“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Para vós, a personalidade é a coisa mais essencial

Espero falar com franqueza e se o fizer, que nenhum de vós fique magoado. Acontece às vezes que um homem domina um grupo de indivíduos e deixa neles a sua impressão. Não é absolutamente este o meu desejo. Como os maiores teosofistas do mundo aceitam grande autoridade — talvez formeis exceção — não me classifiqueis entre os vossos guias, porque eu não sou guia, e seria meu último desejo tornar-me guia.

Sob o meu ponto de vista, um homem que deseja procurar a verdade, não pode deixar sua impressão sobre um outro, nem pode fazê-lo um homem que tenha atingido a verdade, porque a verdade, a libertação, ou felicidade, são matérias puramente individuais e não aproximadas por qualquer caminho, seja ele qual for. E não desejo, portanto, que aceiteis qualquer coisa que eu diga, ou tenha em vista.

A maioria dos teosofistas espalhados pelo mundo — e provavelmente aqui, também, porque pertencem à natureza de seres humanos — quando estão descontentes, abandonam a gaiola de uma instituição e unem-se a outra na qual ficam igualmente aprisionados. Eu não estou dizendo que estais numa gaiola — podereis investiga-lo, vós mesmos — mas isto é o que acontece pelo mundo. Vós vos tornais membros da Sociedade Teosófica, porque ficastes descontentes com as coisas que vos rodeiam. Discordastes de vossa religião, de certo modo de pensar, de uma certa cristalização e deixastes isso reunindo-vos a esta sociedade Teosófica para encontrardes a verdade, a compreensão da vida ou um auxílio semelhante.

Se quisésseis encontrar alguma coisa, deveríeis estar continuamente descontentes até o momento de consegui-la.

O descontentamento é agradável. É a única coisa que é criadora no homem, porque por contínuo desprendimento e eliminação, ele encontra o que deseja procurar. O momento em que vos tornais cristalizados no pensamento ou em emoção, é o da morte. O indivíduo não encontrará nunca aquilo que está procurando por meio da cristalização. A cristalização vem no momento em que aceiteis a autoridade de alguém e geralmente acontece que nas sociedades, religiões, instituições, um ou dois indivíduos dominam os demais pela sua personalidade, pela sabedoria, pela sua força, pela sua oratória, etc.

Não estou ensinando nada, estou apenas relatando fatos que acontecem no mundo. No momento em que trazeis o rótulo de autoridade ou a impressão de outrem, ou permitis que vosso coração e vosso espírito sejam moldados pelas mãos de outrem, sois incapazes de encontrar a verdade. Deste meu ponto de vista, nenhuma religião, nenhuma instituição, nenhuma sociedade pode conduzir o homem à verdade; nem nenhuma sociedade, instituição ou religião encerra a verdade, porque a verdade é puramente uma coisa individual e nada tem a ver com qualquer organização, seja ela qual for. Este é o meu ponto de vista, notai. Não renuncieis à Sociedade porque eu o diga.

Como sabeis, dissolvi a Ordem da Estrela e não pertenço a nenhuma sociedade, mas não penseis que estou agindo sobre mim. Não. Não me interessa criar uma organização. Eu digo que para mim a verdade é o equilíbrio perfeito do espírito, da razão e do afeto, e para alcança-la é de todo desnecessária a organização. Não estou trabalhando ou pregando para imprimir a outrem o que penso, porque isto seria criar uma outra prisão em vez de fazer o homem livre. Dissolvi a Ordem e é meu vivo desejo que nenhum de vós que aqui me ouvis, siga quem quer que seja, inclusive a mim, porque ninguém possui a verdade senão vós mesmos. Ninguém vos pode mostrar a verdade. Nenhum chefe, nenhum guia, nenhum professor poderá mostra-la.

Lamento se vos falo violentamente. É o meu ponto de vista. Examinai-o como examinaríeis qualquer coisa, impessoalmente; sem nenhum antagonismo. Nada desejo de alguém — vosso dinheiro, vossas casas ou vossas propriedades ou vossa organização. Se pretendeis ouvir-me, deveis fazer o que pensardes estar direito. Este é o meu único meio atingir, único meio de chegar, e não através da reação de uma multidão que vos cerca, de vossa sociedade, religiões, seitas ou classes.

Para mim, a verdade que cada homem procura, só pode ser atingida através da perfeição própria, pelo constante ajustamento entre a razão (pensamento consciencioso) e a vibrante e flutuante emoção.

Este perfeito equilíbrio, harmonia, ponderação, só poderão ser atingidos pela experiência — vossa experiência, não a experiência de outrem. Esta é, para mim, a verdade, que é incondicional porque é a incorruptibilidade do eu, e quando houverdes feito este eu incorruptível, ele se tornará o todo e não a parte. Não haverá, então, nenhuma separação. Quando o eu for incorruptível, será omnisciente, porque abrange o todo. Não há omnisciência, sabedoria perfeita no mundo dos fenômenos, que é relativo, porque há constante mudança, multiplicação de manifestações; ao passo que o eu incorruptível é omnisciente, porque nele não há separação. E isto permanece inteira e integralmente dentro de alguém, não exteriormente, conquanto possais examinar os planos em diferentes níveis. Tal verdade, tal harmonia perfeita, tal felicidade, tal êxtase do objetivo não existe em nenhuma organização, não existe à porta ou no altar das igrejas ou dentro das obras das religiões ou nos sacerdotes, nem nenhuma força irradiadora de qualquer ponto vo-los dará. Este é o meu ponto de vista.

Quem vos poderá dizer que sois corruptíveis ou incorruptíveis, senão vós mesmos? Quem vos poderá fazer felizes senão vós mesmos? Qual é o fim de vos cercardes de inúmeros deuses para chegardes à eternidade? Deveis desprender-vos de todos os deuses para encontrardes a vida. Se deveis adorar, adorai o homem que vos está próximo, o homem no campo, o homem na rua. Este é o meu ponto de vista. E quando tiverdes a visão do homem perfeito, do homem livre, então a vossa visão é a vossa yoga e todos os problemas que enfrentardes não serão mais problemas. É porque não sabeis o que quereis e sois incertos nos vossos desejos, que procurais os inúmeros canais que vos parecem essenciais.

A ideia dos discipulado, mistério, ocultismo — que é apenas o exame dos fenômenos sobre outro plano — sob o meu ponto de vista não conduzirá à verdade. Repito, do meu ponto de vista; não o citeis amanhã e digais que é o vosso ponto de vista. Refleti novamente. Aceitai ou rejeitai, mas não sejais indiferentes às coisas. Se o que eu digo é falso e o que dizeis é verdadeiro, segui com firmeza, com o espírito claro, com energia; mas se o que eu digo é verdade, praticai-o com o mesmo interesse — não com entusiasmo, porque o entusiasmo falha, enquanto que o interesse nunca desaparece.

Dividistes a vida em muitas acomodações, muitos sistemas, muitas direções, místicas e ocultas, e deste modo pensais que alcançais a verdade. Sob o meu ponto de vista a verdade não tem caminho, é uma terra intransitável pela qual deveis forçar vosso próprio caminho; e este caminho não é o caminho de outrem e não pode ser aberto para outrem.

Este é um assunto sério e estou perfeitamente convencido da confusão que há na sociedade teosófica em relação à minha atitude, e isso naturalmente, porque não concordarei, em minha atitude, com os vossos guias, e vossos guias não estão comigo. Não me incomodo, finalmente, porque acho que a verdade é uma coisa que não se pode descer ou ser alterada pelas conveniências das sociedades, organizações e corporações religiosas. Porque tendes guias, porque seguis vossos guias, há confusão.
Não digais que por ser eu “desleal” estou vos pedindo que sejais desleal. Não estou falando da lealdade, estou falando da verdade; e uma vez que sois leal à verdade, sois leal a todos, a cada homem, a cada ser humano, a cada coisa animada ou inanimada. Vossos guias disseram que eu estou caminhando para ser alguma coisa, e quando esta alguma coisa contradiz o que eles disseram, naturalmente há confusão. É muito simples. Eles não concordam comigo, nem eu com eles. É um caso muito simples, assim, porque duvidais?

E deverá ser sempre assim se seguirdes alguém, se estiverdes sempre repousando debaixo de uma autoridade e venerando a sombra da autoridade. Eu não sei porque tendes guias em tudo ou de qualquer espécie — especialmente guias espirituais. Como podeis ter guias espirituais? Como podeis seguir alguém que não seja vós mesmo, quando fazeis parte daqueles que procuram a verdade. Não procureis a verdade no momento que seguis alguém. Estais procurando satisfazer vossos atemorizados desejos. Tendes medo.

Não observeis tudo isto do ponto de vista de uma organização, porque não tenho organização. Não quero que deixeis uma organização para entrardes para a minha. Não quero que sejais seguidores de Krishnamurti. Isto não me interessa; a personalidade nada é, mas para vós as personalidades são a coisa principal. Daí naturalmente nasce confusão.

Estais discutindo tanto se a consciência do Senhor Maitreya está operando através de Krishnamurti, e assim são vossos guias. Isto não é pessoal e espero que não o tomareis como meio pessoal. Que vale conhecer quem está falando? Eles não podem nunca saber quem sou eu. Nenhum homem pode saber, a não ser o homem que se fez perfeito e que assim compreenderá. Nenhuma propaganda estou aqui fazendo. Falo muito seriamente, porque começasteis a procurar a verdade e fostes colhidos por dogmas, crença, fé, cerimônias, formando novas religiões e novos credos, e é doloroso vigiar pessoas encerradas, que pensam que estão quebrando as prisões, quando estão apenas decorando as grades e tornando-as brilhantes em sua hábil decoração no mundo dos fenômenos.

Por favor acreditai quando digo que não desejo que me sigam, que não tenho organização e que não estou trabalhando em meu benefício em oposição a ninguém. Estou justamente afirmando aquilo que eu sei, para mim, ser a verdade; o que para mim é a mais alta realidade, o que para mim é a incomprometedora atitude entre o que é e o que não é essencial. Há, naturalmente, uma grande diferença entre os vossos guias e eu, e não convém procurarmos conciliar essas coisas.

Não podeis ser político em matéria espiritual. Por isso pondes a organização antes do real. Então, encerrais o real com os vossos artifícios de organização. Então uma seita torna-se maior do que o todo. Não pode haver cristalização de pensamento, uma solidificação de vossas emoções, se houver um interesse contínuo, consciencioso, ativo e intenso naquilo que estais procurando, deveis descobrir o prosseguimento secreto do vosso pensamento.  Se o vosso pensamento é o insistente conforto, tereis proteção, gurus, mestres. Direis prontamente: “Não existem Mestres?” Eu a isso direi que Mestres, aparições, “devas”, anjos, nada têm a ver com a realização da espiritualidade. Eles de nada servem às vossas realizações. Notai, este é o meu ponto de vista.

Examinai, portanto, o prosseguimento dos vossos desejos íntimos, porque desde que tenhais vossos desejos claros, podereis andar limpa e frescamente, sem o bordão das coisas desnecessárias.

Sob o meu ponto de vista, quando há aquele intenso desejo de pesquisar e converter-se — não viver meramente em teorias — então não vivereis em um mundo de fenômenos diversos, embora elevado que seja. Que utilidade têm todas as novas teorias, as vossas inúmeras organizações, vossas igrejas e vossas adorações religiosas, quando há tristeza? Quem cuida de todas essas coisas? Eu sei que as olhais muito intelectualmente e dizeis que alguém tem sabedoria. Sim, mas o que vale vossa sabedoria, quando não há esta ação vigorosa atrás dela?

Percorrei qualquer rua e encontrareis igrejas onde grandes somas de dinheiro foram gastas em adorações resultantes do temor, e ao lado delas vereis um homem ou uma mulher com lágrimas. Que utilidade têm tais coisas?

A tristeza conduz à pesquisa, não à sabedoria. A tristeza vos dá a energia, a vitalidade de combater tudo isto, e não os vossos confortáveis lugares retirados de seitas especializadas; e não venerações, religiões, a competição dos graus da espiritualidade.

Não vos emocioneis com isto. Para compreenderdes qualquer coisa deveis olhá-la isoladamente, e, quando há essa compreensão do isolamento, há ação, essa espécie de ação que não deixa impressão sob a vida de outrem.

Do meu ponto de vista — não há caminho para a verdade, nem a cultivação de inúmeros caminhos vos conduzirá a verdade.

A verdade só pode ser atingida através da experiência, pelo constante desenvolvimento, pela tristeza, pela contenda, pelo êxtase. Através daquele desenvolvimento vós vos convertereis e nesse estado consciente reside o equilíbrio e daí a verdade.

Se um homem quiser encontrar a verdade, se quiser tornar-se este todo, não deverá ter compromisso. Compromisso é o resultado do temor, da incerteza, é destrutível, negativo; enquanto a certeza dá aquela qualidade dinâmica que vos habilitará sempre a escolher o essencial e a colocar de lado o que não é essencial. Quando percebeis a visão da vida, então o meio de atingi-la é fazer do extremo os meios, conservando sempre aquela visão em perfeita claridade e seguindo essa claridade. Eu sei — não penseis que estou falando sem severidade ou com estreito fanatismo — que os teosofistas por todo o mundo têm feito grandes coisas, sacrifícios imensos e seria pena se eles se tornassem apenas seguidores, em vez de usarem a inteligência para se desenvolverem a si próprios e daí todos os que os rodeiam.


O característico de um plebeu, para mim, é o do temor que incapacita o espírito e o coração para o funcionamento livre e para a atividade espontânea. Se atingirdes a verdade, se não consintais que nenhum homem deixe a impressão de sua ação em vosso espírito e coração, e não deixeis vossa impressão em outrem.  

Krishnamurti numa comunicação à Federação Teosófica de Nova Iorque
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)