“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Pela revolta inteligente, o Reino da Felicidade

A felicidade que eu desejo estabelecer é a serenidade, que é fruto da grande experiência, do contínuo descontentamento, da grande revolta, do desapego afetivo, do perfeito equilíbrio da mente e das emoções, do absoluto “domínio” do corpo físico. Isto, por outro lado, é o fruto da obediência contínua à voz da intuição, que é o grito da experiência, a essência de toda a inteligência. Designo por inteligência, não o conhecimento adquirido apenas dos livros, mas a inteligência que é a experiência acumulada da vida. Designo como revolta a atitude da mente e da emoção que não se satisfará com a autoridade de outrem, com a urgência em conformar-se, com todas as trincheiras que as civilizações criam para afastar aqueles que não se conformam, com todos os moldes que as religiões, filosofias, leis, impõe a cada indivíduo. A revolta significa a continua aspiração de descobrir a verdade por si mesmo, esse divino descontentamento que será satisfeito unicamente pela descoberta daquilo que perdura através da eternidade. Esse descontentamento é semelhante ao rio que deságua no mar, produzindo sons pelo caminho e satisfazendo a milhares, até perder-se na vastidão do oceano.

Quanto mais alguém se desenvolve menos necessidade tem de se conformar, e quanto mais experiência se tem menos possibilidade há de satisfação própria.

A revolta inteligente é a recusa de repetir as experiências que trouxeram a infelicidade. A verdade nunca está imóvel; está sempre mudando, sempre em movimento, sempre apresentando aspectos diferentes, diferentes faces, ao observador. Daí, haverá sempre continua mudança em nossas ideias sobre a verdade. Como um homem que galga uma montanha, que nas várias fases da ascensão, tem vários aspectos do mesmo vale e, mesmo quando alcança o cume da montanha, ainda mais altos picos lhe restam para galgar, assim é a verdade que varia de fase em fase, que em certo momento está na sombra e, em outro, em pleno fulgor da luz solar. Igualmente, deve existir em nós uma mudança contínua da escuridão para a luz, afim de manter a compreensão da verdade. O conformar-se é um pecado, e a revolta uma virtude.

A conformidade significa ficar satisfeito com uma visão limitada, ainda que bela, enquanto que a revolta significa um subir constante para obter uma visão maior. Nesta subida de um pico para outro, podemos passar pelo vale sombrio da morte, mas, apesar disso, é uma ascensão.

Com a compreensão desta ideia clara na mente — que o objetivo da vida é o estabelecimento do Reino da Felicidade pela revolta inteligente — chegamos à natural conclusão de que não podemos ser felizes si formos ignóbeis. Todas as religiões, todas as filosofias, todas as seitas, oferecem a esperança da recompensa e o temor do castigo afim de induzirem os homens a uma vida nobre.

Dizem: Sede bom e sereis feliz; praticai o mal e sereis desgraçado. É como se induzísseis um jumento a mover-se na direção que desejásseis, agitando uma cenoura sobre o nariz. Isto é por outro lado apelar para o desejo de conformar, que é inerente a todo ser humano. Se fordes desgraçado quereis ser ignóbil, e se fordes feliz precisais ser bom, porque a Felicidade só pode vir através do pensar nobre, do sentir nobre e viver nobre.

Que é o viver nobre? Afim de viverdes nobremente, deveis ter passado através das experiências, aflições, sofrimentos e prazeres de uma vida ignóbil. A vida nobre é o resultado da vida ignóbil. Precisais ter passado pelas sombras da nobreza, como o lótus que aparece à brilhante luz do sol através da lama e do lodo. Apreciamos mais o lótus pelo seu contraste com a lama, de que provém. A beleza das estrelas é aumentada pela escuridão da noite. Do mesmo modo, para compreendermos o encanto da nobreza, devemos nos elevar da lama das coisas ignóbeis e feias.

Viver conformando-se é ignóbil. A nobreza é o fruto das experiências, enquanto que o mero gozo destas experiências mostra a falta de nobreza.

De nada serve esperar que uma criança ou um adolescente seja nobre. O seu crescimento consiste em adquirir e acumular, enquanto que o adulto cresce pela eliminação ou exclusão do inútil. Muita gente está no período de tentar encontrar a felicidade na acumulação de coisas estranhas. Estão, ainda, na completa agonia de encontrar satisfação nas sensações dos seus desejos — físicos, emocionais e mentais. São ignóbeis, enquanto estão satisfeitos com o permanecer naquela condição, ao passo que no momento em que começam a duvidar, passam-se das sombras para os raios de sol. Muitos de nós desejamos encontrar a felicidade, quer seja esta transitória ou estável. À procura desta felicidade, passamos por essas fases que são, usualmente, tidas como maldade ou pecados. Na realidade, não há tal coisa, o bem ou o mal. Há somente ignorância e conhecimento. Toda a ação egoísta é ignorância e dá origem a karma.

As pessoas medianas em procura da felicidade, precipitam nesses prazeres, que são passageiros, a indulgência desses desejos que desaparecem no momento em que são satisfeitos; confundem as sombras que passam com a verdadeira felicidade, e assim, continuamente vivem nelas até que outra experiência — o resultado dessa indulgência — apodera-se deles e quebra-lhes a sua imaginada felicidade.  

A compreensão inteligente de todas as experiências significa que não é necessário passar pelas mesmas experiências outra vez.

Toda a ação ignóbil cria uma barreira mental, emocional ou física, entre nós e a verdadeira felicidade que todos nós procuramos. Toda a ação traz consigo a sua correspondente reação, e se essa ação produz uma barreira ou não depende de ser ignóbil ou nobre.  

Somente podeis escapar do domínio das coisas passageiras, que trazem no seu bojo dores, prazeres e tristezas — conquistando-as e tornando-vos senhor delas. Como os peixes que são apanhados numa rede má, nós somos envolvidos pelas nossas ações ignóbeis. A falta de nobreza envolve, embaraça e corrompe a nossa visão da felicidade, enquanto que a nobreza põe-nos livres das peias da ignorância — físicas muitas das vezes, mas certamente emocionais e mentais — e afasta todas as barreiras, de modo a termos uma percepção clara do Reino da Felicidade.

Muitos de nós estão inclinados a pensar que as limitações somente existem no plano físico, quando pelo contrário, as limitações iniciam-se pelo mental. O pensar nobre, que é a liberdade da limitação mental, deve preceder o sentimento nobre e a ação nobre. O preconceito embora seja individual, familiar, nacional ou religioso, é uma forma do egoísmo mental e, portanto, uma limitação que não pode produzir felicidade. O homem que encara o mundo sob um ponto de vista acanhado, naturalmente terá uma visão deturpada.

A revolta inteligente que, como eu disse, é o primeiro passo para atingir a felicidade, deve ter lugar na previsão mental da vida e deve ser aplicada aos problemas religiosos, nacionais, sociais ou individuais.

A mesma coisa aplica-se às emoções. Todas as emoções, que são egoístas e pessoais, são embaraçosas limitando-as em seus efeitos, pelo que precisamos aplicar a revolta inteligente às nossas próprias emoções afim de nos livrarmos da sua estorvante influência.

Finalmente, a nossa parte física, subordinada à mente e às emoções encontrará naturalmente a sua liberdade, desde que a mente e as emoções estejam livres.

As três divisões do nosso ser são semelhantes a três janelas, colocadas em diferentes pontos e que são postas em posição adequada para que a luz possa penetrar. Muitas vezes o corpo físico pode ser belo, mas as emoções não são dominadas ou a mente está tão preocupada e acanhada que a vidraça fica suja e a visão deturpada. A felicidade não pode existir se um desses veículos de expressão estiver erradamente ajustado. Um fonógrafo precisa de disco, de agulha no diafragma e de motor para dar movimento, afim de produzir música, e se faltar qualquer uma dessas três coisas, o resultado é desarmonia. Assim os três seres, dentro de nós, são necessários e devem ser harmônicos para que produzam a música da felicidade.

Os pensamentos nobres, atuando através das emoções nobres devem estar unidos para produzirem ações nobres. Se as três janelas forem postas em linha, a visão será perfeita.

Jiddu Krishnamurti, 1930
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)