“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Só se pode servir quando há real ardor pela Verdade

 

Foi muito bom haverdes me convidado para falar em vossa reunião e vou faze-lo esta tarde tratando daquilo que tem ocupado as vossas mentes durante os três dias últimos — o serviço. Deixarei ao vosso julgamento o decidirdes se sou místico ou ocultista, porque as palavras tendem a confundir a mente e o fazer distinções é odioso, conduz a juízos errôneos e separa uma pessoa da outra. Para mim, não há nem ocultistas nem místicos, porque todos são a mesma coisa, quer se achem fisicamente no criar coisas ao redor deles, quer apenas mental e emocionalmente ativos, ou ainda quer se retirem do mundo e sonhem e creiam por meio de seus sonhos. Assim, vou falar-vos do único ponto de vista que conheço, que não é nem o do místico nem o do ocultista. Durante a minha palestra não irei fazer distinções em relação a qualquer deles, porque, em minha mente, essas distinções não existem.

Antes que se comece a criar, seja mental, seja emocional, seja fisicamente, é necessário averiguar qual o propósito da criação, qual o propósito da produção, qual o propósito da atividade e qual o propósito do retiro. Para mim, o propósito de todo o serviço, de todo o pensamento, sentimento e atividade, é o aperfeiçoamento da mente, das emoções e do corpo físico, porque, sem o aperfeiçoamento da mente, das emoções e do corpo físico, sem o aperfeiçoamento destes três, sem que haja harmonia entre eles, não podereis possuir o bem estar de conjunto. Assim, é necessário determinar para onde vamos, qual a finalidade desta existência com suas lutas, alegrias e tristezas. Para mim, o propósito integral da vida consiste no descender e no ascender, no sair da chama e no desenvolvimento gradual da centelha até tornar-se novamente uma chama. Como a chama, todos nos havemos de tornar, sem distinção, quer vos denomineis místicos, quer ocultistas. Para mim não existem caminhos separados, existe somente um caminho. Se subirdes uma montanha, em sua base encontrareis centenas de caminhos que levam no sentido ascendente, porém quando ela se vai tornando mais encarpada e, mais próximo do ápice, só existe um caminho único solitário. Pode haver muitos caminhos embaixo, porém, quando estiverdes no estágio superior, há somente um.

Precisamos agora, encarar o serviço — que é aquilo que haveis estado discutindo — desse ponto de vista único, isto é, do superior a todos, onde somente existe um caminho, que é o caminho da paz. Aqueles que se acharem interessados, que estiverem se esforçando, que trabalharem para essa consecução, para essa paz que deve vir sobre o mundo, devem olhar para todos os problemas desse ponto de vista único. Posto que eu admita, como todo o homem que pensa, que existem muitos temperamentos, muitos tipos, no entanto, esses tipos e temperamentos múltiplos existem só na mente, não se distinguem do topo da montanha. Assim, se dividirdes demasiadamente, se demasiadamente separardes, manifestar-se-á a desunião, posto que todos nós trabalhemos para o mesmo fim. Se fordes à Índia, haveis d verificar que existem ali muitos templos, muitos santuários, muitas igrejas onde todos os homens prestam culto, todos reconhecendo o mesmo Deus, porém que, ao deixarem o templo, não olham mais uns para os outros em virtude de seus múltiplos temperamentos, de seus muitos tipos. Por este modo, é Deus dividido, como o são os campos da terra, divididos pelos seres humanos, com seus limites, suas barreiras estreitas. Dividis Deus por esses temperamentos, por esses tipos, e daí vem a desunião.

A mim direis que eu não sou do vosso tipo, que sou místico, e a outro direis que é ocultista. Qual a diferença? Porque modo sofre o místico mais ou menos do que o ocultista? De modo algum são eles diferentes, exceto no grau de tristeza. Eles podem ter tristezas de diferentes espécies, porém todos sentem tristeza, portanto todos são seres humanos vulgares e meu argumento é que não deve haver divisão. Se fordes sábios, não separareis as pessoas pelos temperamentos, nem os haveis de catalogar.
Se reconhecerdes que existe uma unidade fundamental, que todos os seres humanos são essencialmente os mesmos, essencialmente unidos, posto que possuem peles diferentes e mente diferentes, então haverá um real desejo de auxiliar, um desejo real de servir. Quão frequentemente me tem sido dito que sou místico, que meu caminho é mais curto e mais difícil do que o dos outros. Meu caminho é como o vosso; todos nos encontramos no fim, quer sejamos ocultistas ou místicos ou indivíduos de ação, todos chegaremos juntos ao cimo da montanha, onde temos de esquecer essas estreitas divisões e subdivisões mentais.

Aqueles que quiserem ajudar necessitam possuir esse intenso ardor de proporcionar o conhecimento que provém do entendimento. Posto que sejais muito eruditos — muito versados em livros — não chegareis a compreender se pensardes que por meio dessas teorias complicadas somente, sem esse ardente desejo do que vos falo, podereis ajudar o mundo. Toda pessoa que por si mesma encontrou certa felicidade, deseja partilhá-la com outros.

Assim, encararei a atividade sob dois pontos de vista diferentes. Em primeiro lugar existe a atividade que nasce do conhecimento e sabedoria e depois a atividade que nasce do senso comum físico ordinário. Todos vos ocupais aqui com auxiliar o mundo; tendes falado acerca disso durante estes últimos dez dias — às vezes de maneira mais excitante e agitada. Que é que entendeis exatamente por “ajudar o mundo?” Quem é que quer que ajudeis ao mundo? Sereis assim tão superiores a mim ou às pessoas vulgares do mundo exterior? Qual a maneira pela qual é seguro e durável o vosso conhecimento? Aquilo que dais é nascido da certeza oriunda do vosso próprio entendimento? Quando estiverdes certificado de vosso próprio conhecimento, podereis tomar em consideração o auxiliar aos outros. A maior parte de vosso conhecimento, é de segunda mão; a maioria de vossas teorias, são de segunda mão; a maior parte de vossa sabedoria vós a haveis colhido nos livros; a maior parte de vossa devoção é estreita e limitada. Assim, esse auxílio que prestais, é transitório, por não ser de vossa própria criação, nascido de vossa própria certeza. Aquilo que proporcionais não servirá de ajuda, verdadeiramente, a não ser que o possais dar do interior, de vosso próprio entendimento e conhecimento da vida. Na maioria não vos achais em contato com o mundo, posto que no mundo não vivais. Eu quero que vos certifiqueis de vossos próprios desejos, que vos assegureis de vosso próprio conhecimento, que vos certifiques de vosso próprio propósito.

Para verificardes o que vos pertence, precisais interrogar, precisais duvidar. Eu duvidei e interroguei de contínuo até me certificar de meu conhecimento, até poder dizer que sabia, até me tornar positivo. Agora não se me dá que quem quer que seja escarneça ou se sinta intelectualmente superior, é coisa que não me faz diferença; aquilo que encontrei é meu, aquilo que colhi através dos séculos passados, através dos milênios passados, aquilo que possuo é de minha própria criação. Fui tornado perfeito em meu próprio conhecimento, nesse conhecimento que tem importância, nesse conhecimento que tem valor, que guia, que protege, que dá força.

Se possuirdes um tal conhecimento — adquirido por vós próprios — então vosso serviço à humanidade será de valor. Só podeis prestar auxílio real quando estiverdes acima da necessidade de receber auxílio. Não digo que não ajudeis os outros enquanto estais buscando, porém, o propósito de todos deveria ser alcançar a sabedoria, o conhecimento, de modo a verdadeiramente ajudarem, de modo a proporcionar certeza àquelas pessoas que estão em dúvida, que estão sofrendo ou imersas em passageiras alegrias. Daí, aqueles que desejarem ajudar, seja materialmente, no plano físico, seja criando ideais no mental — são coisas fundamentalmente idênticas — devem estar seguros de seu próprio conhecimento, devem possuir essa sabedoria que proporciona certeza, devem haver bebido na fonte da sabedoria. De outra maneira, por muito que desejeis auxiliar somente alimentareis os corpos transitórios. Que tem maior valor, alimentar o corpo, ou enobrecer a alma? Asmas as coisas são essenciais, porém, não deveis começar pelo extremo errôneo. Deveis começar por enobrecer a mente e o coração, por purificar a alma, e depois, o que quer que façais, sejam quais forem os vossos pensamentos, os vossos sentimentos eles estarão em reta proporção com o vosso conhecimento; não grotescamente, nem fora de propósito. Daí, precisais usar de discernimento, distinguir entre aquilo que é durável e aquilo que é passageiro, aquilo que é permanente e aquilo que é transitório. Quando vos tiverdes tornado capazes de escolher entre o falso e o real, vosso serviço será de utilidade.

Todos vós olhais para o futuro, para o tempo em que vireis a pertencer à sexta raça-raiz, porém, na espera da sexta raça-raiz, não percais o belo dia de hoje. Todos vós esperais adquirir conhecimento de pessoas que possuem autoridade, sejam elas quais forem; esperais ser alimentados, e, enquanto esperais, o verão passa, a treva, estabelece-se e estareis ainda esperando a sexta raça-raiz. É por possuirdes muito pouco conhecimento da vida presente que quereis fugir-lhe e, assim olhais para algo no futuro, algo de belo, de agradável, de estático e de maravilhoso. É o que sois agora que tem importância; deixai em paz a sexta raça-raiz.  

É o que criais no momento presente que tem valor. Se semeardes milho, podeis esperar que nasça carvalho? Se semeais trigo, podereis esperar colher romãs? Se plantardes uvas podeis esperar por maçãs? O que semeardes agora virá a produzir o resultado mesmo que desejais. Está em vosso poder atingir a felicidade e a libertação, ninguém vo-las pode dar; elas não vos são oferecidas em uma travessa que possais recusar, residem dentro de vós mesmos e, se fordes grandes, se tiverdes a capacidade de fugir das limitações do tempo, então tereis sobrepujado mesmo a sexta-raça.

Assim, eu gostaria de voltar novamente àquilo que disse em começo, a essa atividade da qual o mundo Ocidental está tão cheio. Podereis ser um grande místico e, apesar disso, ser emocional e mentalmente ativo, posto que talvez isso seja mais difícil no plano físico. Talvez chegueis a verificar, se fordes à Índia, que ali, por causa do clima, se é mais ativo, emocional e mental do que fisicamente. Aqui faz muito frio e tendes que ser ativos afim de vos manterdes despertos, porém essa atividade não significa que estejais resolvendo os problemas do mundo, talvez estejais aumentando-os, acrescentando-lhes uma outra barreira.

Assim, amigo, se realmente desejardes ajudar, como o deveis, não somente deveis ser ativos, mas deveis também contemplar, deveis buscar a solidão, deveis ter sonhos. Por que motivo há tanta balburdia no mundo entre Oriente e Ocidente? É porque no Oriente pensam que o físico não existe, que é maya, que passa e uma nova vida vem a ser; ao passo que aqui, o físico, é a única coisa de valor, e por isso dizeis: “Tornemo-nos alegres enquanto dura esta vida”, e esquecei-vos de que existe o outro lado do quadro. Assim, os dois se chocam, — o físico de um lado e o emocional e o mental do outro — há sempre perturbação, há sempre desentendimento; quando, porém, puderdes combinar os dois, quando puderdes tornar o mundo perfeito no conhecimento dos dois, então existirá felicidade. E aquelas pessoas que possuem o desejo de servir, que possuem esse ardente desejo de ajudar, precisam compreender a quem é que estão ajudando e porque é que devem ajudar. Para realmente ajudardes, verdadeiramente e perduravelmente, precisais ter dentro de vós a paz eterna, a eterna certeza e libertação. Sem a visão, sem o conhecimento daquilo pelo qual estais trabalhando, o que quer que façais, seja mental, emocional ou fisicamente, não terá valor. É por isto que, aqueles dentre vós que pertencem a instituições, que são eruditos em livros, devem ser cuidadosos para que o seu conhecimento não se torne meramente teórico, sem a retaguarda da experiência e da certeza, pois que, sem esta certeza, tomai cautela de como ajudardes as pessoas. Se puderdes dissipar a tristeza, se puderdes proporcionar bálsamo às feridas dolorosas, então não vos importareis a que tipos e a estágios de evolução pertenceis. Tudo o que desejareis, será auxiliar, pelo fato de possuirdes a certeza e por terdes esse conhecimento cuja função no mundo é proporcionar sabedoria.

Assim, amigos, sois semelhantes a todos no mundo, posto que vos possais chamar por diferentes nomes, pois que vos achais ainda no vale da tristeza, e somente podereis atingir essa clara luz da felicidade, que está dentro de vós, pela vossa própria luta, pela vossa própria autoridade, não pela autoridade de outrem. Pelo vosso próprio conhecimento, pela vossa própria tristeza, podereis encontrar o caminho; e quando vos achardes certos, quando fordes positivos, quando estiverdes seguros em vossa sabedoria, então o que derdes será de grande utilidade, será de valor perdurável, auxiliará e dará felicidade àqueles que não a têm.


Krishnamurti em Discurso proferido em um Camp-Fire da Ordem de Seriço em Ommen, 1927 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)