebimento da existência autoconsciente. Se não estiverdes mais que imitando, tentando vos tornar um padrão estabelecido, pelo seguir uma fórmula estabelecida, somente estareis cedendo ao medo; e por esse modo acrescenta-se o medo. O homem que não quiser sentir medo deve aperceber-se que, posto que as formas de existência individual variem, posto que as expressões do eu-consciência mudem, ainda que a vida a si mesma se manifeste por maneiras diferentes, fundamentalmente, a vida é uma só. Quando vos aperceberdes disto, todo o medo cessará. Então, não mais existirá o esforço para tornar-se, e sim a tentativa de vir a ser. Por meio desta luta tem lugar a verificação intuitiva da unidade do ser, a qual em momentos de razão desperta em grau extremo (a qual é intuição) todos sentem e conhecem dentro de si mesmos. A tarefa da existência autoconsciente é a de verificar a plena potencialidade deste fato; e quando ele é plenamente realizado, então a individualidade imerge no TODO e chega assim ao seu preenchimento.

O findar do medo é o começo do ser; e o ser é harmonia, equilíbrio perfeito em todas as suas expressões. O ser não exige imitação, a formação de grupo ou seita, o reunir-se em conjunto como um exército com general em um mundo de caos. O ser é integratividade, no qual não existe o apercebimento do “tu” e do “eu”. Enquanto estiverdes apercebidos do “tu” e do “eu”, haverá desarmonia, devida ao esforço para tornar-se, no qual se acha implícito o medo. A separação é ocasionada por esse ego que nada mais é que a existência autoconsciente do indivíduo; e desta separação da individualidade autoconsciente, provem a ansiedade e o autoengano. A individualidade não constitui um fim em si mesma. A individualidade é imperfeição, acha-se no processo de tornar-se até chegar ao ser.

O tornar-se é esforço, o ser é cessação do esforço. Enquanto houver esforço é ele autoconsciente e, portanto, imperfeito. O ser não é mais que o puro apercebimento da existência isenta de esforço. São palavras estas que necessitais traduzir por meio da intuição, a qual vem a ser a razão em sua forma mais elevada. Para chegar a este ser, tendes que ter em conta o desejo ocasionado pela existência autoconsciente. Quando tiverdes compreendido o desejo, de onde ele tem sua origem e para onde se dirige, torna-se ele uma joia preciosa à qual vos segurais, e a qual estareis continuamente cinzelando e aperfeiçoando. O desejo assim, é a origem da verdadeira disciplina — não de uma disciplina pré-estabelecida, porém da disciplina que varia progressivamente até que chegueis ao puro ser.

O desejo busca a felicidade não impedida. Na busca dessa felicidade ele procura, em primeiro lugar, as posses, as quais implica cobiça, inveja e outras coisas mais. Em seguida passa ao próximo estágio, que é o gozo das coisas sutis. Antes que chegueis a esse gozo sutil é preciso que exista o domínio — com a compreensão do propósito da existência individual — dos desejos físicos, do gozo do grosseiro. A maioria das pessoas chegam a este domínio do gozo físico, um pouco tarde, na vida, quando já são velhos após haverem-no experimentado sem entendimento. Pela fadiga continuada, pela falta de energia, tem lugar o domínio, domínio esse inconsciente, que não é o domínio oriundo do entendimento.

O homem que quiser livrar-se do engano e dos anseios deve ter um perfeito domínio sobre o corpo — domínio por meio do entendimento, não filho da supressão ou da repressão. O domínio vem com o desejo de entendimento do propósito da existência individual e do seu preenchimento. A maioria das pessoas suprimem seus desejos por terem medo; isto, porém, não é domínio, é morte. O verdadeiro domínio é flexibilidade, atividade, tendo o corpo plenamente ativo, porém sob refreio.

Depois, deve haver domínio nas emoções, o qual mais não é que uma forma sutil do gozo. Por meio da emoção, uma vez ainda, o desejo busca a felicidade. Eu sirvo-me da palavra domínio como significando disciplina autoimposta, com entendimento — não o estúpido domínio que vos deixa de ânimo azedo, que vos torna duros, cruéis, rudes. A disciplina autoimposta é cheia de gentileza, consideração, é terna e não dura. Se vos abandonardes a vossas emoções e fantasias, ao romantismo, ao mistério, mais uma vez sereis vítimas do autoengano e do anseio, do esforço para tornar-se. Do mesmo modo, deve haver domínio do mental. A função do intelecto é estabelecer uma ponte entre a ação e a intuição. Ele deve guiar, não dominar, e, por esse modo, produzir perfeita harmonia.                   

Krishnamurti em Reunião de Verão, 23 de julho de 1930 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)